ARTIGO ESPECIAL DIA DAS MÃES – “O baú de minha mãe”

O baú de minha mãe

Ele se abre para mim, sempre em horas mágicas. Me transporta, e me dá calor e alento, ou presentes que caem como bênçãos do céu onde mora hoje

Marli Gonçalves*

Os presentes são mágicos. Aparecem de repente embora existam há anos, vivendo seus ciclos em caixinhas;  ou mesmo já nasceram na ideia dela do que seria o meu futuro, do que eu poderia precisar. Hoje entendo isso. De repente – como já disse – eles aparecem. Ou abro as gavetas e os vejo com os olhos de nunca antes, daqueles que encontram um amor antigo. Ou um amor à primeira vista.

Do baú de minha mãe saem mais do que pérolas, um anel de ouro, um bule ou um vaso bonito. Saem presentes tão presentes que surgem como bênçãos na resolução do dia após dia, de conseguir passar e ultrapassar. Sobreviver com dedicação. Mais um. Mais um. E eu vou envelhecendo e entendendo. Hoje entendo melhor tantas coisas!

Você,  minha mãe, apenas comprava e guardava – numa poupança particular  – e quase incompreensível. Quando as coisas não saíram bem, muitas delas você vendeu, silenciosa como comprou e triste ficava por não conseguir repor nada naquele vazio. De qualquer forma, nem percebia que sempre que podia me alimentava com as histórias de sua vida sofrida e dos passos que dera, bons e maus, e que percorreram quase todo o país. Eu via fantasia na fuga com o caminhão do circo, debaixo da lona. Sonhava com o baú de mágicas cheios de traquitanas. Ria de alguns truques que você dizia que aprendera, e com as histórias da chinesa  linda da qual só existe uma foto e que colocava arroz cozido numa tigela em cima do telhado. Ou da dona da pensão dali, daqui. Sobre as pessoas que viravam a cara, quando você precisou. E me contava também das mãos estendidas que encontrou, mandadas por Deus, nas horas em que mais necessitava.

Você, linda, de elegante branco, Corcovado na moldura de seu corpo garrafinha – dessas, tenho só duas fotografias em papel já amarelado; acho que as duas únicas imagens dessa época que podíamos raramente e que nos deixávamos fotografar só para marcar a cadência do tempo. Nunca se falou muito de detalhes, que até hoje escapam como segredos que levou e nem quis me contar.

Só hoje consigo ter a certeza da saudade imensa. De como minha mãe sabia que seria assim e tudo certo ou errado me dizia como um dia eu iria sentir. Por que as mães são tão sábias, tão videntes? Elas dizem e acontece; ou avisam e você, já esperto, se livra.  Comigo muitas vezes foi assim: foi por lembrar dela alertando que me safei, “confiando desconfiando”, “com um olho bem aberto”.  Por isso se fala também em praga de mãe ser maldita, terrível. Elas têm um poder.

Talvez por isso nunca tenha querido ser mãe. Talvez até por medo desse poder tão grande. Ou por ter certeza que é preciso mesmo muita coragem para fabricar uma criança dentro de si.

A minha criança ainda sou eu própria quando gargalho abrindo esse seu baú cravejado de sentimentos, e revestido do mais puro calor dos seus dedos quando me acariciavam. Não é uma bailarina de uma caixa de música, mas toda a sua dedicação, o que dança à minha frente.

Você virou flor. Você vive na nuvem do céu. Aí você não pode sofrer mais. Fez aqui tudo o que podia. E eu penso em você todo dia.

  •  Marli Gonçalves é jornalista

Março de 2011 – texto escrito para Revista Colombo

3 comentários sobre “ARTIGO ESPECIAL DIA DAS MÃES – “O baú de minha mãe”

  1. Luiz Nusbaum 6 de maio de 2011 / 17:04

    lindo! lindo! não há mãe alguma que não gostaria de tê-la como filha

    Curtir

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