Um poema inédito de Capinam. Jóia rara, que trago para todos.

 

feito enquanto fazia uma viagem, há uma semana.  Ele mandou a um grande amigo em comum, precedido dessa mensagem:

…vamos viajar nos trilhos sem trens, para ver quem vem e vai em busca dos sertões que a gente arrancou dos corações…

 Estou levando dois passageiros de fé, que sentem saudades das estações onde passamos a olhar os brasileiros que buscavam vida, nas cidades que nem conheciam, mas onde estava a festa, trabalho e pão.

 Aqueles Viramundos, que vinham lá dos fundos dos brasils…..para eles, por eles, por nós….que caminhamos sem os trilhos da utopia….

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trem_sorrindoGENTE, CADÊ O TREM?

 Gente, cadê o trem que vai levar a gente

Em novas trilhas a sonhar brasis

Cadê trilho de futuro, cadê estrada de pasárgada,

Lagoas de coalhada, cadê São Saruê, cadê?

 

Ser tão pobre assim na beira mar e ser no sertão o nada ser

Ser tão forte antes de tudo e diante de tudo não poder

Quem da beira mar depois do vendaval não ter senão o corpo salgado

Quem menino Severino não teve ao fim do destino o couro estirado no varal

E tanto que procuraram pelos céus estrelados

A via férrea dos astros, o trem da Via Láctea

 

Brasil, meu Brasil brasileiro, de grotões, cerrados, baías…

Rio de janeiro e outros meses

O coração pandeiro bate a pergunta: cadê as ferrovias?

Cadê os trens do Brasil?

Cadê os trens que nos levem norte a sul onde mora a namorada

Cadê os trens, cadê os trilhos de leste oeste, do verde atlântico aos salões do planalto?

Quer ser feliz minha vida quer viajar

Abraçar parentes e diferentes que tocam outros sambas e baiões

Ultrapassar fronteiras de pobreza e passar riquezas de mão em mão

Abolindo as Tordesilhas e os donatários da nação

Cadê os trens brasileiros e as estações futuristas?

 

Vamos desembaraçar os rumos, derrubar os muros, fronteiras

Fazendo o velho e o novo se abraçar numa fogueira

De além mar ao sertão que de não ser já e tão pouco

Do Maranhão à Bahia

Trocar flor da sertania com as areias do nordeste

As canções de leste oeste

As orações de norte sul

Carregando as lembranças, desatando seus alforjes, suas linguagens gerais

Caçuás de causos e bisacos de farinha, fandangos dos diabos, fodanças feitas no breu

Dos túneis das velocidades, surgirão vilas e cidades, vilões, heróis e novas mocidades

Inventando sambas ligeiros, batendo zabumba  pandeiro

Adeus, adeus, dirão índios e negros

Girando nos pés de vento, semeando ventres e campos

Livrando do demônio do patrão pra morar no Piauí, Ceará, Belém

No Seridó, nos cafundós de Santarém

Do Paraná Pará Natal,

Brasil que nasce em mim e visita o que habita em ti

Mim caboclo, tu ticuna, ela miúda

Gente, cadê o trem?

 jccapinan

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Um pouquinho de Capinam, para você se situar: ( fonte: http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/ver/capinam)

Capinam nascimento 19/12/1941

Nascido na cidade baiana de Esplanada, José Carlos Capinam é considerado um dos grandes letristas de sua geração, tendo participado ativamente do movimento tropicalista no fim da década de 60. Poeta desde a adolescência, mudou-se para Salvador aos 19 anos, onde iniciou o curso de Direito, na Universidade Federal da Bahia. Militante fervoroso do CPC da UNE, fez logo amizade com Caetano Veloso e Gilberto Gil, na época cursando, respectivamente, as faculdades de Filosofia e de Administração de Empresas. Com o golpe militar, em 1964, é forçado a deixar Salvador e vai morar em São Paulo, onde inicia os primeiros poemas de seu livro de estréia, “Inquisitórial”. Alguns anos depois, volta à capital baiana, desta vez para fazer Medicina, profissão que chega a exercer por algum tempo. Paralelamente, intensifica o seu trabalho como poeta e participa do primeiro disco de Gilberto Gil, em 1966, dividindo a parceria na faixa “Viramundo”. No mesmo ano, sua música “Canção para Maria”, defendida e composta em parceria com Paulinho da Viola, é um dos destaques do II Festival de Música da Record, obtendo a terceira colocação. Torna-se um dos mais assediados letristas da época e vence com Edu Lobo o Festival da Record de 1967, com a canção “Ponteio”. Volta a se aproximar de seus conterrâneos – compõe com Gil o clássico “Soy Loco por Ti, América”, e integra o histórico disco “Tropicália” (68), ao lado de Caetano, Gil, Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Rogério Duprat e Torquato Neto. Não diminui o seu ritmo como letrista e segue dividindo parcerias com grandes nomes da música, como Jards Macalé (em “Gotham City”, vaiadíssima no IV Festival Internacional da Canção de 1969), Fagner (em “Como se Fosse”) e Geraldo Azevedo (em “For All Para Todos”). Em 2000, compôs a ópera “Rei Brasil 500 Anos” ao lado de Fernando Cerqueira e Paulo Dourado, uma crítica as comemoração dos 500 anos de Descobrimento do Brasil, e dividiu parceria nos novos discos de Tom Zé (em “Perisséia”) e de Sueli Costa (em “Jardim”).

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