O SUSTINHO. Antonio Prata fala de algo que também me irrita muito…

No sábado publiquei o artigo ” Deve ser moda. Deve ser. Só pode ser” (clique e leia).

Hoje a Folha de S. Paulo traz um delicioso artigo deo Antonio Prata “O Sustinho”, que não resisti e trouxe para cá.

Fiquei feliz em achar que não sou só eu a implicante.

O sustinho
(* ARTIGO PUBLICADO NA FOLHA DE S. PAULO – EDIÇÃO DE 6 DE JULHO DE 2011, Caderno Cotidiano)
O sustinho está por todo lado; brota, às vezes, da necessidade que a pessoa tem de ser chata

 

DENTRE AS inúmeras manifestações da hipocrisia, a que mais me irrita é o sustinho. Trata-se daquele falso assombro interrogativo com que certas pessoas nos encaram ao ouvir uma pergunta que, embora tenham entendido, não foi feita de maneira precisa.
Um exemplo: você está no supermercado, chega pro funcionário da área de verduras e pergunta: “amigo, por favor, sabe se aqui vende aqueles tomatinhos?”. Claro que o nome oficial do produto não é “tomatinho”, é tomate cereja, mas você se esqueceu da palavra e não achou que fosse necessário revirar os rincões da memória atrás dela: afinal, se o sufixo “inho”, em nosso idioma, caracteriza o diminutivo, e os tomates cereja são a menor variedade do rubro fruto, não é preciso ser nenhum gênio para concluir que tomate + inho = tomate cereja. O funcionário do mercado, contudo, é um adepto deste pequeno jogo de dissimulação, o sustinho, e não perde a chance de praticá-lo, soltando um “Ãhm?!” estarrecido, como se você houvesse pedido elefantinhos, pergaminhos ou uma massagem tailandesa.
Ciente de que o sujeito entendeu e só está querendo implicar, te ocorre a ideia de não se render: bater o pé no chão e dizer “tomatinhos, sim senhor! E tire essa expressão de asco do rosto, impostor, pois sabe exatamente do que estou falando! Se não parar com essa palhaçada já, te acertarei com uma abóbora japonesa!”.
Pensando melhor, no entanto, você decide evitar a discussão, fugir da briga. Aceita o jogo do verdugo verdureiro e reformula a pergunta, contrito: “aqueles tomates pequenos, redondos, assim, ó, que vêm numa caixinha de plástico, sabe?”. Percebendo que você se submeteu e fez seu mea culpa, o falsário simula um alumbramento: “ahhhhhhhhhh! Tomate cereja! Por que não disse antes?! Ali, ó, embaixo das berinjelas”.
O sustinho, meus caros, está por todo lado. Nem sempre, aliás, brota de uma pergunta malfeita. Às vezes é só uma necessidade que a pessoa tem de ser chata. Você para o carro próximo à guia e pergunta: “por favor, como eu chego na Rubem Berta?”. Todo assombrado, o pedestre rebate, “Rubem Berta?!”, e por um instante você acha que está do outro lado da cidade. Mas, assim que ele te explica o caminho, você vê que está perto, é logo ali, era só sustinho, mesmo.
Infelizes daqueles que têm chefes chegados num sustinho. Não importa o que você pergunte ou sugira, ele sempre responde de bate pronto, com um “Ãhm?!” preventivo. Não é que não tenha ouvido ou não tenha gostado, ele apenas quer mostrar que manda ali e, portanto, tem direito a essa farpa de sadismo. Há pessoas que, de tanto usarem o sustinho, acabam viciadas, não conseguem ouvir um “que horas são?” sem arregaçar os beiços e emitir seu “Ãhm?!” mini-horrorizado.
Muito triste, meus amigos, o sustinho: não só por tratar-se de uma pequena agressão, um peteleco no lóbulo de nossa fé na humanidade, mas sobretudo porque usa as roupas e a maquiagem do verdadeiro espanto, da surpresa genuína, que mesmo em pequenas doses são sinal de saúde da alma e abertura do espírito -bem diferentes dessa falsa careta de incompreensão que infelizes esculpem em seus rostos com o único intuito de dividir conosco um pouco de suas amarguras.

antonioprata.folha@uol.com.br

@antonioprata

Blog “Crônica e Outras Milongas”
antonioprata.folha.blog.uol.com.br

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