JT: o jornal que me levou ao jornalismo está morrendo. Carlinhos Brickmann escreve sobre isso no Observatório da Imprensa. Vale a pena ler. E dá vontade de chorar. Veja algumas capas históricas

Jornal da Tarde

crônica de uma morte anunciada

POR CARLOS BRICKMANN

 

Éramos todos jovens, muitos de nós brilhantes, a maioria absoluta de indiscutível competência. Errávamos muito, também; mas errávamos por excesso de ambição, por buscar objetivos muitas vezes inatingíveis, raramente por ignorância. Dali surgiram as sementes de várias equipes de altíssima qualidade: Realidade, Veja, Rede Globo, Rede Bandeirantes, Repórter Esso (na fase TV Record), Visão, Playboy.

Mino Carta era o diretor, Murilo Felisberto o coração e a alma. Ruy Mesquita, o patrão, sentava-se à mesa de pauta para discutir o jornal do dia (e foi lá na Redação que treinou seus filhos nas artes da comunicação). Ewaldo Dantas Ferreira, um dos maiores repórteres do país, trazia matérias exclusivas, da maior importância. Em cada área da redação, buscava-se o melhor – e o jornal conseguiu a façanha de ganhar o Prêmio Esso com a manchete de sua primeira edição, Pelé casa no Carnaval.

Era a cara do nosso Jornal da Tarde, a maior revolução da imprensa brasileira desde a reforma do Jornal do Brasil: um grande furo de reportagem, um texto magnífico, a notável diagramação, e um erro na foto – em vez de Rose, a noiva de Pelé, quem estava com o Crioulo na foto era a cunhada, a irmã de Rose. Não fazia mal: o jornal era tão bom que esses erros passavam batidos.

Os salários eram ótimos, pagos em dia, com antecipação de aumento (em vez de dezembro, outubro). Os jovens mais promissores ascendiam rapidamente: João Vitor Strauss, de extrema competência e capacidade impressionante de trabalho, teve seis aumentos num só ano, sempre por iniciativa da chefia. O JT ganhou o Prêmio Esso vários anos seguidos, com o casamento de Pelé, a tragédia de Caraguatatuba (com o excesso de chuvas, a Serra do Mar desabou sobre a cidade), o primeiro transplante de coração no Brasil. Houve até uma joint-venture que o Ewaldo Dantas articulou para viabilizar o transplante: o jornal não hesitou em pagar a viagem de um médico à África do Sul, onde trabalhava o Dr. Christiaan Barnard, pioneiro dos transplantes cardíacos, para buscar o know-how que nos faltava. Afinal de contas, a empresa que viabilizou a criação da Universidade de São Paulo, empresa pertencente à família que fundou a Faculdade de Medicina da USP, tinha tudo a ver com o progresso do país na área das ciências.

A resposta do público sempre foi positiva. O JT começou a circular, em 4 de janeiro de 1966, com doze mil exemplares; virou o ano com 40 mil.

Um jornal jovem, chique, moderno, antenado. Fez a primeira reportagem com Roberto Carlos, quando a imprensa ignorava a música da juventude; mostrou as tendências da moda, da alimentação, da cidade. Não era como o New York Times, “todas as notícias que devem ser publicadas”; esse era o papel do irmão mais velho, o Estadão. Éramos o oposto: “todas as notícias que temos vontade de publicar”. E que, não por acaso, já que a equipe estava sintonizadíssima com os leitores, eram as notícias que o público do jornal queria encontrar no seu JT.

Notícias e muito mais: certa vez, este colunista, editor de Internacional, encontrou uma pequena informação a respeito de um petroleiro a vela que o Japão estava projetando. O navio tinha velas controladas por computador, controle de rumo por um antepassado do GPS (não havia satélite, ele se guiava eletronicamente pelas estrelas) e, sempre que o vento era insuficiente para manter a velocidade, seus motores entravam automaticamente em funcionamento. A propósito, nunca mais consegui encontrar qualquer informação sobre o projeto – deve ter sido abandonado.

Enfim, a matéria era a cara do JT. Buscamos no arquivo a imagem de um dos mais belos veleiros de todos os tempos, o Cutty Sark, contamos a história dos veleiros, demos as poucas informações de que dispúnhamos sobre o veleiro-petroleiro. Por volta das três da manhã, Murilo Felisberto viu a matéria e se apaixonou por ela. Decidiu rediagramá-la: usou a página na horizontal, encheu-a com a imagem do Cutty Sark, e cada linha da matéria passou a ter um tamanho diferente, entrando pelas escotilhas, margeando as velas, envolvendo a gávea. Detalhe: não valia hifenizar as palavras. O Murilo só gostava de frases com palavras inteiras.

A nova redação da matéria, cada linha com seu tamanho, durou umas boas cinco horas. Devidamente entregue, fiz a reclamação: “Murilinho, ficou linda, mas ninguém vai ler”. Ele concordou e completou: “Mas todo mundo vai comentar que este jornal tem um acabamento impecável”. Tinha razão: daquela página, todos que a viram se lembram. E quem está tão interessado assim em informações sobre veleiros e transporte de chá da China para a Inglaterra?

Pois é, acabamento impecável. O que significa fotos maravilhosas. Oswaldo Maricato, um intuitivo fantástico, Milton Ferraz, também fantástico e de técnica impecável, Rolando de Freitas, Zé Pinto, Geraldo Guimarães, Solano José, Francisco Lucrécio – muitos, muitos, onde é que encontraram tanta gente boa? – que pegavam a garotada ainda inexperiente do reportariado e comandavam a reportagem. Não, não eram só fotógrafos: eram magníficos repórteres que também fotografavam. E como fotografavam! A imagem da derrota do Brasil no estádio de Sarriá, na Copa de 82, é uma foto de Reginaldo Manente: o garoto chorando que ocupou a primeira página do JT. As fotos eram ótimas, os fotógrafos eram ótimos, e ótimo era o uso das imagens por um jornal que fazia questão de ter sempre o melhor acabamento.

Nomes? Estavam por lá Miguel Jorge, que alguns anos mais tarde chegaria ao Ministério, no Governo Lula; Guilherme Miranda, o lendário Bill Duncan, que até morrer de câncer comandou com Ruy Portilho, também do JT, o Prêmio Esso; Ricardo Setti, hoje um dos melhores analistas políticos do país; Rolf Kuntz, mestre do jornalismo econômico; Telmo Martino, língua de cobra das mais temidas; o foquinha César Giobbi, que lá cresceu profissionalmente até se transformar no grande cronista da sociedade; Ivan Ângelo, Fernando Portela, Hamílton de Almeida, Vital Battaglia, Regina Echeverría, Mario Marinho, Regina Helena Teixeira, que transformava transportes e serviços públicos em matérias charmosas tipo JT; José Roberto Guzzo, Roberto Pompeu de Toledo, Maria Ignez França, Sérgio Pompeu, Renato Pompeu, Marcos Faerman, Marli Gonçalves, Humberto Werneck, Valéria Wally, Leão Lobo, Édson Paes de Mello, Antônio Toinho Portela – o sacana que, ao traduzir uma história em quadrinhos, deu ao elefante, por algum motivo desconhecido, o nome deste colunista – Fernando Mitre, Teresa Montero, o Jovem Gui, o excelente jornalista e notável figura humana José Eduardo Castor, Waldo Paoliello, Luiz Fernando Mercadante, Antônio Carlos Fon, Inajar de Souza, Tão Gomes Pinto, Luís Nassif, Moisés Rabinovici – que agora, num jornal que já foi antiquado, faz uma beleza de imprensa contemporânea, o que há hoje de mais próximo do Jornal da Tarde.

Tínhamos Luís Carlos Secco, que como ninguém dominava automóveis e automobilismo, e seu “filho adotivo” Paquinha – ou melhor, se você não quiser irritá-lo, “Luís Fernando Silva Pinto”, hoje correspondente da Globo nos EUA.

Como antigamente no futebol brasileiro, grandes jornalistas surgiam em safras, tornando difícil, quase impossível, dizer quem era o melhor do grupo.

Talvez o correto fosse dizer que os melhores eram todos.

Houve brigas internas, crises financeiras, concorrência de outros grupos jornalísticos na caça aos talentos. Laerte Fernandes e Ulysses Alves de Souza saíram, Niles Simone morreu – e eram eles que organizavam a bagunça das noticias que jorravam na redação e permitiam que fossem bem aproveitadas.

Em certo momento, houve uma opção desastrosa: o moderníssimo jornal da metrópole contemporânea, o irmão mais leve e solto do poderoso O Estado de S.Paulo, foi transformado numa versão popular, baratinha, do jornal mais antigo. O lindo logotipo foi trocado por outro, supostamente mais popular (e com muito menos significado). O Jornal da Tarde, famoso por surpreender seus leitores, passou a ser mais previsível e chato que debate de candidato.

Percival de Souza, símbolo do JT, renovador da reportagem policial, ficou encostado – e os grandes furos que ainda trouxe, como a localização do Cabo Anselmo e a entrevista com ele, ainda um dos mais misteriosos participantes dos acontecimentos de 1964, foram ignorados.

As belas imagens ficaram no passado. O acabamento, descuidado, deixou de ser preocupação. E a cidade moderna, movimentada, alegre, sintonizada com o que havia de novo no mundo, perdeu seu jornal de referência.

Um jornal morre vinte anos antes de fechar as portas. O Jornal da Tarde, anunciam os departamentos comerciais, os jornaleiros, as boas fontes (e negam os diretores da empresa), que já está morto faz tempo, deve fechar até o fim do ano. E, comenta-se, no Dia de Finados.

Um toque de mau-gosto que explica por que o bom gosto do JT perdeu a batalha.

 

FONTE: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA – COLUNA CIRCO DA NOTÍCIA

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2 Respostas to “JT: o jornal que me levou ao jornalismo está morrendo. Carlinhos Brickmann escreve sobre isso no Observatório da Imprensa. Vale a pena ler. E dá vontade de chorar. Veja algumas capas históricas”

  1. Silvio Massarini Says:

    Só faltou uma das capas, onde aparecia diariamente a caricatura de Maluf, com o nariz de Pinóquio crescendo dia a dia…

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