Já ouviu falar nesse diabinho aquático, o mexilhão dourado? Ele se espalha e traz problemas

Fonte: Folha de S. Paulo

Brasileiros planejam guerra contra espécie de molusco invasor


Pesquisadores brasileiros firmaram uma parceria com uma das maiores empresas de geração de energia elétrica do mundo para desenvolver uma arma inusitada contra o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), molusco que está entre as mais temidas espécies invasoras a afetar os rios do país.

O plano, anunciado nesta semana, é criar um mexilhão geneticamente modificado capaz de cruzar com seus parentes selvagens e produzir apenas descendentes estéreis, levando a população da praga ao colapso.

Se a ideia funcionar, será um ótimo negócio para as hidrelétricas da América do Sul, cujas instalações vivem sendo entupidas pelas conchinhas douradas do bicho, e para as espécies nativas, ameaçadas pela multiplicação descontrolada do mexilhão.

Por enquanto, a equipe coordenada por Mauro Rebelo, biólogo da UFRJ e um dos sócios da start-up Bio Bureau, obteve financiamento para uma prova de conceito da ideia. “Isso significa identificar e validar os genes do mexilhão que vamos modificar, desenvolver as ferramentas para fazer essa alteração genética e criar as primeiras larvas modificadas da espécie”, explicou Rebelo à Folha.

O investimento de R$ 2,5 milhões no projeto virá da CTG Brasil, empresa de origem chinesa que hoje é a segunda maior geradora privada de energia do país. Se os resultados iniciais forem promissores, a estimativa é chegar a mexilhões geneticamente modificados “prontos para o uso” em dez anos.

“A gente acredita no potencial inovador do projeto e tem a visão de longo prazo necessária para ter paciência”, diz Carlos Nascimento, gerente de pesquisa e desenvolvimento da empresa. “Mas o problema não é só nosso, é um problema continental, por isso a ideia é atrair outros tomadores de decisão para que mais parceiros invistam na ideia.”

DIABINHO AQUÁTICO

De fato, olhar para o mapa da expansão do mexilhão-dourado desde que ele chegou à América do Sul, trazido na água de lastro de navios, é como assistir a um filme de terror em câmera lenta.

Nos últimos 25 anos, o molusco filtrador saiu de Buenos Aires e avançou cerca de 5.000 km continente adentro, tomando conta de vastas áreas da bacia do Paraná, a mais importante do Sudeste e do Sul, e chegando ao rio São Francisco. As taxas de reprodução da criatura são tão elevadas que ela pode alcançar densidades demográficas de 150 mil indivíduos por m2 em um ano.

Do ponto de vista das hidrelétricas, essa capacidade de multiplicação é um pesadelo, com o constante entupimento de tubulações, filtros e outros sistemas.

Teme-se ainda o efeito do mexilhão-dourado sobre a biodiversidade nativa. Ao que tudo indica, a competição com ele é péssima para espécies brasileiras de moluscos.

Além disso, o bicho é capaz de filtrar a água com tanta eficiência que ela fica muito mais transparente do que o normal, e isso pode interferir em coisas como a multiplicação de algas, com possíveis repercussões sobre as relações entre as espécies de água doce.

Se o trabalho em laboratório caminhar bem, a ideia é testar o mexilhão modificado em usinas do rio Paraná, na fronteira entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, como Jupiá e Ilha Solteira.

Um trunfo da equipe é o fato de que eles já fizeram a “leitura” completa do genoma da espécie. A pesquisa, submetida para publicação na revista especializada “GigaScience”, tem como primeira autora Marcela Uliano-Silva, da UFRJ. “É o melhor genoma de um bivalve [molusco de concha dupla] montado até hoje”, diz Rebelo.

Em meio a mais de 1,5 bilhão de pares de “letras” químicas de DNA, os pesquisadores já estão de olho num conjunto de genes que influenciam o sistema reprodutivo do mexilhão invasor. “Nossa ideia inicial era mexer com o sistema de adesão do bicho ao substrato onde ele se fixa, mas, para espalhar os genes modificados pela população, mirar nos aspectos reprodutivos seria melhor”, diz.

Os mexilhões com DNA “cavalo de Troia”, cruzando-se com as formas selvagens da espécie, espalhariam genes ligados à esterilidade em ambos os sexos, o que levaria a população invasora a entrar em colapso após algum tempo. A estratégia é muito semelhante à que está sendo usada pela empresa britânica Oxitec para tentar diminuir a população de mosquitos Aedes aegypti em locais como Piracicaba (SP).

Rebelo, aliás, cita esse caso como exemplo de que, apesar dos temores a respeito da liberação de animais geneticamente modificados na natureza, “quando o problema é grande e real, as coisas andam”. “Temos evidências científicas suficientes para mostrar que é muito baixo o risco de que haja efeitos negativos sobre outras espécies.”

A propriedade intelectual pelos frutos do trabalho será dividida igualmente entre a Bio Bureau e a CTG Brasil.

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