ARTIGO – Obrigada por nada. Por Marli Gonçalves

estou observando...Repara como está aumentando a oferta de dicas. Elas batem em nossas portas, todo mundo querendo convencer você a fazer alguma coisa que se possa tirar uma casquinha. As dez dicas disso, sete dicas daquilo. Aí você, que está em busca de alguma orientação que preste, qualquer lampejo de luz no fim do túnel, corre para ir ver e o que lê são coisas tão óbvias que chegam a ser irritantes

Com a situação periclitante que estamos passando tem coisa que irrite mais do que ouvir alguém aconselhando você a poupar, separar parte do salário para uma emergência, dar dicas de investimentos “melhores” do que a poupança? Tirar o que de onde, se você já está até ficando craque em drible de contas atrasadas, já espatifou o porquinho, e acompanha o aumento dos juros como se fosse um cronômetro de mergulho em águas profundas? Para calcular quanto tempo vai conseguir ficar lá embaixo sem respirar, para não fazer bolha.

Mas isso é o de menos – pelo menos tentam ajudar suas economias: e aquelas dos delegados e policiais quando resolvem dar dicas de segurança? Não saia; se sair, não use nada de valor, feche os vidros, que sejam de preferência blindados, olhe para todos os lados, não relaxe! Atenção! Enfim, se vira sozinho porque a coisa está complicada – não conte com segurança oficial.

Eles fazem a cara mais séria, usam as palavras mais técnicas e dão voltas em si mesmos. Parece que andamos em terras minadas, nadamos em lagoas de patos. Um descuido e você acaba entrando na conversa de algum “diqueiro” mais profissional e convincente. Eles estão em todos os lugares e principalmente na internet. A dica é como uma isca presa em um anzol pronto a fisgar. É dica para turbinar a relação, as nádegas, a atração sexual – turbina tudo! Outro dia recebi um material que ofertava dicas matadoras; matadoras, sim, usaram essa palavra para descrever coisas como “o cliente quer ser bem tratado”. Não me diga.

Recebi também sobre um coach, um palestrante, de um país aqui do Mercosul, que quer vir para cá ensinar aos homens dicas de sedução. Fui ver o vídeo e, como assinalou um comentarista irônico na rede social, se aquele cara ali, meio seboso, se ele seduz alguém, esse curso realmente deve ser espetacular. Custa uma grana, que outro detalhe caprichado dos diqueiros é cobrar muito bem; para valorizar bastante as preciosas gotas de conhecimento que repartirão conosco em sua bondade infinita. Afinal, em geral, essas pessoas que falam nesses cursos caça-trouxas já alcançaram o Nirvana para o qual você também quer e poderá ir. Conseguiram fortunas. Ultrapassaram seus limites. Nesse caso que recebi, são peremptórios. Homens não são completos sem saber seduzir as mulheres, uma coisa assim bem heterossexual. Entre as obviedades que desfiam, indicam que as mulheres procuram homens com humor. Deve ter vindo daí essa onda de stand up que assoCOM LOBÃO E TUDO!la os palcos – você ri e tem orgasmos. Estrangeiros adoram vir aqui contar dessas suas ideias fabulosas.

Antes eram só aquelas dezenas de livros de auto-ajuda que invadiram as livrarias e suas capas chamativas, de como ser campeão, o maioral, superar obstáculos, ir da liderança ao controle absoluto. Depois, vieram outros, mais espiritualizados, indicando que cada um deveria procurar seu interior, dominar a mente, contemplar. Aí surgiram os de colorir, contra o stress.

Agora as apresentações são ao vivo. Já tem curso até para ensinar a colorir os tais livrinhos. Estão levando ao pé da letra a máxima que “se conselho fosse bom ninguém dava; cobrava”. Cobram, e caro, para ensinar qualquer coisa, inclusive a fritar bolinhos, equilibrar o ovo no bife a cavalo. O ambiente está fértil para a proliferação de profetas, e isso é assustador. Cria regras, quadradinhos de limite, dizem que você só é certo e bom se fizer isso ou aquilo; caso contrário será pária.

Todo mundo se perguntando o que fazer. Os olhares andam mesmo ansiosos, e os gestos mais nervosos. O clima é de insegurança e de grande dificuldade de planejamento e perspectiva. Se continuar, se perdurar muito tempo ainda, vai é nos deixar malucos e doentes. É uma situação nunca vivida por aqui, sem precedentes, e, portanto, ainda sem manual de dicas de sobrevivência.

Seria um best-seller. Ia ter fila para a inscrição nessas aulas. Pensando bem, vou ver aí se providencio isso.

São Paulo, 2015, pré mês do encosto.

as obras de arte de Dilma

Marli Gonçalves é jornalista Nós já demos a dica boa, aquela do cai fora enquanto é tempo, mas eles ainda estão querendo saber com quantas panelas se faz um protesto. Aumentam a cada dia as vazias, de grande sonoridade. #ficaadica

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