ARTIGO – Atenção: Frágil. Este lado para cima. Por Marli Gonçalves

Índice     Socorro, socorro, socorro. Nunca foi tão fácil, parece, ser literalmente subversivo, no sentido de subverter a tal ordem, seja ela qual for. Causar uma revolução, mas na vida dos outros. “Confusionar”, convulsionar. Nada mais tem cara, liderança, história. Surgem e somem. Somem e surgem. Se São Paulo pode parar como aconteceu essa semana, imagina… na Copa! Ops! Desculpe: imagine o Brasil todo

Quanto mais modernos ficamos, mais vulneráveis estaremos? Ou, o que adianta tanta modernidade se os sistemas de trabalho ainda são do tempo do onça? Que Mané especulação imobiliária, bolha imobiliária, se diariamente milhares marcham ou estacionam suas barracas, tranqueiras e filhos nos primeiros terrenos e prédios que encontram dando bobeira? É perturbador observar o quão fácil ou possível ou previsível está o mergulho em crises.

mousetraplightbulbPor um segundo, pense, se faltar água mesmo no Estado de São Paulo. Por dois segundos, pense, se por um lampejo os metroviários resolverem parar também, assim, de repente, como o fizeram os motoristas de ônibus essa semana, ligando o foderaizer para cima de todo mundo. No sistema de trens nem precisa pensar porque ele já para mesmo toda hora, e quebra-quebra é quase rotina – a rotina das sardinhas do transporte coletivo. Por outros cinco segundos – pense – se houver apagão, se o sistema combalido não suportar a pressão que vem por aí. Aproveita e pensa nas telecomunicações, onde tem canal passando em cima de outro canal, banda, estradinha; não é mais 3 ou 4 G, mas 3 ou 4 D. Agora, por pelo menos um minuto, pense o quanto estaremos fritos se as coisas ficarem ainda mais tensas em vários setores e a gente ainda estiver sendo liderado por frouxos como o prefeito que foi eleito para essa cansada cidade de São Paulo, ou por chuchus inodoros. É, isso pode acontecer – pior, um pouco já ocorre – do Oiapoque ao Chuí.taça quebrando

Já li gente falando que a população está com mau humor. Concordo. Mas não é uma nuvem precisa pairando sobre as cabeças. Não tem direção, não tem lado, posição política, muito menos informação real. Pergunta por aí. São interesses difusos, enevoados, ninguém sabe exatamente o que quer ou não quer, muito menos há parâmetros de lutas que consigam mover a classe média, especialmente a fatia mais esbordoada. Em junho passado escrevi várias vezes que não era verdade, que não tinha gigante nenhum acordando, só bocejando, que era apenas modinha ir até as ruas, marcar com amigos e depois postar nas redes sociais fotos segurando plaquinhas de papel. Uma coisa Rock in Rio. #eufui. Isso ficou claro quando li, naqueles dias, uma matéria regrando qual era a moda quente para ir aos protestos. Desde que me entendo por gente, tudo aqui no Brasil só se avacalha.

tUp71UJ_f4En1R_tumblr_lz64j1kmiR1qdu4dpo3_400Passo o dia lendo ou ouvindo cada bobagem que é melhor calar, e não só para não arrumar inimizades. É o jornal mal lido, a situação X generalizada descuidadamente, o assassinato de reputações sem dó, a facadas de agressividade. É um tal de não ver a política – “não voto mais”, “vou votar nulo”, etc. – só isoladamente, e para xingar. Depois, quando tem eleição, escolhe qualquer um na véspera. Não me admira que a gerente Dilma esteja caindo – esperavam dela, sociedade machista, que por ser mulher teria ordem na casa. Mas ela não é dona-de-casa, e não espanou o pó da sujeira, nem lavou a louça suja dos dois períodos anteriores, deixou tudo acumulado na pia. Também não se mostrou boa cozinheira, nem para contratar direito quem trabalhasse para ela, com ela. Os banheiros continuam sujos; o elevador parado no mesmo andar; isso, sem falar nas compras que deixou fazer.

woman_breaking_eggs_oNada mais tem fundamento. Quando que vocês imaginariam ver marchas vermelhas de sem-terra ciscando no terreiro do próprio PT, criador e criatura? O prefeito Zé Bonitinho todo santo dia recebe visitas, ora professorinhas, ora servidores da própria prefeitura, ora motoristas, cobradores, estudantes, blackblocs. Nesta semana, enquanto a cidade ardia entre muralhas de ônibus parados nas tais faixas que ele mandou pintar a mão, inacreditável a falta de senso, ficou quase uma hora dando entrevista para o Datena – e tomando um pau, de soltar o couro! Como bem observou um amigo, melhor, porque aí ele estava ocupado falando bobagem, sem fazer mais bobagens.

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Cresci temendo um tal botão vermelho que, apertado, buum!, explodiria o mundo. Temia o telefone vermelho do presidente dos EUA, ou uma tal pasta preta, a guerra fria. Mas tudo isso mudou e a surpresa do 11 de setembro deles foi o ápice do “não dá mais pra prever nada”. E se eles que são grandes não podem, imaginem nós que vivemos pequenos, subordinados a quaisquer zinhos que falem o que devemos ou não fazer até com as nossas bolas.

A verdade é que a humanidade, quando se afastou da sua própria condição humana legando a máquinas muitos dos seus controles, facilitou que crescesse uma fragilidade perigosa. Com muitos botões vermelhos e pastas pretas. Por aqui, inclusive, umas delas recheadas de dinheiro.

São Paulo, paralisada, paranoica, e que não pode parar, 2014.

0511-1001-0616-1628Marli Gonçalves é jornalista Neste jogo já está vendo bolinhas em todos os cantos, iguais às da obra da artista japonesa Yayoi Kusama, “Infinita Obsessão”, que chegou essa semana a São Paulo. Achei bem louco saber que, por espontânea vontade, ela vive desde 1977 recolhida numa clínica psiquiátrica. E se eu começar também a ver bolhinhas?

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E-mails:
marli@brickmann.com.br
marligo@uol.com.br

6 comentários sobre “ARTIGO – Atenção: Frágil. Este lado para cima. Por Marli Gonçalves

  1. walter a. bick 24 de maio de 2014 / 10:03

    Marli, pena que nós simplesmente representamos a abelhinha na floresta de aproveitadores, corruptos, bandidos de casaca, médicos cubanos, projetos perigosos para o País. Quantos de nós serão precisos para uma batalha verdadeira. Como diria Elis Regina, enquanto houver Mercedes e muito dinheiro, não vamos reunir meia dúzia para lutar. (Rev. Manchete-anos 60).

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  2. károly f. halász 24 de maio de 2014 / 14:21

    MARLI, VOCÊ É UMA JORNALISTA FENOMENAL, TE ADMIRO PELAS REPORTAGENS BRILHANTES! PORÉM, COMO WALTER A BICK DIZ, É PURA VERDADE, E DÓI QUE ESTAMOS COMENTANDO ISSO, NUM PAÍS MARAVILHOSO E RICO, MAS CHEIO DE CHACAIS, AVENTUREIROS E GENTE SEM ESCRUPULO! NÃO FALO AQUI NEM DE PATRIOTISMO E DECÊNCIA! A CARA-DE-PAU E A ARROGÂNCIA DESSES POLÍTICOS CHEGOU A TAL PONTO QUE O POVO FICOU INDIGNADO, REVOLTADO E QUER MUDANÇAS MESMO, SÓ QUE OS BANDIDOS QUE OCUPARAM O PODER NAS TRÊS ESFERAS, ACHA QUE VAI CONSEGUIR IR LEVANDO NA BASE DO EMBROMEICHON, OU ENROLEICHON, E ASSIM O POVO FICO SE FODERIZANDO. O POVO NÃO SABE A FORÇA QUE TEM, E SE O POVO TIVER UNIÃO, VAI DERRUBAR ESSA BADERNA QUE ESTÁ EM BRASILIA E COMPANHIA! ASSIM NÃO DÁ MAIS! ESPERO QUE A GENTE NÃO FIQUE SÓ CHORAMINGANDO DESABAFOS. VAMOS À RUA E VAMOS EXIGIR A SAÍDA E PUNIÇÃO DESSES CORRUPTOS NOJENTOS, INDIGNOS DE CARGOS QUE DEVERIA SAGRADOS, OCUPADOS POR GENTE QUE TEM HONRADEZ E MORAL!!

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  3. Orlando Merluzzi 25 de maio de 2014 / 7:37

    Mais um brilhante texto, Marli. Parabéns.

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