Deliciosa história dos urubus espantados da Bienal. Por um excelente texto de Fred Mello Paiva, da Folha

 

Retirados por ordem judicial, urubus da Bienal descansam em parque em Sergipe

FRED MELO PAIVA
ENVIADO ESPECIAL A ITABAIANA (SE)

Quando no futuro se prestar homenagem à 29ª Bienal de São Paulo, que termina no próximo dia 12, será obrigatória uma deferência a Carniça, Lodo e Sujeira.

Durante os 14 dias em que dormiram, comeram e obraram na instalação de Nuno Ramos, obscureceram as demais obras.

Retirados por ordem da Justiça, deixaram uma lacuna no pavilhão _e a sensação de que fomos injustos com suas pessoas, tratadas sempre genericamente por “urubus da Bienal”.

Não é porque o sujeito é urubu que ele não tem uma história particular. Carniça, por exemplo, viveu entre o céu e o inferno. Com um tendão atrofiado, decolava tipo uma galinha –uma galinha preta.

Dessa forma, ao invés de ser atingido por um Boeing, foi atropelado por uma moto em Aracaju.

Levado à casa do criador de aves de rapina José Percílio Mendonça, 35, o animal chegou completamente escangalhado.

Percílio, que é fundador do Parque dos Falcões, em Itabaiana (SE), tinha lá um outro urubu –a Fedor.

Chegara em situação penosa: achando-se perseguida por uma pipa que enroscara no seu pé, voou até acabar o combustível. Apesar da afinidade de seus dramas pessoais, e a despeito do que sugerem seus nomes, Carniça não se dava com Fedor.

   
 
 

MOTELZINHO

Para reverter o anticlímax, Percílio foi para a mata observar como nascem os bebês Cathartes burrovianos, o urubu de cabeça amarela.

Determinado a “pôr esses dois pra namorar”, preparou “um motelzinho” a partir de sua experiência de voyeur.

Fez um ninho de pedra e um “poleiro da dança”. Foi nesse aí que a Fedor se encontrava quando o Carniça atacou pela retaguarda.

Carniça passou a viver, então, numa trepantina danada. Aos 15 anos, já produziu oito filhos –e não deixou de fazer sexo nem durante a primeira versão de “Bandeira Branca”, apresentada por Nuno Ramos no CCBB de Brasília em 2008. Sempre com a Fedor, porque o urubu, como o gavião, é fiel.

Dessa filharada vieram Lodo e Sujeira, além de Romualdo e cinco anônimos.

Sujeira, 10, é o mais proeminente. Já fez ponta em documentário japonês, e acaba de gravar um longa com Matheus Nachtergaele _”Na Quadrada das Águas Perdidas”, direção de Wagner Miranda e Marcos Carvalho.

“Ele é ator mais principal do que o Matheus”, aumenta Percílio.

ESTRELA DE CINEMA

O filme tem também a participação de Lucinha, uma coruja de orelhas que vive no Parque dos Falcões. Ela precisava latir (latiu) e pousar sobre o umbral de uma casa.

O script de Sujeira era mais complexo: tinha de seguir Matheus, trocar olhares, “comer” um jegue sedado, uma cabra, um cachorro.

Para o diretor Marcos Carvalho, trata-se de “uma estrela do cinema nacional”.

Sujeira já fez trabalho mais sujo. Em uma ocasião, foi levado a um curtume para espantar outros urubus. Deu certo até que sobrou um, com quem fez amizade. Quando está solto, costuma retornar na companhia de estranhos.

Durante exercícios para manter o peso, engana a si mesmo buscando uma corrente em que possa planar sem esforço. “Desce aqui, Sujeira”, grita Percílio, “DESCE JÁ!”.

Lodo é mais novo que Sujeira. Aos 6 anos, foi preparado para ser solto na natureza, e por isso nem deveria ter nome próprio. Com esse tipo evitam-se maiores contatos, de forma que o trabalho na Bienal foi o primeiro emprego de Lodo.

Percílio olhou para um, olhou para outro, “a Fedor enrolada com o filho que tinha arranjado em Brasília”. E foi no impulso “que se deu o escolhimento”.

No caso dos urubus, falar em mau agouro é chover no molhado. Então digamos que Lodo estreou com o pé esquerdo, alijado que foi da exposição. Não se abalou.

Conserva “aquele ar de quem parece que está falando da gente”, diz Nuno Ramos. “A sabedoria de quem olha as coisas de cima.”

Quando Nuno soube que a Folha iria até Sergipe rever os “urubus da Bienal”, escreveu à reportagem: “Dê um abraço cordial nos meus bichinhos. Diga que sinto falta deles. E que amor impossível é que é amor”.

 

Um comentário sobre “Deliciosa história dos urubus espantados da Bienal. Por um excelente texto de Fred Mello Paiva, da Folha

  1. roberto 2 de dezembro de 2010 / 13:00

    Foi dos maiores obscurantismos retirar os urubus da Bienal. Os histéricos de todo tipo grasnaram suas regras e aparentemente venceram. Na realidade perdeu a arte, com o parcial desmantelamento da excelente obra em questão. Os urubus foram criados em cativeiro e estavam muito bem tratados na Bienal.

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