ARTIGO – Só vc pode. Por Marli Gonçalves

Obrigada. Agradeço comovida, de certa forma até emocionada, a reverência e confiança, mas declino. Embora garanta que continuarei fazendo o que posso, e isso já é muito, acredite em mim; já está acima das minhas forças. Não sou São Jorge para lutar sozinha contra o dragão. Não tenho vocação para Joana D`Arc, só amo sua história. Coragem tenho, mas veja bem, há um trator apertando, esmagando quem não concorda com tudo o que está aí, e eu seguro a onda, não tenho onde me encostar. Vc também pode, de alguma forma, muito. Todo mundo pode. Mais: podemos todos, mas juntos, chegar mais longe, mais fortes. Não transfira a sua parte de responsabilidade, como se fosse tudo problema dos outros. Participe. Só que tem de ser ao vivo e em cores.

Letras vigiadasEsse Vc – vocês sabem – é você na nova e às vezes famigerada língua internética e digital que come letras para agilizar a conversa, nessa zona que virou o ambiente, principalmente o das redes sociais. Esse mundo virtual, da luta contra corretores ortográficos automáticos, teclados mínimos, dedos que escorregam e etceteras, que nos faz de quando em quando até publicar coisas feias, e não era bem isso. (Escreva, digite rápido “pauta”; ou “pedido”. Erra o meu “pode” do título – normal uma letra sempre cair ou ser trocada no caminho).

Volta. Enfim é assim – só vc pode. Em geral é nessa forma que recebo mensagens todos os dias apontando e dando dicas de sobre o que eu preciso, deveria falar, escrever, denunciar, ou contra o que protestar, às vezes com ideias que equivaleriam, se eu tentasse mesmo executá-las, quase a me armar vestidinha como mulher-bomba e me jogar lá meio do Planalto puxando as cordinhas, me indispondo com três poderes. Invariavelmente, o pior: as mensagens começam ou terminam assim: só vc pode.eletrocutado

Dou uma exagerada, certo, para que não me levem a mal e tenham noção da dimensão da responsabilidade que às vezes se ganha, de um amigo, de um leitor. Faço um desabafinho meio chato, espero poder contar com a atenção e compreensão de todos:

– “Posso não, posso tudo isso não”.

Tipo “uma andorinha sozinha não faz verão”, mas pode virar churrasquinho. Quem é que me garante a retaguarda, se é que me entendem? “Juízo e caldo de galinha” … “Quem sabe de mim sou eu” – como magnificamente respondeu a Marilia Gabriela numa entrevista outro dia.

Fosse algumas dezenas de anos, um punhado deles atrás, até podia ser que eu achasse que podia ser a rainha da cocada, revolucionária. Lá naquela época grudenta e braba, me meti em muitas coisas, também aprendi muito. Só que ninguém ficava só do lado de fora insuflando. Ao contrário, tínhamos de por a mão na massa e até esconder nossos passos. Mudar a história requer dedicação, boa dose de renúncia e idealismo. Você aceitar um chamado. Quer saber? Por conta de saber disso ando muito, mas muito preocupada mesmo, com o crescente número de adolescentes que estão sendo recrutados em quase uma centena de países e que está se unindo ao que tem de pior e mais cruel no terrorismo internacional. Já somam milhares, conquistados pela grande rede, convencidos. Um dia também fantasiei com a guerrilha, suas lendas, heróis e heroínas, mas não mais. O que estará agora sendo oferecido a esses meninos e o que mais me surpreende, meninas, jovens de tudo e que, como um êxodo, uma abdução, uma hipnose coletiva, estão sendo cooptados? Qual é o Graal?hipnose

No momento as coisas estão muito esquisitas. Há quem passe o dia inteiro na internet e se ache o maior mobilizador de massas de que já se teve notícia. Mas não ganha público novo. Ficam todos falando só entre si, comadres. Há dias que recebo mais de vinte vídeos, as mesmas charges e piadas, verdadeiros tratados sobre os erros do governo, os roubos e a corrupção, chamado e propagandas para a grande manifestação. Mas eu já sei de tudo isso, juro que também leio os jornais, trabalho com isso, conheço até alguns atores desse espetáculo! Precisamos ampliar nosso alcance e não é por computador – esse só ajuda, e bem. É difundindo conhecimento, explicando manobras, argumentando com quem ainda é possível e não tenha tido ainda os sentidos entupidos por tanta propaganda política enfiada pela goela.

Repito: por aqui está cada dia mais complicado não ter eira nem beira, não ser do A nem B, não pender nem para a direita nem para a esquerda, não torcer nem para o Fla, nem pra o Flu. Por a cara para bater. Não ter opinião formada sobre quase tudo. Fora os achismos que carimbam nas nossas costas com certa facilidade. Se batemos, talvez estejamos com algum “interesse”, isso, e eles falam fazendo aspas assim com a mão; se defendemos que radicalismos não são legais, alguns são até bem burros, é porque devemos ser da mesma laia. Se sou do samba não posso trabalhar para o rock. Quero manter meu direito ao contraditório!

Nosso papel é o de ser antídoto. Conjugue esse verbo. Se eu posso, tu podes, ele pode, nós podemos, vós…eles podem. Vamos nos diversificar, sem que ninguém troque letra alguma para sacanear. Há um monte de coisas que os outros falam ou escrevem e que eu gostaria de ter falado ou escrito. Precisamos nos orgulhar assim uns dos outros, mas parar de outorgar nossos poderes, transformando em celebridade ou Gênio da Humildade qualquer um, o primeiro que passar dando uma piscadinha.

genteConto com seu apoio sim. Porque eu acho que posso. Vc pode. Só vc pode. Conta comigo. Vem pra rua. Vem falar nela.

São Paulo, 2015

Marli Gonçalves é jornalista – – Tudo isso só para chamar você para participar, engrossar o coro, vir ajudar a pensar como conseguiremos aprumar as coisas. Mas vamos fazer isso pessoalmente. Entende? Ficar xingando teclando não muda o mundo

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