ARTIGO – Sobre as reais urgências da vida. Por Marli Gonçalves

Deve ser normal ficar matutando fora do mato sobre algum tema. Não que eu tenha muito tempo para isso. Mas de vez em quando surge, e durante a semana fica alguma coisa martelando, e aquilo vai tomando um crescente, uma forma tal que dá até agonia, angustia. Tem de resolver.

 Deve ser a proximidade de girar a folhinha anual do calendário da vida. Como disse, falta do que fazer não é; ao contrário. Mas esses dias tenho pensado muito no que chamarei de reais urgências da vida. Já repararam como a gente acaba perdendo muito tempo só com insignificâncias, pessoas que não merecem, tentativas de consertar o mundo torto, respondendo a provocações banais, ou mesmo se perturbando, apenas amargando o fígado com esses fatos horrorosos que assolam nosso país?

Os amigos que não vi quando podia e que agora nem mais poderei ver ou falar porque já não estão mais aqui. Os telefonemas que (ainda) não fiz. As mensagens pessoais que ficaram soterradas pela avalanche da loucura virtual de nosso tempo. Os lugares onde até podia ir, não dependiam de dinheiro, mas deu preguiça.

Pensei no que urge. No que é prioritário. Que precisa ser feito primeiro, fundamental, imprescindível, iminente, emergente, imperioso, imperativo, impreterível, instantâneo e necessário, para não faltar descrição.

E lembrei que, ao contrário, grande parte, pessoal, principalmente ligada a você, só a você – ou melhor, no caso, só a mim – acaba protelável, demorada, adiável, dispensável, inútil, evitável, procrastinável, secundária e facultativa.

Tornou-se urgente meditar sobre isso. Virou emergência, e olha que são bem diferentes seus sentidos. Enquanto a emergência é a coisa já estourada, a urgência é ameaça em futuro próximo. Urgência vira emergência. Entendeu? Matute você também, e vai entender o sentido do que para mim virou um alerta depois de tantas perdas, principalmente de pessoas, irrecuperáveis; do que não fiz, talvez ainda farei. Do tempo, que não volta.

Coisa que ninguém vai devolver depois de perdido, assinale-se. Nem sua família, nem seu chefe, e até mesmo os amigos, muito menos seus amores – com esses normalmente se atolam muitas de nossas urgências pessoais. Esqueça reconhecimento. Esqueça tentativa de falar sobre isso. Precisei viver bastante para perceber agora que muitas das angústias e frustrações sentidas advêm de não ter lidado bem com minhas urgências.

Nesse momento o país é um exemplo claro, claríssimo, de monopolização de nossa vida. Quer ver? Essa semana: lembra do tal julgamento no STF que ficou o dia inteiro julgando se julgaria e quando resolveu que sim, não julgou é nada, mas paralisou nossa atenção por motivos óbvios? Era melhor – urgente – ter tirado um cochilo, um bom soninho reconfortante, embalado por aquelas mesuras, falas monocórdicas, empoladas, cheias de palavras enormes dignas de se brincar de forca. O esforço de assistir só valeu uma irritação enorme, seja qual for a tendência política. “Eles” não estão nem aí. O povo, ah, o povo: não tem jeito, vai pensar na eleição na última hora, esperar pesquisas porque não gostam de votar em “derrotados”, escolher qualquer coisa.

É nessa seara que não entendo ver tanta gente se digladiando, cada um defendendo uns que sem dúvida saberemos logo logo que são apenas imprestáveis egoístas. Ou que até já sabemos que são.

Temos todos uma urgência prestes a se tornar emergência, que é o rumo que o Brasil vai tomar, o futuro incerto que de alguma forma já afeta cada um de nós. O que podemos fazer agora? Já?

A ameaça é imediata. Está diante de nós. Tramando para ocupar ainda mais o lugar de nossas urgências pessoais, aquelas, só nossas, importantes, e que só nós sabemos como e se vamos atendê-las.

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Marli Gonçalves, jornalista – Entendi e atendi três urgências de vida. Foi muito bom, agora não irei mais lamentar pelo menos sobre elas, aconteça o que acontecer. #ficaadica

marli@brickmann.com.br; marligo@uol.com.br

Por aqui, 2018

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