ARTIGO – Estamos numa fria. Por Marli Gonçalves

Entramos e estamos numa boa fria, numa gelada, num enorme saco sem fundo. É tanta coisa acontecendo de esquisito, de ruim, e sem que possamos resolver de vez ou tomar medidas rápidas e objetivas – a solução não está só em nossas mãos, mas na de todos e em tantas mudanças e acertos – que só resta, sei lá, espirrar. Espirrar com muitos desses culpados de nossa frente

Saltos, piruetas, manobras espetaculares no asfalto, nos tatames, no mar, fôlego na piscina; as mulheres arrasando, a garotinha em cima do skate, a outra bailando com movimentos precisos bem na cara de suas próprias dificuldades. Orgulho, vitórias, e não só, também as derrotas, trouxeram distração para mais de 100 metros nas notícias e madrugadas olímpicas. Vimos novamente, felizes – mesmo que por instantes – a bandeira nacional tremulando sem que ela nos causasse essa certa repulsa que tanto fizeram que conseguiram nos fazer dela até enjoar nos últimos tempos.

Soubemos das incríveis lutas e histórias de superação dos atletas – os vimos felizes e também desolados quando ficaram pelo caminho em suas modalidades. Pelo menos ali acompanhamos um país se esforçando, lutando para se firmar e melhorar. Temos mais alguns dias para acompanhá-los e torcer.

Mas agosto está aí, sempre teremos agosto. E já está vindo embalado pela pandemia que continua matando muito mais de mil pessoas por dia e querem que isso pareça normal, quando vemos outros países indo e voltando de medidas restritivas nesse vaivém estonteante. Aqui, o pimpão prefeito do Rio de Janeiro, por exemplo, decretou que vai estar tudo bem até o outro mês e até já marcou feriado e festa. Uma vergonhosa corrida de Estado contra Estado, cada um querendo parecer melhor que outro, em campanha aberta, como se não bastasse o furdunço que virou o Governo Federal.

Às vezes acho que a água que os dirigentes e responsáveis pela condução do país tomam contém mesmo alguma coisa a mais – só pode ser. Não atingimos ainda nem os 20% de imunizados com as duas doses. Há ainda um inacreditável número de pessoas contrárias às vacinas ou que não voltaram para a segunda dose, quando necessária, como o é para a maioria. Ainda vemos quem tenta escolher qual marca tomar – e muitos desses estão tombando pelo caminho. O Ministro da Saúde ousa proclamar vitória e ações do governo, como se não tivéssemos já quase 560 mil mortos e mais de um ano e meio de pandemia muito mais cruel por causa dos erros deles.

Agora, as aulas vão voltar – e não se tem a menor ideia de como resolveremos os sérios problemas da Educação, da evasão, do atraso no ensino. O Ministério? Além de uma fala maluca do ministro, outro batendo no peito por feitos não feitos, pôs no ar uns anúncios moderninhos. Volta também o showzinho diário da CPI que, quando acabar, teremos um relatório enorme, e precisaremos torcer muito é para que ele não vá dormir em alguma gaveta.

Quem chacoalhou esse país para ele estar assim tão dividido? Quem abriu a tampa do bueiro para tantas absurdas ignorâncias? Um queima o Borba Gato; outros vêm e jogam tinta vermelha nas homenagens a Marighella e Marielle. O fogo queima nossa memória. As mentiras e notícias falsas se espalham e ecoam. O presidente monta um circo para dizer o que já sabíamos de suas acusações sobre as eleições – que ele não sabe de nada, não prova nada e isso é só mais um assunto para manter o percentual cada vez mais baixo de quem o segue, ainda achando que ele presta, mesmo vendendo seu mísero poder para outros míseros carrapatos que grudam em tudo que é governo, seja de qualquer lado do colchão. Não adianta virar, desvirar, por ao Sol.

É inverno e até o frio intenso e recorde que há muito não aparecia ataca o Sul e o Sudeste, expondo nosso total despreparo para qualquer situação extrema e a miséria que grassa nas ruas que acomodam friamente mais milhares de recém-chegados. Os preços disparam, sem controle, enquanto turistas fazem horrorosos bonequinhos de neve e a geada acaba com as plantações.

Estamos mesmo numa fria na qual entramos sem saber ainda como sair dela, estranhamente escaldados.

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MARLI - cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Sob e sobre ameaças. Por Marli Gonçalves

Vivendo sob constantes ameaças, e que só aumentam, vindas de todos os lados. Não bastassem as lutas para controlar a pandemia, o surgimento de novos vírus e outras doenças esquisitas, os problemas com energia, água, temperatura, economia, no Brasil vivemos mais um pesadelo, o político. Qualquer homenzinho, ou serzinho verde oliva, agora aparece cheio de marra, e ameaçando a democracia.

Ameaças

Temos muitas dúvidas, perguntas, pedidos de esclarecimentos, e temos ouvido quase sempre as mesmas não-respostas. Repara quantas vezes, nós, da imprensa, perguntamos, perguntamos. “Mas até o momento não obtivemos resposta”. Todo dia. As revelações, gravações, denúncias, fatos e fotos, falas e gestos se sucedem.  Parece que estão brincando de governar, e estão; sem rumo. Mas jogam pesadamente pelo poder – e com as nossas vidas.

Para quem já viveu momentos difíceis, apenas uma clareza: antes, sabíamos exatamente o que, quem, como estávamos combatendo ou de quem deveríamos nos defender. Agora, apenas a ignorância grassa e é como se o inimigo morasse ao lado, e possa surgir nos surpreendendo. Os descobrimos entre pessoas próximas, amigos, familiares, numa divisão sem igual. Contaminam todos os ambientes.

Os ataques podem ser tão sub-reptícios que até uma deputada acorda machucada, com fraturas, e sem saber exatamente o que ocorreu denuncia poder ter sofrido um atentado. Muito louco? Não, se pensarmos que agora tudo é mesmo possível, inclusive para quem amigo deles era; e inimigo deles, virou. O que aliás tem sido muito comum: o abandono desse barco que navega sem sentido e em uma tenebrosa maré. Maré obscura, armada, violenta.

Ultimamente, não sei como, descobriram uma palavra que usam para tudo e que duvido saibam exatamente qual o seu sentido: “narrativa”. Escuta só uns minutinhos de CPI. Escuta um minutinho do discurso de justificativas e negações deles. Até o presidente, que não é o maior afeto ao vocabulário humano, outro dia disparou “narrativa” para lá e para cá. Lá vem ela: tudo que os afeta é narrativa incorreta.  Só a deles – e que vem eivada de ódio e erros – é que deveria ser ouvida.  Tentam adestrar com decorebas os seus bovinamente seguidores, pouco importa o que falam, mesmo que logo depois contradigam-se.  O recheio de informações falsas que usam cria uma espécie de hipnotismo, repetições ao molde de treinamento de animais. Contam um conto, aumentam muitos pontos.

Isso não é ideologia, direita, esquerda, volver, nem centro, nem de cima nem de baixo. Para ser ideologia tem de haver inteligência, conhecimento, estudos, lógica, contraposição, debate. Assim a gente descobre porque é tão difícil lidar com eles, são apenas chucros estes que estão no pódio do poder central, ladeados por muitos outros, instalados em outros poderes. Infelizmente, inclusive na imprensa, muitas vezes a pesados soldos.

Agora a questão é duvidar das urnas eletrônicas, pregando o voto impresso, mesmo que se diga e repita a confiança nessa forma de voto. Não deve passar essa iniciativa. Tomara que não. Mas eles inventarão outras ameaças nesses meses que antecedem a eleição do ano que vem, e que infelizmente ainda não nos apresenta uma lista de candidatos fortes o bastante para recolocarem o país nos trilhos.

“Se urnas são confiáveis, dá um tapa na minha cara”, pede Jair Bolsonaro, ao duvidar do próprio sistema eleitoral que o elegeu, sem apresentar provas.  Será que vai ser preciso agendar? Pode entrar quantas vezes na fila?

Ele que está pedindo. Nós não ameaçamos, mas ainda creio que saberemos como nos defender.

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ARTIGO – Gangorra ou de pulinho em pulinho. Por Marli Gonçalves

Assim vamos indo, de denúncia em denúncia. Aos sobressaltos. De pulinho em pulinho, na gangorra do sobe e desce, do que vai e do que vem. O título da coluna seria “de soluço em soluço”, e que eu já estava pensando bem antes, vocês sabem de quem, começar a soluçar e dar golfadas. Mas não é sobre a saúde do presidente, pelo menos não só, mas sobre o Brasil e os nossos enormes sustos do dia a dia.

gangorras

Troquei o soluço pela ideia que estamos saltitantes sobre fogo e subindo e descendo. Uma coisa, uma hora; na seguinte, já não é mais nada daquilo. Pode ser melhor, mas em geral tem sido é pior. Chega a tontear a quantidade de informações que recebemos, vindas das mais variadas fontes. Ultimamente em on, off, ou ainda com sons de claras gravações de voz ou ainda quando assistimos vídeos completos comprovando as barafundas, negociatas. Fora, com CPI a pleno vapor, documentos, e-mails, ofícios para lá e para cá que vêm à luz, de acordo com a maré, investigações ou interesses.

Ah, falei CPI a pleno vapor. Esquece. Apenas fumacinha, brasinhas, pelo menos nas próximas semanas. Que no meio da coisa quente, pegando fogo, eles resolveram entrar em recesso, que férias não é privilégio só dos juízes e apresentadores de tevê importantes. Fuémm.

Um dia está tudo bem, a economia está “crescendo” – e nos mostram percentuais em geral só de zero vírgula alguma coisinha. No outro, surgem as quedas, mas de dados como níveis de emprego, atendimentos, sempre de percentuais com mais números bem gordinhos antes da vírgula do percentual. A verdade é aquela: só procurar que acha. E temos tantas letrinhas pra procurar, PIB, taxas, juros, inflação, projeções e estatísticas que sempre depende se a procura for por notícia boa, média ou ruim. Depende do dia. Tem dados para todos os gostos. Difícil fica é acreditar em alguns.

Na política, a coisa tá louca. Desarvorada. Há dias com uma série de acontecimentos tão quentes que você acha que o governo não vai resistir nem até aquela noite.  Você fica que nem maluco tentando acompanhar e entender tudo, vê a terra tremer. Aí a noite chega e nada. Você vai dormir, e quando acorda corre para ver se eles ainda “estão por ali”, e lembra que se não estiverem você até ficaria bastante feliz. Mas, na verdade, tudo recomeça especialmente com os arranjos que são feitos na calada das noites.

Nos últimos dias, o DataFolha disparou a fazer pesquisas e o resultado delas –  nada me tira da cabeça  –  creio que  foram as responsáveis por uma boa parte dos soluços do presidente, mostrado em queda livre, perfilado pela maioria da população inclusive como inábil, pouco inteligente, entre outras absolutas verdades reveladas, essas pouco secretas, que no caso não se trata de novela das onze. Entalou. Entupiu. Deu indigestão.

O corpo fala. E o de Bolsonaro estava e está gritando faz tempo. Pelos olhos, pela pele, pelos poros, e até pelos perdigotos. É sabido que soluços podem ter causas psicológicas como ansiedade, tristeza, agonia e depressão.   O corpo somatiza.  Verbaliza que algo não vai bem na mente. E a cura depende, além de medicamentos, do reconhecimento das emoções e sentimentos. E esse reconhecimento, no caso, não ocorre. Só ejeta ódio. Somatização é coisa séria.

Enfim, todos nós somatizamos em algum momento em nossos corpos os sentimentos estranhos. No caso do presidente, fiquei preocupada porque nas minhas pesquisas aqui descobri soluços associados a histerismo. E, pelo menos por enquanto, os médicos o estão tratando com remédios, ou seja, talvez nem tenha mesmo ver com a facada que levou durante as eleições de 2018. Talvez apenas estejam lhe dando calmantes.

O problema é que essa gangorra toda que estamos vivendo não faz bem a nenhum de nós, que ficamos sem saber para onde correr sem que o bicho pegue – literalmente, se pensarmos no vírus que também não para de pregar peças no mundo todo, com seus vaivéns preocupantes.

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ARTIGO – “Teje” preso! Pode levar. Por Marli Gonçalves

Desonesto, falso, incompetente, despreparado, indeciso, autoritário e pouco inteligente. E muito mais diríamos se nos fosse perguntado, incluindo aí genocida, assassino, atrasado, perigoso e, agora começa a se comprovar, corrupto. Essa semana o sentimento nacional – sobre o perfil do presidente Bolsonaro – ficou mais evidente com o resultado da pesquisa DataFolha. Lava a alma. Desconsideração? Não, apenas a verdade sobre quem nos desconsidera diariamente com insultos, mau gosto, ameaças e impropérios.

forno - teje preso pode levar

“Teje preso”. Pode levar.  A fala do presidente da CPI da Covid, Senador Omar Aziz, ao mandar prender Roberto Dias por não suportar mais, depois de horas novamente ouvindo mentiras de mais um depoente, ainda ressoa. Foi a gota d’água. Já tinham deixado passar um general, o coronel, outros assessores, mas ficou claro que para tudo tem hora. E que ela chega, o que nos dá esperanças de conseguirmos reagir a esse momento que a cada dia fica mais delicado, incerto.

Nada está bem. Tudo muito perigoso, com claras ameaças vindas inclusive de militares bolsonaristas de alta patente, com os quais o presidente se cercou, e que o faz se achar acima de tudo e de todos.

 Há semanas em que a temperatura política atinge a marca da fervura, e a panela transborda. Pois não é que essa semana, enfim, colocaram Bolsonaro na forma para assar, acompanhado por um molho de ministros, militares, assessores, familiares, corrupção pesada, mentiras deslavadas? Não digo que ele tem uma maçã na boca, porque é um ser tão escatológico que dela só saem as piores coisas, bem estamos vendo, mal estamos ouvindo.

O prato está no fogo, mas ninguém consegue dizer qual será o seu sabor, até porque diariamente passa perigosamente do ponto. A carne principal não é de boa qualidade; aliás, é péssima. E os complementos também são de quinta categoria, gente estragada ou pelo passado ou pelo presente, sempre pelos mesmos motivos: poder, corrupção, ganância, despreparo, ignorância. Acenda a luz do forno: o resultado já soma mais de 530 mil mortes de brasileiros, milhares delas evitáveis, fato comprovado por vários cientistas. Se houvesse vacinas, se tivesse havido comando, se não houvesse tanto negacionismo e ignorância, se respeitadas e incentivadas tivessem sido as medidas de proteção e isolamento social. Foram e estão indo embora nossos parentes, amigos, brasileiros que certamente ainda viveriam por um país melhor.

Essa turma que nos desgoverna não merece qualquer condescendência. As pesquisas DataFolha divulgadas essa semana sobre o perfil de Bolsonaro e intenções de voto, mostrando como já é rejeitado por mais da metade da população, descendo a ladeira, esclarece o tamanho da encrenca em que fomos metidos com a sua eleição.

Contudo, já há aglomeração na porta do desembarque, tanto de eleitores arrependidos, quanto de muitos que acharam bonito brincar de política elegendo um capitão naufragado que ousaram erigir como candidato ao maior cargo do país. E eles bem sabiam quem era o tal sujeito. Que não era adequado, nunca foi, nunca seria. Pensaram, talvez, que o controlariam. Mas gente desonesta, falsa, incompetente, despreparada, indecisa, autoritária e pouco inteligente é apenas perigosa. E chegamos a esse estranho momento de retrocesso, ao perigo que o mundo inteiro assiste também assombrado. Que nos envergonha, empobrece, castiga.

Essa semana ouvimos um Basta! mais “redondinho”.  A própria direita agenda protestos para setembro, que eles gostam de ter mais tempo de se arrumar. As provas começam a surgir em dossiês, nos depoimentos, e como o próprio presidente que aparece cada vez mais afoito deve temer, em gravações que surgirão revelando seu conhecimento sobre falcatruas que deixou passar.

Ele está fora de si, mas nós não podemos estar. E, entre as batalhas que devemos travar, está a de impedir a aceitação pelo Congresso da indicação do nome do terrivelmente evangélico André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal. Outra, a de impedir que sejamos obrigados ao voto impresso nas eleições do ano que vem, que parecem distantes, mas estão sendo urdidas à luz do dia.

Enfim, impedir todas as ações desta escalada golpista no país que tem fome, e não pode ver acabar a energia, a luz e o gás que ainda lhe resta.

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ARTIGO – Claudicantes, na corda bamba. Por Marli Gonçalves

Sem saber mais em quem acreditar, no que acreditar. No que realmente está por trás dos acontecimentos. Que momento estranho esse que nos faz parecer sempre estar se equilibrando numa extensa corda bamba e frouxa. Ou, se trapézio fosse, é como se nada haveria para nos dar sustentação do outro lado

CORDA BAMBA

Uma dancinha desajustada. Dois passos pra a frente, logo dois atrás, um para um lado; depois para outro. A coreografia do momento é essa, desconcertante. Quando a gente começa a pensar que as coisas – ôba! – vão andar, atingir um mínimo de normalidade, chuáá, lá vem a água fria. Abre aqui, fecha ali, tudo muito chutado, estranho, descoordenado.

Os fatos se sobrepõem, as lacunas são cada vez maiores. O bombardeio de informações é contínuo. Os planos ficam pelo meio do caminho. Sonhos interrompidos. Vidas interrompidas. Os números que flutuam dia após dia, e que acompanhamos como se deles entendêssemos realmente. E quando se busca a realidade, bater a real, como se diz, percebemos que no fim é mesmo cada um por si. Salve-se quem puder. Poucos podem. Resta ter a certeza de que estamos vivendo para ver um dos momentos mais delicados da história mundial e, especialmente, nacional.

Confusos? Não mais do que os atônitos parlamentares que acompanhamos no desenrolar da CPI que há meses faz a dancinha do caranguejo. Uma hora surge uma fantástica revelação na qual acreditamos piamente que irá nos livrar do martírio político que há anos nos aborrece diariamente. Em outra, os vemos batendo cabeça, porque juntam coisas com as quais não sabem lidar, o velho filme das CPIs que acabam apenas sendo como novelas que acompanhamos no horário nobre e que agora nem valeria ver de novo nesta urgência em que clamamos e necessitamos de soluções.

O contador da morte não para e avança além do meio milhão rapidamente. Mais de mil mortes por dia parece que nem arranham mais, que nada significam – e tentam nos convencer que está tudo bem; só um pouco mais de 12 % da população vacinada de forma completa e as porteiras começam a serem abertas para ver no que dá. Viramos experimentos. E vemos o pior da humanidade, a desumanidade, o oportunismo, o acentuamento da desigualdade.

Mas quem disse que não temos assuntos? Os impropérios proferidos pelo presidente todos os dias. O ministro que – sem enrubescer – vai na tevê nos “acalmar” dizendo que não vai ter racionamento de energia elétrica, a mesma que tem reajuste de mais de 60% – claro que não vai ter! Ficaremos no escuro, nem à luz de velas, que o preço delas também está pela hora da morte. Caia na estrada e perigas ver voltarmos à era de esfregar pauzinhos para fazer fogo e cozinhar.

O governador presidenciável ganha as manchetes assumindo ser gay em entrevista combinada. Ótimo, que bom, aplausos, mas qual foi a pressão, super natural, para que o fizesse agora, mais de dois anos de eleito? Surpresa para quem? Teria sido apenas mais uma planejada jogada de marketing? Nada parece sincero nesse mundo onde apenas poucos conseguem planejar seus passos.

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ARTIGO – Cringe? Mas o que é que é isso, minha gente? Por Marli Gonçalves

Cringe? Algum Trapalhão falando? Alguma ferramenta de desentortar parafuso? Ah, ainda está é para nascer quem, independente de geração, seja X, Y, Z, XPTO, venha dizer o que usar, fazer, vestir, pensar, para ganhar algum imbecil selo de aprovação social. Rótulo é para produto em prateleira de supermercado.

CRINGE?

Pois eu vou cringear uns tantos! Está tudo bem, maravilhoso, não? Ninguém mais tem o que fazer, no meio dessa hecatombe que estamos vivendo, além de querer patrulhar costumes? Decidir, impor, o que pode ou não pode, o que é legal ou não?  Mais uma bobageira surge com o tal termo da moda para os uniformizados que seguem os tais influenciadores – cringe, que chatinho! Vergonha alheia, o que significa? Ok. A gente tem, mas você bem sabe de quem, no momento. Aliás…

Um país caminhando para a lama movediça e a moçada (termo bem cringe…) aqui do pedaço, e que adora copiar gringos, vem querer ressuscitar “guerra de gerações”? Milennials (nascidos nos anos 80) X Geração Z (anos 2000 em diante) andam se batendo por aí querendo determinar o que se deve ou não fazer, usar, vestir, ver, viver, etc.

Chegou ao cúmulo da idiotice. Engraçado é que ultimamente eu já vinha reparando num expressivo aumento desse tipo de coisa, de comportamento, mas que ainda não tinha nome, nem ainda era “moda”, pelo menos nem tanto para ganhar, como agora, matérias e matérias discorrendo nababescamente sobre o que significaria o tal termo cringe. No Instagram, a hashtag #cringe já passa de 23 milhões de publicações. No Tiktok, vídeos com essa hashtag já ultrapassaram 10,5 bilhões de visualizações. No Google a busca pelo termo cringe aumentou 70% nesta última semana.

Esse politicamente correto de querer obrigar – especialmente entre os mais jovens, adictos de redes sociais e adoradores da vida de influenciadores digitais, essa nova espécie humana – a seguir uma régua é um malefício tão grande à diversidade, à liberdade, que dá nos nervos, especialmente de quem, como eu da geração lá atrás, chamada Baby Boomers, nascidos nos anos 50 em diante.  Lutamos tanto por conquistas, pelo futuro, pelas revoluções, tanto sangue se perdeu nisso! Para agora virem nos dizer que – é bobagem desse nível, escuta só – por exemplo, que café da manhã é cringe. Que falar boleto é cringe. Qual emoji usar! Paro por aqui para não enjoar ninguém. Que a lista é longa. A palavra, em inglês, existe, e na verdade é verbo. Significa: sentir-se muito envergonhado ou constrangido; encolher-se ou recuar com medo de alguém ou algo que pareça poderoso e perigoso. Sentir-se “cringido” é, então, sentir-se menor, pior?

Querem coisa mais reacionária do que isso em comportamento?

Mas, como ia dizendo, e já estava até mesmo prevendo escrever sobre isso alguma hora, venho me irritando muito em perceber como algumas pessoas – na verdade gente sem graça e sem personalidade – gostam muito de tentar estabelecer o que é que é “chique” – e falam assim, como se fosse grande verdade, acentuando o “chique”. Daí – só pode ser – o número de carros prata, gente cinza, prédios cinza, prédios e pessoas beges e assemelhados, essa sem graçura que domina o que é “aceito” socialmente, inclusive tentando determinar a idade de quem pode ou não pode usar isso ou aquilo, se não quiser receber risadinhas, olhares de muxoxo ou reprovação. O .

Viva a comunidade LGBTQIA+, esta que subverte, colore, se revolta e modifica, se arvora e bem por isso tem conseguido se destacar e se impor em meio à mesmice. Ela é a reação de todas as gerações a esse maldito maniqueísmo que hora ou outra tentam nos impor, inclusive e especialmente na política.

A propósito, alguém pode me explicar que “mané” é essa nova onda de ser “embaixador/ embaixadora” que acomete o país? Ninguém mais é representante de marca ou causa. Agora é “chique”: contratam pessoas famosas para serem embaixadores e/ou embaixadoras. No meu tempo, que é o dos dicionários, o sentido é outro: 1.  categoria hierarquicamente mais importante de representante diplomático de um Estado junto a outro; 2. na carreira diplomática, título de ministro de primeira classe.

Coisa mais cringe essa, né?

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ARTIGO – A orquestra do terror. Sempre alerta. Por Marli Gonçalves

Estamos cercados. Pelo menos nos grandes centros urbanos é cada dia mais difícil relaxar. Algum silêncio. O tempo inteiro sirenes e barulhos atravessam a região, meio central na capital paulista. Já não é possível distinguir qual é o quê, e ambulâncias, bombeiros, polícia, se unem à orquestra do terror, que tem mil instrumentos e nenhum maestro

ORQUESTRA DO TERROR

A orquestra do terror tem inúmeras variações, como ambulâncias com pacientes em estado mais grave, e que têm o som ainda mais dramático de “pelo amor de Deus sai da frente que eu preciso passar para salvar essa vida por um fio aqui dentro”. Os carros de salvamento, Samu, Bombeiros, passam gritando, alucinados, muitas vezes na contramão e alertando para algum acontecimento por perto, e que então você fica sabendo muitas vezes antes até dos telejornais.

Se o caso for mais grave, logo esses chegam disputando o Ibope e o espaço aéreo com seus helicópteros pairando no ar, às vezes por horas, quanto mais cascudo o caso for.

À noite, mesmo em tempo de toque de recolher, e talvez até por isso, são ainda mais fortes o som das britadeiras, dos caminhões de lixo e dos que recolhem caçambas. A tortura envolve o som dos baques de correntes gigantescas que as recolhem e as jogam contra outras que já estão ali carregadas, e logo o chacoalhar dessas caçambas batendo umas nas outras segue adiante. Infernal.

Já passa da hora de a poluição sonora ser estudada mais seriamente, e que algo possa ser feito para entender como isso mexe severamente com a saúde, inclusive mental, das pessoas.  O Partido Verde, esse agora apagado e sumido partido que já teve muito mais influência quando mexia de forma séria e com lideranças com o que lhe dizia respeito, cuidou disso há muito tempo atrás, mas só isso.  Quem sabe agora com a ascensão, na Alemanha, de uma primeira ministra, que substituirá Angela Merkel, Annalena Baerbock, líder do Partido Verde, este possa voltar à “moda”?

É preciso verificar esse assunto. Não dá quase para listar o que deve ser revisto, fiscalizado, multado, banido. É necessário que os ônibus, carroças, que circulam na cidade façam tanto barulho com seus motores? E internamente? Já andou num desses com ar condicionado? De enlouquecer o zunzunzum. Saudade dos elétricos.

Onde anda a fiscalização dos motores mexidos? Fora a algazarra dos carros – esses que são os Djs dos bailes funks nas ruas da periferia – e que circulam nas ruas obrigando que escutemos com eles o pior da sua música e letras de doer. E os motores mexidos, que não sei se percebeu, há uma nova onda? Nos fins de semana, aqui em São Paulo, principalmente aos domingos, centenas de pessoas se aglomeram ao longo da Avenida Europa para vê-los passar em alta velocidade e com seus roncos malditos; são nacionais, importados, antigos, novos, de ricos, de pobres. São saudados e fotografados como campeões, nas barbas da polícia, e até que algum acidente mais grave aconteça, e não vai demorar, a região perdeu sua tranquilidade.

Mais? As motos que se multiplicaram assustadoramente com a missão dos entregadores de tantas coisas pedidas via aplicativos e que por muito pouco simplesmente não passam por cima da gente, furando sinais, buzinando para que saiamos da frente, dos lados. Claro, tem também os entregadores com bikes andando inclusive nas calçadas e com aquele trinado de bibibi de suas buzinas e que nos fazem pular assustados, sem tempo até de dar uma boa xingada neles. Alguns, à noite, descendo as ladeiras, ainda brincam de raspar o asfalto com os freios, deixando marcas. Uma delícia. Melhor raspar isopor, ouvir a broca do dentista.

 A orquestra do horror traz também o som das obras fora de horário, das britadeiras dos serviços públicos onde um destrói o que o outro fez deixando só cicatrizes nos caminhos, as serras elétricas que destroem árvores. E os alarmes? “Atenção, esse veículo está sendo roubado…”, seguido pelo uomuomuom que pode durar séculos, até que a bateria descarregue, ou que o incauto dono apareça para desligá-lo.

Como disse, fica difícil de suportar. Eu, que não gosto nem do plec-plec de chinelos, ando me sentindo vítima de ataques de sons perturbadores e além destes que enumerei, e que você também deve aguentar. Me avise se esqueci algum.

Às vezes nem são tão fortes, mas ficam ali. Acreditam? Agora tenho na vizinhança uma jovem cantora despontando para o sucesso, e que até é melodiosa. Mas imaginem passar o dia ouvindo ao longe os ensaios, a repetição de notas, as mesmas, durante horas.

Eu não mereço. Ninguém merece. Mas tem um som, um barulho bom, que eu queria ouvir mais: o organizado, das panelas de protesto batendo das janelas, pontualmente às 20h30, contra tudo isso que enfrentamos, como as 500 mil mortes por Covid, a falta de vacinas; contra todo esse mal que nos desgoverna.

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MARLI GONÇALVESMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Popular eu sou. Por Marli Gonçalves

Deve ser muito bom ser famoso, mas ser popular já posso dizer que é demais. E foi como me senti esse ano vendo festejado meu aniversário por tantos, sem modéstia, muito mais de mil, nas redes sociais e em outras formas de contato. Nesse momento que estamos tão isolados uns dos outros foi uma grande festa digital e conseguiu reunir pessoas do mundo inteiro no meu ambiente.

popular

Se você acha que ultrapassar mil é pouco, venha aqui consertar a tendinite que ganhei tentando ler e escrever, agradecer a todos, o que não consegui direito até hoje. Assim, escrevo em homenagem, esperando que assim possa alcançar muitos outros milhares que me leem toda semana, leitores queridos, muitos dos quais também me festejaram.

Do exterior, de todo o país. Foram imagens, palavras de apoio, incentivo, carinho, bons desejos, reconhecimento, lembranças de fatos vividos, gracejos e elogios. Foi como se em um dia eu tivesse dado uma festa real, e a qual compareceram os mais variados personagens de toda minha vida, alguns conhecedores de toda essa sexagenária história de batalha, ou apenas que viveram comigo instantes que os marcaram tanto como certamente marcaram a mim.

Nesses tempos de distanciamento social, fatos duros e perigosos da política ocorrendo nas nossas barbas sem que possamos fazer efetivamente algo, e nos quais as comemorações não serão iguais ao que eram ainda durante um bom tempo, descobri o que foi uma festa para mim, e que durou mais de um dia, contando as mensagens e os telefonemas atrasados, além daqueles adiantados. Dos que tentaram serem os primeiros à meia noite (ganhou o pessoal amigo, os que vivem ou estão na Europa, com cinco horas de diferença de fuso). Foi um festa segura, barata, e especialmente cheia de amor, reunindo conhecidos e até penetras. Admito que muitos dos que vieram, não conheço e não sei quem são, nem sei bem como chegaram. Mas pensaram em mim, dedicaram algum tempo para dar um oi, dizerem que me acompanham de alguma forma.

Tempos digitais. No Facebook, quem mandou as primeiras cem mensagens acabou prejudicado. Até hoje não consegui chegar até elas nem para mandar um coraçãozinho, uma vez que essa rede, e mesmo a intermitência da internet, não ajuda, não facilita. Você vai indo, indo e ela volta tudo – tentei, garanto, umas 50 vezes até desistir. Se você está nessa lista, coraçãozinho ♥! Obrigada!

Fiz um post pedindo paciência, que o dia do aniversário foi meio atribulado – e só nele já vieram centenas de mensagens. Mais outras que davam carona a outras. O máximo. Fui cercada por um mar de amigos. Facebook, Linkedin, Instagram, Twitter, Whatsapp, e-mails, telefonemas no fixo e celular.

Talvez você aí ache tudo isso normal, nem dê valor, talvez esteja acostumado, seja famoso, algum influencer. Não chego a isso.  Mas para mim, que hoje só tenho só meu irmão como família, especialmente este ano tudo isso me fez sentir como estou dizendo: popular. E se for procurar o sentido da palavra entenderá minha alegria, especialmente este “Que pertence ao povo; que concerne ao povo. Que recebe aprovação de povo; que tem a simpatia da maioria”. Fora a abreviatura da palavra: POP. Assim, Marli é pop!

Em marketing político, sempre alertamos que chamar/ xingar alguém de populista, o que é muito comum, e palavra muito próxima ao popular, para o senso comum da ampla maioria é falar bem daquela pessoa, faz efeito contrário ao crítico. Faça atenção a isso.

Mas popular tem um outro sentido, entre tantos, para o qual chamo a atenção: “partidário do povo; democrata”. Me incluam aí.  Vou usar tudo isso, como sempre, pelo meu país. Contem comigo.

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PS.: Muitos já sabem, mas me dei de presente adotar uma gatinha, uma filhote, branquelinha, para começar uma nova história depois de perder a Vesgulha Love, em fevereiro. Ela chama Nyoka, a princesinha das selvas, uma heroína da HQ dos anos 40. “Nyoka” foi também um pseudônimo que usei quando editora na Revista Gallery Around, anos 80, e que agora aproveitei para homenagear Antonio Bivar, ao lado de quem trabalhei. Me ensinou a ser muitas pessoas, e o perdemos recentemente por conta do horror da Covid, que nos devasta.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Não tô gostando nada do que estou vendo. Por Marli Gonçalves

Não queria, mesmo, à essa altura da vida, assistir à essa despropositada série de ameaças e insanidades. Novamente, algumas; alguns fatos, na política, no país. Retrocessos em conquistas. Paralisação em progressos. Certamente se você já os viveu – acompanhou e fez parte de batalhas por mudanças – sente o mesmo; se for mais jovem, anote e acredite: o momento não é nada bom, já fomos melhores. Isso não é progresso.

Não tô gostando nada do que estou vendo

Na semana que estou fazendo um balanço, chegando aos 63 anos, os tais fatos que me surpreendem mal foram fortes. Por exemplo: pais e mães de uma escola de elite paulistana fizeram uma revoltinha. Acreditem, contra trechos do diário da adolescente judia Anne Frank que durante a Segunda Guerra, para sobreviver enquanto pode aos horrores, se escondeu em um porão onde achou forças para escrever o que passava, e um dos relatos mais pungentes sobre o Holocausto, publicado pela primeira vez em 1947. Que trechos chocaram pais em 2021, 74 anos após a divulgação do livro? Ah, o trecho onde ela expôs sua natural sexualidade. O livro estava sendo usado em aulas de inglês, leitura, para estudantes de 10 a 12 anos. Pasmem. Está o maior rebu por conta disso. Em que mundo esse povo vive?

Vejam só. Em 1966, aos oito anos de idade (e reparem que em plena ditadura), tive aulas na minha escolinha sobre todo o complexo sistema reprodutivo, tanto feminino como masculino, as transformações que logo sofreríamos. Explicações objetivas, com visuais explicativos. Lembro até hoje da minha alegria chegando em casa com um pacotinho de Modess. E hoje lembro que se não fosse isso não saberia nada, filha de mãe mineira e pai nortista, em vão ficaria esperando deles explicações sobre “essas coisas”, com as quais nunca tiveram tranquilidade em lidar.

Mas vamos lá, firmes, enfrentando esses dias que passam doidos, rápidos, lépidos, incontroláveis, atordoantes. Quando você se dá conta, pumba, já foi. Mais um ano. E que ano! Parabéns, conseguiu se esgueirar até aqui. Siga, firme! Todos os dias agradeço ao Universo essa chance, que tantos não tiveram – se você está aí lendo, creio que deveria fazer o mesmo, agradecer ao que tem fé. Vacinada, duas doses; entre os ainda apenas pouco mais de 10% da população desse país que claramente desanda, saiu dos trilhos, aparece descarrilado, sem rumo, tornando tudo mais difícil, mais custoso, conservador, burro, atrasado. Irritante.

Estar vivo. Isso hoje é honra valiosa. Mas não queria novamente estar vendo tudo isso acontecer, algumas coisas de novo, chatas, perigosas e repetitivas, e que agora chegam disfarçadas, embaladas em outros papéis, e o que as torna mais tenebrosas.

Estou, estamos, e como diz um amigo, a única alternativa possível ao envelhecer não é nada boa. Sendo assim, resta utilizar tudo o que se aprendeu nesse viver para seguir tendo consciência das mudanças, inclusive físicas, da responsabilidade justamente por isso, da vivência e experiência.

No geral, nós, mulheres, quando o tempo vai passando, vamos ficando cada vez mais invisíveis. Precisamos e continuamos a correr mais ainda atrás de esmolas emocionais, uma parte começa a se podar para se ajustar ao que a sociedade delas “espera”; essa sociedade que ainda hoje acha que tudo pode determinar com sua régua rígida, hipócrita e moralista. E quando, otimistas, achamos que isso estaria mudando, e estava, vem o tapa na cara. Percebemos que devemos continuar guerreando algumas das mesmas velhas lutas de mais de 50 anos atrás, brigando por condições no mínimo iguais, quando deveríamos ter até mais, respeito por direitos, pela liberdade de opinião e opções. Por uma educação decente que conduza as novas gerações aos desafios constantes, inclusive sexuais, e que vêm se impondo abertamente, desafiando limites.

Lá vamos nós, de novo, tendo de lidar com a ignorância, contra um emaranhado de atraso e no meio dessa pandemia que nos aprisiona e deprime. Nas ruas no último sábado, 29 de maio, embora muitos teimem não ter visto, sim, lá estávamos com as mais variadas bandeiras e a maioria não era partidária, vermelha ou verde e amarelo, essa que nos foi arrebatada. Éramos os mais velhos, muitos; os vi em cadeiras de rodas, com bengalas. Os vi, também, coloridos, com filhos e netos aos quais ensinavam cidadania. Todos conscientes, guardando distanciamento, certamente ali maioria já vacinada. Entre milhares, todos com máscaras usadas corretamente, conscientes do primeiro passo necessário para protestar. Também não estão gostando nada do que estão vendo.

Começamos a expressar mais claramente, nas ruas, o que se multiplicará nos próximos meses, esperamos de forma pacífica. O que renova a esperança e fará, com certeza, que se estanquem esses retrocessos. Que consigamos acabar com essa gente idiota, burra, cretina, nojenta que nos faz perder tempo quando tínhamos tudo para estar na vanguarda.

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Marli - foto Alê RuaroMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – As segundas e os começos e recomeços. Por Marli Gonçalves

Ultimamente as segundas-feiras têm sido muito mais difíceis do que normalmente já eram. A sensação de começar mais uma semana, ver e ouvir a repetição dos fatos estranhos, uns atrás dos outros, sem reações que os possam deter; ao contrário, só pioram e se tornam mais ameaçadores. Na vida é assim: e até fazer aniversário anda parecendo mais uma segunda-feira

Garfield Archives — Portallos

Não é a preguiça, tão bem ilustrada na imagem do gato Garfield com sua imensa barriga laranja, e que ilustra as segundas malemolentes e um pouco mal humoradas. É o começo e o recomeço, que ultimamente tem parecido tão igual ao da semana passada, mês passada, ano passado. Bem sei que oficialmente a semana começa na segunda-feira, mas extraoficialmente, depois de passar o fim de semana tentando se livrar das cargas é nela que depositamos alguma esperança olhando para a frente, buscar fazer e acontecer, dia útil. Repete muito o que acontece na véspera de Natal, quando todo mundo parece ter sido acelerado e querer resolver tudo o que o ano inteiro não conseguiu. Se possível, sobrecarregando, inclusive, outras pessoas, passando os probleminhas adiante.

Aí ela chega. Primeiro, agora mesmo, nos daremos conta de que mais um mês se foi. Que o primeiro semestre do ano se completará. E a sensação da repetição, inclusive acelerada, de tudo o que tanto nos incomoda não passa.  É como se a realidade não admitisse o otimismo – e é, garanto, uma otimista inveterada, apesar de tudo, quem está aqui escrevendo.

Esperei passar várias segundas para finalmente admitir essa sensação. Talvez por agora ter me dando conta que fazer aniversário também virou uma segunda-feira, que a virada do mês também vai virar, para mim, logo, mais um ano completo de vida, e mais um ano – Graças a Deus, viva! – dentro da pandemia que abalou o mundo, mas destroça especialmente nosso país, pego em um dos piores e mais confusos, vergonhosos, perigosos e conturbados momentos de sua história.

Aniversários sempre são impactantes – o filme de tudo que se viveu, se sonhou, conseguiu ou não, passa na cabeça, e quando a gente chega mais longe, o filme vai virando longa-metragem. Quanto mais tempo, isso só vai ampliando, e creio que lá pelos 80 já se anunciará como uma daquelas peças teatrais do Zé Celso, do Oficina, com mais de cinco horas de duração e roteiro cada vez mais confuso e recortado.

A coisa toda está tão repetitiva que nem é preciso consultar videntes ou astros para conhecer alguns fatos do futuro: muitos ainda morrerão, inclusive pessoas próximas de nós e personalidades importantes que farão o país chorar de novo e de novo, suas histórias serão contadas; loas serão tecidos, e esperaremos as próximas; a política nos trará muitos desgostos, a divisão se acentuará, assim como os protestos, que serão incontroláveis, ou por radicalismo de algumas das partes ou pela dimensão da miséria, da fome, do desespero. Mulheres continuarão a ser desrespeitadas, e mortas. O racismo, negado como se não fosse evidente. Os ricos ficarão cada vez mais ricos. E os oportunistas surgirão, pululantes, sem disfarces, prontos a se aproveitarem de qualquer um desses fatos. Comentaristas comentarão. Comentarão muito. Os fatos serão conhecidos, e diariamente sobrepujados por outros numa repetição infinita e sem solução.

Do ponto de vista pessoal, os cabelos ficarão mais brancos, os tais fatos conhecidos cada vez mais iguais e tristemente repetitivos. Depositaremos esperança nas gerações futuras – alguns nos darão orgulho; outros, nojo. Nossa experiência se avolumará, e continuaremos firmes tentando alertar que conhecemos esses rumos, mas a rapidez que alimenta as redes sociais e esse atual tempo de vida digital talvez ignore e não dê a devida atenção ao que afirmamos e vivemos presencialmente, um estado raro que se esvai entre telas e emojis.

Assim, vamos indo vivendo – e que assim seja, Oxalá! – as próximas 52 segundas-feiras, e que muitos outros 365 dias venham. O desejo é que esses começos e recomeços sejam melhores, e que nunca falte energia para constantes revoluções interiores. Nem para as revoltas. Sem preguiça.

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Marli - foto Alê RuaroMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Pega pelo ar. Por Marli Gonçalves

Não são só doenças o que se pega pelo “ar”. Sentimentos, tristezas, alegrias, revoltas, preocupações também são transmitidos por esse meio etéreo, invisível, quase inexplicável. Atinge principalmente pessoas mais sensíveis, que acabam ligadas e envoltas nesse redemoinho de emoções coletivas

AR

Tem dias que a gente se sente bem esquisito. Está tudo bem, tudo bom, particularmente, mas não consegue estar feliz totalmente, como se faltasse alguma coisa que não sabemos exatamente o que é.  Ou até, vá lá, temos alguma noção de onde vem a onda, mas não conseguimos fugir antes do caldo. Por exemplo, agora, a falta de um chão seguro nesse país, a sensação de estar sendo diariamente enganado, desconsiderado, dando a cara a tapa. Feitos de otário, chamados de idiotas, como se todos fôssemos incapazes de concatenar verdades, a realidade, e detectar as insistentes formas com que todos tentam nos enganar, seja com ameaças, mentiras, promessas ou atos que jamais se concretizam.

Tenho ouvido muitos comentários de pessoas avaliando que nunca viveram um momento como esse, e vindo de pessoas que, tanto como eu, já viveram bastante e em muitos outros momentos bem punks. Todos perplexos. Enfrentamos dificuldades, perseguições, a ditadura, tempos terríveis, mas onde o inimigo era claro, visível, e nos uníamos para combatê-lo com maior precisão.

Mas nada como agora, nesse mundo dividido, nebuloso, pior, onde ainda descobrimos entre pessoas mais próximas revelações que nos deixam abismados, como se o tempo tivesse piorado o caráter delas, atingido a inteligência delas, e isso aflige porque já não sabemos mais exatamente com quem contar.  Não digo nem para uma possível revolta ou revolução: contar, para conversas, para assuntos do cotidiano, que digam respeito ao desenvolvimento humano, avanços nos relacionamentos, liberdade de escolhas. Confiança.

A aflição é não conseguir planejar muita coisa além de manter-se vivo, e minimamente são, dia após dia.

Antes que me fulminem, esclareço que o país, sua política, seu desgoverno, é apenas um entre muitos motivos dessa sensação misteriosa, mas muito humana. A gigantesca lista passa até pelo aquecimento global, derretimento e deslocamento de icebergs maiores que a cidade São Paulo, tremores inexplicáveis ao redor do mundo, viagens à Marte, avistamento de objetos não identificados ou até mesmo o incrível nascimento de nônuplos.

Passa pelo ar pesado que respiramos com dificuldade, as águas que, ou chovem demais, ou não chovem, a camada de poluição que vemos no horizonte ao final dos lindos dias de outono.

Passa pelo desatino de drogas batizadas consumidas por uma juventude que não chega nem ao amadurecimento em muitas formas de suicídio.  De um lado, os que se deram bem com novas tecnologias. De outro, os que se amarram a garrafas para se jogar ao mar em busca de uma nação para chamar de sua. Passa pelo desfile de pequenos caixões de crianças mortas em guerras que não são suas, ou massacradas por quem os deveria proteger.

Chega pelo ar, pelo noticiário, pelos fatos que presenciamos, nas reações desmedidas, até nos incontroláveis pesadelos que nos sacodem o sono. Essa loucura toda e que já não era pouca parece agora multiplicada pela pandemia que paralisou a Terra e da qual insistentemente pensamos que sairíamos melhores.

Mas não estamos encontrando nem a porta. O que dizer então quanto a uma janela para respirar novos ares e esperanças.

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FOTO: Gal Oppido

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ARTIGO – Nós, os perplexos. Por Marli Gonçalves

Não demora e logo nos faltarão também até as palavras para definir esse momento, já que atos para o combater – não é nem mais que se esgotaram – tão perplexos estamos que já nem conseguimos sequer imaginá-los. Estapeados todos os dias, nossos ouvidos feitos de penico, parece que todos somos tão burros e otários que não vemos mais nem quando tentam nos fazer de bestas

A cada revelação que surge – e essa semana foi bastante pródiga delas – as informações mais se avolumam, muito além ainda do que parecia impossível ter ainda ocorrido a mais daquilo tudo que todos os dias de alguma forma presenciamos. Não é nem só de agora; há anos criamos verdadeiras camadas de perplexidade em nosso couro, o que nos torna, no meu ponto de vista, um dos povos mais resistentes e resilientes do mundo.

Mas os últimos tempos têm sido realmente implacáveis. Agravados pela pandemia que nos calou, isolou, transtornou e nos fez sofrer perdas irreparáveis, além do medo, insegurança, do temor do insucesso e da derrota pessoal, não há como evitar a quase paralisia, a perplexidade diante deste cenário geral. Dá para entender porque ainda enquanto um povo estamos tão desorganizados, sem reação, cheios de dúvidas, indecisos, e até poderíamos dizer, ainda mais espantados. Perplexos. E a perplexidade paralisa.

Da janela observamos o mundo passar e na falta de alternativa cobramos o ar. O outro, os outros. Exigimos que “algo seja feito”, praticamente esquecendo que esse “algo” precisa contar também com pelo menos alguma efetiva participação nossa.

Acontece que a tal grossa camada criada em nosso couro ao longo do tempo também nos fez mais insensíveis. Para penetrá-la a flecha precisa ser cada vez mais grossa e forte. Aí reside o perigo enorme de estarmos na realidade já deixando passar como normais muitos fatos inomináveis, que nos exigiriam ação e reação imediata.

Mas é que estamos perplexos.

Somos roubados, temos nossos direitos duramente conquistados vilipendiados. Ameaçados pela volta do terror antidemocrático, pela força, enquanto ainda tiram sarro de nossas caras com ironias e gracinhas de péssimo gosto. A inação nos atinge diretamente, e mentiras deslavadas são construídas cuidadosamente para acobertar e misturar malfeitos até que sejam descobertos e, quem sabe Deus um dia, punidos.

A terra que pisamos, a força da natureza que sempre caracterizou o país com seus amplos recursos naturais, e com os quais nos tornamos de alguma forma importantes para o mundo todo, sendo consumidos, queimados, derrubados, escasseados. Gerando lucros para poucos. Não é para progresso, não se iluda. Pelo menos não o nosso, de ninguém não, só mais essa balela que tentam impingir aos mal informados, aliás uma população crescente, alimentada com ódio por esse mal que encobre de sombras o Brasil.

Não só na política. Em pouco mais de um ano retrocedemos décadas em autoestima. Em respeito, interno e externo. Educação, Saúde, Segurança, Saneamento, Meio Ambiente, comportamento, debate, bom  senso, harmonia, paz e convivência pacífica entre ideias e poderes vêm sendo bombardeados pelo esquecimento ou decisões grosseiras, retrógradas, ignorantes, moralistas de araque, divisionistas, e que não servem  a nada a não ser criar um exército de inimigos, que já nem sabem mais o que combatem entre si, e dos quais, daqui e dali, já quase nem conseguimos nos defender, tal a falta de lógica.

Nós, os perplexos, precisamos sair o mais rápido possível desse estado catatônico, incerto, indefinido, inseguro, assombrado, irresoluto, titubeante, abalado, desnorteado, abismado, zonzo – que não faltam definições – em que nos encontramos. Antes que essa perplexidade toda nos aprisione. E essa gaiola não é dourada.

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Marli MARLI GONÇALVES– Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, nas livrarias e pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Avidez por alguma alegria. Por Marli Gonçalves

Uma, uminha, umazinha só. Qualquer porção de alegria, esse produto tão raro nos dias de hoje. Imploramos. A gente tenta, mas não passa um dia sem que alguma notícia esquisita nos abale, por mais otimistas que tentemos ser. Muito impressionantes esses tempos que passamos, agravados pela pandemia que a muitos abala, deprime, e a outros enlouquece

ALEGRIA

Daqui assistimos o mundo inteiro tentando se curar, se recuperar, reviver, renascer e se reinventar e reorganizar desse baque, pesadelo, que vivemos já quase há um ano e meio e onde cada dia de sobrevivência precisa ser efetivamente comemorado. Chegam de fora boas notícias, da abertura, do povo voltando às ruas, incentivado, reconstruindo.

Mas, aqui, quem consegue? Em um dia perdemos parentes e amigos; em outro, quem tanto admirávamos, por quem torcíamos pela recuperação, mesmo que ela fosse até difícil de acreditar se pensássemos bem.  Paulo Gustavo se notabilizou por nos trazer esse raro e cada vez mais escasso produto, a alegria. Chega ser sintomática, emblemática, simbólica, a sua partida no meio disso tudo.

Como conter a emoção? O prefeito da maior cidade do país lutando publicamente pela vida em um leito de hospital, com altos e baixos.

De repente ainda mais tragédias nos abalam como se tivessem ocorrido do nosso lado, e a gente chora, sofre e perde o sono pensando em professoras e bebês assassinados a golpes de adaga na outrora pacata cidadezinha de nome poético, Saudades.

A gente fica revoltado ao ver uma desastrosa operação policial carioca no morro do Jacarezinho, morro que já deu samba mas que agora mostra as suas ruas, vielas, casas e barracos cobertos de sangue que escorre o desespero e o luto de 25 mortes, muitos ainda sequer identificados. Pior: ver, ouvir, saber que tem quem aplauda uma chacina como essa, sem pé nem cabeça já na sua origem. Uma espécie de pena de morte, aceita sem julgamentos, como quem degola, arrasta e espalha pedaços de corpos.

Brasil atual embaçado, o país do esculacho, temo, vá demorar mais do que outros para se recuperar desse tempo amargo e retomar sua tradição de país gentil, do povo generoso, gente alegre reunida, Cidade Maravilhosa, etc. e tal. Não temos vacinas suficientes, e os motivos disso surgem porque estamos com um desgoverno absurdo e cruel, administrados por um presidente bronco, cercado de bronquinhos, e que ainda se diverte ironizando o sofrimento do povo, fazendo da política uma barafunda gincana, onde nós somos caçados, e não surge força capaz de cassá-lo, porque há muitos beneficiados com suas confusões, animados por uma trupe violenta e insistente que sai às ruas espumando por medidas antidemocráticas, alimentados  por informações descabidas que repisam. Que se comprazem em apenas atacar e odiar – a bílis que lhes dá algum sentido na vida triste.

Quando tudo começou, ano passado, estávamos mais unidos. As varandas e janelas abertas emitiam cantorias, os vizinhos começaram a se conhecer e se cumprimentar, mesmo que com acenos, com gestos solidários, inclusive para os mais velhos. A solidariedade se mostrava na preocupação com o outro, fosse com recursos, com comida, companhia, compaixão. Chegamos a acreditar que do tal novo normal surgiria um povo melhor. Que nada poderia demorar tanto. Havia ainda um certo otimismo.

Mas 2021 chegou arrasando e agora já estamos em maio, chorando todos os dias a evitável escalada de mortes correndo para alcançar a marca oficial tão temida, de meio milhão de vidas perdidas. A alegria se esvaiu.

Continuamos, contudo, com todos os erros sendo continuamente repetidos, o negacionismo se espalha contaminando o solo como uma praga para a qual a Ciência não conseguirá solução em laboratórios. Precisávamos ter tratamento precoce, sim, mas para evitar toda essa tristeza. Que pudesse evitar, antes de mais nada, tanto oportunismo e toda a miséria que se apresenta em todas as áreas e que prejudica agressivamente o futuro, esses nossos muitos dias pela frente.

Necessitaremos de alegria, alguma, muita, e que esta seja coletiva. Precisaremos nos unir o mais rapidamente possível para procurar essa fonte para beber, e que agora está soterrada.

Ao menos um pouco de alegria vem da certeza que parece que enfim já começamos a escavar para encontrar essa fonte e que logo jogaremos fora todo o lixo que a encobre.ALEGRIA

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marliMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – O terror, tocado para milhões de corações brasileiros. Por Marli Gonçalves

Distopia tropical. Não é de hoje. Estão tocando o terror aqui em nossa terra, e de uma forma tão intensa e nos atacando de todos os lados, que a gente já nem sabe mais como se defender. Não dá pra ignorar mais de 400 mil mortes, não dá mais para tocar na vitrola só essas canções mortais; queremos samba, mostrar ao mundo que temos valor

Mais de 400 mil razões para estarmos alertas, e prontos para o revide quando conseguirmos nos organizar, embora eu saiba bem o quanto é difícil até decidir por onde começar a batalha que virá, mais cedo ou mais tarde, para quem realmente for patriota, estiver preocupado, informado sobre os passos desse Exército do Mal que avança trazendo tantas sombras e incertezas.

Não esses estúpidos que se enrolam na bandeira, alucinados, que cospem impropérios, conspurcando o verde e amarelo de uma forma tal que hoje chega a nos dar até asco ao visualizá-la. Não essas pessoas sem noção que passam o dia disseminando o ódio e a ignorância, para quem a terra é plana, e dividida apenas nas tristes opções políticas que se colocam à frente. Não essas pessoas que ainda teimam em não ver, não escutar, mas falam, repetindo refrões, teses absurdas.

O terror é geral. Na economia, sem capacidade de ser salva por aquele pequenino e metido ser, o tal Posto Ipiranga, e sua trupe. Na política, onde o perfil miliciano dos que transitam nos palácios de Brasília, se esbalda em tripudiar de tudo o que nos é mais caro, desrespeitando a dor, e as soluções para evitá-la, buscadas pela Ciência como nunca antes. No comportamento, nas atitudes burras e preconceituosas de quem até se acha “de direita”, conservador, mas nem isso, não chegam aos pés nem disso, apenas decrépitos, muitos encobertos por religiões que inventaram, moldando-as aos seus interesses. Deixem Deus fora disso.

Nos vemos cercados por organizações criminosas desvendadas todos os dias, nas manobras, nos roubos e golpes, no pagamento de sistemas de robôs contaminados que disseminam as informações falsas neles inseridas e atiradas como flechas ou balas perdidas. Essas balas perdidas. As reais, que matam crianças e inocentes. As virtuais que matam sonhos, reputações, inteligências, ameaçam o futuro.

Estamos vivendo uma distopia. Uma distopia tropical. Nossa terra seca, pega fogo, destruída diante de nossos olhos. Falamos, denunciamos – e nada. Eles estão lá, e dá até arrepios pensar no que ainda pretendem, no que planejam e decidem entre as suas paredes, nas casas de vidro. Coisa boa não pode ser, porque é bastante claro que pretendem se perpetuar no poder.

Tenho visto muitos otimistas botando fé nessa CPI, Comissão Parlamentar de Inquérito, agora instaurada no Senado Federal para investigar as ações, inações, e os acontecimentos alarmantes ocorridos no último ano, durante essa pandemia, que levaram à essa mortandade e à tristeza de milhões de corações brasileiros que sangram tantas perdas.

Acompanhei muitas CPIs, conheço suas confusões e tramoias. Devo informar que é melhor ter cautela e em paralelo continuarmos buscando avidamente outra formas de fazer esse descarrego. Essa CPI, claro, vai revirar o mar, causar, ouviremos falar dela – e de seus integrantes, que novos nomes aparecerão para o jogo eleitoral – nos próximos meses. Os fatos sobre os quais trabalhará são esses todos, bem conhecidos, dessa lista enorme que clamamos ao vento.

O que ela precisará fazer – o veredicto de culpado para esse que se diz mito, e que ele seja levado a realmente pagar pelo que fez/faz e, infelizmente, ainda fará – será uma grande surpresa.  Temo que vire apenas mais uma CPI do Fim do Mundo, como chamamos uma outra, de outros tempos, e que não levou a nadinha de bitibiriba.

Queremos samba, mostrar ao mundo que temos valor, quem está pedindo é a voz do povo do país, pro Brasil feliz voltar a levar alegria para milhões de corações brasileiros, como tão bem disse Zé Kéti em “A Voz do Morro”.

Nós todos dessa luta somos o samba. Precisaremos sambar em cima deles o mais rápido possível.

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MarliMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Querendo saber de você. Por Marli Gonçalves

Hoje estou aqui cheia de perguntas, querendo saber como você está, de verdade, vivendo, e, claro, antes de tudo, sobrevivendo, nessa pandemia que achamos que duraria pouco, mas já se estende há mais de um ano, e a gente não sabe até quando vai.

 Languishing - Definhando - segundo The New York Times

Outro dia li um artigo muitíssimo interessante, de Adam Grant, psicólogo americano, que, em síntese, nomeava esses estado de espírito mais geral, e que não é depressão, como “definhamento”. A gente estaria definhando, segundo ele, propondo que sempre devemos nomear o que sentimos para poder entender melhor. Definhar – o que no nosso dicionário nos diz muito, principalmente no sentido de estarmos murchando, decaindo, enfraquecendo gradualmente. E menos no sentido de “emagrecer”, que bem sabemos que não é o que para a geral ocorre nesses meses de isolamento social; muito ao contrário. As gordurinhas pululam.

O artigo me fez pensar muito. Primeiro, sentir-me um pouco melhor por perceber que esses estado é mais geral, e o “não sou só eu” já dá uma acalmada no espírito. Já não é maluco, mais pessoas sentem-se assim.

Muitos medos, além da tristeza de ver pessoas próximas, amadas, cheias de vida, tombarem ao nosso lado. Medo de tudo e insegurança com relação a qualquer detalhe, desde a paranoia até de tocar o botão do elevador, ou uma maçaneta desconhecida. Eu mesma me peguei muito estressada por passar, na feira livre, por pessoas gritando seus produtos, muitas sem máscaras. Parece que você até vê as gotículas sendo jorradas e te perseguindo, loucas para te catar. Cada vez mais dá vontade de sair menos, mesmo quando necessário.

Seus hábitos mudaram? Como está se sentindo? Tem até coisas engraçadas no meio disso tudo, se pensar bem.

Vaidades? Aqui, as roupas gritam de dentro do armário, dobradas, esquecidas nos cabides. Do lado de fora, apenas uma coleção de macacões, o traje oficial que acabei adotando esse ano. Rápidos, práticos (muito mais do que agasalhos e leggings). Uma blusinha por dentro, uma botina. Pronto, e com bolsos! Capricho nos acessórios, embora os brincos estejam quase aposentados pelo uso das máscaras que já alugam as orelhas; anéis, um colarzinho, e os broches, que amo, marca registrada, inclusive fincados nas máscaras para lhes dar alguma graça. Também li outro dia sobre a crise abatendo a indústria das lingeries. Confesso que, falando de calcinhas, por exemplo, elegi umas três ou quatro como soldadinhas do dia a dia, e que se revezam entre estarem ali, ou lavadas e penduradas para secar, já bem rotas, desbotadas, esgotadas.

Cabelos. Vejo pelas redes sociais que por aí os cabelos crescem, livres de tesouras. Meu irmão, por exemplo, já precisa prender os dele com criatividade especial, já quase cobrem seus ombros. Os meus, que lavo todos os dias religiosamente, ficam livres, bagunçados. Só um sacudidinha e pronto. Observo que, na moda, voltaram os lenços, bandanas, tiaras, grampos e presilhas para domarem os mais rebeldes.

Mas falando mais seriamente, pergunto de novo. E você? Também está com sérias dificuldades de planejar qualquer coisa? De ler? Digo, ler. Livros. Porque ler, leio o dia inteiro, como todos, e por profissão, obrigada a ficar grudada na tela do computador, ou do celular, ou da tevê. De dificuldade de dormir, que vem sendo problema para grande maioria, não sofro, especialmente. Mas nunca tive tantos sonhos loucos, estranhos, a ponto de acordar muito mais vezes que o normal durante a noite.

A cabeça chega a formigar de tanto pensar. Muito nas histórias vividas com aqueles que se foram; na torcida para que alguns se recuperem logo, quando caem doentes. No que será daqui para diante, como continuar sobrevivendo. Qual despesa cortar mais ainda. Nas contas que sem parar penetram por debaixo da porta, alertando como os meses passam rápido. Pensar em até quando o país suportará o momento político grave e distópico que enfrenta. No tal novo normal, que me parece muito pior do que o antigo normal.

Quando a cabeça ferve, saio para caminhar em áreas livres ou ir até ali comprar alguma necessidade essencial. Mas, vejam, não tem clima. E cada vez mais literalmente. Desmatamentos, queimadas, tudo transtorna o ar que respiramos. Não há música nos fones de ouvido que façam esquecer esse todo. Do sofrimento das crianças mortas, torturadas, às mulheres assassinadas, no tudo que deve estar acontecendo no interior de muitas casas nesse exato momento.

E mais realidade. O encontro nas ruas com pessoas com fome, essas sim, definhando, definhadas, literalmente. Suplicando, envergonhadas por terem de fazer isso. Fome que transparece no olhar. E não há olhar mais triste do que esse.

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Ps: Se você se interessar, pode ler o artigo que citei, aqui: https://www.chumbogordo.com.br/38643-estamos-definhando-por-adam-grant/

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Marli

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ENCONTRO DA CULTURA CIGANA. IMPERDÍVEL. Viva Santa Sara Kali!

AJUDEM A DIVULGAR!!! —–

ENCONTRO DA CULTURA CIGANA:
DE ITANHAÉM PARA A INTERNET

Há mais de uma década, a produtora de eventos Santuarium Cultural promove o Encontro da Cultura Cigana. É uma celebração repleta de shows, dança, exposições, palestras, procissões e muito mais. Feita como homenagem à Santa Sara Kali, a padroeira dos roma (Ciganos). Inclusive, com origem em grandes eventos internacionais, como a Saint Maries de la Mer, que acontece na cidade de Camargue na França.

O evento faz parte do calendário oficial do município de Itanhaém desde 2011, aprovado através de projetos de lei.
Para a edição de 2021, a Santuarium Cultural foi contemplada pelo programa PROAC LAB (LEI ALDIR BLANC), que garantiu um aporte maior no investimento do evento, que somado à união da família Santuarium sob a liderança de Luciana Dara (produtora cultural e militante étnica), e de parceiros relevantes, da estatura de Heitor Werneck (parada LGBT São Paulo), Edgard da Silva (produção EmCena Brasil) e Emerson Pantaleo (revelando São Paulo), seguramente assume um outro patamar no cenário de eventos de cultura e diversidade.

Devido à pandemia de COVID-19 e as limitações de realizar um evento com público no local, tivemos que mudar e nos reinventar: a 11ª edição será via Lives Online! Onde há desafios, há superações.

Contando com 7 bandas, mais de 50 apresentações de dança, contação de história, show circense e participação indígena! Por exemplo, apresentações de Coral Indígena da Aldeia Rio Branco, aula aberta de dança cigana por Aysla Martins e feira online de expositores de diversos artesanatos regionais. Ocorrerá de 23 de abril a 25 de abril, transmitido ao vivo das 14h às 22h. E o melhor: o evento é gratuito! Basta acessar a live e apoiar os artistas e expositores.

CONFIRA AQUI O NOSSO TEASER NO YOUTUBE!

https://www.youtube.com/watch?v=d6gsxlWrBrc

É possível acompanhar a programação nas nossas redes sociais. Porém, a live vai ocorrer simultaneamente no evento do Facebook e no Youtube da Santuarium Cultural. Esperamos manter o público de sempre e ainda aproveitar a oportunidade no mundo digital para levar a Cultura Cigana a todo o Brasil!

Instagram: @EncontroDaCulturaCigana
Evento Facebook: bit.ly/EncontroCulturaCigana
Canal do Youtube: www.youtube.com/user/TheDara1969

RESUMO SOBRE O EVENTO


O Encontro da Cultura Cigana sempre teve grande procura de público e, neste ano, depois de mais de uma década, terá sua primeira versão online.

Com músicos, artesãos, oraculistas da tradição, rituais, apresentações de dança e a presença de renomados nomes da cultura cigana. Além de expositores, workshops sobre a cultura e dança cigana com professores conceituados em todo o estado de São Paulo.

Representantes de etnias locais, como indígenas e caiçaras, participam do evento como parte de um movimento de culturas tradicionais. Ocorrerá também, no 2º dia de evento, a homenagem à santa SARA KALI (padroeira do povo cigano), já aguardada em todos os anos pela procissão.

SOBRE A SANTUARIUM CULTURAL
É especializada em eventos místicos e Esotéricos. Fundada em 2006, desenvolve, organiza, promove e estrutura feiras e eventos levando um staff de oraculistas, expositores e grupos de danças. Já realizou mais de 30 eventos em vários locais no Brasil.

IMPRENSA:

HEITOR WERNECK – 11- 938031319

📱 (11) 99463-7514
📧 santuariumcultural@gmail.com

fonte: organização do evento

ARTIGO – O que foi feito do coitado do plural? Por Marli Gonçalves

Se letras matassem fome, se pudessem ser transformadas em alimentos, e fossem recolhidos todos os “S” esquecidos por aí com a maior normalidade, uma parte desse problema tão grave estaria exterminado. Mas, infelizmente, aponta apenas para o que fazemos da língua portuguesa nesse país que tanto despreza a Educação.

 S - plural

Não lembro de outro momento onde tenham sido feitas tantas entrevistas com a população, com gente comum, do povo. Seja nas ruas, na frente dos postos de saúde, hospitais lotados, ouvindo apelos ou denúncias; seja por intermédio da internet, pelas telas dos celulares ou computadores de quem está isolado em casa, ou em algum lugar distante. Seja, ainda, pelo envio às tevês de vídeos, incentivados por campanhas ou apelos de apresentadores para que as pessoas expressem suas opiniões ou reclamações.

No jargão jornalístico chamamos (ou chamávamos, porque tantas coisas têm mudado e perdido o sentido ultimamente, que já nem sei mais) de “Povo fala”.

Sempre foi uma forma importante de consulta, e sempre mostrou um retrato fiel de nossa população. E cada vez mais mostra também o quanto a linguagem tem sofrido. Os plurais, entre os mais afetados, coitados, esquecidos pelos cantos. E nem estou falando só de linguagem quase institucionalizada, regional, “um chopps, dois pastel”, que virou ironia para paulistas. Mas atenta à uma certa preguiça de pensar que leva ao constante desvio da norma culta. “Nós vai, nós vem” e tudo bem.

O outro coitado, o dinheiro nacional já tão desvalorizado, o real. Não há Cristo que o multiplique desse jeito, com o popular hábito de deixá-lo sempre no singular. “Dois real”, gritado tanto em centros de comércio, como expresso nas respostas dos balconistas: “custa só 100 real”.

O extermínio do plural também tem sido muito acompanhado pela não conjugação dos verbos. Há conjugações completamente esquecidas, em suas flexões, tornando-os com suas juntas duras, e frases sem alongamento. Algumas dessas formas, quando usadas, causam até espanto, perplexidade. As mesóclises, por exemplo – a colocação do pronome no meio do verbo – do ex-presidente Michel Temer, foram para a história da política. Jânio Quadros também foi outro muito chegado a essas formas. Mas ainda tem a próclise e a ênclise… Nossa língua é mesmo cheia de bordados.

Em compensação, uma praga, talvez porque reclamamos muito do elitismo de uns, da rudeza e simplicidade de outros, como o Lula, ou dos desvarios das frases de Dilma, suportamos agora, de Bolsonaro, as falas mais tortas e palavras mal digeridas proferidas diariamente, que atacam inclusive a democracia. Só pode ser praga. Nenhuma de suas orações servem ao progresso.

O futuro do pretérito do indicativo, o pretérito mais-que-perfeito, o infinitivo pessoal, o pretérito imperfeito, o Infinitivo impessoal composto, de mãos dadas com o gerúndio composto, se jogam deprimidos por aí, continuamente ameaçados e horrorizados inclusive com a forma como um dos seus familiares – o gerúndio – se aclimata tão bem no país que tudo posterga. Nada mais é realizado, mas estará sendo; ninguém mais liga, “vai estar ligando”, e por aí vai a valsa, rodopiando, rodopiando.

Nosso povo é plural, decerto. Esperamos que cada vez mais isso fique claro e seja respeitado. Mas aprendemos muito sobre formas corretas lendo – e nossos livros agora estão sob ameaça de taxação que ainda os fará mais caros do que já são. Aprendemos também com o que ouvimos, e nas tevês – basta prestar atenção – até a publicidade, antes tão bem cuidada, comete assassinatos, seja em plurais, conjugações, ou em vícios de linguagem, estes vilões que poderiam ter uma Cracolândia só para eles: barbarismos, arcaísmos, neologismos, solecismos, ambiguidades, cacófatos, ecos, pleonasmos, estrangeirismos, estes ultimamente beirando o insuportável.

É um tal de “sair para fora”, “entrar para dentro”, “nunca ganha”, “boca dela”, que doem nos ouvidos. Só não mais, “tipo”, do que a estranha língua falada pelos participantes do BBB e as letras dos inacreditáveis funks que assolam a música nacional.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Em cartaz, o filme de nossas vidas. Por Marli Gonçalves

Onde? Filme rodando, diariamente, em branco e preto e colorido, em nossas cabeças, em horários especiais. Quando estamos sós, quando sabemos da morte de tantos, ou de mais um alguém que fez parte de algum capítulo inesquecível

Às vezes apenas um filme de terror. O medo espreitando em cada esquina, em cada necessidade de sair de casa. Naquela dorzinha de cabeça que você sempre teve, mas agora ela é quase paranoica se persiste. Em cada espirro ou tosse, antes bem normais principalmente em quem vive em cidades poluídas como São Paulo. Sente frio, vira calafrio, põe logo a mão na testa para sentir se está com febre; se possível, verifica a oxigenação. Palpitação, taquicardia, ansiedade, sono agitado, pesadelos muito piores do que os imaginados em “À meia noite levarei sua alma”, “O massacre da Serra Elétrica”, ou em filmes de vampiros, zumbis (esses, então, tenebrosos) e tantos outros rodados enfocando doenças, hospitais, vírus, invasões extraterrestres e…pandemias. A sensação não é só de longa metragem, mas de seriados, e com várias temporadas, maratonadas, corridas por horas, mas pela vida, para nos manter, de alguma forma, por aqui.

Às vezes apenas um filme melancólico. A gente agora fica sabendo de quem até há muito não se tinha notícias, e agora sabe desse ponto final. O filme roda. Aquele telefonema que não deu – do que teriam conversado? Aquele prometido encontro adiado tantas vezes – “Vamos nos ver?” – e que agora em outras situações nessa pandemia se repete assim: “Quando acabar tudo isso, vamos nos encontrar, hein?”. Teremos tempo para tantos encontros que vêm sendo prometidos? Já tive vários deles, cancelados. Por essa força maior do fim.

E tudo isso não acaba, não acabou, piora, vem e vai. E a pessoa foi. Não deu tempo. Por onde anda mesmo aquela foto linda que a gente tinha, juntos? E toca o filme na cabeça lembrando cada momento, a vontade de homenagear e que na hora você fica até sem palavras tantos são os trechos do filme a ser montado, se possível fosse editá-lo.

Ir às redes sociais hoje é ser informado de mortes, às pencas. Terrível.  Grande parte, sem dúvida, de pessoas que você nem conheceu, mas seus amigos, sim. Suas mães, pais, avós, amigos, irmãos. Você vê as imagens, as fotos, sente a dor deles, gostaria de dizer algo que os acalentasse, mas como? Não há emoji – há pouco apareceu um, significando “força”, mas é até irritante. Melhor, se usar símbolo, o da carinha chorando. Muitas vezes, inclusive, melhor mesmo é ficar quieto, passar batido. Mandar uma boa vibração, mesmo que a pessoa não saiba – é, garanto, do que ela precisará para continuar a rodar o seu próprio filme.

Às vezes, um filme romântico. A morte de alguém que você já amou traz outras cenas, às vezes acompanhadas de música, além de bons momentos lascivos, se os viveu. Se não, se platônica foi essa paixão, resta riscá-la de vez do seu caderninho. E quando ainda ama muito e, embora possa por vários motivos estar distante, fica sabendo que essa pessoa está no leito de um hospital lutando pela vida? Talvez ela não tenha chances, talvez nunca saiba do roteiro e das cenas que você planejou e ainda tinha tantas esperanças de rodar. Ou reprisar.

Vivemos certamente um dos momentos mais emblemáticos de nossas histórias, embora agora entendamos que tudo sempre pode ainda piorar, e que outras gerações já chegarão com essa marca vinda da destruição acelerada da natureza, da incapacidade humana ou de sua incrível capacidade para o mal. A morte do menino Henry Borel, agora mais clara, elucidada com detalhes, nesse momento de comoção nacional materializa em si a agonia das já quase 350 mil mortes em nosso país, que parecem pouco sentidas.

Como se todas fossem esse menino, um brasileirinho que sorria, pulava, cantava, mas não conseguiu comunicar a tempo o que sofria diante de quem deveria amá-lo e proteger. Deixado nas mãos de quem, exatamente como quem agora governa o país, violento, cheio de papos de religião, ética, moral, de um lado, e que quando virado ao avesso, espremido, dele só sai violência, sangue, morte, frieza. Ou tentativas de escapar, entregando o “corpinho”. Ou frases que calam terrível e dolorosamente em todos nós, como a que o assassino ousou dizer ao desolado pai de Henry: “Vida que segue, faz outro filho”.

No final deste filme pavoroso que assistimos, ao vivo, além do que se passa em particular em nossas cabeças, dessa realidade toda, será que conseguiremos, depois, sei lá, fazer outro país?

Porque este aqui, este cenário geral, a locação onde rodamos os nossos filmes particulares, não anda nada bem; e não há maquiagem que corrija esses protagonistas.

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MARLI

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Hospício Brasil ou Brasil, Hospício de todos? Por Marli Gonçalves

Será um plano maligno para que todos fiquemos totalmente insanos, e que acabemos por cometer alguma loucura para salvar o país deste hospício? Porque não é possível que a gente passe mais uma semana como essa, sem que a nossa sanidade seja comprometida

Segunda, terça, quarta, quinta…a pressão sobe e desce descontrolada, a ansiedade e a inquietude dominam. Uma hora a gente acha que o golpe vem aí, em outra, que o golpe até já foi dado. Minutos depois, o assunto é outro, e a avalanche continua. Você entra no chuveiro e quando sai já aconteceu ou ouviu mais algum desatino vindo lá de onde você sabe.

A pandemia se agravando, mais de três mil mortos por dia, vacina que não chega para todos, oxigênio e medicamentos que faltam. A miséria se espalha, e não há como sair, mesmo que apenas até ali, sem encontrar alguém mendigando, envergonhado, por fome. E um povo preocupado que os shoppings estão fechados, as festas rolando por aí, com gente jovem reunida rebolando funks, cassinos clandestinos sendo fechados todos os dias, revelando sempre um mesmo tipo de gente odiosa e uniforme.

No Rio de Janeiro, três crianças – pobres, pequenos, pretos, mirrados – sumidas há três meses, Fernando Henrique, 11, Alexandre, 10, Lucas Mateus, 8, saíram para brincar e não se soube mais deles, o tempo passa e eles não aparecem nem nos noticiários. Nos noticiários está outra criança, Henry Borel, 4 anos, morto. Como? Mais um caso envolvendo um político, miliciano, o tal vereador Dr. Jairinho, paidrasto, que pelo entendido até agora aterrorizava o menino nas barbas, ops, cílios, da própria mãe que com ele se juntou há alguns meses. Coitadas das crianças, e o que também devem estar sofrendo nesse hospício que se tornou o país, dominado no poder, ocupado na política por um bando dessa gente, repito, odiosa e uniforme, um padrão.

No país que este ano, ao contrário da tradição de só começar depois do carnaval, parou totalmente exatamente depois dele. E vai continuar parado e chorando se depender do real entendimento geral do que passamos, do que está acontecendo. Já é catastrófica a incrível normalização de tantas mortes diárias, de perdas, e o dia seguinte, o dia seguinte, tudo parecer normal até que novos números superem os anteriores e tudo se repita hora após hora, hora após hora, no seu tique-taque infernal e contínuo. Quando, talvez um dia, pudermos ver com clareza o saldo de vidas e histórias e futuros perdidos, esse saldo será julgado.

Comecei falando do temor, do golpe, vejam só a preocupação que temos de ter enquanto esse “ser” estiver no comando da Nação. Os militares mexeram suas pedras, e todos foram trocados de uma vez só de todos os poderes por, pelo visto, a sua maioria não aceitar o envolvimento das Forças Armadas nas pretendidas loucuras de um capitão descontrolado. Agora, sob novo comando, aparecem os substitutos, que entram mudos e saem calados. A apresentação para a imprensa me pareceu um desfile, sim, mas de moda, como se novas fardas estivessem sendo lançadas por manequins. Primeiro, postados de lado, um atrás do outro, os três. Quando seus nomes eram ditos, viravam-se de frente para a plateia por segundos, logo retomando uma dura e ensaiada posição inicial. Exatamente como nos desfiles de moda, assim que o “estilista”, o Ministro da Defesa, sai do ambiente, eles saem atrás, em fila, sumindo atrás de uma porta.

Mas nesse hospício todo, ainda há humor! O Datena há semanas em seu programa grita a tarde inteira “Só no nosso?”, mostrando vídeos do povo reclamando de preços, de tudo, e em clara referência que “nosso” é esse, a que parte do corpo se refere. Agora, até gostei, o governador João Doria resolveu responder também com humor ao ridículo apelido que os bolsonaristas insistem em usar contra ele, chamando-o de calça apertada, como se isso fosse grande ofensa. Doria prometeu vacinar todos eles, a começar pelo Eduardo Bananinha Bolsonaro, o filho 03; e com calça apertada, frisou.

Aliás, qual o problema desses caras com as calças do governador? Não é muita falta do que fazer? É ou não é um grupo que faz do país um hospício, que apenas faz mal e tenta nos enlouquecer? No mínimo, de raiva. Não estamos – ainda – com camisa de força, embora imobilizados; mas, sim, totalmente isolados, inclusive nas fronteiras, do resto do mundo, por sermos considerados bem perigosos.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Soluços, prantos e os novos sentidos. Por Marli Gonçalves

Ocorre uma verdadeira revolução dos sentimentos, sentidos e da natureza humana. Os cinco sentidos mais conhecidos, paladar, olfato, visão, audição, tato, estão transtornados. Os prantos e os soluços pela perda de tanta gente amada agora são rotina

Haroldo Lima – 43 anos de amizade, e a tristeza da perda

Não sei como um dia serão atualizados, estudados ou descritos esses sentidos, somados a tantos outros de que o corpo humano é capaz. Sei apenas que essa semana experimentei fortemente dois deles, soluços e prantos. Depois de tomar um soco no estômago ao saber da morte, em Salvador, de Haroldo Lima, pondo termo a uma amizade mais do que especial e de admiração mútua de 43 anos, caí em prantos, depois transformado em soluços; em seguida, uma prostração incontrolável tomou conta de meu corpo. E se passou um filme de todo um tempo e acontecimentos.

Aos 81 anos, vítima de Covid, a morte de Haroldo Lima deixa, antes de mais nada, um hiato no país, onde em toda sua existência esteve sempre – se de forma certa ou errada, radical ou não, não cabe agora analisar – à frente da luta pela liberdade, igualdade social, identidade nacional, associando garra, conhecimento geral e uma doçura poética e destacada que todos o que com ele conviveram podem atestar.

Mas aqui, na minha vida, ficou um buraco. Das poucas pessoas que me restavam constantemente preocupadas comigo, que me incentivavam em todos os momentos a seguir firme, a escrever, publicar. E a única, além de meu pai, que só me chamava por Márli, acentuando assim com seu sotaque, dando outra saborosa sonoridade ao meu nome.

Na clandestinidade, sobrevivente da chamada Chacina da Lapa, ocorrida em 76,  a primeira vez que o vi chegava todo arrebentado de torturas sofridas para o “julgamento” (se é que aquilo podia assim ser chamado) ali na Justiça Militar, um predinho na Brigadeiro Luis Antonio, e que naquele momento, por artifícios e atividades políticas, pouco mais de 18/19 anos de idade, na faculdade, eu conseguia acompanhar. Claro, mentindo para os soldados da porta, como se fosse filha de algum daqueles fardados de cara feia e olhos tapados para as torturas sofridas, visíveis no rosto e em todo o corpo, de seus réus.  O advogado era José Carlos Dias, destacado criminalista que anos depois foi Ministro da Justiça de FHC. Julgamentos inesquecíveis, que marcaram minha vida e trajetória.

Dali, depois integrando o Comitê Brasileiro pela Anistia, CBA, nos encontramos, ele e todos os outros muitos  presos políticos desse momento, no Presídio Militar do Barro Branco, na militarizada Zona Norte de São Paulo. Todos os sábados os visitava. Acompanhava as suas famílias, seus filhos ainda pequenos. Trocávamos conhecimento sobre feminismo, marxismo, política, geologia. (Procure saber mais. Haroldo também foi deputado constituinte; entendia disso tudo, daí ter sido diretor geral da Agência Nacional de Petróleo, ANP, durante todo o Governo Lula). No particular, o chamava de Mister Petrolinho.

Pois foi ali, na prisão, que nasceu essa amizade especial que perdurou até a última quarta-feira, quando essa maldita doença o levou. E amizades nascidas na luta, na solidariedade, no sofrimento e nas vitórias, têm bases mais sólidas.

Volto assim a falar dos sentidos, do olfato e do paladar perdido, do ar que não se consegue respirar quando se é contaminado, do gosto amargo de tantas vidas perdidas, da falta de tato,  visão e a surdez dos dirigentes que deixaram que as coisas tanto se agravassem e que pessoas fundamentais para cada um de nós estejam sendo dizimadas por não terem tido nem ao menos tempo de serem imunizadas.

Agora resta esperar que os prantos, os soluços, a dor dessas perdas, tornem todos os nossos sentidos mais fortes e que possamos continuar o sonho que todos eles sonharam, de transformação desse país em um lugar melhor e justo.

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PS.: Há alguns anos, a meu pedido, para um livro que acabou não sendo publicado, Haroldo mandou essas linhas, até agora inéditas:

“Sábado era o dia de visita no Presídio Político de São Paulo, o presídio do Barro Branco, onde eu cumpria pena, em 1977. Os familiares traziam aconchego, notícias boas e ruins. E havia gente que se sujeitava a ser “fichada” e “revistada” para se solidarizar conosco. Nós, presos, ficávamos sensibilizados.
Uma jovem de 19 anos aparecia aí, abraçada com seu jornal, o “Nós Mulheres”, dando força para a Anistia, era Marli. Conhecimento feito nessas circunstâncias nunca será olvidado.O tempo passou, veio a Anistia, duas décadas na Câmara, quase uma na Agência Nacional do Petróleo e, lá pras tantas, passo a receber, semanalmente, uma crônica bem urdida, escrita com maestria, sobre a vida, costumes, ideias e …mulher.
Quem a escreve? Marli Gonçalves.Já não é mais um projeto de jornalista, mas uma cronista da estirpe dos escritores. Seus comentários revolvem o cotidiano, a “vida como ela é”, com ela gracejam, batem num lado e noutro, transparecem espontaneidade e vislumbram na mulher trejeitos inesperados. 
Como escritora que se lança, Marli Gonçalves perfila-se ao lado dos que se esmeram na composição do texto, na arte de burilar a frase primorosa, precisa, concisa, ritmada e sonora. O vernáculo ganhará com a prosa apurada que brota de sua lavra.”     

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ARTIGO – E o que ele é? Por Marli Gonçalves

Um homem que nos desgoverna e ameaça, para o qual um punhado de expressões e adjetivos bem fortes para defini-lo ainda é muito pouco, nos inquieta e aprofunda a crise. A articulista Mariliz Pereira Jorge listou dezenas deles (os reproduzo ao fim desse texto, além de outras descobertas) e logo foi ajudada por sugestões de outros epítetos. Como os propostos pelo jornalista,  dicionarista, professor, autor do “Dicionário do Nordeste – 10 mil palavras e expressões”, Fred Navarro: …“acabador de feira /bexiguento /caninguento /casco de cuia /estrompa /filho de chocadeira /jumento sem mãe /mandioca que jegue não rói /oficial de caveira /papel de enrolar prego /peitica da velha chica”…

E O QUE ELE É

Bem, no mínimo nosso vocabulário ficará muito mais rico.

Não feche os olhos, não se faça de bobo, não se omita, preste atenção enquanto é tempo. A crise política e social do momento é gigantesca, se agrava, muito além de milhares de mortes e contaminações que nos assolam diariamente, e que também dela claramente resultam.  Falamos de mortes, de uma doença que se alastra, de muitas pessoas com sequelas, da falta de uma política de vacinação nacional e una.  Da falta de insumos hospitalares, leitos, oxigênio. Falamos da tentativa de estrangular a liberdade. De um país com a economia claudicante e sem rumo, com a miséria alastrada. Falamos de um país onde seres do mal, de ódio, aprofundam as feridas, ameaçam, sem compaixão, apoiados por robôs que os alimentam desse fel. Isso não vai acabar bem.

Ando, e creio que muitos de vocês também, muito aborrecida e atônita com o momento tenebroso que vivemos, em todos os sentidos. Querendo agir, mas não sabendo exatamente como; além dos textos, artigos, comentários, explicações, queria poder mais, chegar mais longe com minha voz, propor ações mais efetivas. Mas é como se todos estivéssemos amarrados ou rodando em círculos. Isolados, se conscientes, sabemos que não podemos ir às ruas. O som das panelas e das janelas apenas nos diverte um pouco e desanuvia. Parece, e isso é terrível, que nos sobra ficar xingando o homem de tudo quanto é nome, espalhar os memes, as charges. E protestar nas redes sociais. Mas isso é muito pouco quando já ocorrem prisões e pressões em cima de quem se manifesta, mesmo que apenas com uma faixa de pano.

Assistindo à live de lançamento do livro “Um mar vivo de corações expostos” (***), seleção de crônicas de quatro amigas jornalistas, ouço uma delas falando sobre a atividade de escrever crônicas. Como nós, cronistas, nos inspiramos. Ela citou as rosas de um jardim, o cotidiano simples, o que vemos à nossa volta. Chorei. Porque o que tenho visto à volta, quando busco o tema do artigo semanal, cada vez mais se afasta do que eu tanto gostaria que fosse inspiração – aos temas do comportamento que me são caros! Como a questão feminina, sexualidade, imprensa, histórias vividas, literatura, mas isso tudo, tão importante, acaba ficando em segundo plano porque precisamos voltar ao campo de batalha para evitar que o país mergulhe novamente em anos de horror e ainda mais retrocesso.

À esta altura da vida, depois de passar toda uma fundamental fase da vida perturbada por uma ditadura militar, agora já chegando à terceira idade, dói muito ver esse horror todo sendo novamente, em 2021, festejado a 31 de março, aplaudido pelo ser de tantos adjetivos, que não sabendo o que fazer, inábil e despreparado para o cargo ao qual foi alçado, junto ainda com toda uma família tão problemática quanto ele, traz tanta desilusão a todos. Aos que nele votaram, enganados, e que hoje entre os mais indignados conseguem ver que as promessas eram balelas.

Aos que tentaram, desde bem antes, avisar sobre o desastre que se aproximava com a polarização entre o ruim e o pior, e entre os quais me incluo, ao sentir o quanto tínhamos razão, resta – pelo menos por enquanto – manter a sirene ligada, e nas expressões faladas em todo o país, definir o que ele é, e isso ainda é muito pouco.

Mais sugestões, sobre o que ele é? ( _______________________)

Expressões escolhidas por Mariliz Pereira Jorge, em artigo na Folha de S. Paulo: “Ignóbil. Basculho. Baixo. Repugnante. Canalha. Deplorável. Mesquinho. Patife. Ordinário. Reles. Pulha. Sórdido. Torpe. Velhaco. Abominável. Detestável. Ralé. Biltre. Infame. Bandalho. Aberração. Calhorda. Desprezível. Pífio. Ignorante. Vil. Ribaldo. Soez. Jacodes. Cafajeste. Bronco. Inculto. Boçal. Néscio. Estúpido. Rude. Verme. Desgraçado. Maldito. Jumento. Monstruoso. Sádico. Burro. Insensível. Mentecapto. Demônio. Desalmado. Incapaz. Covarde. Crápula. Incompetente. Doentio. Sociopata. Peste. Idiota. Energúmeno. Reaça. Desequilibrado. Imoral. Rato. Mandrião. Beócio. Abjeto. Descarado. Pusilânime. Enxurro. Choldra. Gentalha. Labrusco. Desrespeitoso. Cruel. Facínora. Atroz. Maligno. Cafona. Execrável. Infando. Nefando. Abominável. Inclemente. Mau. Sicário. Viperino. Tirano. Impiedoso. Desumano. Malfeitor. Celerado. Estrupício. Chorume. Louco. Escroto. Lixo. Inútil. Escória. Ogro. Mitômano. Ególatra. Tosco. Verdugo. Mentiroso. Asno. Babaca. Déspota. Autoritário. Morte. Opressor. Tapado. Mandão. Autocrata. Desnecessário. Safardana. Prepotente. Abusivo. Injusto. Reacionário. Fascista. Cínico. Animal. Desaforado. Histrião. Grosseiro. Vulgar. Malandro. Inconveniente. Sujo. Sem-vergonha. Obsceno. Brega. Charlatão. Perverso. Monstro. Ditador. Embusteiro. Horrível. Desnaturado. Carrasco. Egocêntrico. Mariola. Salafrário. Imbecil. Lunático. Bufão. Garganta. Farofeiro. Farsante. Oportunista. Indefensável. Broxável. Carniceiro. Irresponsável. Excrementíssimo. Marginal. Praga. Traiçoeiro. Criminoso. Terrorista. Asqueroso. Cu de boi. Podre. Capiroto. Embuste. Lazarento. Indecoroso. Desmoralizado. Imprudente. Maléfico. Parasita. Delinquente. Seboso. Coisa-ruim. Quadrilheiro. Arrombado. Mau-caráter. Frouxo. Fracassado. Ressentido. Obtuso. Boçal. Brutamontes. Cavalgadura. Descortês. Lorpa. Pateta. Cretino. Parvo. Pacóvio. Inapto. Desqualificado. Pequi roído. Genocida.”
Expressões escolhidas pelo advogado paraibano Olimpio Rocha: “Abigobal. Zé Mané. Zé Ruela. Abestalhado. Otário da bocona. Mané de bota. Chupa-cabra. Cri-cri.  Malassombro. Mequetrefe. Frouxo. Rascunho do mapa do inferno. Fi dum que ronca e fuça. Fi da peste. Orelha seca. Pangaré. Catingoso. Fedorento. Peidão. Mistura de jabaculê com cobra d’água. Cara de tabaco. Tabacudo. Zarolho. Ratoeira. Requengelo. Malacabado. Xexeiro. Infeliz das costa oca. Cão dos inferno. Cachorro da moléstia. Sapo cururu. Chibata. Carai de asa. Asilado. Sibito baleado. Bocoió. Cara de fuinha. Mamulengo. Piranqueiro. Amarrado. Bicho véi leso. Catarrento. Arengueiro. Zambeta. Zureta. Xoxo. Peste bobônica. Bexiga lixa. Bexiga taboca. Goguento. Cara de butico. Bexiguento. Troncho. Sobejo. Afolosado. Batoré. Bisonho. Brebote. Espinhela caída. Fuleiro. Folote. Fubento. Malamanhado. Miolo de pote. Fi duma égua. Mundiça. Roscói. Truscui. Despombado. Inhaca. Cambão. Encangado com Satanás. Gabiru. Mazela. Gasguito. Gastura no pé do bucho. Bucho de soro. Não tem no cu o que o priquito roa. Catrevagem. Do tempo do ronca. Doido bala. Catraia. Cão chupando manga. Febre do rato. Febre tife. Não vale um cibazol. Besta amojada. Desmilinguido. Peitica. Ingembrado. Não dá um prego numa barra de sabão. Preguento. Presepeiro. Frangueiro. Topada no dedo mindinho. Cancro. Bicho véi paia. Donzelo. Cruzeta.  Apombaiado. Peba. Fuleiragem. Aluado. Cu de novelo. Cu de boi. Miguezeiro. Cabrunco. Farrapeiro. Rafamé. Alma sebosa. Bocó. Mancoso. Morgado. Cabra bom de peia. Mouco das oiça. Bom pra rebolar no mato. Ariado. Bate fofo. Entojo. Abilolado. Xeleléu. Visagem do capeta. Velhaco. Tamborete de cabaré. Sem futuro. Saliente. Seborreia. Pomba lesa. Empata foda. Perebento. Ferida lambida. Papangu. Monga. Laurça. Buchada azeda. Maluvido. Grudento. Langanho. Juda. Garapeiro. Fi do cranco. Fi da gota serena. Fiofó de macaco. Resto de sulanca. Encruado. Cheio de verme. Engilhado. Encardido. Enjeitado. Cabuêta.  Jaburu. Caxumbeiro. Virado no satanás. Aperreio no juízo. Filhote de lombriga. Marmota. Não vale o peido duma jumenta. Babão de milico. Papa-figo. Véi do saco. Cafuçu. Garapeiro. Inferno da pedra. Mói de chifre. Quentura do pingo da mei dia. Remelento. Rola-bosta. Genocida.”

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(***) “Um mar vivo de corações expostos”, seleção de crônicas de Teresa Ribeiro, Nanete Neves, Eliana Haberli, Elizabeth Lorenzotti, Editora Lavra, 2021

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – O buraco, blefes e as cartas embaralhadas. Por Marli Gonçalves

Sopraram uma ventania no castelo de cartas. Ele já estava bem desarrumado, é verdade. Mas agora nos vemos jogados em disputas que lembram bem os jogos mais tradicionais, começando pelo buraco, passando pelo mico, rouba-montes…

Jogadores que quando se reúnem no campo usam negras togas, 11 ao todo nessa partida inicial. Um, de casa, se adianta e bombardeia, surpreendendo com carta escondida na manga. No mundo da política e da Justiça, uma decisão judicial da mais alta corte abre uma estrada enorme no tabuleiro e tira do xadrez, pelo menos no tempo de muitas jogadas, uma figura proeminente do jogo nacional do poder. Um estrondo enorme, logo seguido de outras combinações, jogadas, trucos, pifes, pafes, empáfias. Pronto. Agora o jogo é “pegue o detetive” que no dia seguinte já aparece caçado por outra proeminente decisão levada à mesa, que pretende anular todas as suas investigações e jogadas. Um mais novinho do grupo por ali, pula a casa, adiando o resultado. Dois se movimentam no tabuleiro, enquanto os outros observam os movimentos, com cartas fechadas, alguns de outras salas, outras turmas. Segue o campeonato de braço de ferro.

O coringa aparece e discursa.  Fala sobre tudo, mais de uma hora, e a partida transmitida ao vivo se espalha mais do que telefone sem fio. A mensagem assusta o inimigo encastelado, que já não anda bem, nervoso, perdido, meio alucinado com uma equipe de aliados que sabe pode perder rapidamente e ser bombardeado e afundado como se estivesse em uma batalha naval, já que vários dos seus navios, mal posicionados,  já foram avistados. Imediatamente aparece de máscara, anuncia medidas desencontradas, e põe à sua frente um globo terrestre bem redondinho. Quer jogar War, mas um War contra si mesmo, tenta contrapor Estado contra Estado.  Perde a compostura, que já não era muita, ameaça, xinga, esculhamba. Cada vez mais vira piada, jogador marcado, birrento, pouco confiável.

O pessoal do Banco Imobiliário está atônito. O mercado em ebulição, sobe, desce, compra, vende, aumenta os preços. Muitas de suas peças estão imobilizadas, dado o fechamento obrigatório que os tira do ar, limita seus movimentos por muitas jogadas. Jogam dados para o ar, esperam novas cartas, recuam casas, marcam e desmarcam novas partidas.

O buraco é bem mais embaixo. O lixo se acumula sobre a mesa, sem que ninguém consiga arrematá-lo, porque está é muito ruim. Reúne declarações grosseiras, inimizades históricas, impossibilidade de comprar uma nova seleção, e a plateia que é obrigada a assistir de casa jogos tão ruins faz barulho, começa a buscar se reunir. O jogo de paciência, solitário, há muito acabou. A palavra que se forma na Forca é I M P E A C H M E N T.

A cada momento as jogadas ficam mais tensas, duplas se desfazem, canastras são desmontadas, as sequências tão necessárias desfeitas, o jogo geral fechado cheio de blefes, trucos, deslealdades, cartas escondidas, marcadas. Ninguém bate. O buraco vira cratera.

O problema é que não há mais só um morto para pegar e encerrar a partida, “bater”.  São mais de 270 mil mortos, e aumentando a cada minuto, sem que as vacinas apareçam para ajudar o pessoal da medicina que enxuga gelo para tentar salvar mais vidas de todos que estão vendendo o almoço para pagar o jantar.

Olha o mico. De verde, amarelo, azul e branco.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Olhos nos olhos. Por Marli Gonçalves

Com o uso mais intenso das máscaras nos rostos precisamos aprender a lidar com as informações dos olhos que ainda conseguem fugir, transparecer dos olhares das pessoas, e elas têm trazido, de um lado, transparentes, a aflição, a visão do medo, da tristeza, a indignação; de outro, vocês sabem qual, e que nem máscara usa, apenas o ódio do descontrole e incapacidade do desgoverno diário a que estamos submetidos, de onde jorram atos cruéis e ofensas a tudo o que mais prezamos

olhos nos olhos

Você se aproxima da porta da loja, apenas, sei lá, querendo olhar a vitrine quando sai para bater pernas e tomar um ar. Sente que alguém está te olhando fixamente lá de dentro, como se tentasse atrair, puxar você, e quando o seu olhar encontra o outro vê uma enorme ansiedade, como se pudesse salvar o emprego daquela pessoa. Isso quando os vendedores já não estão nas portas, e aí é mais intenso o olhar de súplica. As lojas estão vazias, e vazias, muitas, perceptível, até de vendedores em algumas maiores onde costumávamos ver movimento. O retrato de um país em crise. Crise sanitária, econômica e política, esta, agravando ainda mais a já combalida realidade da doença que avança, dizima, modifica nossas vidas como talvez muitos de nós jamais pudéssemos imaginar.

Com o anúncio de novos fechamentos – e em quase todas as regiões e cantos – ficou mais patente uma tenebrosa angústia geral, onde a maioria concorda que não há outro jeito, mas sabe que será vítima de alguma forma.

Não temos vacinas, não temos vacinas. E ficamos apenas buscando nos alegrar diariamente com as imagens dos frágeis braços dos muito mais idosos sendo perfurados. No íntimo, os invejando, porque a partir disso talvez não fiquem mais doentes, ou se ficarem, talvez não sofram, não morram, não estejam entre esses milhares, talvez não tenham de sofrer com as sequelas que perduram meses, isso quando são sanadas.

E aí a gente tem medo. Se pudesse não respirava o ar de lá de fora. Atravessa a rua quando avista grupos sem máscaras, embebeda o corpo de álcool em gel. Se aborrece quando cruza com a ignorância e ela está em todos os locais. Se é dos que não se calam, como meu caso, volta pra casa estressado porque arrumou tretas. E só queria tomar um ar.

Nos últimos dias por aqui, nas ruas, os olhos viram o afã, de correr, de comprar – já não é mais só papel higiênico que foi loucura besta do ano passado. É comprar o que puder, até porque sabemos que tudo vai aumentar, isso se houver, porque os meus olhos há muitos dias já vêm observando prateleiras vazias, desabastecimento, poucas opções de produtos da cesta básica.  Nas feiras, os preços nas alturas inibem a compra de produtos saudáveis, que talvez até nos ajudassem a ampliar a imunidade. Nas farmácias, vitaminas em cápsulas dobram o valor dia após dia. Se esgotam sim, porque o abismo econômico se pronuncia, e quem tem, tem, e cada vez tem mais. E compra tudo o que pode. Monopoliza. Estoca.

Meus olhos também já localizam claramente os olhos dos oportunistas que se refestelam – e daí muitos deles apoiem na cara dura a insanidade do maluco presidente e sua equipe, além de seus filhos e etceteras que nos provocam os mais terríveis instintos.

Os olhos, costumamos dizer, são as janelas da alma. Vejam – reparem bem os olhos deste homem – seus olhos crispados, ríspidos, transparecem seu ódio. E também o seu medo por claramente não saber dirigir, governar, não saber o que fazer, não ter como liderar do alto de sua ignorância, e fazer tudo errado, tendo de comprar cada vez mais caro e com a corrupção sua permanência no poder. Ele, eles, porque são um grupo espalhado, nunca poderão ser perdoados. Jamais. Isso não nos será negado. Seus olhos nunca mais poderão se fechar sem lembrar das pessoas morrendo de fome, agonizando por falta de ar e oxigênio, sem emprego nas filas, dormindo em sacos nas ruas onde reviram e viram o lixo.

Podem estar vacinados em suas mansões especialmente financiadas, em seus carrões. Nos iates, jatinhos, com roupas de grife. Seus travesseiros nos vingarão todas as noites. Jamais dormirão em paz. Sonharão que estão caindo, despencando. E estarão, mesmo.

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ARTIGO – Manifesto para mulheres. Por Marli Gonçalves

Algo precisa ser feito para mudar o mais rapidamente possível essa absolutamente perigosa e constrangedora situação total que vivemos, e falo dos fatos que podem ser compreendidos e conhecidos por todos. Mas, nós, mulheres, somos mais da metade da população. Somos – e não há quem possa duvidar – mais sensíveis, fortes, preocupadas e firmes. Temos a obrigação de interferir, já!

Que tal aproveitar a rasgação de seda que se aproxima com a chegada de mais um 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, para um posicionamento mais radical contra essa lufada de horror que abala o país diariamente? O Brasil, segundo dados do IBGE, tem 211,8 milhões de habitantes, 48,2% homens e 51,8%, mulheres.

Uma força considerável, que pode – e deve, deveria, irá, tenho fé – ser decisiva e se levantar para se posicionar claramente na defesa do que nos é caro, família, Educação, Saúde, direitos reprodutivos, segurança, infraestrutura, emprego, economia, onde somos a força de trabalho mais abalada durante a pandemia. A pandemia descontrolada, vivida com um governo desorientado e desorganizado que nos leva a um poço muito fundo e obscuro do qual já certamente demoraremos muito a sair, anos, talvez até mais que uma dezena deles.

Enquanto é tempo, precisamos agir, e em nome de nossa própria sobrevivência, sempre ameaçada justamente por causa de governos e políticas que não nos levam em conta, e bem sei que isso não é de hoje, não é só federal,  mas não há dúvidas que piora a olhos vistos com a negação, com os preconceitos, com a falta de visão e, agora, também, com a escalada de ataques e perda de direitos tão duramente conquistados nas últimas décadas, da qual sou parte e testemunha. Com a escalada de fatos que nos prejudicam diretamente, ou nos põe em ainda maior perigo, como por exemplo, o incentivado aumento de armas. Somente nos primeiros seis meses de 2020, 1.890 mulheres foram mortas de forma violenta, boa parte já em plena pandemia do novo coronavírus – um aumento de 2% em relação ao mesmo período de 2019; 631 desses casos os crimes foram de ódio motivados pela condição de gênero, ou seja, feminicídios.

Repetindo, o horror total, que as mulheres de todas as idades vivem já há mais de um ano dentro de suas próprias casas, nas emboscadas, nas ameaças. Tudo pior. No país obscuro, cerram-se ainda mais as saídas e aumenta, em escala progressiva, a misoginia.

Nossa representação política nos centros de debates ainda é ínfima. No poder central, praticamente inexistente, fora termos de aturar mulheres que só nos envergonham como Kicis, Zambellis, Damares, para citar apenas algumas que parecem existir e estarem ali para nos aborrecer, como capachos de homens como Jair Bolsonaro, quem, pelo que aparece publicamente, idolatram mais até do que a própria primeira-dama, Michele, a sumida, que pode nos dar razão se puder abrir a boca um dia, e que já viveu mortes por Covid-19 em sua própria família.

Tenho curiosidade em saber como uma jovem como ela consegue conviver diariamente em casa. Se ela pensa na própria filha, aquela menina de semblante triste, marcada para sempre como uma “fraquejada” dada pelo próprio pai.

Meninas! Mulheres! Nossas idosas! Pronunciem-se!

Vocês, todas, por mais até que intimamente tentem negar, sabem bem desse tudo que passamos e ao qual me refiro, uma lista enorme que não caberia em páginas e páginas. Vão sentir mais ainda a forma como somos lembradas com o tanto de propagandas de coisas que essa semana tentarão nos vender, e para que nos presenteiem, como se fôssemos, nós, as mercadorias a serem expostas no mercado.

O país está precisando muito de nós. E de vacinas. E de bom senso. Não está tudo cor-de-rosa.

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