BELA MATÉRIA DO G1. SÓ PODIA SER DO PAULO SAMPAIO. Saudades desse jornalismo gostoso de ler

Camelô aluga sutiã na porta de cadeia para ‘esquentar’ visita íntima

Mulheres comercializam peças íntimas em frente a CDP de São Paulo.
Concorrência é acirrada; além de lingeries, as calças saruel estão na moda.

 Paulo Sampaio Especial para o G1, em São Paulo
  
A cearense Isa Gonzaga gira nas mãos uma microcalcinha cor da pele, na tentativa de descobrir onde termina a parte da frente, onde começa a de trás, enquanto mostra o arsenal de roupa íntima que disponibiliza para venda e aluguel em dia de visita aos presos no Centro de Detenção Provisória do Belém I e II, na Zona Leste de São Paulo. “Essa é P. Mas a gente tem até o GG”, diz Isa, de 48 anos, rodando uma espécie de varalzinho com vários modelos pendurados. Os preços vão de R$ 5 a R$ 10.

A ideia de vender lingerie na porta do CDP surgiu da demanda das mulheres dos detentos, que buscam usar modelos especialmente provocantes para “esquentar” a visita íntima (com direito a sexo).

Mas a dúvida é: alguém que não vê a mulher durante a maior parte do tempo, como os detentos, precisa desse tipo de estímulo? “Ah, não sei te responder isso”, despista Isa, ela mesma mulher de um caminhoneiro que passa mais tempo na estrada, supostamente sem sexo, do que em casa. Isa titubeia quando perguntam se, nas voltas do marido para casa, ela também lança mão das calcinhas que vende. “Ah, eu uso, sim, quer dizer, nem precisa.”

Isa conta que estabeleceu seu negócio em 2010, durante a construção dos CDPs, quando seu cunhado trabalhou na obra como pedreiro e ela servia lanche para a “peãozada”. Poucos anos depois, estava vendendo com a mesma desenvoltura cachorro quente e fio-dental. Sua especialidade é o lanche natural: queijo, presunto, salame, peito de peru, maionese e batata palha.

Cerca de 800 pessoas por fim de semana, entre 8h e 16h, entram na fila de visitantes em cada CDP. Boa parte chega ao local de madrugada, para pegar um bom lugar. Isa pernoita durante o fim de semana em uma barraca de tábuas que se equilibra em um muro nas redondezas do centro de detenção e é protegida das intempéries por um plástico azul turquesa.

Apesar de ser a precursora em venda de lingerie no pedaço, ela não está mais só. “Agora, tem outra vendedora ali, ó, que chegou há um ano e quis me expulsar daqui. Reclamou do preço que eu cobro, queria que eu aumentasse. Eu não aumentei nada, ela que baixe os dela!”

Isa diz que fatura em torno de R$ 1,2 mil por mês, incluindo venda de bebida e comida.

A concorrente de Isa, a quem chamam de Agostina, não é de papo. “Que que é!?”, pergunta, em um tom que concorre com a calça azul berrante que ela está usando. Embrulhada em um casaco de moleton com estampa de onça e capuz, avisa: “Não vou falar com ninguém”. É o que diz enquanto pendura calças modelo saruel de várias cores.

Roupa muito justa, marcando o corpo, é problema. Só tem homem aí dentro, eles vão mexer com a mulher dos outros, dá confusão”
Sabrina Nunes, que aluga roupas

É proibido entrar para a visita usando jeans ou legging. “Roupa muito justa, marcando o corpo, é problema. Só tem homem aí dentro, eles vão mexer com a mulher dos outros, dá confusão”, diz Sabrina Nunes, de 17 anos, que há cinco anos disponibiliza roupas para aluguel na porta do CDP.

Sabrina percebeu que podia ganhar algum dinheiro quando foi com a mãe, Eliene, visitar o padrasto, que está preso por homicído, tráfico de drogas e “muitas outras coisas”. Sabrina também aluga calças saruel, moleton (“no inverno”) e chinelo de borracha (“para quem está usando sapato com fivela de metal e pode ser barrado pelo alarme na vistoria”). Aluga ainda sutiã. O modelo rosa desbotado que tira de uma maleta vermelha, com rodinhas, cheia de roupas emboladas, parece bem gasto. Sabrina garante que lava as roupas que aluga toda semana. “Claro, lavo, sim”, diz ela, sem encarar a reportagem.

A auxiliar administrativa Andrea Costa, de 23 anos, e a estagiária Camila Ribeiro, de 18, respectivamente irmã e namorada de um detento, experimentam modelos de saruel que podem ser alugados por uma média de R$ 5. Andrea já esteve no CDP antes; Camila, não. “Eu era menor, minha mãe não deixava eu vir. Ela é contra o namoro.” O namorado foi preso por assalto à mão armada.

Camila está há seis meses sem vê-lo, mas garante que se guardou para ele. “Não tive nada com mais ninguém”, diz, rindo muito. O provador de roupas fica em um canto de um galpão escuro, frio e, a maior queixa, sem espelho. Na porta, em letras de fôrma, lê-se: “Vamos ter mais higiene, colaborar com a limpeza”.

Aluguel de sutiã
O aluguel de sutiã é mais comum que a venda de calcinha, porque muitas visitantes de primeira viagem não sabem das restrições da vistoria a modelos com armação de metal, por exemplo. Além disso, os frequentadores dizem que só é possível entrar usando sutiã com bojo no CDP Belém 2, considerado mais liberal que o 1.

A Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) informa que a norma é a mesma para os dois. “Não se permite a entrada de visitante trajando vestuário inadequado ao ambiente carcerário”, eles avisam. Entre as restrições estão sutiã com suporte de ferro; sandália tipo plataforma; miniblusas e minissaia; saias rodadas tipo cigana; roupas transparentes, excessivamente decotadas ou em cores similares das dos uniformes dos funcionários (calça azul marinho, camiseta branca ou cinza) e dos militares.

“Quem mais compra da gente são as visitantes que vêm pela primeira vez. Elas não sabem que não podem entrar com determinadas roupas, e acabam sendo barradas”, diz Isa. “Outras esquecem de colocar a calcinha, por exemplo, uma peça que eles exigem.”

Se eu for contar, tem mais de 50 sutiãs desaparecidos. Às vezes eu alugo já sabendo que não vou ver mais. É que, olha, eu também quero ajudar as coitadas, elas são tão carentes”
Vanda Oliveira, que aluga calcinhas e suitãs

O problema maior enfrentado pelas comerciantes que trabalham na porta do CDP é conseguir reaver a peça alugada. “Se eu for contar, tem mais de 50 sutiãs desaparecidos. Às vezes eu alugo já sabendo que não vou ver mais. É que, olha, eu também quero ajudar as coitadas, elas são tão carentes…”, explica Vanda Oliveira Gomes, de 55 anos, que, antes de virar comerciante, ganhava R$ 15 por uma manhã inteira distribuindo cartões de advogado na porta da cadeia. “Hoje, graças a Deus, dá pra tirar mais [mesmo com o sumiço dos sutiãs].”

No final de semana em que o G1 esteve por lá, em março, os comerciantes reclamavam que o movimento estava fraco. Atribuíam a redução da frequência ao castigo recebido pelo raio 7, um dos oito pavilhões do CDP, por mau comportamento – os detentos fizeram uma pirâmide humana na hora do banho de sol e danificaram a concretina que envolve o muro do raio. Com capacidade para 768 presos, o Belém I tem uma população de 1.580, sendo 240 por raio; no II, que tem uma área construída mais de três vezes maior, a proporção é de 768 para 1762, 220 por raio.

Apesar de não aumentar os preços, mesmo com a concorrência, Isa, que é evangélica fiel da Igreja Mundial do Poder de Deus, “aquela do pastor Waldomiro”, diz que não deixa de pagar o dízimo. Será que tem problema ser com o dinheiro da venda de calcinhas provocantes e tops? “Muita igreja reprime, mas, para a minha, não importa de onde vem o dinheiro. Eu sou muito abençoada.”

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