ARTIGO – Eles não podem ver mulher, por Marli Gonçalves

Passei três dias tentando digerir o impacto e o nojo que me causou uma foto publicada essa semana. Claro que feita por uma mulher de olhar aguçado, Monique Renne. Nela, Andressa, a namorada, noiva ou sei lá o quê de Carlinhos Cachoeira, se retirava da mesa da CPI que a havia convocado para depor. Na foto, todos os babões focados – seis! – olhavam concuspiciosos para sua, digamos, parte de trás.

Lembrei-me de que no primário havia um exercício de descrição. Nos era dada uma imagem e a partir dela descrevíamos o que aquilo nos parecia ser, em geral cenas e paisagens bucólicas. No caso da foto dos tarados da CPI, ficaria mais ou menos assim: “moça loura, bonita e segura de si, com um leve e irônico sorriso no rosto, faz com que aloprados e seus assessores esqueçam suas funções, como parlamentares eleitos pelo povo, e salivem, com cara de bobos, ruminantes, em suas gravatas”. Aliviados, na certa, porque o “homem” da bela está preso. Porque se eu conheço bandido, e Cachoeira parece ser desse time, se ele visse essa foto, aiaiai, oioioi.

Foto tipo batom na cueca. E nem me venham com explicações, porque até ainda não disse bem o que pensei desses mesmos desconsiderados que pagamos para legislar quando há pouco houve outro caso, o da assessora de um senador metido a besta, demitida porque um safado gravou e mostrou para todo mundo um filme dele tendo relações sexuais com ela. O caso parou a CPI dos velhos babões, até porque a moça, advogada, era realmente de fechar o trânsito, principalmente de corpo. Mas não é esse o caso. O que aconteceu com o comedor malfadado que mostrou o filme? Nada. Deu até entrevista dizendo que não era ele.

Na mesma semana na qual no país pelo menos mais três mulheres que deveriam – e os juízes lhes garantiriam que estariam – protegidas pela Lei Maria da Penha, foram assassinadas por seus ex-companheiros, essa foto apenas mostra a quantos anos-luz estamos ainda do dia que as mulheres serão tratadas com respeito, dignidade e realmente de igual para igual. Agora até adolescentes são mortas por namoradinhos, no país machista que não se emenda, e onde até as lésbicas às vezes reproduzem papéis de machos da relação, como se sempre tivesse de haver alguma sobreposição de poder de um.

Por força profissional muitas vezes acompanhei sessões parlamentares em Brasília e cansei de perceber coisas do arco da velha, do meu canto, meio misturada, anônima, e dando graças a Deus de não exatamente ser identificada como jornalista, como os chavões descrevem. Vi e ouvi deputados (lembro especialmente de um que hoje é ministro, e de outro, baixitito, agora candidato a prefeito por aí) trocando informações com algumas repórteres, em cantos daquela imensidão do Planalto Central. Pode apostar que em Brasília as mulheres dominam as redações. Se for bonita, meio caminho andado e dado. Digo mais: nada contra, se os babões caem na teia, têm mais é que se ferrar, e as moças aproveitarem. Sedução por sedução…

Não é só o feminismo (isso mesmo, algum problema?) que me motiva a protestar. Mas a realidade. Assistimos, por exemplo, a um desfile de advogados defendendo os réus do mensalão no Supremo. Alguma mulher? Não. E elas existem, advogadas ótimas, combativas! O Cachoeira mesmo contratou uma das melhores, a Dora Cavalcanti.

Quando as mulheres apareceram no caso? Como rés, como bem lembrou Eliane Cantanhede na Folha de S. Paulo outro dia, todas foram praticamente vilipendiadas ao serem defendidas. Eram pau mandado, não sabiam de nada, apenas executavam ordens superiores (de homens, claro!), não pensavam.

Um eloquente advogado chegou a chamar sua própria cliente de mequetrefe, para desenhá-la como insignificante. Só que a palavra tem sentidos terríveis também: intrometida, que se mete no que não é de sua conta; enxerida, inconveniente, sem importância, inútil, desprezível, imprestável. E borra-botas, joão-ninguém,coisa ou objeto de má qualidade, imprestável, desimportante, malfeita.

Antes ainda que me xinguem, achando que meu feminismo não permite que se olhe para bundas, digo calma lá! Até eu olho! Adoro uma dessas, como a dos atletas das olimpíadas. Olho tudo mesmo. Olho até mais, se querem saber, e se é que me entendem. Só que tem hora, local, cuidado, soslaio.

Aqui, falo de compostura, há muito perdida pelos nossos deputados e senadores, dos quais só se ouve falar histórias de arrepiar e que muitas vezes ficam até tolhidos por dossiês que lembram ou registraram suas farras. O mensalão tem histórias assim no meio, de um deles, um dos réus, feiosinho, que teria sido fotografado numa orgia, pelado, bêbado e com o charuto na boca. A imagem é um pesadelo.

Será romantismo piegas demais desejar que homens tenham respeito? Desejar sim que desejem e se apaixonem pelas mulheres, mas por motivos mais nobres e até mais criativos e poéticos, menos escrachados? O olhar, as mãos, os pés, os cabelos, a voz, os detalhes? Depois reclamam que a gente se masculiniza: é para trabalhar em paz.

Afinal, no caso que tratamos, são deputados, senadores, autoridades. Deveria ter alguma diferença.

São Paulo, onde há muitas obras e construções para ouvir cantadas verdadeiras, 2012Marli Gonçalves é jornalista- Reparou que mulheres estão sendo usadas nojentamente nas campanhas eleitorais daqui? Tem candidato que mostra sua doutora. Tem candidato que mostra até a mulher grávida fazendo ultrassom, useiro e vezeiro em fazer isso até em leito de morte, como já fez no passado. E a única candidata mulher, Soninha, todo dia tem de reclamar que é esquecida pela imprensa mesmo tendo mais intenção de voto do que algum dos meninos.

PS: Se ainda não viu a tal foto e ficou curioso (a), clique aqui. Foi publicada originalmente no Correio Braziliense

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