ARTIGO – Conte até mil. Por Marli Gonçalves

gorrila_counter1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9,10…, 2013, 2014… Vamos lá. Respire fundo. Achei louvável a campanha “Conte até dez” – a raiva passa, a vida fica – lançada para tentar diminuir os crimes cometidos por impulso. A gente já passa a vida contando alguma coisa, o que que custa contar até dez antes de matar alguém? countdown1_e0

Há uma mania de campanhas institucionais rolando por aí, para a alegria das agências, especialmente as que atendem governos. Tem de todos, mas o federal está demais da conta. Já vi campanha de futebol, já ouvi gente querendo matar é o Milton Gonçalves por causa daquela que ele faz, da Saúde, que fala que está tudo uma beleza. Tem uma, inacreditável, sobre a força da mulher- acho que por causa da presidente finalmente “descobriram” as capacidades da mulher. Mas logo agora, quando está havendo muita perplexidade e controvérsia a respeito da capacidade da própria? Tirem as mulheres disso…

Não. Aquela do Tony Ramos vendendo bifes e carnes vermelhas não é do governo não. Um dos donos quer ser. Ainda não é.

stopwatch_e0Enfim, voltando à nova campanha contra a violência gratuita, achei uma coisa preocupante: há um estudo dizendo que contar até dez só piora a raiva! “Faz com que a pessoa se concentre mais ainda no fato, daí a reação negativa”. Eles propõem apenas que, no caso de precisar, se mude de assunto, busque outra coisa: “o ideal é mudar o foco e imaginar-se em outro lugar ou deixar os pensamentos soltos”, alegaram os pesquisadores.

Num esforço para colaborar com a calma humana, o que está bem difícil dada a quantidade de energúmenos à solta, trapalhadas a granel, roubos à luz do dia e distúrbios comportamentais ainda não diagnosticados com os quais temos de lidar, proponho que pensemos em quanta coisa contamos. Fora contar com Deus, claro.Gifs%20Animados%20Relojes%20(3)

Contamos dinheiro e trocados na carteira, que contamos que ninguém roube. Contamos o tempo, horas, minutos segundos, e contamos as pintas no nosso corpo à medida que ele passa. Contamos os fios brancos que nos aparecem na cabeça, sempre pulando, salientes. Contamos os dias que faltam para o aniversário, férias, menstruação, para ver quem ama.

Contamos lorotas. Quem conta um conto aumenta um ponto. Assim, contamos com os amigos para ouvi-las sem deboche. E eles são raros, se contam em uma mão.

Contamos agora de forma diferente outros amigos, seguidores, quantos curti em cada postagem que contamos que alguém leia.

Contamos as colheres de sopa e outras medidas para as receitas que tentamos fazer. Para depois contar as calorias e os quilos que ganhamos ou perdemos. Contamos com o ovo da galinha, com a sorte, e com os números negativos da economia que estão fazendo com que tudo agora seja mais contado. Comedido. Para que não sejam incontáveis as contas que temos a pagar.

Animated%20Gif%20Counter%20(11)Contamos piadas para disfarçar ou depois que não contamos quantas taças de vinho, quantos copos de cerveja tomamos. Contamos mentiras que contamos sejam aceitas como verdades.

Fazemos contagem regressiva. E podemos pegar a mania de contar coisas – pode até virar aquele transtorno, obsessivo compulsivo. TOC.

Contamos os toques quando escrevemos. Conheço um jornalista que costuma dizer quantos milhares de caracteres já escreveu sobre determinado assunto, e são sempre muitos, porque ele não conta com nenhum controle quando escreve.

Contamos positivo, negativo. Às vezes por brincadeira; outras por distração. Quem aí não conta os degraus enquanto desce ou sobe?

Aquela escritora lá não contou quantos tons de cinza? Sabem que outro dia vi uma entrevista que me provou que tudo bem, conte quanto quiser, que ninguém confere mesmo. A moça escreveu “Cem homens em um ano”, mas parou no 34º.

Será que dá para reclamar no Procon? Antes que eu conte até dez.

São Paulo, conte comigo, 2013Marli Gonçalves é jornalista– Além de tudo anda contando quantas coisas agora viraram apenas letrinhas, uma nova língua de siglas usadas principalmente em repartições. Prefere as letras das placas dos carros, que sempre podem formar alguma expressão, em um divertimento gratuito, que acalma tanto quanto contar até 10.

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E-mails:
marli@brickmann.com.br
marligo@uol.com.br

Tenho um blog, Marli Gonçalves, divertido e informante ao mesmo tempo, no https://marligo.wordpress.com. Estou no Facebook. E no Twitter @Marligo

Um comentário sobre “ARTIGO – Conte até mil. Por Marli Gonçalves

  1. DJALMA BENTES 31 de maio de 2013 / 19:46

    Sem dúvida devemos contar até 10, talvez mais alguns números. E para o descaso governamental? Até quanto devemos contar? Até ao infinito? Concordo com James Akel :

    OU O GOVERNO ACABA COM A VIOLÊNCIA OU A CLASSE MÉDIA ACABA COM O GOVERNO

    Está no limite do inaceitável a violência popular, aquela feita contra pessoas da classe média, de todos os padrões, nos lugares considerados seguros e que nos dias atuais deixaram de ser.
    Os últimos atos de vagabundos e bandidos contra dentistas, e já foram 2 em pouco tempo, e agora contra um salão de cabeleireiro chic da cidade, além da coleção de assaltos a restaurantes, está deixando a classe média no limite da impassividade.
    As revoluções de direita sempre foram lastreadas na classe média.
    A classe média, que é a sustentação do capitalismo, é a base de sustentação do regime capitalista.
    Quando acontece ameaça à classe média, quer no seu trabalho, quer nas suas finanças, quer na segurança, gera-se um cenário propício para as revoluções de direita.
    O governo cobra o maior imposto da história sobre a classe média, se porta como governo sindicalista, nos moldes de João Goulart e outros da América Latina, e, além disto tudo, permite passivamente o banditismo contra o povo.
    Todos que um pouco de história sabem onde isto vai parar.

    Do blog de JAMES AKEL

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