ARTIGO – Calada, ou coisas que é melhor não dizer do lado de fora. Por Marli Gonçalves

dctalking_e0O que eu digo, escrevo. O que eu escrevo, penso. Mas tem muita coisa acontecendo que é melhor fazer igual a aquele personagem antigo, fechando um zíper imaginário na boca: Calada! Cara de nuvem. Sem opinião. Entre dentes. Só no pensamento. Uma espécie de censurazinha particular, do bem

mouth-closed1_50a54948ddf2b31d5e00300dAté você aí, leitor, sei que já me conhece um pouco. Quem me conhece pessoalmente também sabe que sempre primei pela espontaneidade e por escrever justamente o que me passa pela cabeça, muitas vezes até pondo em discussão um tema, conversando com quem me contata, o que me dá imenso prazer. Mas ultimamente está tão esquisito tudo que, muitas vezes, em determinados assuntos e acontecimentos, tenho falado o que penso, mas não escrevo, e só declaro a real para quem é de extrema confiança. Coisas que não dá para dizer do lado de fora da porta. Entendem? Tem acontecido muito e isso chamou minha própria atenção.

Preguiça. Não quero e não tô querendo arrumar briga, ou perder tempo discutindo com quem não quer pensar. Opinião própria e fora do lugar comum. Alguma amoralidade mais explícita.Não quero perder o amigo, nem faria diferença realmente o que digo ou deixo de dizer. Não ganho nada com isso. Que vantagem Maria levaria? Ou: está tão forte o cerco, principalmente sobre assuntos da Política, que pode até ser muito perigoso expressar algumas opiniões aqui do lado de fora. E isso é muito grave, atentem bem. Autocensura às vezes é mais grave do que a censura imposta. Acendeu meu alarme. A luzinha amarela.mouth-shut

Claro que por causa desse meu silêncio a Terra não vai deixar de girar. Mas faz um mal danado engolir certas coisas, porque estas podem virar sapos coaxantes e grilos falantes na nossa cabeça. É o famoso “se eu não fui, acho que deveria ter ido”. Ou “eu devia ter falado”. Repetindo: nada tão grave ou que faça que eu não cumpra o juramento feito como jornalista, de denunciar desmandos, apontar e reagir à injustiça, não calar diante de poderosos. Falo de algo mais sutil, o pensamento, a opinião pessoal – esse nosso único espaço pessoal e livre até que alguém invente um aparelho ou “aplicativo” que leia o que se passa na nossa cabeça. Até agora não existe, mas não vai demorar alguém criar.

Há no momento, visivelmente, uma epidemia de pensamento manada. Aonde a vaca vai, o boi vai atrás, diria meu pai. Todo mundo deve pensar naquela direção, se for “vermelho”; e, na outra, se for “azul”. Temo que as tais redes sociais estejam por trás dessa epidemia. Você quase se vê obrigado a “curtir” umas sandices que os amigos escrevem, para não perdê-los. Também tem de estar up-to-date dos assuntos eleitos do momento, mesmo achando bobagens inacreditáveis. Não pode chamar de burro quem acredita em cada uma muito pior que lobisomem e mula sem cabeça. Tô fora!

psychedelic_lips_gif_by_stevethejerk-d3akou9Sabe um campo em que estou vendo as coisas degringolarem? O de Direitos Humanos. Para mim, inalienáveis. Mas tem por aí um pessoal louco para, digamos, abrir determinadas exceções. O outro é o das manifestações – tem quem esteja adorando a atuação da polícia, que vem praticamente cercando e cerceando qualquer grupo de mais de quatro pessoas que se junte com uma bandeirinha, além de estarem gostando de dar uns cascudos em jornalistas. Acho tão temerário apoiar o que pode te apunhalar lá na frente…

Escreveu não leu, o pau comeu. Boca fechada não entra mosquito.vampire_mouth

Até acredito que vai ter quem entenda sobre o que falo aqui. Minha antena captou que não sou só eu que estou preocupada e observando esse comportamento. A indústria do entretenimento já sacou isso e vem produzindo muita coisa a partir dessas quatro paredes que podem até ter ouvidos, mas não podem falar. Repare.

Só que aí entra um personagem: o analista, o psiquiatra, o psicanalista, ou o psicólogo. O número de programas que está no ar usando esse recurso é maior do que os textos de ficção odiosos, ou aqueles roteiros mal amanhados e pobres, que costumam usar sonhos. Uma série de coisas acontece, e no fim – rárá!– o personagem estava só dormindo. Era um sonho. Agora não: é “análise”.

labios06Observe. Até programas de humor – o de Natalia Klein, e o da Tatá Werneck, entre eles – vem usando o recurso “divã”. Há ainda uma série bem densa no ar, e que faz o maior sucesso, a Sessão de Terapia.

Será que é preciso mesmo um divã para que possamos falar o que pensamos realmente, os nossos problemas, o que temos de mais individual?

Sempre quis ter um divã. Mas para me deitar nele, como uma Cleópatra. Para pensar, mesmo, prefiro o chuveiro, já que não tenho uma linda banheira.

São Paulo, 2013

Marli Gonçalves é jornalista – Cansada de ver o mundo se fechando em copas. E de prefeito poste e ministros malas. #prontofalei

VACA

********************************************************************E-mails:
marli@brickmann.com.br
marligo@uol.com.br

2 comentários sobre “ARTIGO – Calada, ou coisas que é melhor não dizer do lado de fora. Por Marli Gonçalves

  1. Elizabete Taodarma 9 de novembro de 2013 / 9:27

    Marli, Vc escreveu o q tenho sentido. Por favor continue escrevendo Vc nem sabe como é importante Ter algo de bom p ler todos os dias P motivar a vida Pq tá mto difícil ! Vc e Olavo de Carvalho têm sido raios de sol em dias sombrios! ELES conseguiram nos deixar tristes, Com medo e de novo ” falando de lado e olhando p chão ” Venho tentando explicar para quem quer ouvir E enquanto possa falar! Penso que agora só um milagre Poderá nos salvar! Um abraço fraterno Beta

    Enviado via iPhone

    >

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.