Morreu nesta terça o homem que informava sobre as mortes e de como foram as vidas. Veja a dele, que emocionante. Com vocês, Toninho Boa Morte. Em dois grandes textos de amigos.

Este é do JOSÉ MARIA MAYRINK

José Maria Mayrink – O Estado de S.Paulo

Juan Guerra/AE - 15/12/08SÃO PAULO – Internado no Hospital Nove de Julho, onde acabava de se submeter a uma cirurgia, o jornalista Antônio Carvalho Mendes, o Toninho, comemorou o aniversário no quarto de recuperação, em 2009, com a equipe de médicos e enfermeiros que tratavam dele. Cantou Parabéns pra Você e distribuiu, de mão em mão, os pedaços do bolo de chocolate que lhe levaram de presente. 

“No próximo ano, vou voltar aqui para festejar meus 77 anos com vocês”, prometeu com um sorriso alegre no rosto, animado como se estivesse sarando de vez do câncer que o havia surpreendido algumas semanas antes.

Um ano depois, Toninho festejou o aniversário no Residencial Santa Catarina, onde passou a morar depois de receber alta no hospital. Queria ir ao Nove de Julho, conforme havia prometido, mas não conseguiu, porque um enfermeiro que o acompanharia estava doente. No apartamento, recebeu abraços de amigos e vários telefonemas de parabéns. O bolo com a velinha dos 77 anos foi presente dos novos amigos e amigas, seus companheiros no Residencial.

Homem extremamente solitário, que morava sozinho num sobrado da Rua Bartolomeu de Gusmão, herança da mãe na Vila Mariana, Toninho era cheio de mistérios e segredos, quando se tratava de sua vida particular. Até que falou sobre a família, quando caiu doente, mas sem dar detalhes. O filho, Antônio Victor, foi visitá-lo no hospital. Telefonava para a ex-mulher, Josefa, com quem costumava jantar e pedia notícias da neta, Mônica.

Nesses sete meses em que passou ainda mais isolado, primeiro no Nove de Julho, depois em duas residências para convalescentes de idosos, esse jornalista tão reservado que parecia ser um sujeito de poucos amigos surpreendeu-se com o grande número de colegas – e de suas famílias – que se preocupavam com ele.

“Obrigado por se interessar por mim”, agradecia emocionado àqueles que telefonavam ou que iam visitá-lo. “Eu não sabia que tinha tantos amigos”, confidenciou mais de uma vez, citando nomes de companheiros de redação que foram vê-lo. Emocionou-se sobretudo com as visitas de Ruy Mesquita Filho. E contava para todos, orgulhoso, que o jornalista Ruy Mesquita, diretor do Estado, lhe telefonava quase todos os dias.

Obituários. A vida de Antônio Carvalho Mendes Foi, durante 50 anos, a redação de O Estado de S. Paulo. Ele tinha trabalhado por algum tempo na antiga Real Transportes Aéreos, mas considerava-se só jornalista, pois não pensava em outra profissão desde o dia em que se empregou no 5.º andar da Rua Major Quedinho, antiga sede do jornal. Julio de Mesquita Filho, que para ele era “amigo, pai e mestre”, como costumava repetir, foi o modelo que sempre teve em mente. Esse respeito e amizade, de total fidelidade, estendeu-se a toda a família Mesquita.

Na vida profissional, Toninho era sinônimo de dedicação e seriedade. Chegava à redação por volta das 16 horas e era um dos últimos a sair. Responsável pela coluna de falecimentos, conferia e atualizava a relação de mortos até o fechamento da edição. Em caso de dúvidas, telefonava para o Serviço Funerário ou para parentes e amigos do morto. Se necessário, fazia entrevistas e ouvia opiniões que transformavam em reportagens as notas do obituário. Por causa do trabalho, ganhou o apelido de ‘Toninho Boa Morte’, mesmo que a contragosto.

Toninho assinou também uma coluna de Cinofilia e, de tanto escrever sobre os animais, acabou se tornando um especialista em cães e gatos. Gostava dos bichos, mas não tinha nenhum em casa. “Preciso ser imparcial”, justificava-se. Participava de júris de concursos de cães de raça, gastando dinheiro do bolso para viajar ao Rio e outras cidades quando integrava comissões de julgamento.

Censura. Durante o período militar, quando a censura prévia se instalou nas oficinas doEstado e do Jornal da Tarde, Toninho entrou em choque com os censores por causa do título “Pastor alemão vence exposição”, na coluna Cinofilia. Achavam que ele se referia ao presidente Ernesto Geisel, gaúcho luterano de ascendência alemã.

Foi de Antônio Carvalho Mendes a sugestão para que o Estado publicasse versos de Luís de Camões, para cobrir o espaço das matérias censuradas que a polícia não permitia deixar em branco. Deu a ideia ao redator-chefe Oliveiros S. Ferreira e o diretor do jornal, Julio de Mesquita Neto, aprovou. Toninho levava de casa um exemplar de Os Lusíadas para adiantar a composição do texto na gráfica.

Quando os problemas da doença começaram a se complicar, Toninho atribuiu a resistência às sucessivas cirurgias e às sessões de quimioterapia à prática de esportes na juventude,quando lutou esgrima, fez natação e correu a São Silvestre. Era torcedor do São Paulo, do qual falava sempre no plural, como se fosse membro da diretoria ou conselheiro do clube. “Nós temos de reforçar o meio de campo…”

Na política, era fanático por Carlos Lacerda e, na esteira dele, por todas as principais figuras da União Democrática Nacional (UDN), o partido que se opôs a Getúlio Vargas. Era um conservador. Católico e devoto de Nossa Senhora Aparecida, vibrou com a eleição do cardeal Ratzinger, quando ele se elegeu Bento XVI na sucessão de João Paulo II, outro ídolo seu.

“As coisas não andam bem”, dizia para começo de conversa, quando ia comentar a situação brasileira e as denúncias de corrupção no governo. Criticou o senador José Sarney até a última hora. Toninho exaltava-se ao falar dos adversários, mas, apesar das aparências, era um sujeito de bom humor que ria das próprias piadas.

Méritos. Uma de suas últimas alegrias foi ser eleito irmão remido da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, em cuja capela costumava assistir a missa nas manhãs de domingo.”Sou São Paulo em tudo – no Estado, no jornal, no clube e agora na Santa Casa”, brincou no dia da posse.

Toninho gostava de cozinhar. Como morava sozinho e não tinha geladeira em casa, comprava o essencial no supermercado ao sair da redação. “Não ter geladeira esta semana foi um conforto”, comentou ao ler a notícia de que muita gente havia tido prejuízo com o apagão em São Paulo.

Sem condições de retomar o trabalho, passou a morar num apartamento do Residencial Santa Catarina, onde fez novos amigos e onde recebia a visita de companheiros da redação do Estado. Estava sempre ligado ao noticiário, lia o jornal todos os dias e, sempre que necessário, voltava ao prédio da empresa, na Marginal do Rio Tietê.

Em dezembro de 2009, Toninho sofreu dois enfartes e teve uma parada cardíaca de cinco minutos. “O médico me ressuscitou”, comemorou com alegria, quando inexplicavelmente se recuperou da crise. Como gostava muito do Hospital Nove de Julho e da equipe de profissionais que cuidaram dele, considerava uma bênção ter de se internar ali para tratar de algum problema inesperado. Na primeira semana de janeiro, internou-se no quinto andar para combater uma anemia e acabou voltando à UTI.

Melhorou, passou dois meses no Residencial Santa Catarina, mas precisou retornar ao hospital, mais uma vez a UTI, onde morreu às 5h30 desta terça -feira.

Natural de São Paulo, onde nasceu em 20 de junho de 1933, Antônio Carvalho Mendes fez o ginásio e o colegial no Colégio Pasteur, antigo Liceu Franco-Brasileiro, no qual estudou 11 anos. Fez especialização em espanhol da Câmara de Comércio Argentina e na Casa de Cervantes, e estudou inglês na Cultura Inglesa.

Atualizado às 13h29

e este é do SERGIO VAZ:

Lembranças sobre Antonio Carvalho Mendes, o homem do obituário.

15/03/2011

Antônio Carvalho Mendes adorava o que fazia. Só essa característica já bastaria para torná-lo um jornalista diferente da imensa maioria: em geral, os jornalistas gostariam de estar fazendo outra coisa, cobrindo outro tipo de assunto, trabalhando em alguma outra função, numa outra empresa, num outro veículo de preferência com salário melhor que o seu, é claro – ou simplesmente prefeririam não estar trabalhando. No mínimo, no mínimo, nos raros casos dos que gostam do que fazem, reclamam sempre do patrão.

Antônio Carvalho Mendes adorava os patrões, e adorava trabalhar exatamente naquilo que fazia. Gostava tanto de trabalhar que não folgava nos fins de semana. Não folgava nunca. E nem gostava de tirar férias. De preferência, não tirava férias.

Durante mais de quatro décadas, todos os dias, sábados, domingos, feriados, Natal, véspera de ano novo, Antônio Carvalho Mendes cuidou da página de falecimentos do Estadão. Várias gerações de jornalistas que passaram pelas redações do Estado e do Jornal da Tarde o conheceram por diversos nomes: Seu Antônio. Toninho. Seu Toninho. Mas os principais, os mais usados, com aquela ironia fina como palha de aço que os jornalistas costumamos ter, eram Toninho Boa Morte, ou seu igual mais metido a refinado, Anthony Good Death.

Os mais antigos, os da minha geração e da que veio antes da minha, em geral não usávamos nome algum para designar Seu Antônio: batíamos três vezes na madeira – tóc, tóc, toc. Fazíamos isso também em relação a um velho fotógrafo e a um velho homem de texto, que tinham fama de dar tremendo azar a quem pronunciasse seus nomes. Não vou pronunciá-los. 

Me deu vontade de escrever alguma coisa sobre Seu Antônio – mesmo correndo o risco de virar motivo de chacota. A pior coisa que pode acontecer com um jornalista quando morre é não haver ninguém que escreva alguma coisa sobre ele. O ideal é que o obituário do jornalista seja escrito por um amigo, para que não fique um texto gelado, anódino. Não fui amigo do Seu Antônio – Seu Antônio praticamente não tinha amigos. Mas me deu vontade de escrever alguma coisa mesmo assim.

Uma idéia brilhante – mas quem sabia que era dele?

Seu Antônio morreu aos 77 anos, nesta terça-feira, 15 de março. O velório será no Cemitério do Araçá, e o sepultamento, na quarta-feira, em Santos.

Fui dar uma olhada no estadao.com.br, e vi que está lá um bom texto sobre Seu Antônio. Aliás, um texto muito bom: nada gelado, nada anódino. Ainda bem. Fico contente. Não era necessário o meu – mas agora já comecei.

E aí vão uma informação e uma confissão. A informação está no texto do portal do Estadão: “Foi de Antônio Carvalho Mendes a sugestão para que o Estado publicasse versos de Luís de Camões, para cobrir o espaço das matérias censuradas que a polícia não permitia deixar em branco. Deu a ideia ao redator-chefe Oliveiros S. Ferreira e o diretor do jornal, Julio de Mesquita Neto, aprovou. Toninho levava de casa um exemplar de Os Lusíadas para adiantar a composição do texto na gráfica.”

A confissão: nunca soube disso. Cheguei ao Jornal da Tarde em 1970, nem dois anos depois do início da censura prévia ao Estadão e ao JT; convivi com Seu Antônio no mesmo ambiente ao longo de 30 anos (tirando fora uns seis anos em que por duas ocasiões me aventurei fora da S.A. O Estado de S. Paulo), e jamais soube que tinha sido dele a idéia dos versos de Camões. O fato de o Estadão ter resistido à censura prévia pós-AI5 publicando versões de Camões (no JT, eram receitas culinárias) já foi cantado e decantado em prosa e verso – e no entanto a autoria da idéia nunca foi muito badalada.

É bem típico de Antônio Carvalho Mendes.

O homem mais solitário que já conheci; tremendo reaça – e ficamos do mesmo lado

Só umas poucas coisinhas.

Ele era o homem mais solitário que já conheci na vida. Pedro França Pinto era um homem solitário, mas Antônio Carvalho Mendes era ainda mais.

Era um tremendo de um reacionário. Udenista fanático, lacerdista fanático, entusiasta do golpe de 1964. Só ficou contra o golpe quando os milicos puseram censores dentro da redação da Major Quedinho. Porque, acima de tudo, acima de qualquer outra coisa, era fiel aos Mesquita. Era fanático com os Mesquita.

Era homem de paixões e ódios absolutamente figadais. Não escondia nada, nem as paixões, nem os ódios. O contínuo mais foca do jornal sabia quem ele odiava profunda, fidagalmente – entre outros, o diretor de redação do Estado a partir de 1988, e o autor do Manual de Redação. Falava mal deles para quem passasse pela sua frente.

E quase todo mundo no jornal gostava de falar mal dele, de fazer gozações com ele.

O tempo passa, as coisas mudam, e nos anos 2000 eis que muitos de nós passamos a partilhar com Seu Antônio, o tremendo do reacionário, sua aversão a Lula, ao lulo-petismo. “Chefe, a coisa tá feia”, ele dizia, sempre que passava por alguém que ainda reconhecia dos velhos tempos. Às vezes eu tentava fugir dele, nas andadas pelo corredor, nas idas ao fumódromo, mas ele era implacável: “Chefe, a coisa tá feia”.

O “chefe” era o jeito de ele tratar todo mundo. Estava para ele como o “bicho” estava para o Rei Roberto.

Um símbolo do passamento de toda uma época

Que não falassem em computador para Seu Antônio.

O Estadão entrou no mundo da informática em 1989, se não me falha a memória. E entrou pela porta errada, com um sistema absolutamente burro, idiota, um tal de Atex, uma coisa que já era velha, caquética, quando começou a ser implantada. Seu Antônio continuou firme na Olivetti.

Vários anos mais tarde, vieram os computadores de verdade – Seu Antônio continuou firme na Olivetti.

Uma vez, poucos anos atrás, precisei pedir a ele o favor de dar uma nota de falecimento na coluna dele. Perguntei, pelo telefone, se poderia passar um e-mail. Ele não mexia com isso: pediu que eu passasse por fax, que ele transcreveria na Olivetti. O fax já era algo obsoleto.

Todo mundo pedia favor a ele, na hora dura, na hora da morte de um amigo, um parente. Ao atender um telefonema desses, ele costumava ser seco – ao menos é essa a lembrança que eu tenho. Mesmo com as pessoas que o tratavam bem, como eu. Era seco, quase ríspido – profissional, frio. Mas sempre atendia aos pedidos.

Conta-se que alguns dos Mesquita pediam os favores mais absurdos a ele, do tipo levar uns tantos cachorros do Pacaembu para a fazenda em Louveira, ou vice-versa – Seu Antônio gostava de cachorros, teve durante anos uma coluna de cinofilia –, e outros favores ainda menos dignos. Ele atendia a todos com alegria e orgulho. Tinha imensa alegria e orgulho por se considerar amigo da família.

Aquela empresa ali foi uma família para muita gente.

A morte de Seu Antônio é um tanto emblemática: é um sinal forte do passamento de toda uma bela época, uma boa empresa, dois grandes jornais.

(Publicado no site 50 Anos de Textos)

Artigo escrito por Sérgio VazÉ jornalista com longa carreira nas redações dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, revistas Afinal e Marie Claire, Agência Estado e Estadao.com.br.Criador dos sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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