ARTIGO – Quem, me digam: quem? Por Marli Gonçalves

people-confusedmanVou dividir minha angústia com vocês. Essa pergunta já te ocorreu também? Quantas vezes só hoje ou nos últimos dias? Quem? Em quem a gente poderia confiar nesse momento, herói ou ser sobrenatural, vindo de outra galáxia e que seja ao menos capaz de unir de novo este país? Levá-lo ao futuro, retomando seu orgulho e soberania, mais contemporâneo e menos jeca, capaz de chamar e ouvir as cabeças pensantes? Quem?marvel-s-hawkeye-doing-crazy-superheroine-poses-in-comics-82aba282-b953-4c87-88a5-1f33fafaeb2c

Está chegando a hora de tentarmos propor soluções. E rápidas, eficientes, milagrosas. Aventureiros surgirão aos montes de detrás de qualquer encosta, onde provavelmente se manterão à espreita. Aliás, já estão lá, pode procurar nos buracos que achará um monte deles, tentando tecer a teia, pregando armadilhas, jogando cisco em nossos olhos e cascas de bananas nos caminhos. Precisaremos saber identificá-los. Inventar logo um alarme que toque à sua mera aproximação, e que se acendam todos os holofotes iluminando a escuridão. Não temos mais tempo de errar de novo.

Vejo os olhos estatelados das pessoas diante das gôndolas dos supermercados. Dá para sentir a agonia, o cálculo rápido feito de cabeça sobre trocados para economizar, traindo a marca predileta, agora há a observação mais detalhada, inclusive com leitura de rótulos. Normal ver cabeças balançando em sinal de negativa ao encarar as plaquinhas, e ali mesmo deixar o objeto antes visado. A alta de preços descontrolada, unida à descontrolada falta de dinheiro nos bolsos e habitual loucura do corre-corre para não tomar prejuízo, está levando a uma equação de resultado zero. Sei que tenho leitores bem de vida (a quem espero até não estar aborrecendo contando sobre a real dureza da nossa população de Durangos e Durangas), e que não estão tão apertados assim. Talvez nem façam compras pessoalmente; mas mesmo quem é bem rico, milionário, ah, esse sabe o valor do dinheiro e faz questão de discernir sobre o valor das coisas, o que vale.

Enfim há uma boa dose de irritação, descrença, inconformismo no ar. Mas o que eu quero dizer é que estou achando esse sofrer coletivo muito misterioso, contido, silencioso, crescendo dentro das pessoas como lombrigas, ou aqueles aliens de filmes. Tem gente que já nã critica; baba. Espuma de raiva. Quase ouço o borbulhar desse rancor todo, como se ele pudesse aparecer a qualquer momento. Qualquer faísca. Essa aparência de normalidade institucional me instiga, até por sabê-la periclitantemente perigosa, falsa e por isso, frágil. Falo do que é abstrato. Temo essa energia quando for concreta.Wilbur_Thinking__Animation_by_TheEndxTypeANIME

Intolerâncias grudam na poeira dos nossos sapatos, aquelas que tentávamos varrer daqui para sempre. Na falta de uma resposta mais sólida – Quem? – surgem propostas estapafúrdias, como a da senhora aposentada que me disse que queria um general. Apenas isso, para ela o salvador poderia ser um general, e não é que ela quisesse uma ditadura. Pedi a explicação. Para ela, a Dilma é uma pedra muito pesada, que precisa ser tirada do lugar. Removida. Que alguém mande remover, me disse. Pensou em um general como poderia ter pensando num elefante.

Daqui a pouco aparece o Marechal Deodoro em pessoa, despersonificado de sua estátua. Muitas pessoas realmente pensam que estão em livros infantis e escolares de história, creio, aqueles que tinham aquelas ilustrações de cavaleiros exaltados chegando com seus cavalos brancos, empunhando espadas e gritando Independência ou Morte!

Precisaremos começar muitas coisas, e a primeira delas é pedir respeito aos governantes, que parem de mentir tão deslavadamente, tentando nos fazer de otários e querendo que enxerguemos o que sabemos, caramba, que não existe porque estamos lá, vivemos na realidade. Não somos doidos, de reclamar do que está bom. Vivem querendo nos ajustar, a nova palavra usada e tentada de um governo que já nem mais é um governo, mas vários, a ponto de dentro dele ter torcidas pró ou contra isso ou aquilo do próprio governo. Terceirização, ajuste, cortes, pedaladas. Que mais? Até Dona Marta anda esquecida dos temas que nos são mais caros, e que passam longe de um Congresso formado por seres reacionários ou interesseiros, desarticulados, quadros imberbes e insossos num momento tão importante.

Aí começam a aparecer os bravateiros. Um que tudo pode e que tudo prende. Outro que tudo acha que pode e vem com conversa de boteco, de quem brinca de braço de ferro em puteiro com imagem de São Jorge e luz vermelha na porta. O outro reticente que melhor seria fosse mesmo de trabalhar em silêncio, mas nem isso. Aquele que se faz de bobo para morder as bordas. Quem?

Quem pode pegar esse rojão? Desativar essa bomba?

Grupos de controle político agem como grupo de controle bandido. Da mesma forma que o PCC passa seus “Salve Geral” e ordens para meter o cano, impondo toques de recolher nas grandes cidades, o PT paga comandados para batucar pretinhas e abastecer perfis fantasmas; tucanos bicam e batem suas asas espalhando penas que jogam de cima dos seus muros. Surgem os messiânicos, os cara-brava, os da bala, da bola, da bela, da bula, da bílis.

Desculpem, mas eu tinha de tocar nesse assunto, porque quase virou mania: saio por aí perguntando e ainda não encontrei essa resposta, pelo menos não uma que me seja realmente convincente. Talvez eu seja exigente demais, mas já recorri até ao binóculo e não consigo ver quem.

É difícil demais ficar esperando por uma pessoa, em quem possamos depositar todas nossas fichas. E rodar a roleta. Só, por favor, nunca mais joguem Vermelho13.

São Paulo, maio de 2015UK_Roundabout_8_CarsMarli Gonçalves é jornalista – – Não briguem comigo. Só estou perguntando uma coisa simples. Quem? De repente você nos dá uma boa ideia, e lembra de alguém interessante para a gente burilar. Eu disse burilar.

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4 comentários sobre “ARTIGO – Quem, me digam: quem? Por Marli Gonçalves

  1. Ronald Assumpcao 3 de maio de 2015 / 22:19

    tinha que postar no meu face e já está lá… beijos… e que angústia também tenho e compartilho. acho que deus, sendo brasileiro, também está desiludido e foi passear

    Curtido por 1 pessoa

  2. Sergio Moura 6 de maio de 2015 / 8:03

    Há solução? Há, claro, dificilmente não se encontram soluções para os nossos problemas. Quando não são resolvidos é porque não queremos resolve-los.

    Mas é este o caso: a quem cabe resolve-los – nossos ilustres congressistas – não interessa resolve-los, pois perderão a faculdade de usar o dinheiro público impunemente em seu próprio benefício.

    Então, temos de aplicar uma solução de rompimento. Que, a meu ver, seria:

    1) outorgar uma constituição (há quem não goste de constituição outorgada, mas todos vimos sentindo na pele os malefícios da CF 88, promulgada pelo populacho – populacho não sabe o que se precisa fazer para trilhar o caminho da prosperidade, só sabe se distribuir privilégios de curto prazo, como o fez na CF 88) parecida com a dos EUA, ou com a brasileira de 1891, que, dentre outras coisas, retire do Presidente da República o direito de propor leis – o que dirá de impor por MP;

    2) fazer eleições distritais de deputado federal para a Câmara em três meses, abertas a candidatos avulsos, com a exigência de voto nominal e por maioria dos membros da Casa para qualquer decisão que ela venha a tomar;

    3) extinguir o Senado, pois senador tem voto de qualidade no Congresso, o que é inadmissível numa democracia;

    4) nomear e manter enquanto necessário (uns 20 anos, pelo menos, a exemplo de outros países que deram a volta por cima no século XX – Cingapura, Coreia do Sul, Reino Unido etc) um Presidente da Câmara com a competência e a responsabilidade de refazer o esteio legal do país com o objetivo de:
    – investigar, indiciar e julgar rapidamente todo e qualquer acusado de crime, e puni-los exemplarmente, com imediata execução da sentença de primeiro grau;
    – manter os condenados por crimes afastados do convívio em sociedade;
    – dar rapidez à solução de conflitos civis;
    – garantir o direito de todos, inclusive, e principalmente, do poder público, de comprar o melhor produto ou serviço pelo menor preço independentemente de quem sejam, ou de onde estejam, os fornecedores;
    – só usar o dinheiro do povo em benefício de todos, jamais de alguns privilegiados (extingue o BNDES e acaba com Bolsa Família, por exemplo);
    – revogar toda e qualquer obrigação legal que não se prove um benefício palpável e demonstrável para a liberdade e a prosperidade de todos (neste rol estão todas as leis – e são muitas – que procuram evitar que os indivíduos infrinjam a lei – se a lei fosse eficaz em evitar infração, o Código Penal diria “é proibido matar”, em vez de “matar alguém: pena …”, e não haveria mais assassinatos – como o DUT, a opressão dos tabeliães, a curta validade dos passaportes, por exemplo), com a extinção dos órgãos e cargos públicos criados para controla-las ;
    – transferir decisões de políticas públicas e fornecimento de serviços públicos para órgãos de governo próximos dos indivíduos;
    – acabar com a participação do poder público em negócios.

    É um bom começo, não acha? Busca liberdade, prosperidade, respeito à lei, à moral e ao próximo, estímulo à iniciativa de cada um, meritocracia, economia de dinheiro público, eficiência do poder público e controle do governante pelo povo. Mantém intactos o calendário eleitoral e o Chefe do Executivo, este na sua honrosa missão de defesa nacional e de prestar os serviços que a sociedade espera dele, e cuida bem do futuro.

    Quem lideraria esta transformação ousada?

    Curtido por 1 pessoa

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