ARTIGO – Mulheres, ação! Reação! Por Marli Gonçalves

Mulheres, meninas, avante! Que últimos dias horríveis passamos. Confesso que me sinto mal, irritada, à flor da pele, e extremamente enojada com tanto desrespeito ao que nos é tão caro, precioso, o respeito ao nosso corpo e à privacidade, à nossa segurança. Especialmente desrespeito contra nossas conquistas. Continuaremos avançando, mas precisamos estar unidas, contra esses (e infelizmente, algumas “essas”) escroques que ainda não viveram ou entenderam como é exatamente a realidade de nossa existência

mulheres

Os mesmos mentores de gente tão desqualificada para cargos públicos de tanta importância e poder se arvoram em tentar mudar leis para as conquistas nas quais verdadeiramente sangramos, tantas morreram, dedicaram suas vidas. A violência contínua tentando barrar o nosso crescimento e capacidade de atuação na sociedade como um todo, nossa liberdade assusta e eles reagem tentando nos massacrar e conter de alguma forma. Onde erramos e deixamos essa turba agir – e tão abertamente?

Tanta ignorância junta. Às vezes acho que eles, por exemplo, acham que nós, mulheres, adoramos fazer sexo, engravidar e abortar, jogar fetos fora, como se isso não fosse nada, fosse uma simples decisão. Fazem desse momento tão delicado na vida de qualquer mulher um tenebroso festival de tortura, perigos, ilegalidade. Na verdade, querem – e esse querem é ainda de toda uma sociedade conservadora e masculina – nos impor a maternidade a todo e qualquer custo, mesmo até que ela tenha sido proveniente de um estupro, e o que ocorre diariamente com mulheres de todas as idades, inclusive meninas-criança, meninas com toda uma vida a passar, como assistimos horrorizadas em dois casos tornados públicos esses dias.

Ah, como infelizmente conheço na pele muitas dessas imposições. Esse papo de que mulher é moldada à maternidade, que é menor se não tiver um homem em seu comando. Decidida desde muito cedo a não casar e a não ter filhos só não sofri, e agradeço muito isso, pressão da minha própria e pequena família. De resto, externamente, até hoje de alguma forma sou vista – assim como várias outras mulheres que conheço e que tomaram a mesma decisão em algum momento – como espécies femininas de segunda classe. Barquinhos à deriva. Isso, e mais, para não expressar aqui outros termos ouvidos com frequência, diretamente ou à boca pequena, pelos cantos.

No meio profissional, não há mulher que negue isto se for sincera, acham até que nos fazem algum favor quando nos assediam, como se devêssemos agradecer termos sido as escolhidas entre outras para aguentar alguma chantagem por ascensão profissional, na forma de apertos, passadas de mão, palavras indelicadas, convites indecorosos. Antes que me chamem de radical, ao que também já me acostumei, leia de novo. Não estou me referindo à troca de charmes e flertes obviamente existente entre os sexos, ao uso da sedução que nos é peculiar, uma de nossas armas de poder. Estou falando de imposição, e mais, afirmando o quanto ela é comum em todos os meios profissionais, cada vez mais, com a entrada de mais mulheres no ambiente, seja qual for, crescente, exponencial, capacitado, e claramente o que para eles é mortal: definitivo, sem volta.

Nesses últimos quatro anos, com a chegada ao poder desse grupo inescrupuloso, machista, arrogante, que Deus (e nós, votando) há de defenestrar daqui a três meses, mesmo que com tão poucas opções apresentadas, a situação piorou muito. Digo que piorou porque cansamos de ouvir da boca do tal presidente e companhia alusões e ataques, indiretas, palavras e gracinhas desconfortáveis, além das inaceitáveis tentativas de grave retrocesso em nossas ainda parcas conquistas. Demonstrações chulas, inclusive sobre a própria filha e a invisível primeira dama. Pelo menos aqui e ali ele é punido por isso, como no caso, esses dias, da vitória obtida pela excelente jornalista Patricia Campos Mello nas hostes judiciais, mesmo que ainda um dos desembargadores ainda tenha tido a audácia de votar contra o pedido de indenização solicitado.

Quando são descobertos em suas tramoias ficam putos, e agressivos, já não que não podem ir contra as verdades reveladas em reportagens, e foi essa, mais uma vez, a questão. Assim como agora, com o estouro do escândalo envolvendo o agora ex-presidente da Caixa Federal, e do qual ainda veremos muitos desdobramentos e novas revelações. Algumas mulheres já começam a não temer aparecer, uma puxa a outra. O legal nesse caso é que ele chega a ser didático para várias mulheres que ainda talvez tenham dúvidas quanto ao caráter dessa turba. O tal Pedro Guimarães, ou Pedro Maluco, vejam que apelido mais objetivo, já vem aquela famosa cara de culpado.

E intuição feminina, meus caros leitores, não costuma falhar.

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Marli - julho CGMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – O patético ataque psicótico mundial. Por Marli Gonçalves

O ataque psicótico é mundial. Surto geral. Deu a louca e o mundo começou a rodar ao contrário, engatou a ré, está virando o pescoço e vomitando bílis, dominado pelas forças do mal. Chamem um exorcista – que isso tudo não é de cramulhão bonitinho de novela – para enfrentarmos o segundo semestre que começa semana que vem, a carruagem está bem desgovernada e a gente não quer que recolham nossa viola. Quer?

Já que agora virou moda e todos que aprontam feio, matam, espancam, estupram, babam se justificam com momentos de surto, engano, ideologia ou, pior, ataque psicótico, o mundo resolveu copiar. Senão, como explicar as duas últimas decisões da Suprema Corte dos Estados Unidos, uma liberando o porte de armas em locais públicos – uma ode ao bangbang, ao faroeste; outra, suspendendo o direito ao aborto após 49 anos? – deixem o corpo e as decisões das mulheres em paz! Deixem-nos viver em paz. Aqui, lá, acolá.

Como explicar mais de 120 dias de destruição, em plena Europa, essa guerra cruel que sacode os alicerces do planeta, aumentando a fome e ampliando toda sorte de consequências e medo?

Como explicar toda essa série de ordens sem sentido? Decisões controversas? Atos violentos? Falas deploráveis? Será 2022 o Ano da Besta? Aqui temos uma (besta) para chamar de nossa, nacional, bem grande, inspirada nos moldes da ignorância, e que faz parte dessa absurda guinada que soterra todos os avanços da tecnologia, da Ciência e do bom senso, e que ao menos estamos querendo soterrar, mesmo que com tão poucas opções, e em uma escolha única quase que obrigatória dadas as forças políticas em combate, mais uma vez apenas dual.

Não há otimismo que se sustente quando se tem um mínimo de consciência das mudanças e fatos, e desde que, claro, nos mantenhamos informados, mesmo que pouco, pela imprensa que ainda nos resta, mesmo aos trancos e barrancos, ela mesma desgraçada, e que agora, para piorar, as pesquisas demonstram que grande maioria esteja fugindo do noticiário, preferindo viver sem saber – uma das coisas mais perigosas que presencio em toda minha vida, jornalista que sou há 46 anos. Observem as redes sociais e vejam que presenciamos ali os debates mais miseráveis, pobres, perdidos, despropositados; até nojentos, se me permitem definir. Nos portais, a busca pelos cliques em frufrus, a superfície, patéticas confissões pessoais e sexuais, onde todos querem ser pioneiros do que sempre existiu e que tinha melhor qualidade.

A juíza que pergunta à criança estuprada e grávida se ela suportaria mais um pouco, querendo colher dali mais um desnecessário ser infeliz. Ver que há quem justifique isso porque o estuprador também era uma outra criança, aliás, mais uma sem a orientação sexual, silenciada, essa educação fundamental a eles negada, por religiões e homens. O homem que entra armado com faca e do nada mata três pessoas dentro de um ônibus de uma pacata cidade do interior, e o caso tem menor repercussão do que qualquer massacre com menos requintes coberto ao vivo em outro continente.

Não há mais parâmetros, inclusive na cobertura jornalística. Parece tudo se resumir a informar que o que houve foi um ataque psicótico, que a Justiça é assim mesmo, que a corrupção nunca será vencida, que há fome de milhões, que morreram mais outros que tentavam modificar a situação, que o homem falará ou fará uma besteira ainda mais cabeluda amanhã, que um dia apaga o outro, que o crime organizado domina, que soluções não solucionam. As manchetes de primeira página dos jornais impressos já nascem velhas e desinteressantes – olhe todos nas bancas. Eu, que ao sair desço as escadas, as leio jogadas nos capachos das portas de meus vizinhos, assinantes. Chego ao térreo desconsolada, sempre lembrando de algum dia vivido em tempos áureos, de edições extras, jornais esgotados, manchetes inesquecíveis.

Assim, vamos em frente com essa comunicação truncada, e uma infeliz constatação: aconteça o que for, a mediocridade continuará – já a conhecemos bem, e às suas propostas, vindas de quaisquer direção, ditadas por lideranças que não se renovam.

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marli - cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Que tal um samba? Ou melhor fugir do planeta? Por Marli Gonçalves

Chico Buarque propõe um samba no meio disso tudo que nos atordoa pesadamente dia após dia. Poético, mas também cansado, com cara de quem quer mesmo só olhar de longe como é que vai acabar a temporada desse vagabundo seriado nacional de horror, com capítulos sem fim

Entendo bem. O que a gente, que já viveu, guerreou, se trumbicou, alertou, pode propor à essa altura? Atordoada, esgotada, senti que precisava parar pelos menos uns dias, ficar distante ao máximo, mas como não dá para sair do planeta, o mais recomendável já que a turbulência não é apenas local, fui até ali, ao Rio de Janeiro, onde deu para chegar juntando os trocados.

Ver o mar, ao menos. Depois de mais um década, conferir se ele ainda estava lá. E ele estava tão revolto como estes nossos dias, a ponto de impedir até aquele rápido banho de descarrego. O Rio também estava frio, de usar casaco, e chuvoso. Nas ruas, nas esquinas, a presença ostensiva de carros de polícia e seus homens carrancudos armados e paramentados de negro contrasta duramente com as belezas naturais e relembra aqueles anos duros, quando o que mudava eram os seus uniformes, então verde oliva. Já que os crimes, as balas achadas e perdidas, a violência, tudo persiste, os vi ali parados apenas como adornos deselegantes de uma cidade que atrai turistas de todo o mundo em busca de achar suas maravilhas, mas até elas estão meio desbotadas. E tudo muito caro.

Mas que foi bom, foi. Respirar outro ar, andar para lá e para cá numa viagem que acabou sendo muito afetiva – fui feita lá, foi legal comemorar ali mais um aniversário, conhecer o Museu do Amanhã, ir ao Pão de Açúcar, pegar o bondinho todo modernizado. Na última vez, criança ainda, lembro daquele antigo, pequeno, barulhento, desengonçado, balouçante, hoje aposentado. Também estive na Academia Brasileira de Letras, na posse do amigo José Paulo Cavalcanti Filho, vendo tudo aquilo, aqueles autores, aquele mundo clássico que todo escritor sonha um dia alcançar.

Vi e andei de ônibus – gente, todos literalmente caindo aos pedaços! O metrô, tudo bem, diferente total de São Paulo, estações esculpidas em rochas.

Percebi o quanto é fundamental se curar do que a gente tanto espera de outro alguém. Melhor seguir. Retornar, o jeito, encarar. Tudo. E cá estamos nós.

O planeta perplexo com o desaparecimento do indigenista e do jornalista, assassinados, atingidos ainda pelas odiosas falas do presidente para o qual já esgotamos adjetivos. Se preparar aos tensos dias que antecederão as eleições de outubro. Saber do bodejos dessas pragas aos milhares que se intitulam como influencers e que têm feito mais mal do que bem aos que os conhecem sabe-se lá por quais feitos em seus círculos.

Pelo menos poder assistir ao colorido arco-íris que se forma antecedendo a Parada LGBTQIA+, de todos de uma comunidade que com alegria e alarido vai às ruas demonstrar liberdade e resistência, mesmo diante de tantas ameaças.

Que tal um samba, Chico? …Puxar um samba, que tal? Para espantar o tempo feio. Para remediar o estrago. Que tal um trago? Um desafogo, um devaneio …

 Pois bem. De tudo, entender que é preciso mesmo continuar sonhando, fazendo sambas e planos, pensando adiante. Aliás, onde se compra passagem para ser feliz total, sair batucando – nem que seja por minutos – igual aquele brasileiro que foi dar uma voltinha no espaço? Porque a tal Ratanabá, essa cidade inventada para mais mentiras dessa gente ruim,  é ouro puro, sim. De tolos.

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marli - cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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O bondinho era assim…

barquinhos - samba

Museu do Amanhã, o futuro e o arco-íris

ARTIGO – Tentam nos curvar de todas as maneiras. Por Marli Gonçalves

Nas ruas de nosso país observamos a angústia, a infelicidade, a preocupação, a ansiedade e luta por muitos e variados alguns. Andam perdidos, de cabeça baixa, os olhos sem brilho, desalento visível na caminhada lenta. Vítimas de uma absurda desorganização nas coisas de um governo que sacode e destrói a nação, do momento no qual a saúde é atingida pela desgraça da pandemia que continua em ondas malignas, e da natureza vingativa que castiga e desaba vidas e sonhos justamente dos mais vulneráveis

Bom, claro, tem também os curvados que passam te atropelando como se fossem os donos das calçadas, desatentos, pescoço caído torto, atenção apenas ao celular que não sei o que de tão interessante pode conter para esse exercício tão perigoso. Já vi muita gente atravessando ruas assim, alheios, assim como já os vi tropeçar, caírem em buracos e até quase serem atropelados justamente por estarem tão curvados nesse misterioso mundo. Serão as notícias?

Estarão interessados em eleições, candidatos, partidos? Em jogos de futebol, convocações de times? Talvez atentos ao YouTube e nos filmes absurdos sobre tudo que se pode procurar em diversas versões dos mesmos fatos? Nas dancinhas dos tiktokers?

Entendam os mais espertos em símbolos químicos, nos “cobres” a mais que parece está todo mundo atrás para se garantir e comentar. Pode ser que apenas estejam acompanhando as andanças e polêmicas do tatuado “cobre” da artista famosa e sem papas na língua e que acabou por desnudar um submundo de gastos públicos absurdos e nos mais miseráveis recônditos, justamente por isso sentindo-se livres para saquear o povo, entoando circo sem pão.

A polêmica já tem dias e mais de metro, criando mais uma divisão no país sempre repartido. Agora, são sertanejos e os “outros”. Tome-se por sertanejos alguns desses novos milionários de sucesso duvidoso, esbanjadores, apoiadores alinhados ao desgoverno e seus familiares, sorridentes em fotos e nas conquistas de prefeitos e outros candidatos a continuar fazendo a população continuar se curvando diante da vida. Esqueçam os violeiros antigos, os que por aí apenas cantam com sotaque a sua terrinha, seus amores, esses muitos que se apresentam em pequenos palcos e calçadas só em troca dos tais cobres, mas aí o da gíria de algum dinheiro.

A cantora influente e que está lá fora onde faz sucesso a ponto até de ganhar estátua de cera em museu famoso se diverte e nos diverte a cada vez que se pronuncia mostrando inclusive uma capacidade incrível de usar os sinônimos ao seu próprio e elogiado derrière. Na clara oposição sem partido – e que tanto perturba os caras – usa seus encantos para influenciar mais jovens a se entenderem, o que fez para que tirassem título de eleitor a tempo, ou doando e conclamando outros a doarem para ajudarem as vítimas de grandes tragédias. Faz mais com seu brioco, buzanfa, fiofó, rego, entre outras dezenas de formas, do que a caneta de governantes de Norte a Sul.

Uma tatuagem que deu pano para a manga, quando polemizada por aqueles homenzinhos esdrúxulos que não tinham é nada a ver com isso e poderiam ter ficado bem quietinhos. Inclusive para o bem de nossos ouvidos.

Pelo que se entende, ali no seu corpo que movimenta tão bem, ela apenas talvez tenha querido perpetuar o seu amor por alguém, dizem, marcando “I luv u”; pela frente, comenta-se, a flor de lótus. Só não sabemos ainda de que cor, que cada uma tem uma expressão. No geral, é flor que simboliza a superação, a força, a capacidade de passar pelas dificuldades e ver o lado positivo da situação, uma vez que é flor que nasce da lama.

Gosto de quem não se curva, de quem se defende e aguenta os trancos, e eles estão bem violentos porque mexeram com gente perigosa. Gosto mais ainda quando isso é feito com humor. Quem muito se abaixa, dito popular, mostra o traseiro. E ainda pode ser chutado, já que nem todos nascem virados para a Lua.

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marli junho 22MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Juras de Junho. Por Marli Gonçalves

Junho sempre é mês especial, até porque nele inclusive fecho mais uma dessas voltas ao redor do Sol na vida louca. É mês que marca muitas festas populares, muitos santos reverenciados, promessas, arrasta-pés que levam a um estado de embriaguez e cheio de corações cata-enamorados espalhados nas vitrines. Mas…

Como anda difícil simplesmente ser feliz, viver a vida, quando se é sensível. Quase metade do ano já se foi e, teimosos, nos mantemos esperançosos neste imenso país tropical, nessa gigantesca aldeia global, onde creio que, espaço tem, deve haver algum cantinho desconhecido onde ainda seja possível manter-se alheio à realidade assoladora e aos fatos inquietantes próximos ou distantes.

Aiaiai, quanto mais a gente reza, mais o nosso coração sofre com as notícias que chegam de todos os lados, uma sobrepujando a outra, como se todas elas fossem naturais e devêssemos apenas seguir em frente.

A imagem daquele homem assassinado sufocado por gás dentro de um carro de polícia no Sergipe seguirá aterrorizando nossos sonhos e ficará esperando a Justiça onde quer que se vá. Assim como daquele que teve seu pescoço apertado por coturnos longos minutos se debatendo. Tudo registrado, provado, visto. Real. Se repete.

A malvadeza, se pode dizer, atinge a todos: especialmente os negros, as mulheres, as crianças, os povos originários que vivem naquele cantinho onde havia paz e uma comunidade. Ou nas comunidades emanadas da miséria que recebem a visita do que seria a lei, e o saldo são corpos cravejados contados em números flutuantes.

E ainda tem guerra, melhor, guerras, muitas, as reais e as que travamos diariamente contra nossos próprios medos. As crianças mortas por balas que zunem e elas não tinham a menor culpa de haver uma indústria que movimenta toda a política internacional, dos Senhores das Armas, e que também aqui, infelizmente, encontra guarida e incentivo.

A loucura piorada que atinge a todos de uma forma ou outra, seja os jovens desesperançados que compram as armas e matam, sempre pensando numa vingança que os dominou durante a vida social com a qual não souberam lidar, seja a que libera a maldade em atos inexplicáveis, como essa recente maldição das madrastas – uma que joga o enteado pela janela durante uma briga; a outra que trama envenenar os seus, mata uma, dois meses depois tenta acabar com o outro, e da mesma forma, ainda por cima fazendo sofrer, por envenenamento. Eram pessoas acima de suspeita, sabemos depois.

Pessoas acima de suspeita estão sempre muito perto de nós. E as que suspeitávamos e tentamos tanto avisar, sem sermos ouvidos, do perigo que representavam, estão aí, aqui, ali, inclusive mandando, governando vários povos, como o nosso, e cercando-se sempre de outros seres piores ainda.

Ah, mas a história diz que sempre foi assim. Não. Não tem de ser. Tanta modernidade, tecnologia, vem servindo para o quê? A comunicação que acreditávamos ampliada nos divide, e sem que possamos nem reagir já que são como fantasmas, muitas vezes criados apenas para o terror, para a mentira, para espalhar o ódio.

É junho. Sabia de uma coisa? Eu não sabia. Junho sempre tem chuva de meteoros. Nenhum mês começa no mesmo dia da semana que junho em qualquer ano. E todos os anos termina no mesmo dia da semana que termina março. Começa no mesmo dia que fevereiro do ano que vem. Nele, a floração das rosas atinge seu máximo e junho já foi chamado de Rosa Lua. Não faz diferença, não muda nossa vida, mas é leve.

Aqui, comemoramos três populares santos: Santo Antônio, São Pedro, São João. Vamos ver bandeirinhas coloridas espalhadas, vai ter quentão, danças de roda e a quadrilha, mas a boa, aquela que nos junta batendo palmas, cantando, dançando, tentando nos embriagar para esquecer que, como já disse, repito: aiaiai, quanto mais a gente reza, mais o nosso coração sofre com as notícias que chegam de todos os lados, uma sobrepujando a outra, como se todas elas fossem naturais e devêssemos apenas seguir em frente .

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Marli - perfil cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Feminismo popular. Ninguém é Bruaca. Por Marli Gonçalves

O feminismo ganhando o que mais precisa, divulgação e entendimento de sua simplicidade e importância na força da ação e reação feminina. Está uma delícia. Todos os dias temos visto manifestações – algumas até bem engraçadas – de mulheres brasileiras revoltadas e resolvendo a situação com seus companheiros de forma inusitada: expondo o “gajo” nas redes. Na tevê, a reação das oprimidas faz sucesso e ensina de várias formas que há solução.

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A primeira é não se calar, e o quanto antes. É uma que “vira” onça diante do motel onde está sendo traída, e filma tudo.  A outra que gruda um cartaz no carro do companheiro traidor dando conselhos e inclusive apoiando, vejam só, a amante, pedindo respeito a ela também. Isso se espalha, viraliza. A sororidade se destaca mostrada com sucesso em personagens de novelas, como a Maria chamada de  Bruaca, de Pantanal, reagindo ao entender a situação vivida durante toda uma vida ao lado de um homem horrível,  machista, grosso, nocivo, tóxico, ao qual venerava até descobrir que, inclusive, o tal manteria outra família.

Em um país onde impera a desigualdade, os riscos e violência, e a ignorância tenta a cada dia botar mais as manguinhas de fora, é reconfortante assistir a matérias e matérias repercutindo a opinião de mulheres sobre como estão dando a volta por cima. Ou como estão entendendo muito bem o recado de que sempre chega a hora do “Basta!”. E que esse ponto final poderá salvar suas próprias vidas. O Brasil ainda ocupa o quinto país do mundo em mortes violentas de mulheres segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos – dado vergonhoso e que infelizmente se mantém, apenas piorado, ao longo dos últimos anos.

Em 2020 e 2021 houve uma severa explosão dos casos de violência contra a mulher e feminicídios – o assassinato de mulheres e meninas por questões de gênero, ou seja, exclusivamente em função do menosprezo ou discriminação à condição feminina. A pandemia de Covid, que obrigou ao isolamento, tornou a situação ainda mais calamitosa, especialmente entre as mulheres negras e mais pobres, mas atingindo brusca e diretamente a todas.

As denúncias recebidas pelo Disque Denúncia de São Paulo cresceram 35% em março deste ano, comparando com o mesmo período do ano passado. Em março deste ano foram 57 denúncias, contra 42 em março de 2021. Apenas no primeiro trimestre de 2022, foram 140 relatos de feminicídio no Estado – mais de um por dia!

Nos últimos anos o país tem piorado em muitas questões, particularmente algumas ligadas ao comportamento humano e liberdade individual, ou ligadas às minorias. Todos os dias ouvimos relatos de racismo, manifestações de violência contra as mulheres e contra a população LBGTQIA+.

Uma situação que não envolve apenas as mulheres, em geral atacadas por pessoas próximas, seus companheiros ou ex-companheiros, mas também seus filhos que muitas vezes presenciam esses atos. Atos e números desleais que precisam ser estancados, e luta para a qual todas as mulheres, maioria da população, deve assumir seu papel. Em todos os canais, inclusive políticos.

Daí a importância de divulgar vitórias, as reais e mesmo essas das ficção de filmes e novelas, de casos em redes sociais, muitas vezes a melhor forma de traduzir rapidamente essa batalha e seu significado. Repito: o feminismo é força, precisa ser compreendido em toda sua plenitude, e por homens e mulheres. Não diz respeito só a um ou a outro. São alicerces fundamentais para o futuro. Acredito firmemente que a humanidade não poderá ser assim chamada enquanto a mulher for tratada de forma inferior. Feminismo é prática diária. Presente em nossas vidas.

Não há de se ter vergonha. É preciso pedir ajuda. Por a boca no mundo. Como vítima dessa violência que deixa marcas profundas por toda uma vida, cada caso, cada morte que sei, é como se novamente a ferida fosse em minha pele, e me faz comemorar hoje conseguir ter ficado viva para contar a história, entender exatamente como ela se constrói, a dor que causa.

Me posicionar na frente dessa batalha, implorando pelo fim dessa guerra tão particular e odiosa.

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Marli - perfil cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Ar. No ar. Sem ar. Por Marli Gonçalves

O ar puro não tem cor, nem cheiro, nem sabor. Assim deveria ser, mas ultimamente respiramos coisas bem diferentes. Uma cor cinza, cheiro acre, sabor de dúvidas. Pairam no ar, no momento, incertezas, movimentos bem estranhos que nos inquietam e fazem duvidar até do que no que sempre acreditamos e defendemos

AR

Há momentos nos quais parece que todos os bueiros e buracos, cavernas e fendas foram abertos, e libertando mais do que gases. Surgem os fantasmas do passado. Todo dia sabemos, escutamos e presenciamos mais e mais cenas, no mínimo, lamentáveis. Odiosas. Perigosas. Cínicas, quando vêm embaladas falsamente em liberdade. Pensamentos de ignorância e preconceito, mentiras deslavadas ditas com ar de verdade, repisadas, distribuídas – pior, apoiadas, aceitas e espalhadas por um minoritário percentual de brasileiros que julga que isso é amar o país.

Ataques violentos, racistas, homofóbicos, contra a imprensa, declarações contra tudo e todos, contra as mulheres, a plantação de incertezas num crescente que há muito não se tinha notícia e que nesses três anos e meio viraram comuns, claramente ligados à direção imposta pelo desgoverno  – aliás, notícias sobre isso também estão sempre no ar.

Muitas vezes ao vivo; outras, em gravações registradas sejam horizontais ou verticais em aparelhos celulares que as comprovam. Nós vemos acontecer. Sim, aconteceu mesmo. Mas estranhamente quase nunca sabemos no que deu cada denúncia ou registro daqueles, tantos são dia após dia que se perde o controle, qual foi o encaminhamento, se houve investigação ou punição.

Sem resultados, muitos impunes, eles se repetem, a nós só resta reparar bem nos detalhes quando os conhecemos. Há sempre uma mesma e estranha ligação, inclusive visual na descrição física dos tipos de pessoas que tanto nos indignam. O peito estufado dos machões bombados e fortinhos à la Daniel Silveira, o deputado amestrado infeliz que tenta – e pior, vem conseguindo –  balançar a República, nos deixando indecisos inclusive até com os assuntos imunidade parlamentar e liberdade de expressão, que nos são tão caros, mas desprezados por essa turma do poder que cria situações para justamente deixar muitas insidiosas dúvidas no ar.

Outros elementos encontrados sempre levam a descobrir informações e  posts sobre essas  pessoas onde invariavelmente aparecem com camisetas verde e amarelo, bandeirinhas, o apoio radical ao pior do bolsonarismo, além de mostrar que, melhor não descrever muito, que nem precisa, seria até deselegante: pessoas horríveis, muito horríveis. Horrorosas, em resumo.

Ar que se torna cada dia mais irrespirável quanto mais se aproxima a eleição presidencial. Há um conluio quase combinado dos que só querem armar, odiar, desrespeitar, provocar, violar, incendiar, tumultuar, brigar, atrapalhar, humilhar, tripudiar, outras tantas tentativas de nos fazer perder o ar, a força e o equilíbrio, inclusive para defender o que acreditamos, e nos fará disputar centímetro por centímetro.

É um ar comprimido, encanado, poluído. Quase se tornando irrespirável. Mas haveremos de superar.

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ARTIGO – Os joelhos de Michelle. Por Marli Gonçalves

De joelhos, no Congresso, em encontro evangélico, orando palavras pouco audíveis, toda emocionada, com cara chorona, molhada, consternada, pedindo a “cura” do Brasil.  O teatral ato de Michele Bolsonaro, acaso a esposa do presidente,  que me recuso a chamar de dama, muito menos de primeira-dama, desnecessário, foi um desrespeito total ao Estado laico, ao espaço público, afronta à nossa inteligência e especialmente às mulheres, que eles acham que no meio dessa balbúrdia conquistarão assim

OS JOELHOS DE MICHELLE

De tudo isso só sobra a ideia de que precisamos mesmo – e muito – orar e fazer todos os salamaleques possíveis pelo Brasil, mas para que realmente o país se cure de todo o mal que esse sobrenome, a família toda, nos apresenta. Estamos nós de joelhos, esgarçados, pedindo, mas para que cesse esse angustiante momento, todos os dias com ameaças à democracia e a tudo tão duramente conquistado. Antes que não sobre país.

Não bastasse o ato de uma tal frente evangélica ter sido mais uma vez realizado nas dependências do Congresso, não foi essa a primeira onde a apagada criatura se ajoelhou convenientemente. Agora aparece assim: aqui e ali, e sorrindo, e chorando. Entoou cânticos de aleluia e regozijo emitindo palavras desconexas com a nomeação ao Supremo Tribunal Federal do terrivelmente evangélico André Mendonça. Só assim. Quando não, vestida de Branca de Neve, personagem singular cercada de anões. Ou ainda falando alguma sandice, que traduz em libras, onde se justifica.

Bolsonaros pensam mesmo que o país é a cozinha ou sala ou banheiro da casa deles? Assim parece, e acaba sendo, desde o primeiro dia da eleição deste desgoverno que, com fé, terminará este ano, embora esteja sendo desenhado no ar um maquiavélico plano de continuidade. Claro que não sou nem besta de negar que estejamos todos sem leques de opções de voto – até agora só o sim, ou o não. O país virou apenas uma divisão política incoerente, quando mais precisa de união.

 A sensação é a de que nós estamos fechados em um ambiente com quatro paredes, e que estas paredes vêm se aproximando, comprimindo, cada vez mais rápida e violentamente ao nosso redor como nos piores filmes de terror. E não são alquimistas, mágicos nem malabaristas. É como se inimigos se aproximassem, babando, apertando de todos os lados, libertados de algum canto: racismo, homofobia, misoginia, violência e virulência, essa falsa religiosidade cheia de dogmas preconceituosos e que nem representam os verdadeiros evangélicos vêm se sucedendo, e em uma escala absurda.  O cerco se aperta. Digo mais: não só pela direita, também pela esquerda sempre aferrada a visões passadas que não conseguem atualizar. Tudo isso faz com que o que vem de cima, do teto, dos lados, e até os muitos que vêm se arvorando vindo lááá de baixo se sintam livres para nos ameaçar, alimentados por muitas forças estranhas.

Nesta sala em que estamos detidos, a tortura é ver o país se desmilinguindo continuamente, praticamente em todas as frentes. Só atraso. Onde há avanços? Nas principais áreas, aponte. Educação, só escândalos; Saúde, o nosso SUS salvador respirando por aparelhos entre negacionistas e falta de recursos; Economia? Tem ido aos supermercados, à feira, visto as ruas, o desemprego, a paradeira? Como estão os salários, os juros, o oportunismo empresarial? Infraestrutura? Pior é ter de aguentar que daí ainda saia candidatura de ministro que inaugura obra que despenca poucos dias depois. Estradas? Ferrovias? Hidrovias? Meio Ambiente: devastado pelas patas da boiada humana descontrolada que passa, desmatando, matando, oprimindo e isolando comunidades inteiras. Habitação? Veja o escandaloso luxo dos edifícios que derrubam e expulsam bairros inteiros, a população de rua jogada nas esquinas. Continuo? Pensa nos Direitos Humanos, na Previdência, nos Transportes. Na diplomacia em um momento global tão delicado.  O desmonte é completo.

E ele ri e fala em armar mais e mais, esse ser que não sabe o que é amor, não é possível que saiba.

Mas voltando à dantesca cena dos joelhos dobrados de Michelle em pleno Congresso Nacional, pensem se acaso seria possível a realização de um atozinho sequer, poderia ser de mera homenagem, à campeã Escola de Samba Grande Rio que este ano levou o orixá Exu, o que abre os caminhos, à avenida. Seria até engraçado e bom para dar um banho de descarrego por lá, mas já imaginaram o barulho?

Achei um detalhe bom em outro significado de ficar de joelhos, e quem sabe a esposa do homem não teve, como se diz, a “visão”:  “farejar o toque de retirada”.

Aleluia!

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – O silêncio ruge. Por Marli Gonçalves

No meio do salão Brasil há manifestações contraditórias e, mesmo assim, cheias de sentido e significado, dispostas entre o barulho infernal das redes e o incrível silêncio dos que estão de esgueira, apenas brechando os acontecimentos ou que se mantêm bem longe deles, por escolha, medo, impossibilidade, ou mesmo pela própria sanidade. Mas apure sua percepção: o silêncio já ruge. E pode ser o que modificará o futuro.

Silêncio ruge - significados

Não precisa de copo na parede com o ouvido encostado. Nem adiantaria, para a ampla maioria ainda não há sons, palavras de ordem, não há opinião formada, apenas o segredo e o acompanhamento silente vindo de muitos que estão aqui nesse mesmo chão, suportando, como nós, tanta realidade junta, lutando pela sobrevivência. Muitas vezes apenas sem acesso a canais de descarrego ou imobilizado até algum momento onde o que sente será dito, pronunciado. Ou não. Não são cegos – tudo veem; não são surdos, nem insensíveis. Estão atingidos – a certeza.

O rompimento pode ser apenas aquele momento de apertar o botão verde de “Confirma”, e logo depois ouvir, sim, aquele sonoro barulhinho indicando que o voto foi computado.

Alguns meses angustiantes ainda nos separam desse momento, e até lá estaremos sendo surpreendidos continuamente. O certo mesmo, agora, é que toda a comunicação anda truncada, difícil, às vezes até bastante violenta, já que essa dimensão aparenta agora ter obrigatoriamente apenas dois lados, antagônicos, direções para onde forçosamente deve ser feita a adesão; e isso não é verdade.

Então, o silêncio, o resmungo, a perigosa omissão.  Só isso pode explicar esse ar parado nas ruas, mesmo diante de tanta ventania varrendo a razão, a lógica, o bom senso, qualquer mínima normalidade bombardeada pelo contrário do silêncio, e ao qual estamos sendo submetidos – à verborragia desatada dos que se adiantam tentando laçar corações e mentes mais distraídos de uma população tão cheia de contrastes. Como sempre não tem bonzinho na história.

O silêncio ruge. Murmúrios audíveis apenas a aqueles que têm mais experiência, sensibilidade e disponibilidade para ouvi-los estão em todas as partes: no transporte coletivo, horrorizados diante das gôndolas dos supermercados, nas feiras, nos bares e em todos os inúmeros locais onde desabafos de gente comum ocorre na vida real. São eles, gritos parados no ar, que não nos dão a certeza absoluta de que as pesquisas que agora pululam publicamente – há as que são trancadas a sete chaves pelos contendores, essas sim sempre mais intestinas – já retratem fielmente o pensamento nacional. Há sim uma oposição maior a ser reunida, que precisa se encontrar, entender que pior que está, ficará, e que toda ela será dinamitada se não ceder.

O que falta é o caminho. O estrondo explosivo só possível com a união de forças em torno de uma pauta comum, mínima, mas comum, por uma democracia contundente e compreensível à maioria, que torne possível a construção de algum projeto nesse momento tão especialmente delicado que vivemos, e não só aqui.

O silêncio pode guardar a esperança. E também vem demostrando o desprezo. Às instituições, inclusive algumas poucas ainda guardiãs do que nos resta. Demonstram a insatisfação e descrença. A incredulidade e o grande desapontamento com o apoio e a traição na história de heróis de barro que se desmancham rapidamente.

Temos cada vez menos tempo nesse relógio mais barulhento em tique-taques a partir desse mês, os prazos. Para buscar recuperar algum ânimo. Poucos dias para fazer chegar aos mais jovens a necessidade de sua participação no processo que especialmente lhes dirá respeito em suas vidas. Que possam saber identificar os perigos, inclusive vindos da tecnologia que cria um bando de “gente”, robôs, que além de não existirem, opinam, desinformam, insuflam, manipulados criminosamente como os mudos marionetes presos a fios que, se olhados atentamente, os fios estarão bem visíveis.

É preciso escutar o silêncio e todos os seus significados, muito além do toque de recolher.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Paraísos artificiais. Por Marli Gonçalves

Nos paraísos artificiais que vivemos, não precisa nem de drogas para esses efeitos, alguns alucinógenos, outros nem tanto, reais de doer. Drogas – e das pesadas, batizadas, misturadas com coisa ruim – são essas que nos enfiam diariamente goela abaixo. Não pode, pode. Decreta-se. Publica no Diário Oficial e a gente aguenta. Tudo fora da ordem, na desordem, e seja lá mais o que for.

 paraisos artificiais

“Trabalhar que é bom, ninguém quer, né?” – meu pai sempre dizia isso quando via umas situações – e olha que elas não eram nem de perto parecidas com as que estamos vivendo em realidade, verso, prosa, metaverso, universo paralelo, supermercado, justiça e bem mais. Faço uma adaptação: “Protestar na rua contra tudo isso, ninguém quer, né?”.

Me desculpem os carnavalescos, mas se tem coisa que considero a mais idiota dos últimos tempos foi esse Carnaval artificial, fora de hora, coisa mais esquisita, decretada, assim como todos os acintes que vivenciamos. Não, não sou daquelas que detesta carnaval, gosto até dos bloquinhos, mas tudo tem hora; e a hora não era esta. Ficou uma coisa isolada, e olha que andei por aí algumas horas pelo menos para ver se encontrava alguém, podia até ser uma criancinha com algum adereço, fantasia, alguma pluminha, aquele ar folião. Talvez até mudasse de ideia se encontrasse blocos espontâneos, fossem pequenos grupinhos. Nada. Aqui em São Paulo a coisa realmente se concentra na avenida que não é mais avenida, o Sambódromo. Com alguns ecos. Onde “permitiram”. Não sei no Rio.

A mim, tudo soa falso. “Jeca”, até, se me permitem. Não é porque estamos saindo de dois anos do horror da pandemia que tinha de obrigatoriamente ter o que estão chamando de Carnaval, e Carnaval não é. Pior, vou dizer: estão tentando programar mais outro, para julho. Para satisfazer os blocos. E eu que sonhei tanto com o dia em que, livres do vírus (o que ainda não estamos), iríamos às ruas cantar e dançar – na minha cabeça haveria um dia que isso aconteceria. Não por decreto, como esse ministro da Saúde miserável anuncia, dando pauladas na pandemia que ainda mata mais de cem pessoas por dia, e no mundo fica no vai e volta.

Muito louco esse momento, todos os dias, coroados com o perigoso presidente sem noção fazendo graça/desgraça e troça com a Justiça, desafiando a Constituição, dando indulto para seu amigo ordinário e que, como ele, não tem apreço algum pela democracia. Não, o talzinho não foi injustiçado, nem martirizado, nem preso apenas por ter roubado um pedaço de carne ou shampoo; nem é miserável – essas coisas sociais, como  miséria e o desespero,  não incomodam esse amontoado que temos de chamar de governo  e que está louco para fechar o tempo e continuar nele. Também não é liberdade de expressão ameaçar ministros e suas famílias, convocar ataques, juntar gente para soltar fogos no Supremo Tribunal Federal. Acreditem, por favor, seja como for, com os que estão lá, questionáveis, egocêntricos, mandados, o STF ainda é o último poste em pé de proteção que temos.

Que 2022 seria um ano difícil, nenhuma novidade. Ano de eleições, de Copa do Mundo, de consequências pós-pandêmicas, de economia titubeante e até guerra longe que ecoa aqui. Mas insuportável até para nosso bem estar psicológico – como anda – não era esperado. Perigoso em seus caminhos políticos. Ainda temos de aguentar na tevê propaganda de partidos famosos por sua adesões seja ao que for disputando agora quem é mais… conservador! De doer. Um diz que é o verdadeiro; o outro diz que é o primeiro, sempre com um amontoado de afirmações desconexas e gente tão falsa quanto seus cabelos grudados e o apelo a ver quem é mais reacionário, quem atrai o que há de pior se criando e procriando celeremente fora do cercadinho.

Viva Baudelaire! Que preguiça! Estão tornando o paraíso Brasil um pesadelo tal que a nossa reação quando acordados vem sendo jogar a toalha.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Tão cedo não vejo é país algum. Por Marli Gonçalves

Meu imortal Ignácio de Loyola Brandão parece mesmo ter previsto intuitivamente o que viria quando escreveu e publicou, em 1981, “Não verás país nenhum”, uma de suas premiadas obras de ficção, quase real 40 anos depois. Eu, hoje, apenas digo mais: a esta altura da vida, nunca pensei que veria, testemunharia, as coisas que acontecem diante de nós diariamente, seguidas de outras e tantas outras, como se nada mais importasse, numa estranha caminhada

Tão cedo não vejo é país algum

E não saberemos ainda de muitos fatos que agora tentam nos negar até o próximo século, como se eles se sentissem tão importantes para que, daqui a cem anos, seus malfeitos sejam lembrados, pesquisados e divulgados por historiadores, quando precisamos apenas é que hoje sejam contidos antes que se efetivem, antes que marquem ainda mais esse tempo de terror. Não entendem que seus nomes já estão marcados, e da pior forma possível, e porque os detalhes do que praticam são antevistos.

Espero não parecer exagerada aos olhos especialmente de quem anda desligado dos fatos – e cada vez mais sei de pessoas que estão fazendo isso, se desligando, como se assim as coisas possam se transformar. Não fico sabendo, então, não me importo, pensam uns. Outros, desistiram, quedando apenas cansados. Há os umbigueiros que, se não atingidos de alguma forma, dão de ombros à toda a comunidade.

Talvez por profissão que me mantém ligada, talvez pelo signo, Gêmeos, diretamente ligado à comunicação, à curiosidade, talvez sei lá por que, estou sempre sintonizada nos fatos aqui do meu cantinho. E eles andam bem impressionantes. Pioraram na pandemia, principalmente os ligados à idiossincrasia humana. E os que pensaram que sairíamos melhores desses tempo terrível – e cheguei a acreditar nisso – perderam feio a aposta.

Saímos piores, mais pobres, mais amedrontados, mais loucos, mais feios, impacientes. Mais violentos. Mais egoístas. Como se ter sobrevivido não tivesse sido significativo, não obrigasse a uma renovação interior depois de tantas perdas, angústias e sofrimentos.

Saímos com casca mais dura, parece. Porque estamos suportando – protestando apenas baixinho, ou em letrinhas nas redes sociais – ataques diários à nossa integridade, à nossa inteligência e especialmente à nossa paciência. Vivemos tempos difíceis mundialmente, compreendo, mas em nosso país vivemos tempos particularmente perigosos e levianos, com a estrutura política abalada, e o incentivo à divisão cada vez mais danoso para aquele futuro, lembram? – aquele lá que nunca chega. Ou quando chega queremos gritar.

Senão, vejamos, para onde se olha: a miséria, a violência nas metrópoles incontrolada, tornando qualquer ida à padaria esporte de alto risco. Tudo será rigorosamente investigado, dizem, mas o que se vê é polícia perdendo tempo ocupada em controle e repressão ao comportamento diferente, justamente à diversidade que conquistamos. Assassinatos de mulheres, o feminicídio, fato diário e corriqueiro; assassinato de transexuais e travestis nos posiciona como um dos locais mais perigosos do planeta. Crimes contra turistas que nos afastam cada dia mais de uma de nossas principais fontes de renda e investimento. Como se não bastasse o extermínio dos povos indígenas e seus habitats. A construção desenfreada que nos faz temer se em uma noite não seremos expulsos de nossas casas impiedosamente, tudo substituído por torres horrorosas.

E agora essa que tentam nos impor negando por decreto informações para tudo que perguntamos com direito na base na lei, na transparência de dados, sigilo de 100 anos, sobre tudo que esse desgoverno faz no escurinho do cinema, os encontros que mantêm sob nossas barbas, combinando malditos planos corruptos com uns seres que saíram das trevas sob mantos inclusive religiosos. Não basta apenas o que esfregam com sua inoperância, há a provocação insidiosa à luz do dia, o incentivo ao armamento, à burla da democracia.

Não vemos país nenhum. Vimos e já vivemos o terror do passado. Não veremos mais nada se não nos ligarmos e agirmos.

Aliás, se acaso avistar alguma luz, avisa, que o verbo ver tem muitas flexões. E reflexões.

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ARTIGO – Pescados e Pecados. Por Marli Gonçalves

Pronto, chegou. A santa Semana Santa começa agora, domingo, e vai até o outro, a Páscoa. Do jeito que as coisas andam, sem pescados, com pecados, e sem chocolate, tudo na hora da morte, sacrificados. Vai ter malhação do(s) Judas? Ideias de personagens não faltam. Tem muitas coisas em comum, ou para serem lembradas com o que vivemos hoje, e a celebração da Paixão de Cristo, sua morte e ressurreição

pescados e pecados

Conta a lenda que Jesus Cristo não aceitava o tipo de vida que seu povo levava, o governo cobrando altos impostos, riquezas extremas para uns e miséria para outros, e sua luta por justiça seria punida. Isso acaso lembra alguma coisa, algum lugar que conhece?

Momento sagrado que esse ano, ao contrário de todos, será subvertido ao bel prazer – normalmente tem Carnaval, 40 dias, quaresma, depois vem a celebração religiosa; agora é celebração, reza, reza, e depois, semana seguinte, Carnaval. Brasileiro não tem mesmo problema algum em mudar tradições. Vai por decreto. Piora em ano eleitoral, se pudessem distribuiriam ao povo saquinhos de bondades.

Mas mesmo agora nessa semana, ao que parece, ora, ora, muitas tradições serão afetadas. Por exemplo, na tradição católica, a Sexta-Feira Santa, a Sexta-Feira da Paixão, é dia reservado para a prática da abstinência. Uma tradição do catolicismo preconiza que não se coma nem carne vermelha nem frango nesse dia.

Silêncio. Não deveria conter ironia. Mas…já que faz tempo que esses itens sumiram ou escassearam na mesa dos brasileiros. Aí, é permitido se alimentar com peixe, ok? Claro que já viram os preços escalafobéticos, inclusive do desejado bacalhau, mas se não viram, deixe estar. Todos os noticiários repetirão as matérias sobre isso, sobre preços, sobre como comprá-los, verificar seus olhos brilhantes, suas guelras firmes, coisas assim. E que vivam as sardinhas que devem salvar alguns pratos!

Pessoas mais religiosas optam pelo jejum total, ou parcial, esse já disseminado na maioria da população que ou almoça ou janta, isso quando toma um café que vocês bem sabem quanto está custando. Tem o tal jejum intermitente que anda meio na moda para quem acha que assim emagrece. Ou se limpa de impurezas, coisa mais besta ainda. Má notícia: os médicos dizem que tal intermitência pode até fazer com que quem o faça engorde ainda mais!

Mas voltando à nossa celebração religiosa, feriado prolongado, que já deve estar assim de gente arrumando malas para cair fora para alguma gandaia. Não dá nem para ficar falando muito que, se não tem carne, não tem frango, não tem peixe, se opte por vegetais e frutas, produtos naturais. Não dá, inclusive, porque não quero arrumar encrenca com os pecuaristas que arrumaram treta até com o banco poderoso, e por muito menos que isso. Invocaram com o movimento dos vegetarianos que existe há anos – as “Segundas sem Carne”. Se bem que, em protesto, eles fizeram churrascos nas portas das agências, e vai que sobra uma picanha, uma maminha, uma costelinha… Mas ainda é melhor deixar para lá que encrencar com poderosos crucificou Jesus.

Desde menina, lembro, morria de medo de errar nesse dia e comer alguma carne – e sempre a gente ou esquece ou passa uma tentação pela frente. E claro que aqui ou ali quando se dá conta já está mastigando o proibido. A ideia do pecado, da punição, da culpa, sempre tão presente na religião. Oh, céus!

Aí chega o Sábado, de Aleluia. Dia de Malhação, que não é a da tevê. Malhação do Judas. Coisa até bem violenta. Tradição: juntar um monte gente para, divertindo-se, espancar, dar pauladas, arrastar por aí um boneco, espantalho, em geral primeiro dependurado, meio enforcado, do tamanho de um homem, forrado de serragem, trapos, qualquer coisa. Correr com ele, e depois tacar fogo, em geral ao meio dia. Aqui em São Paulo era até bem comum ver mais disso. Mas todo ano aparece algum, em algum lugar, algum bairro, já que sempre personifica, com placas ou máscaras, alguém malvisto do momento, políticos em geral, malfeitores do povo. Como disse, mais um ano em que a lista é enorme, difícil até de decidir, de candidatos. À eleição. E a virar Judas.

No domingo, os coelhinhos que se livraram de virar assado já que não temos o hábito de tê-los no cardápio normalmente, surgiriam como símbolo de renovação, ressurreição (quase virando lenda, dada a impossibilidade financeira e o oportunismo dos fabricantes), e trariam alegremente ovinhos de páscoa, de chocolate, para as crianças.

Como vemos, anda impossível até manter o mínimo de tradições. Pelo que parece a única mais garantida, que mudam até de data, ópio do povo sem pão, fora de época, é completamente pagã.

Assim vamos indo. De fantasia em fantasia.

E Evoé, Baco!

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Sangue de barata. Por Marli Gonçalves

Barata nem tem sangue, nem poderia mesmo reagir às boas chineladas, vassouradas e doses cavalares de inseticida que recebe quando as vemos, claro depois que gritamos muito. Barata desestabiliza qualquer um, que tenha medo delas ou não. Mas o caso aqui, sinceramente, é tratar da hipocrisia que grassou essa semana, e entre os humanos

barata

Sim, tem a ver com o catiripapo que o ator Will Smith deu no comediante Chris Rock durante a cerimônia do Oscar; portanto, ao vivo, diante de milhões de telespectadores no mundo inteiro, além das outras estrelas de cinema no local do “crime” e que ficaram ali, caras e bocas,  na maior saia justa, junto aos maravilhosos longos e smokings. Todo mundo viu. Will Smith, inclusive logo depois premiado como Melhor Ator, levantou-se de sua cadeirinha para ir até o palco dar uma bolacha no comediante que fazia, cheio de gracejos, a apresentação de uma categoria e citou de maneira bem inapropriada Jada Smith, a esposa do ator, ali ao seu lado, linda num deslumbrante vestido verde, mas careca. Cabeça raspadinha, já que é acometida de alopecia, doença autoimune séria que faz com que os cabelos e pelos do corpo caiam, em chumaços, de difícil cura. Jada resolveu depenar logo os cabelos da cabeça. Foi exatamente isso que a “piada” atingiu.

Realmente não pegou nada bem. Parece que a pendenga entre os dois, Smith e Chris Rock, já vinha de outros carnavais, sempre por conta da Jada, enfiada em piadas já em outras ocasiões.

Diz pra mim que você nunca teve vontade. Ao menos pensou, adoraria poder reagir, chegou até a viajar nos requintes da desforra que faria. Vai guardando, vai guardando, um dia a gente estoura, o pneu fura, a bomba explode, o saco arrebenta, a boca range, o olho se aperta, e o sangue que não é de barata sobe. Aí não tem estrela, educação, meditação transcendental, riqueza, pobreza, cerca, muro ou escadinha para o palco que segure.

Nem me venham dizer o contrário. Sem entrar no mérito se foi certo, errado; aliás, quem tinha muito mesmo a perder ali era o próprio e famoso e milionário Will Smith, no mesmo dia de sua maior glória, sua maior crise. Só não consegui entender o mimimi que se seguiu à bordoada, como se todos fossem poços de paz, amor, incapazes jamais de qualquer descontrole.

Hipocrisia. Quero ver vir alguém mexer pesadamente com alguém que você ame muito, da sua família, e você já estar com um osso entalado no gogó. Ninguém começa a entoar Ave Maria numa hora dessas, vamos e venhamos. Por muito menos, sete saias já rodaram, seja com homem, seja com mulher, com poderosos, fossem maiores do que eu. Desaforo não deve ir para casa, e essa aula recebi de criação.

Tudo bem, claro, que não precisa ser no tabefe, bifa, bofetão, na lambada, no safanão, na lapada. Não precisa, mas cada um sabe o que se passa naquele momento fervor. Will Smith que o diga. E a reação, ressalte-se, foi de um negro contra outro negro – imagine se um deles fosse branco, o que se iria dizer! Aliás, também li muitas críticas sobre o fato de ter sido o homem que saiu em defesa da esposa, como se ela própria não pudesse se defender. Podia, que ela é bem do balacobaco. Mas tem sorte de ter ao seu lado um marido sem sangue de barata. Invejinha, te avisto daqui.

Ah, mas não se resolve nada assim. Ok, ok. O problema é exatamente esse, não se resolve nada assim, e muito menos ainda quedando calado, abaixando a cabeça, querendo resolver num cantinho para não chamar a atenção. Daí estarmos todos nessa situação nacional de engolir sapos todo dia, e ficar esperando o sapo do dia seguinte, entre risadinhas, ironias, memes e posts nas redes sociais, esse lugar paradisíaco onde todo mundo é bonzinho, bonitinho, politicamente correto, educado, na moral. Barata tonta. Entregue às baratas.

A verdade é essa filosofia de inseto, o sangue de barata,  está se espalhando em tudo, criando de forma geral uma impressionante apatia que a tudo suporta – desde os preços nada baratos dos alimentos, as cidades às traças, os desaforos com os direitos que temos, o oportunismo crescente, o mundo se acabando diante de nós. Como se um grande medo coletivo tivesse se instalado em prol não se sabe exatamente de quê.

Aliás, a barata, assim como a maioria dos insetos, nem tem sangue, mas um fluído chamado de hemolinfa, que pode ser até coloridinho dependendo do sexo e do tipo da barata.  Por isso se diz que teriam “sangue frio” (o que entre nós humanos tem até um outro sentido bem violento). Talvez por isso as próprias nos enfrentem, escapem, subam nas nossas pernas, sejam tão ameaçadoras e nos obriguem a reagir o mais rápido possível contra elas. Quem, sangue de barata, consegue dormir com uma delas por perto?

Barata voa.

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ARTIGO – Unha encravada e a maldita de 64. Por Marli Gonçalves

Duvido que a esta altura da vida você não tenha tido ao menos uma vez uma unha encravada terrível para entender a dificuldade de sumir com ela, a dor em cada passo, aquilo ali, pontinha, latejando, e sempre tentando retornar. O Brasil está com unha encravada. Há décadas.

unha encravada e a maldita de 64

Vai latejar e doer muito mais essa semana, quando novamente certamente aparecerão os que tecerão odes à maldita, ao golpe de 1964, que ainda hoje se manifesta e se arrasta entre nós como uma praga, uma erva daninha, essa unha encravada que ameaça o nosso sossego e a democracia. Uma doença mal curada. Vamos ouvir aqui e ali os ecos de Ordem do Dia, alguma bobagem que será lida nos comandos militares onde o golpe maldito é chamado de revolução, e a ditadura, de redentora. Por aí vai.

Em ano eleitoral, unha encravada foi a melhor comparação que achei para descrever o inferno e a distopia que há anos e anos temos enfrentado – parece castigo – cantilena que se repete dia a dia com as revelações, as falas, os conchavos de corruptos para lá e para cá, o uso desmedido da religião e da fé, sem que apareçam novas – eu disse novas – lideranças capazes de realmente promoverem mudanças importantes. Uma mão habilidosa com um alicate afiado que enfim nos livre dessa pontinha que tortura nossos passos no país tão rico e mal aproveitado que não alcança seu futuro.

Só aparece traste ou arremedo de traste, e quem tem acompanhado a recente e chatíssima inundação de propagandas de partidos na tevê vai me dar razão. Mulheres pregando a importância da participação feminina, legal! Mas logo depois, ao final, elas surgem juntas apoiando a candidatura de (mais uma vez) um homem, o bendito fruto entre as mulheres. Tem uns dois ou três anúncios desses, fora os dos partidos conservadores e mais à direita onde mulheres nos fazem corar de raiva quando pregam justamente o contrário das conquistas suadas que conseguimos, gritando moral ultrapassada, limites de ações libertárias, negando o direito das mulheres sobre o seu corpo e decisões. Aliás, muitas até já eleitas, mas das quais só ouvimos falar ou nesses momentos ou quando votam camboneadas pelos donos de seus partidos (uns homens muito esquisitos).  Poucas são, infelizmente, as que nos orgulham.

É de doer.

Não é nem mais do mesmo. É muito menos do mesmo, o que recebemos. Nesses últimos dias a única coisa que deu gosto foi ver alguns artistas, “influencers” e celebridades se movimentando em prol da campanha para que os maiores de 16 anos tirem o título de eleitor, entendam que mudanças são feitas na vida real, não em redes sociais. Tentando espanar a apatia e o domínio dessa polaridade tão pouco criativa e limitadora que assistimos há tempos. Que já causou na última eleição a ascensão de um ser sabidamente despreparado e que, além de não admitir isso, carregou para dentro do poder sua família desequilibrada e cercando-se apenas de iguais, nos envergonhando inclusive diante do mundo. Um triste manancial de retrocessos, um poço de aleivosias. O país, aconteça o que acontecer, demorará muito para se recuperar. Dele. Da terra arrasada. Dos fantasmas antigos libertados que se sentem à vontade para atingir, mentir, enfrentar com violência os que a eles se opõem.

É preciso parar de votar anti isso ou anti aquilo; há muito não se vota mais a favor de alguém, mas contra outro alguém. Foi-se embora a mínima convicção política, a ideologia e o conhecimento, o posicionamento no arco democrático. Entrou, e perigosamente, a adoração, e por mitos de pés de barro, tão fortemente demonstrados em suas próprias trajetórias e tropeços.

Continuaremos nós com pedras nos sapatos, calos nas mãos de tanto trabalho para conquistar algo que sempre nos escapa, e ainda tentando fugir da pandemia que, embora continue matando centenas diariamente, contaminando milhares, tentam matar a pauladas e decretos, e que já-já vai é para os rodapés dos noticiários, atropelada pelas pesquisas eleitorais que demonstram exatamente o tamanho da unha encravada à qual me refiro como metáfora.

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ARTIGO – Laços de amizade. Por Marli Gonçalves

Sei, sei sim, Laços de Amizade, parece nome de novela mexicana, mas qual novela ultimamente que não é mesmo meio misto de mexicana, paraguaia, “guatemalteca” e afins?  A que termina essa semana, Lugar ao Sol, chega a ser surpreendente nisso – e não se trata de realismo fantástico, mas de como os assuntos se entrelaçam e são finalizados na maçaroca, na pancada, igual querem fazer com a pandemia

laços de amizade

Sempre tem um acidente de avião ou helicóptero que mata um, dois ou mais personagens, e como dali não sobra nada, nem precisa ser mostrado – economia boa de recursos; tem  a mãe que não é mãe, o pai que não é pai, muito menos o filho é filho, e suas variações; idas e voltas amorosas, casamentos, e revelações, muitas revelações,  como se os espectadores fossem todos obtusos e ficassem sempre aguardando as redenções, o maniqueísmo do bem e do mal, o expurgo das culpas. O cansaço dessa fórmula talvez demonstre a causa e o crescimento da loucura por seriados gringos e seus roteiros mais sofisticados.

Mas quero tratar da realidade, dos laços de amizade reais. Laços grandes, pequenos, médios, apertados ou frouxos, mas laços. De como é bom ter alguém para chamar de amigo ou amiga, tantas vezes laços maiores do que os mantidos com os próprios familiares. Com o advento das redes sociais, no entanto, o sentido da palavra amigo se modificou, ficou mais aberto. Temos milhares de amigos, que aceitamos, mas não conhecemos e, na maioria dos casos nunca conheceremos pessoalmente, mesmo que alguns até bem gostaríamos. Tenho seguidores, leitores, por exemplo, dos quais sei muito, fatos íntimos, converso e troco ideias, mas que de repente podem passar ao meu lado na rua sem que nos reconheçamos. Há, de qualquer forma, um bonito tipo de sentimento envolvido na relação. Oi, amigo!

Só que nada como o real. As pessoas que conhecemos, admiramos, com as quais percorremos alguns trechos da vida, com lembranças, aprontos, muitas vezes até atritos nos pensamentos discordantes um dia, mas resolvidos. Com essas pessoas nos preocupamos, ficamos apreensivos quando – mesmo que talvez distantes, e andamos um bom tempo distantes de tantas coisas! – delas não temos boas notícias. O que tem se tornado comum, inclusive, situações e desfechos alardeados via redes sociais. O Facebook tem dia que mais parece um obituário. E lá se vão os conhecidos, os amigos, pedaços de nossa histórias, deixando a sensação ruim daquele café combinado, do encontro, o telefonema adiado. Aquela pergunta não feita.

No momento, por aqui, a apreensão é enorme com um amigo ligado a uma máquina e aguardando  a chance de um transplante de coração, e outro com um diagnóstico terrível daquela doença para qual o mundo ainda não encontrou cura ou vacina, embora já ande passeando pelo espaço, até com venda antecipada de bilhetes milionários em naves particulares. Os dois são jornalistas, um mais jovem que eu, com 58; outro, já mais velho, por volta de 76. O que fazer nessa hora, a não ser orar, torcer? O que dizer para quem os acompanha, para suas famílias, como aplacar a angústia? Como apoiar, inclusive os seus outros amigos, alguns muito mais próximos deles ainda, que também quedam desnorteados?

Difícil. Não lembro se já contei que tenho muito poucos amigos reais – grande parte perdi, seja nas ondas terríveis anteriores ocorridas em outras décadas, seja nessa agora que nos devastou de tanta gente importante, e que só um dia mais lá para a frente teremos noção desse tempo de pandemia. Pandemia agora desmascarada e que tentam acabar a pauladas em ano eleitoral, embora esteja ainda tão presente, tão letal quanto a guerra. Quanto as guerras.

Há quatro anos não via um desses poucos amigos, do casal que mudou-se para Madri em busca de seus sonhos e de proporcionar ao filho adolescente a chance de como cidadão do mundo poder realmente fazer suas escolhas, meu afilhado postiço, hoje já com 19 anos e estudando em Haia, na Holanda.

Alexandre está aqui em casa, onde vai passar uma temporada, e essa convivência foi o que me fez lembrar mais uma vez do valor de uma amizade real, especialmente para mim que só tenho meu irmão nessa vida (e uma gatinha que aqui também habita, membra honorária da família). O tempo passou, mas a distância de continentes em nada alterou o respeito que mantivemos desde sempre, demonstrado inesquecível na solidariedade sem par que esses amigos também dedicaram à minha mãe e ao meu pai quando mais precisávamos.

Interessante.  Pois não é que nos conhecemos nus, despidos, em uma praia naturista do  Nordeste? Ainda hoje creio que foi esse conhecimento tão inusitado e natural, sem disfarces, que nos tornou tão unidos, diferentes de amizades outras em geral dependentes de recursos, interesses, e um enorme tempo necessário para se conhecer a essência de um e de outro até ganhar confiança.

Laços de amizade são fundamentais para contarmos. Para nossa sanidade mental, e até para orientar nossos caminhos – que não nos desviemos. Como diz a música, amigo é mesmo coisa para se guardar debaixo de sete chaves.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Sansão e as sanções. Por Marli Gonçalves

Deu-se que lembrei nada mais nada menos do que de Sansão, aquele, o guerreiro bíblico, da força descomunal nos cabelos, da loucura por mulheres bonitas, que viveu a vida em guerra e vinganças.

Sansão

É sanção sendo atirada de um lado a outro. A palavra da semana, igual aos bombardeios cruzando o globo. Eu não compro mais isso, você não recebe mais aquilo. Ameaça vai; ameaça vem. Vamos ver no que vai dar o tira e põe. Sobra, claro, para todo o mundo, que acaba entendendo o que é sanção bem na própria pele, vide o absurdo aumento dos combustíveis que vai impactar ainda muito mais nosso suado e surrado dinheirinho. Na cadeia inflacionária descarrilada – e que só por acabar de ser informada do aumento já sai apitando nas esquinas, nas feiras, no supermercados num batida maldita que só trará mais miséria. E universal.

Muito louco como quando passamos por tempos difíceis como os que estamos vivendo coletivamente, de guerras, doenças, notícias esquisitas, de um tudo ao mesmo tempo agora, vem à nossa cabeça a lembrança de cada coisa, Igual sonho que puxa da memória o inimaginável, sabe-se lá onde estava guardado, e para onde volta depois.

O tal Sansão, antes que esqueça de frisar, não é personagem do cotidiano pessoal, já que por acaso histórias bíblicas, a própria Bíblia, admito, é para mim um estranho emaranhado de personagens, e não gosto nem um pouco de mexer com religião. Aliás, ultimamente só de ouvir falar em mito tenho urticária.

Lá, muitos personagens se destacam mais que outros, viraram expressões populares de fatos, como Caim e Abel, traição, assassinato entre irmãos. Muitos outros exemplos.

Aficionada, sim, mas pelas mitologias, onde também seus personagens esbarram entre si, gregos, romanos, cada povo contando seu lado. No caso, Sansão tudo a ver com Hércules, ambos fortes, másculos, violentos, e com mulheres tecendo suas histórias, em um caminho da destruição, da luta pelo poder, ordenamentos, opressão, divisões políticas e crenças.

Sansão nasceu durante uma guerra, com sua nação lutando contra os filisteus. Já nasceu com a missão de ser o libertador de Israel, um Nazireu, homens israelitas dedicados a servir a Deus. Eles tinham que se abster totalmente de álcool, nunca tocar em um cadáver ou cortar o cabelo. Daí seus longos cabelos serem tidos como símbolo de força – dada por Deus, aquele que dá e tira. Força que teria acabado e ele sendo aprisionado, cegado e torturado por confiar em uma mulher, que conhecemos como Dalila, que o vendeu por moedas aos inimigos ao descobrir seu segredo e tosar sua cabeleira. Seu final foi a própria morte, mas levando consigo um bom punhado de inimigos, assim que o cabelo cortado cresceu. E entrando para a história infinita como um herói bíblico. Cheio de recados com moral.

Resumi bem, porque assim vejo a guerra. Vítimas de todos os lados e banho de sangue, pelo poder. Claro que hoje temos ainda o terror nuclear, aquele boom do qual ninguém quer ser testemunha. Mas o crescendo que assistimos de explosões, foguetes e êxodo de milhões parece coisa antiga, aquela mesma que juramos há mais de 75 anos atrás que não se repetiria. O que mudou, o que é mais “moderno”, são as forças de cada lado, globalizadas, as nações envolvidas que ultrapassam o continente em questão, os tiros políticos com as balas de sanções que atingem distâncias muito maiores. Dezenas de gigantescas empresas e corporações que abandonam a Rússia nesse momento vão manter seus funcionários com salários, segurança, amor, carinho, leite e pão nesse período que já se mostra incalculável, seguidos acordos de paz fracassados?

Sanções também são censura. Não é que eu acabo de me por em risco falando do Sansão? Acredite: a Câmara votou urgência em projeto que proíbe o uso da palavra Bíblia fora do contexto desses caras que dela se apossaram.

“Fica terminantemente proibido os termos ‘Bíblia’ e/ou ‘Bíblia Sagrada’ em qualquer publicação impressa ou eletrônica de modo a dar sentido diferente dos textos consagrados há milênios nos livros, capítulos e versículos utilizados pelas diversas religiões cristãs já existentes, seja católica, evangélica ou outras mais que se orientam por este livro mundialmente lido e consagrado como Bíblia”,  primeiro artigo do projeto de autoria do tal deputado Pastor Sargento Isidório (Avante-BA).

Aí vocês me perguntam. No meio de tanta coisa importante para se fazer, cuidar, resolver? Veja bem. E vou piorar a situação quando explicar que eles fizeram isso porque acreditam piamente que há quem esteja planejando uma Bíblia gay. Sem comentários.

O que foi que nós fizemos de mal para termos de aguentar essa sequência assassina de bombardeios de ignorância, preconceito, descasos, bobagens, retrocessos dia e noite aqui em nosso sofrido país?

Não admira os cabelos brancos revoltos pululando na cabeça de uma população que só queria deitá-los e dormir em paz. E que acordam sem eles, sem forças.

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Marli - perfil cg – MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Ah, é Guerra? Por Marli Gonçalves

É muita coisa junta atraindo, merecendo e roubando a nossa atenção. Pandemia, mortes; guerra, mortes; violência, mortes; usinas nucleares em chamas, o mundo todo envolto em dramas, pó, chamas. Gente chata. Busca por sobrevivência. Me diz: quanto tempo você está conseguindo ficar pensando só em sua própria vida? Planejando qualquer coisa? Como se concentrar sem ser egoísta?

ah, é guerra!

Um dia após o outro, com calma. Respire fundo. Tenha pensamentos positivos. Concentre-se. Reze, reze muito. Apegue-se ao presente. Não será por falta de conselhos, mesmo que alguns sejam praticamente inexequíveis nesta altura dos acontecimentos.

Não teremos mesmo muitas outras opções, pelo menos não nos próximos dias, talvez meses, e que não se permita que essa agonia prossiga por anos. O ar irrespirável da guerra, mesmo que lá a mais de 11 mil quilômetros de distância, nos tira o fôlego, e especialmente o tempo de pensar em nossas próprias vidas, problemas e soluções.

Por aqui, os dias do Carnaval, que já não estava aquela beleza, ficaram muito piores ainda com os ecos da invasão russa à Ucrânia, não bastassem os gritos de perigo da pandemia, seu vírus e suas cepas continuamente renovadas. Nos últimos anos aqui em São Paulo o Carnaval tinha virado uma temporada de alegria, com diversão, blocos na rua – as pessoas nem mais viajavam tanto, abandonando a cidade, abarrotando estradas – e agora já vimos tudo isso de novo. Como se todos que pudessem sair, corressem para algum lugar onde pudessem relaxar, esquecer, ouvir o canto de pássaros, mergulhar com peixinhos. A cidade aqui ficou uma tristeza só. E olha que em 2021 já tinha sido punk, mas agora somou-se pandemia e a guerra lá, com ecos por aqui, e que já nos aperta e morde os tornozelos.

É uma guerra não contida só em suas fronteiras. É uma guerra que envolve os brasileiros, seja por estarem lá, ou por perto, ou no todo ameaçado continente europeu – e isso é muita gente, contando seja com familiares, ou mesmo nossos amigos – tanta gente que havia se pinicado daqui em busca de futuro. Para completar, a política errática do desgoverno Bolsonaro, que não sabe se vai ou se fica, se pula ou corre, e que abraça, para nossa tristeza, o lado dos ditadores. Não, não vou deixar de criticar uma inacreditável parte da esquerda nacional ainda capaz de vomitar tantas sandices, abanando o rabo russo, como se esse lhe coubesse em um caso tão claro de violação de direitos humanos e espalhamento de terror.

Quem não se sente perdido nesse mar de bombas, fake news, autoritarismo, oportunismo ideológico e de outras nações, violações, alarmes tocando dia e noite, mais um êxodo migratório gigantesco e desconfortável?

Tudo isso em 2022, logo já em seu início. Ano que se já não era simples para nós, piorou, quando aguardamos ansiosos uma eleição ainda indecifrável, com lista de candidatos pouco atrativos e nessa grudenta divisão que nos assola há anos, limitante e emburrecedora, capaz de nos por aqui, também, em uma guerra particular.

Ah, não quero ouvir falar de guerra! Ah, não quero saber de números da pandemia! Ah, não quero saber de noticiário!  – Tenho ouvido tanto isso, que acabo entendendo a apatia em que nos encontramos. E exageram.

Para vocês terem uma ideia, acreditem ou não, ouvi da gerência da academia que frequento – a mocinha foi capaz de dizer aos meus ouvidos que a terra há de comer, como se diz –  que as tevês estavam ligadas em canais de esporte por conta do “ambiente esportivo”. O que passava quando reclamei, coisa que parece as pessoas esqueceram como é, submetendo-se silentes a tudo, e era de manhãzinha? Das cinco tevês, três sintonizavam uma mesma e sangrenta luta de boxe; as outras duas, comentaristas sportvianos sentados nas suas mesinhas, e visto em tevês claro que sem som. As boquinhas se mexendo.

(…e eu só queria ver o mar, por exemplo, nas ondinhas das surfistas do Canal OFF, ou uma Ana Maria Braga com suas receitas deliciosas, um desenhinho animado, uma previsão de tempo…).  

A guerra não é aqui. Mas vai sempre ter alguém ou algo bombardeando nosso mais que valioso momento reflexão.

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ARTIGO – Os bufões da guerra. Por Marli Gonçalves

Um amigo, sábio, silencioso, tranquilo, sempre muito equilibrado, de repente o vejo publicar no Facebook uma série de imagens de bufões, palhaços, saltimbancos. Apenas elas, sem qualquer texto. Nesta loucura que vivemos, até demorei um pouco para entender o claro recado que ele deixava – sua opinião sobre a guerra que assistimos atônitos

bufões da guerra

Mas entendi, e com clareza. Há mesmo vários bufões envolvidos nesse conflito mundial que desembocou na invasão da Ucrânia pela Rússia, e não estou querendo aqui fazer qualquer análise dessas super sérias de geopolítica ou histórica, que já tem bastante gente fazendo isso, alguns com aquela velha cara de “conteúdo”, de sabichões.

Faço apenas o registro atual de que nesse conflito e em tantos outros que vivemos eles estão lá, os bufões; pior, no poder, com poderes. São variados. Há os poderosos como Vladimir Putin, da Rússia. Os que caíram de paraquedas, como Volodymyr Zelenky, que preside a Ucrânia desde 2019, e que, portanto, era até há pouco apenas um ator humorista, alçado ao cargo por sorte e porque a política internacional também têm os nossos mesmos problemas – o voto tentativa no novo, no desconhecido, no salto no escuro, para tentar fugir da política tradicional, a aposta no tal diferente. Isso quando podem votar livremente, e o que não é o caso em locais como China, Coreia do Norte (do bufãozinho esquisitinho), a Venezuela de Maduro, e mesmo da Rússia, que ali também liberdade não há. Uns toda hora tentando derrubar outros. Com bombas, tanques, foguetes, envenenamentos, ataques hackers, poderio nuclear, estrangulamentos econômicos, patadas.

Tudo sem a menor graça.

Só que depois do inefável Trump, os Estados Unidos, a super potência, elegeu Joe Biden, o que tanto aplaudimos, mas que também rapidamente virou decepção com aquele eterno sorriso embutido, olhinhos fechados disparando ameaças de pouca efetividade. Claro que você está aí lembrando de vários outros nomes e interesses envolvidos nesse furdunço e entendendo como essa salada muito pouco divertida se transformou no maior conflito armado desde a Segunda Guerra.

Vai sobrar para nós. Aliás, já está sobrando com queda de Bolsa, aumento do barril do petróleo, escassez de produtos, problemas para a importação de trigo, e a angústia de centenas de famílias brasileiras com seus membros ilhados no meio de tudo isso.

Temos um bufão especial para chamarmos de nosso. O presidente Jair Bolsonaro se esmera em nos enrubescer e envergonhar ainda mais diante do barulhento e mortal cenário internacional com o seu comportamento irresponsável – que não encontrei palavra melhor para definir, no mínimo, a forma como está conduzindo o país nesta situação. Mais uma vez destoamos, inclusive de nossos vizinhos. Agora é torcer apenas para que a situação atual não se agrave ainda mais, torcer pelo cessar-fogo. Esperar para que mais essa ferida cicatrize. Mas a marca vai ficar. Já ficou.

Não sei se por conta da superficialidade das redes sociais, se por conta da pandemia que deixou todo mundo atazanado, das constantes crises econômicas, de uma confusão de extremos ideológicos, ou se da cultura do ódio que novamente vemos surgir, a verdade é que ninguém mais leva a sério nada.

E tudo é muito sério. Parece que tudo pode. Nem os próprios bufões são levados a sério entre eles, em parlamentos, grandes mesas, parlatórios, pronunciamentos, reuniões, em suas grandes entidades. Em seus próprios países.

Nós não os levamos a sério.

Ultimamente surgiu mais uma chatinha modinha de linguagem. O tal “é sobre isso”é sobre aquilo”, que talvez você já tenha notado, usado toda hora para resumir argumentos numa discussão, de forma a clareá-los. E encerrar a discussão.

Então, lá vai. É sobre isso. Ninguém mais se leva muito a sério, nem na hora do voto. Não se leva mais a sério nem os perigosos bufões. Mas os bufões, ah, estes pessoalmente se levam muito a sério, e querem permanecer poderosos, custe o que custar, já não são mais só apenas os bobos da corte. Vide os nossos.

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ARTIGO – Repórteres no front. Respeite. Por Marli Gonçalves

Respeite a imprensa. No front de que falo eles estão lá é para você saber das coisas. Não se esqueçam deles, estão ali na frente de muitas batalhas e não falo só em guerras militares, mas da guerra pela informação. Eles ouvem o relato de situações dramáticas. Vão atrás de histórias pessoais de cidadãos que perderam tudo, têm diante de si a visão da morte. Fotografam seus rostos, filmam,  sofrem junto. E deles ainda se espera imparcialidade!

DIDA SAMPAIO - FRONT
DIDA SAMPAIO – FOTO DO TWITTER PESSOAL

Eles choram diante das câmeras, não se aguentam, homens e mulheres, profissionais gabaritados ou “focas”, iniciantes, como vimos tantas vezes essa semana em mais essa tragédia pavorosa na serra fluminense. Não conseguem se conter, nem poderiam. Estão ali, com os pés afundados na lama, muitas vezes sem dormir, sem comer, e muito menos ganhar bem para isso. Acompanham as equipes de resgate, consolam familiares, veem corpos sendo retirados de escombros. Crianças mortas, perdidas, órfãos. Destroços. Nunca mais vão esquecer essas cenas, acredite. São imagens e histórias que nos marcam para sempre.

Poderiam também ser as suas próprias histórias. Conheceram algumas das vítimas.

Não são só essas grandes tragédias que fazem parte do dia a dia dos repórteres. Ainda essa semana, dia 16, foi comemorado o Dia do Repórter, entre tantos dias que se comemora imprensa, dia disso, dia daquilo, mas pouco se valoriza de verdade. Nas ruas são profissionais que sofrem – e têm sofrido ainda mais ultimamente e com o incentivo do atual desgoverno – ataques de todos os tipos.

Volto ao esse tema porque tenho dois amigos internados em UTIs em Brasília exemplo disso, e do que viver essa nossa profissão pode causar na saúde. Dois dos maiores repórteres fotográficos de nosso tempo, Orlando Brito e Dida Sampaio, estão lutando por suas vidas. Brito, com graves problemas gastrointestinais; Dida teve um AVC. Autores de imagens que marcarão para sempre nossa história, quem os acompanha sabe o que passam na cobertura política, enfrentando agressões inclusive físicas de malucos de verde e amarelo, que deveriam estar sim em cercadinhos, onde se aglomeram para glorificar o tal mito inexistente, mas as grades deveriam estar bem fechadas, com cadeados, para que nós, a sociedade, pudéssemos estar protegidos de suas sandices.

Nos últimos dois anos de pandemia vimos repórteres em portas de hospitais e UTIs, muitas vezes eles próprios com seus familiares doentes ou internados.  Ou mortos. Temos sabido de muitos afastamentos do trabalho, por estresse ou pelo seu acúmulo máximo, a Síndrome de Burnout, a exaustão extrema. Não sabemos se eles têm tido acolhimento de suas empresas. Sabe-se sim, diariamente, mas é do passaralho voando nas redações, com demissões de alguns dos melhores; alguns por estarem sendo considerados “velhos”, e que levam com eles a experiência histórica do que já presenciaram em suas vidas.

Comecei muito cedo na profissão, onde já somo 45 anos como jornalista. Há alguns anos afastada desse afã do dia a dia, com o trabalho voltado para o site e em comunicação e consultoria empresarial, jamais esqueci trabalhando em grandes veículos os diversos momentos da vida de repórter em situações de grande pressão, como rebeliões em presídios, acidentes, crimes violentos, protestos, mortes de personalidades, embates políticos ainda na ditadura. Sobrevivi a chefes sentados confortavelmente em suas cadeiras. Sobrevivi ao preconceito contra mulheres nesse trabalho – vocês nem imaginam a dimensão! Fui moldada nessa batalha.

E ainda sinto na pele como se estivesse em cada situação dessas enfrentada pelos colegas no front.

Me sinto no dever de honrá-los e defendê-los. De aplaudir e torcer para que sejam fortes. E rezar para que se recuperem de tudo isso que nos mata internamente, nos deixa doentes. Do corpo e da cabeça.

Respeitem a imprensa. E as equipes de reportagem nas ruas.

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ARTIGO – Dicas de relaxamento de tudo isso. Por Marli Gonçalves

Vocês sabem que eu não faço outra coisa a não ser pensar em formas de tentar tornar nossas vidas pelo menos um pouco melhores, não? Divertidas. Razoáveis. Sei bem o quanto está difícil. Então hoje vamos ter um momento relax, com sugestões de como se distrair sem perder o rebolado. Nem que seja por momentos.

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Meu objetivo, pretendo ajudar com pílulas de relaxamento, mas entendi agora por que e que tem mais gente buscando tentar nos aliviar da realidade, tão dura, de pandemia, mortes, essa política pavorosa na qual estamos metidos, e agora até uma ameaça de guerra que, ocorrendo, sobra pra nós, respinga aqui, e agora mesmo vamos mandar uma bomba para a Rússia, na viagem acompanhada de uma comitiva de bombinhas.

Está duro. É fake news para tudo quanto é lado. Ignorância e desequilibrados virando influenciadores (essa palavra começa a me dar ziquizira) do mal, os jornais e telejornais, os jornalistas sérios, coitados, acuados, obrigados que somos a noticiar os fatos como eles são, dia após dia. Tudo em crise, especialmente econômica.

Claro que deve ter notado nos últimos tempos uma mudança radical e mais forte na programação da tevê, aberta, fechada, e daquelas que vão onde quer que se vá. Os realities ganharam uma força descomunal, e eles são de todos os tipos, desde o BBB, seguido pela A Fazenda, o tal Power Couple, ex-couples, os de sexo, que juntam gente gostosa para ver no que dá, onde dá e quem dá. E de comida, outros tantos. Engraçado é que viram coisa mais séria quando a imprensa é obrigada a dedicar manchetes, espaços e mais espaços para eles, como se fossem grandes acontecimentos, sempre, uma realidade paralela. Nunseiquem beijou nunseiquem. Nunseiquem saiu, chorou, riu, comeu com a boca aberta, “mostrou mais do que devia” (frase irritante que toda hora a gente lê por aí). Vote. Ah, em quem quer que fique; quem quer que vá.

Ok, é que essas coisas distraem. É descobrir qual é o mascarado que está por trás da fantasia. Acompanhar quem canta melhor, faz virar cadeiras, de todas as idades. Ficar vendo aqueles pratos deliciosos sendo feitos e mostrados, embora o país volte a ter a fome como uma de suas mazelas. Tem até um desses, Mestres da Sabotagem, que nos diverte ver os caras se ferrando atrás de algum trocado e visibilidade.

De tantas mentiras por aí, apareceu um quadro na tevê onde se tenta descobrir quem fala a verdade, e que mostra como é fácil enganar alguém na cara dura. Mentem até para padre. Outros quadros, musicais, tocam os primeiros acordes de músicas que, – socorro! – se eu participasse estava ferrada, porque não conheço ninguém dessas pessoas, ritmos, sucessos – pior é que tem gente que sabe as letras inteiras, e aliás que são muito para lá de ruins.

A moda da hora são os “Quiz”, jogo de perguntas, valendo em geral algum dinheiro, o Show do Milhão em outras versões. Zeca Camargo comanda diariamente o 1001 Perguntas. Isso até é legal, porque dá para de casa aprender umas coisas, checar nosso próprio conhecimento. Aliás, perceber também o quanto estamos muito aquém na educação, e como faltam informações gerais básicas em alguns participantes.

Mas você precisa sair de casa, para arejar um pouco. Largar das telas. Aqui entram minhas singelas sugestões. Placas de carros; agora, com essas do Mercosul, ilegíveis, tiraram nosso prazer de ler de onde eram as pessoas, de quais cidades, muitas de nomes bem legais. Nessas novas só dá para tentar escrever palavras.

Você pode contar quantas pessoas encontra com os cabelos descoloridos, que muitos resolveram virar grisalhos ou loiros de uma hora para a outra. De repente, modas aparecem, e somem como vieram. Dá também para contar quantas mulheres vê com vestidos coloridos arrastando pelo chão. Vai ficar impressionado. Quantas pessoas vê com roupas luminosas, fluorescentes, lâmpadas; às vezes é só o tênis. Brilha tanto que você nem repara na pessoa.

Enfim, relaxar, que a coisa não está fácil, mesmo.

Você deve ter outras ideias e sugestões do que pode, de graça, nos distrair um pouco, nos fazer virar um pouco crianças novamente, sorrir, comentar. Manda mais ideias, porque parece que vamos precisar muito delas.

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ARTIGO – Selvagerias e crueldades. Por Marli Gonçalves

Se você é Gente, e sei que deve ser, quero crer que tem sentimentos, deve estar tão aterrorizado e chateado quanto eu ao sentir no que o país está se transformando, além de também saber intuir o tempo gigantesco que levaremos para recuperar um mínimo de  dignidade e cordialidade das quais nos orgulhávamos. Assistimos, perplexos, selvagerias e crueldades bem registradas, inclusive, em detalhes

selvageria e crueldades

Dia após dia, mais uma e mais outra e saberemos de muitas histórias escabrosas às vezes em um dia só, algumas que podem estar até nos atingindo diretamente. É como se esses fatos – acrescidos de tudo quanto é tipo de violência, golpes, somadas a decisões fortuitas e equivocadas dos governantes – rondasse sempre o nosso quintal. Diariamente. Não há sistema de alarmes, conhecimento, muito menos armamentos, que possam evitar tanta maldade. Não bastasse as conhecidas, elas se ampliam, mais maldades são inventadas, urdidas, executadas. Muitas impunes.

Para ser vítima basta estar vivo. Não há defesa nem quando se está dentro de casa. Não há defesa nem mesmo para as crianças e para os inocentes de tudo, e que nem estavam onde não deveriam, ou se arriscando, se expondo a mais. Não há defesa.

Não há defesa nem para nossos animais de estimação, e o caso da cadela Pandora e outros tantos comprova isso. Aliás, não há defesa nem para quem oficialmente cuida de nossa defesa, policiais, também eles enganados, feridos ou mortos a caminho do trabalho ou de suas casas, ou quando encaram algum bico para sobreviver.

O caso do congolês Moïse Mugenyl foi recentemente apenas um desses marcos. É como se o sangue dele tivesse espirrado em cada um de nós e em nossa bandeira, que alguns ainda insistem com o refrãozinho besta “que jamais será vermelha”, sem saber nem do é que estão bodejando, como diria meu pai, vivo estivesse, ao ver as atrocidades. Moïse foi morto a pauladas, amarrado, arrastado, e ainda, se tudo isso já não fosse terrível, alguns órgãos retirados sem autorização daquela mãe que vemos, aterrorizada, sim, ainda ameaçada ao lutar por Justiça; covarde, nunca. Fugiu do horror de seu país, viu o filho ser morto na tal pátria gentil.

No Espírito Santo, um casal namorava – seria uma despedida porque um deles sairia alguns anos para estudar fora dessa tal pátria – quando foram atacados a golpes de faca. O garoto, todo cortado, teve pedaços de seu intestino jogado na areia. A nós basta torcer para que o socorro tenha chegado a tempo; ambos ainda estão no hospital.

Assim, se soube também que não tem mais um Estado campeão de violência, horror, violação dos direitos básicos. Aqui e ali, o Rio de Janeiro, onde Moïse foi morto, onde balas perdidas atravessam crianças e grávidas e velhos e todos – como uma mãe que errou um caminho e viu seu filho ser morto por uma bala na cabeça disparada do escuro – ganhava a taça.

Agora o Espírito Santo está em severa concorrência pelo posto, muito disputado infelizmente também aqui, por São Paulo, com outros Estados correndo atrás como os cavalinhos do Fantástico. Melhor, como pistoleiros de bangue bangue, celerados, ladrões e golpistas, sequestradores, milicianos, traficantes, racistas, xenófobos, homofóbicos, incivilizados sem lei.

E da lei, lá no Espírito Santo, o que se pode esperar de um local onde uma fotógrafa é presa, algemada pelos pés, apenas porque exercia sua liberdade em um topless numa praia afastada?  Pois aconteceu com Beatriz Coelho, que deve ter sido “denunciada” por algum desses fascistas e nazistas escancarados e sórdidos que tem saído dos esgotos, especialmente lá no Rio Grande do Sul, aterrorizando por onde podem, ao vivo, pela internet, em gangues.  Beatriz, por outro lado, também pode ter sido vítima de outro horror, o religioso, de pessoas que se dizem beatas ou beatos de alguma religião que religião, ah, isso não é.

Enquanto tudo isso ocorre, jornais noticiam sim, mas agora pegaram mania de tudo ter percentual, números sem vida para tratarem de casos que afetam vidas. Também um dia após o outro ouvimos em percentuais os horrores que assistimos em vídeos coloridos registrados em algum canto, às vezes descobertos nos telefones até dos próprios monstros, que um dia, se Justiça houver, e como filha de Xangô posso preconizar, pagarão muito caro pelo todo mal que fazem, seja como for, e se não for na lei dos homens, será na da energia Suprema que tudo alcança.

Repito: se você é Gente, sabe muito bem do que estou falando. Temos mesmo de andar com fé, muita fé. E nunca parar de nos indignar.

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Marli - perfil cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Os tecidos de nossas redomas. Por Marli Gonçalves

Como se proteger de tantas coisas ao mesmo tempo? Penso em redomas. Há muitos anos um grande cara, Fernando Portela, jornalista, escritor e grande conhecedor das coisas abstratas, me ensinou a imaginá-las me protegendo quando precisasse entrar em um lugar, digamos, mais esquisito…Nunca esqueci.

Normalmente quando pensamos em redomas, as pensamos de vidro, mas elas nesse caso em que as criamos podem ser de vários materiais, de um invisível material, tecido mágico, entre inúmeras tramas que nosso cérebro sabe e pode tecer, e a nossa imaginação fortalecer. São sobre essas redomas das quais falo. Que nos envolvam completamente nas situações que delas precisamos. Inclusive que nos protejam de nós mesmos, que sempre nos ameaçamos e podemos ser nossos próprios e piores algozes.

Há, claro, a redoma mais concreta. Me sinto mais protegida ultimamente de tudo isso – e bota tudo isso nisso, que a cada dia se ampliam mais e mais as ameaças – quando estou em casa, que imagino como a maior proteção que alguém pode ter, sua casa, seu canto, sua caverninha, seu buraquinho.  Digo casa no sentido mais amplo e ilimitado, e que pode ser também as barracas improvisadas que protegem as famílias vivendo nas ruas; ou o colchão ou papelão encontrado nas caçambas, e até o cobertor nas costas do drogado que vagueia perdido no seu mundo cão. Todos deveriam ter direito a um telhado firme, um chão seguro, sem medo de como três porquinhos sendo atacados pelo lobo mau não terem para onde correr.

Mas como não podemos nos limitar, mesmo em tempos de distanciamento, temos de sair de nossos cantos, e a cada dia está mais difícil sair e não se aborrecer antes de retornar, tanto desequilíbrio. Nossa redoma seria como lembrar da Oração de São Jorge: “…Para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem; tendo mãos, não me peguem; tendo olhos, não me vejam. E nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão; Facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar; Cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar…”

As redomas etéreas, as que imaginamos, são infinitas e ilimitadas. O legal é que você pode floreá-las. Em determinadas ocasiões, redomas tecidas em malhas de ferro ou aço, firmes, que possam rechaçar e repelir inclusive olhares malignos, olhos gordos ou falsos.

Em outras, peço aos céus e aos entes que me protegem que se unam e se fechem sobre mim, me cobrindo e ocultando.

Há as redomas misteriosas, podem ser de tule, com transparências e névoas que nos ocultem e mostrem até mais interessantes para os olhares externos que para ela se voltem, boas para procurar por aí paixões, amores, pessoas interessantes. Mais seguros poderíamos ir nos tornando, então, mais visíveis ao interesse externo. Ou, ao contrário, dali desaparecendo sem deixar rastros, depois das observações.

Verso sobre isso porque, assim como aprendi a tecer esses mantos, poderia ajudar a outros, que tentem esse mesmo tricô. E não será por falta de situações – medos, insegurança, loucura, ameaças – que todos poderão testar alguma eficácia delas no momento terrível em que estamos expostos a tantas poluições reais e espirituais que tanto mal seguidamente vêm nos trazendo.

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ARTIGO – O Brasil tá lascado e tá vendo. Por Marli Gonçalves

O Brasil está seriamente acometido de um certo e perigoso tipo de loucura coletiva. Não é de hoje, mas o caso se agravou muito com a pandemia que claramente abalou e balançou a cabeça de todo mundo. Claro, além de ter abalado os bolsos e de estarmos já bastante prejudicados com um insano e seus insaninhos no governo

BRASIL LASCADO

Vamos lá. Alguém pelo amor de Deus pode dizer como é que estão se preocupando tanto com Carnaval no momento que temos tido muito mais de 150 mil contaminações por dia? Quando o número de mortes por Covid volta a crescer de forma exponencial, e já perdemos nesses tempos mais de 620 mil habitantes com essa praga? Isso os tais números conhecidos, e que a cada dia se provam mais e mais subnotificados.

Quando temos, ainda por cima, surtos de uma gripe nova, perigosa, forte, ainda sem vacina para o combate direto, derrubando as pessoas, lotando ainda mais os centros de Saúde. Tanta gente doente ao mesmo tempo que a economia se abala mais, não por lockdown, coisa que parece tão cedo ninguém mais vai ter coragem de decretar, mas porque o afastamento pelas doenças cria lacunas em todas as áreas, impossibilitando atendimentos normais? Caos no comércio, nos transportes, na produção industrial.

Pois bem, essa semana, parece programa de humor, saiu um tal protocolo para os desfiles das escolas de samba, uma vez que se fez a luz e os carnavais nas ruas foram proibidos antes, pelo menos nas principais cidades, decisão que pareceu aprovada até pelos seus próprios organizadores.

Não ria, presta atenção: a ordem será que todos os componentes das escolas usem máscaras o tempo todo; dizem que a concentração e a dispersão será fiscalizada para evitar aglomerações; que o quesito “harmonia”, que julga o canto, não existirá (portanto, já não será o menu completo). Tem mais: o número de integrantes das escolas deverá ser reduzido, o que parece ser o item mais fácil dada a velocidade de contaminação que vem derrubando tanta gente, “sambista” ou não. Os espectadores também serão reduzidos e obrigados a apresentar o atestado de vacinação, esse mesmo que estamos vendo sendo vendidos aos borbotões à luz do dia, falsificados, por cambistas de saúde.

Então, tá. Claro. Vai ficar todo mundo de máscara. Igual ficaram nos jogos de futebol que vimos quando os estádios foram liberados, não é mesmo? Igual estão andando nas ruas.

O país está doente. Da cabeça. Do pé. Da razão. Vivemos algum tipo de realidade paralela? Claro que entendendo o quanto o Carnaval movimenta, turismo, trabalho, o desfile das escolas de samba é um espetáculo, enorme, mas nem melhores ou piores do que outros que vêm sendo cancelados – ou melhor, adiados – por organizadores conscientes, shows, teatros, ou grandes eventos.

Com estas condições, de qualquer forma, Carnaval não será, convenhamos. Como espetáculo organizado, já que consideram tão importante, pode muito bem ser apresentado em outra data, tanto aqui como no Rio de Janeiro. Ninguém vai morrer, se me permitem a troça, com essa mudança. Ou não?

A vacinação infantil tão atrasada. A volta presencial às aulas já agora no começo do próximo mês, em busca de tentar ao menos estancar a arrasada área da Educação, essa que anúncios milionários nas tevês tentam fantasiar. A miséria e a fome grassando nas ruas. Os recursos nacionais indo pro brejo ou pela ação de criminosos acobertados ou por condições climáticas radicais que já se mostram bem reais. Inflação comendo nossos tornozelos.

Mais: ano eleitoral, farra eleitoral, estranhos caminhos políticos sendo traçados, todo dia, nas nossas fuças. Esse reality é Brasil. Os confinados somos nós, e sem prêmios no final, mesmo passando por tantas provas. O Brasil tá mesmo lascado. O mundo tá vendo. Acabaremos todos cancelados.

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ARTIGO – Começar de novo e de novo e de novo. Por Marli Gonçalves

A gente, de alguma forma, até faz isso todo dia, parecemos adaptados. Mas não é nada perto daqueles que realmente precisam começar tudo de novo, e o tudo é tudo mesmo, como vemos com tantos atingidos por enchentes, por desgraças, pela lama, pela injustiça

COMEÇAR DE NOVO

Não são as nossas manhãs, espreguiçadas. Até porque muitas vezes nem dormiram, não tiveram sequer onde se encostar. Temos visto, ouvido e conhecido situações devastadoras de quem perdeu tudo, e que se repetem cada vez piores seja por condições climáticas, desgoverno e descasos, tragédias anunciadas e esquecidas logo depois.

Isso é que é resiliência, em sua mais dura e clara acepção. Não apenas a forma até descuidada e de modinha de que tantos ouvimos falar em resiliência no final do ano passado, tornando-a uma “palavra do ano”, entre outras, e da qual saiu vitoriosa “vacina”.

O sentido maior de se recobrar ou se adaptar à má sorte ou às mudanças vem no sorriso – que não sei de onde tiram forças – do entrevistado que mostra forças e fé para reconstruir sua vida, sua casa, suas coisas. Começar de novo foi o que mais ouvi e me chamou a atenção esta semana de tantas enchentes, chuvas, desabamentos, rompimentos de barragens, vidas e histórias sendo levadas pelas águas com a mesma força de furacões. Tudo vai ao chão. Ou é encoberto.

Começar de novo. Os olhos brilham buscando em algo abstrato, nos céus, no olhar para cima, a força do recomeço, mesmo que ainda não vejam o Sol ou o céu azul. Mulheres com seus filhos nos braços festejam a vida e anunciam que irão atrás de tudo o que perderam – essa força inexplicável da fé tão bem guardada em lugar que sempre sobrevive a qualquer mau tempo. Estar vivo é o que importa. Poder recomeçar. A chance.

Essa mesma fé move a solidariedade dos que transitam em meio à destruição levando pequenos tijolos para esse início, seja a comida para dar força, as roupas doadas, os brinquedos que possam distrair as crianças abrigadas sob algum telhado que ainda tenha restado, os colchões que delimitarão seus espaços por uns tempos.

Ali começa a reconstrução. A partir desse pouco é que muitos vão começar de novo, e muitos deles já em idade avançada, alguns até acostumados porque esse raio, sim, já caiu outras vezes no mesmo local, no mesmíssimo local onde já construíam seus castelos com seus mínimos, uma geladeira, um fogão, talvez um armário, um berço, uma cama, uma tevê, uma mesa, um quadrinho na parede, algum porta retrato, um tapetinho. Um bichinho de estimação, que pode ter sido salvo, e que se não o foi, será esse grande motivo de choro dessas pessoas fortaleza tão especiais encontradas nos cantinhos de nosso país. Nas cidades e povoados, alguns com nomes até bem poéticos, originais, mas dos quais nunca tínhamos ouvido falar até que fossem arremessados em outros destinos.

Acompanhar tragédias, ouvir os depoimentos dos atingidos, documentar suas vidas para o noticiário é, talvez, uma das missões mais difíceis para qualquer jornalista, muitas vezes ele próprio ali com seus dramas pessoais. Os repórteres de rua, esses ainda tão pouco reverenciados, sem glamour, sem tempo para muitas elucubrações, que também têm de sair vivos e a tempo dessas situações, sempre recomeçando, buscando errar pouco, e até tentar demonstrar pouco se emocionar, porque alguém falou que temos de ser imparciais.

Isso os marcará por toda a vida, posso garantir, porque sou marcada pelas que noticiei, pelos lugares que conheci, pelas pessoas que entrevistei em situações que jamais esqueci. Com elas aprendi lições de força e sobrevivência. Conheci a força dessa fé, seja em Deus, Jesus, Cristo, Oxalá. Pude ver suas histórias nas marcas de seus rostos, e entender o significado de vida e morte, tão comuns, tão próximos.

Entender o que é exatamente tocar a vida.

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ARTIGO – Nós, os cronistas tarados, abismados. Por Marli Gonçalves

Crônicas são pessoais, o que nos dá caminhos para conversar com os leitores sobre experiências, sentimentos, momentos, e de, ao fazer verdadeiras confissões, buscar companhia e alento. Cronistas observam e absorvem o cotidiano, o coletivo.

TARADOS POR VACINAS

E está tudo muito esquisito. Dito isso, pergunto como vocês estão se sentindo nesse momento? Quando começávamos a nos sentir aliviados, pelo menos um pouco com relação à pandemia, somos inundados por mais uma onda, e ela é alta, agressiva. Só não digo inusitada, porque o comportamento geral de fim de ano já antevia que coisa boa não viria, todo mundo tomado de vontade de se encontrar, abraçar, beijar, viajar, sair por aí. Soma-se ainda o vendaval do surto de gripe atacando nosso povo já doente de tantas coisas e que se espreme em filas e filas diante de postos de saúde e hospitais, necessitando serem atendidos e tratados por profissionais esgotados. Onda, bola de neve, avalanche, fora as enchentes. Mais um verão sem graça, e sem Sol, sem Carnaval, sem charme e até sem uma modinha para chamarmos de nossa.

Aqui, tenho sentido novamente algumas crises de ansiedade, dificuldades de segurar a cabeça, os pensamentos, a tristeza de já ter perdido tantas pessoas importantes e o alarme incessante que parece tocar novamente a cada informação sobre pessoas conhecidas infectadas aqui, ali e acolá. E, como tarada por vacinas, com as três doses, mais a de gripe tomada logo no primeiro dia da campanha, aguardo – eu e o meu braço – para o mais breve possível mais e mais reforços, ao contrário do que propaga o presidente insano que nos desgoverna. Se tivesse filhos ou netos estaria ainda mais revoltada com o descaso criminoso sobre a vacinação infantil.

Esse é o outro ponto. O presidente insano que nos desgoverna e não para de fazer e vociferar besteiras dia e noite, ecoado por militantes e por um ao redor cada vez mais agressivo, perigoso e ignorante. Ou, pior, cercado de aplausos vindos de quem pavorosamente pretende ou já está se dando bem com esses disparates vergonhosos. Esse momento é um dos mais deprimentes da história recente do país, e não há como se sentir confortável diante desses passos claramente em direção ao perigo total nesse ano eleitoral. Um pesadelo, que vivemos acordados; mas ainda inertes.

Isso não é normal. Não se pode normalizar a barbárie. Na contramão do mundo vamos nos esborrachar batendo de frente. Governo e Estado confundidos, achincalhados e comparados. Tudo fora da ordem. Estão rindo da nossa cara. Nos ameaçando, xingando, agredindo. Pior, matando. Inclusive o futuro, que vem sendo ferido continuamente.

Como estamos reagindo? Ah! – Fazendo piadinhas, memes, por aí tirando pelo da cara deles nas redes sociais, dando uns apelidos memoráveis (até concordo), mas dia a dia a situação só se agrava, como se todos eles estivessem gostando desse jogo, o incentivando. E precisamos correr dele, desse jogo que já comprovou ser ineficaz, perdendo a graça.  Sem opções, divididos, brigando entre nós mesmos, e entre os adoradores de lados opostos que acendem velas para perigosos e já traçados caminhos anteriores e que inclusive nos trouxeram até esse momento doloroso. Um ministro absurdo que declara que a primeira-dama, essa nada, simboliza nossa mãe. Deus nos livre! E um outro lado que clama por Lula pai, mestre, líder, no único colo de quem parece estarmos sermos obrigados a sentar a cada disparate proferido no Planalto. No meio de tudo isso só surgem os arrependidos de plantão, como o ex-juiz, alguns governadores e gente que sempre está e estará por perto seja de qual governo for, como camaleões. Ou carrapatos.

Nós, os cronistas tarados e abismados, adoraríamos mudar essa conversa, mas para isso precisaríamos sentir as coisas mudando. E, se tem coisa que tenho reparado – pior, a partir de mim mesma – é que o esgotamento geral tem levado muita gente a querer fugir correndo de todos esses assuntos, o que é quase impossível. Olhando para cima, para baixo, para os lados.

Já não sei mais onde procurar besteiras que possam me distrair, e isso inclui assistir uma novela das nove cada dia mais mexicanada, procurar por filmes e comédias que sempre detestei. Passar a testar receitas, talvez procurando uma que nos ajude a encarar o desenrolar de 2022.

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ARTIGO – 2022, que os patinhos na lagoa nos ajudem. Por Marli Gonçalves

2022, Dois mil e vinte e dois, dois patinhos na lagoa, como a gente chama o desenho bonito do número. Um ano que chega se arrumando, tentando se reorganizar, mas por mais otimistas que possamos ser, traz também tantas incertezas que os patinhos da lagoa estarão nadando em círculos

2022 dois patinhos na lagoa

2021 foi realmente um dos mais difíceis anos, e acredito que também deve ter sido o mais difícil de muita gente. O esgotamento geral após dois anos de pandemia; a sobrevivência física e financeira. O equilíbrio emocional perdido nos frangalhos, nos baques de perdas irreparáveis e notícias esquisitas todos os dias.

Difícil mesmo se situar em um planeta bolinha que parece ter sido sacudido por um chute tão certeiro que tantas coisas ficaram sem pé nem cabeça geral, e que já vamos para mais de dois anos de vidas modificadas.

Estamos fazendo um rescaldo e quando já estávamos até mais alegrinhos, boom, chega essa nova cepa ômicron – daqui a pouco, nesta toada, logo se esgotará o alfabeto onde se busca seus nomes para batismo. O fim de ano de todos está balançado, ainda inseguro com suas festas limitadas e o receio do que virá por aí.

Na verdade, já estamos sentindo muito claramente o que tanto temíamos, que essa coisa toda, e põe coisa nisso, não vai passar assim de uma hora para outra. Que as tais ondas ainda podem nos dar um caldo.

Outro dia, até fiz silêncio ao ouvir de um amigo que entende dessas coisas de medicina fazer uma observação pertinente, e que lembrou até de forma bem humorada: se nem os dinossauros resistiram aos primeiros seres da criação, as tais bactérias e vírus!

Com o tempo até desenvolvemos formas de lutar essa batalha, as vacinas entre elas. Mas ainda, infelizmente, não desenvolvemos formas de combater a ignorância que parece agora se alastrar de forma avassaladora sugando a energia de todos nós e, como nos mais terríveis filmes de ficção/ terror, tomando o corpo e a mente de alguns habitantes por ela contaminados e que passaram a circular no planeta disseminando não só a própria ignorância, como o ódio, aumentando todos os perigos enfrentados. Pior, alguns desses seres governam. Chegaram ao poder e nele efetivam como podem seu rastro de destruição.

O Brasil está contaminado, aqui aconteceu, e pelo pior tipo, o malvado, cínico, que se diverte enquanto a natureza queima, as pessoas passam fome, a violência se alastra. Agora, quer dizer, na verdade não só agora, porque as crianças sempre são as primeiras vitimas de tempos obscuros, até elas estão no alvo deste enredo fantástico, quando se pretende negar de todas as formas que possam ser imunizadas.

2022 bate à porta, e parece que não chega com roupa nova. Vem novamente acelerado, cheio de datas para as quais precisaremos estar bem preparados e, embora esgotados, buscarmos forças para o combate. Chega cheio de perguntas: vai ter Carnaval, vai ter Copa? – as mais inocentes delas.

Aqui teremos eleições, e cheias do dinheiro que tiraram do que nos seria mais importante, desviado para campanhas e partidos. Um país que já começa o ano num buraco danado, com crises institucionais, com uma inflação que corrói, ricos ficando mais ricos, pobres mais pobres, e os do meio achatados como sardinhas.

Um redemoinho que já faz com que aqueles dois patinhos na lagoa batam suas perninhas patinhas bem firmes para tentar parar de rodar e conseguir chegar em alguma margem segura. E que ninguém sabe onde está.

Até 2022!

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ARTIGO – Sonhos de muitas noites de Quatro Estações. Por Marli Gonçalves

Sou bem sonhadora, o que me dá a vantagem de pelo menos às vezes, acordada, conseguir levantar o pé dessa realidade, no mínimo torpe, fase que estamos atravessando aos trancos e barrancos. Mas nunca, dormindo, sonhei tanto, e os sonhos mais loucos, do que nesses últimos meses. São muitos, coloridos, e o mais engraçado é que em geral andam sem conexão direta com quaisquer fatos reais; aliás, que possam até ser descritos assim. Tem acontecido com você aí também?

Paul Nash - sonhos

Os nossos sonhos, aqueles que elaboramos enquanto estamos acordados têm, a princípio, algum pé e cabeça, alguma lógica. Sabemos de onde eles vêm, de desejos, do coração, de coisas que almejamos viver, fazer, ver acontecer. Nessa época do ano aumentam consideravelmente principalmente porque começamos a fazer aquelas enormes promessas para nós mesmos. Elegemos a zero hora do primeiro dia de janeiro como se mágica fosse. O problema, claro, depois, passam a ser as frustrações por não cumprir muitas delas. Daí, sempre melhor nem contar para ninguém quais foram essas promessas, para pelo menos não ter de lidar com isso também. Já basta a gente se cobrando.

Mas adoraria saber exatamente um pouco mais sobre a fonte dos sonhos loucos e surreais das noites. Do que são feitos? Adianto que não bebo, durmo bem, durmo cedo, sem aditivos, aquele soninho de botar a cabeça no travesseiro e ir embora, uma verdadeira bênção nessa altura dos acontecimentos que vêm mexendo tanto com nossas cabeças, com nossa ansiedade. Conheço tanta gente que está com sérios problemas de insônia, e não é por menos o recorde de tarjas pretas sendo vendidos.

Uma vez ouvi dizer – precisa acreditar, ser um pouco mais esotérico – que enquanto dormimos o nosso espírito, nossa alma, sei lá, essa parte invisível de nosso ser, se separa e viaja em um espaço etéreo que não conhecemos. Bom, pelo menos uma viagem que não custa nada, que não precisa agendar, nem correr em agências de turismo, muito menos se preocupar com essa loucura de passaporte, se tomou, se testou, vírus e cepas para lá e pra cá, controle alfandegário; o combustível também não preocupa, porque nos sonhos a gente até voa. Não precisa arrumar malas, reservar assento, resolver onde ficar, prazo de ida e volta, horários, com quem deixar os bichinhos. Tudo aquilo que faz com que a gente quase se canse mais ainda com providências a serem tomadas. Também saem bem mais baratas essas extravagantes viagens noturnas, interrompidas apenas pela vontade de fazer xixi. Depois, a volta para a cama faz com que outra viagem nos sonhos comece.

Digo que essas visões têm sido o de melhor e mais criativo nesses meses quando preocupações e notícias esquisitas têm sido a nossa rotina. As vivemos naquele momento. Elas somem depois, deixando apenas alguma sensação. Penso em manter o tal caderninho do lado da cama, até já tentei. Não deu muito certo. Primeiro porque precisaria dar uma acordada legal para anotar direito; e  as que fiz, meio sonada, depois não houve Cristo que me deixasse entender minha própria letra – parecia aquelas palavras doidas de um idioma inexistente que a primeira dama cantou outro dia, e que depois ainda tentou explicar. Só uma vez, e este ano, consegui: e o imponderável aconteceu. Nas anotações, que aliás demorei meses para rever, havia uma rascunhada sobre gatos brancos. E não é que já estava ao meu lado a minha Nyoka, adotada de uma ninhada toda branca? Sucessora da que perdi em fevereiro, a Love.

Vamos sonhar às noites que é o melhor. Anda cansativo todos os dias ao acordar de vez pela manhã correr para ver se o governo caiu, se algo mudou, se o cara não falou ou ordenou mais alguma bobagem. E descobrir sempre que parece que só piora. Tenho visto muita gente reclamando das notícias, eu bem sei, mas puxa, é o pesado papel da imprensa apresentar a realidade, e ela está sendo de verdade muito cruel para todo o mundo. Não tem jeito. Não adianta parar de ler notícias, como tenho ouvido alguns tentarem. Não reclamem contra o mensageiro: ele traz os elementos para que, informados, consigamos mudar, transformar as situações. Respeite a imprensa.

Essa semana está chegando com o Verão, com o Natal, finalizando mais um ano, e o próximo mais uma vez não será bolinho – já dá para antever.

Meu desejo para todos, agora, é que tenham boas noites de sono, e com sonhos que tragam as melhores fantasias, os locais mais fantásticos, e que nessas horas possamos conhecer pessoalmente a Esperança, e que essa nos alimente a vida real.

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Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Dezembros vividos e vívidos. Por Marli Gonçalves

Desde, especialmente,  a eleição do desgoverno atual, os meses têm sido ainda mais difíceis e absurdos do que normalmente já o eram no país. Uma escalada dramática e 2022 está por perto tentando abrir a porta da esperança. Resolvi – veja o quanto somos resilientes – rever algumas frases de meus artigos publicados justamente nos três dezembros passados e que acabam por nos dar conta dessa agonia, porque elas ainda, infelizmente, tratam do nosso cotidiano atual. Parece que foi hoje, foi ontem, e precisamos mudar o amanhã

DEZEMBROS

“A bola de cristal se enevoa.  Uma nuvem de fumaça cobre as reais intenções de um jogo que está no tabuleiro, onde as peças, escolhidas e posicionadas, em grande parte são militares, outras evangélicas. O objetivo comum, convergente para o centro, mas uns já pensam em “comer” (linguagem de jogo) os outros, ou derrubá-los no caminho”. PREVISÕES: FURDUNÇO GERAL (8-12-2018)

“O problema é sempre o homem, o real. Assim acontece em outras crenças, devoções, lideranças religiosas de todos os credos. Excelentes comunicadores, hábeis negociantes, constroem impérios com tijolos da crença, que mantêm com financiamentos a pleno vapor. Tudo em nome de Deus, da criação, da Bíblia, das juras, imposição de pecados e culpas, de uma moral para os outros”. A MORAL ALHEIA E OS SALVADORES CHEIOS DE CULPAS (14-12-2018)

“Não por menos agora a moda seja a comunicação de tudo, vai, me diz se não é verdade, de tudo, sendo feita via redes sociais. O Twitter é o predileto dos políticos que anunciam o que bem querem, o que pensam e muitas vezes nem pensam para escrever, o que fazem muitas vezes em alterados estados na madruga…e depois do rolo, correm para apagar. Outra coisa que também é digna de nota: escreveu, não leu, o pau comeu, ou seja, não dá mais para apagar. Em algum canto do planeta alguém copiou, printou, fotografou, guardou, salvou, arquivou e vai esfregar na cara de quem disse que não disse, na primeira hora que for possível. Por enquanto a única saída é alegar que foi hackeado, que teve o computador invadido e as contas usadas”. COMUNICAÇÃO DO ALÉM. PARA ALÉM DE NÓS. (21-12-2018)

“Que os próximos trezentos e tantos dias sejam de Paz, boas notícias, que não percamos nunca a força de enfrentar a maré e voltar à tona. Inclusive fazendo ondas, inventando modas e nos reinventando”. MERGULHE. E VOLTE SEMPRE À TONA. (28-12-2018)

“O que é amizade nesses tempos atuais? Nas redes sociais, temos e chamamos de amigos pessoas que nem conhecemos, pior, muitas que jamais conheceremos. Fazemos e desfazemos esses laços apenas com um clique, sem dor. Agora é hora do tal amigo secreto, quando pessoas que se odeiam se sorteiam e pensam seriamente em dar presentes mortais”. AMIGO NÃO É PARA SER OCULTO (6-12-2019)

“Apavorante, repito. Discursos de ódio, manipulação nas eleições, ataques aos movimentos sociais, as relações humanas, tudo poderá ser afetado de forma ainda mais violenta do que o que já vem ocorrendo celeremente em todo o mundo. Tudo virtual, não haverá como prender o autor de calúnias, difamações, informações falsas que aparecem nas imagens, porque ele simplesmente não existirá”. DEEPFAKES: O FUTURO QUE NOS ESPERA E ENGANARÁ (13-12-2019)

“Chegou o final do ano e ainda está lá. E muitos dos que me leem entenderão a surpresa porque, inclusive, nem achávamos que seria tão ruim assim; só que foi ainda pior do que as previsões, coisa de louco esse time todo, e que se mantém com apenas uma pequena parte de jogadores em forma. Os outros só deformam, chutando bola plana, pisando no tomate e arremessando abobrinhas”. O JOGO CONTINUA (20-12-2019)

“É desejar muito que tenhamos mais consideração, respeito, que nossos ouvidos não ouçam tantas bobagens e provocações, cada uma que até parece duas? Esse desejo é geral, antes que eu esqueça de frisar, porque esse será ano eleitoral e vai ter muita gente querendo meter os pés pelas mãos. A política não pode se distanciar das pessoas e é a municipal, a que nos cerca mais de perto, que deverá ser escolhida agora. Sua cidade, seu bairro, sua rua, sua casa.

 Não quero mais também ver tanta gente jogada nas ruas dormindo um sono como se tivessem sido desligadas de repente. E ali caíssem, como sacos de lixo, em sarjetas, calçadas, debaixo de árvores, pontes e viadutos, ou vagando nas ruas com suas mochilas rotas onde levam o muito pouco que têm”. É DESEJAR MUITO? (26-12-2019)

“E daí? Daí, nada. Nadica. Do jeito que estava, está, ficará, derrubará mais. Não há como não fazer um paralelo com a situação política. O que adianta tantos comentaristas, tantas notícias, análises, tantas revelações, reportagens, denúncias, médias móveis de casos e mortes na montanha russa dos gráficos? O tal presidente, os tais ignóbeis Filhos do Capitão, os tais ministros, os políticos em suas amadas reeleições até por falta de opções, a insana marcha da doença nas burras aglomerações que espalham a morte – tudo aí, assim como as esburacadas calçadas, passeios e meios-fios”. TROPEÇOS E TROPICOS (4-12-2020)

“Parem! Essa exaustão contínua, diária, nos leva a caminhos sem volta, nos tornando – a todos – tristes, amargurados. Revoltados. Descrentes. Apavorados. Tudo já andava muito difícil, mas a pandemia chegou para tornar a situação brasileira praticamente insuportável pela insanidade que atinge os que deveriam buscar soluções; pior, aplaudidos por desinformados por essa impressionante turba de ignorantes gestados nesses tempos e que vêm saindo dos ralos”. POR FAVOR, PAREM, AGORA! (11-12-2020)

“Nunca, creio, pelo menos desde que nasci, e isso já faz tempo, desejamos tanto um ano realmente novo e que ocorra uma mágica –as coisas sendo resolvidas, a pandemia controlada e que uma luz de consciência se abata sobre os governantes. Ou, então, que eles sejam abatidos, pelo nosso bem”. 2021, O ANO QUE TANTO DESEJAMOS (18-12-2020)

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Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Terrivelmente tudo. Por Marli Gonçalves

O momento terrivelmente que passamos é total, com a expressão podendo ser aplicada para definir praticamente todos os acontecimentos pelos quais passamos ou somos informados. A pergunta é: e se piorar, o tempo vai fechar mais ainda?

CORONAVIRUS - TERRIVELMENTE

É terrível.  Tenho me sentido assim, terrivelmente aborrecida, e lutando, girando igual Giroflex, movimentando a cabeça para todos os lados, buscando encontrar coisas, pessoas, experiências legais que possam me fazer sentir, de alguma forma, ao contrário, melhor, terrivelmente feliz, animada, mais confiante em mudanças. Aqui e ali até que tudo bem, mas sei ser mais por conta de meu espírito otimista e bem humorado, e que às vezes nem sei bem como ainda consigo manter.

O clima de final de ano já não ajuda muito, convenhamos. O clima de final de ano de dois seguidos dominados pela pandemia e tudo o que significa, e as mudanças que ela não para de trazer, eis o mundo transformado numa caixinha de surpresas. O que estamos encontrando aí fora, no tal novo normal, bem diferente, e tenho passado um tempo observando para entender melhor, ainda sem clareza e com muitas dúvidas.

Vejo os estádios de futebol lotados e as festas dos times campeões nas ruas. Vejo de longe, claro, nas telas. Incrível como nosso país se mobiliza pelo futebol. Se mobiliza também pelos shows, especialmente os gratuitos, que andaram pipocando nesse momentinho de maior abertura. Nessas horas o medo é substituído pela euforia. Aglomerações nesse momento parecem provocações para forçar até onde tudo isso vai.

Mas raramente vemos o país mobilizado para melhorar. Ouvi, e você também, e com toda a certeza, muitas vezes, que assim que fosse possível haveria manifestações para mostrar o desagrado com a política desse governo cada vez mais mal avaliado – nas pesquisas, nos papéis frios, nas decisões e indecisões, excesso de bobeiras, nos resultados cada vez terrivelmente ruins em todas as áreas,  economia, saúde, educação, saneamento, uma lista enorme que inclui a incapacidade de controle, organização, compreensão e ação efetiva.

Estou aqui esperando, sentada, balançando a perninha. Sem entender porque – à beira de um ano eleitoral fundamental – ainda estamos tratando com os mesmos candidatos, alguns do século passado, nos mesmos debates e embates, as mesmas divisões, os mesmos erros prontos a serem novamente cometidos. Ou pior, perpetuados. O povo nas ruas, sim, no futebol, nos shows, e também no bate perna de milhões à procura de emprego, de algum trabalho, do que levar para casa, aglomerados em filas e plataformas de transportes públicos que nunca se expandem, a não ser em promessas.

Já ouvimos os batuques ecoando um incerto Carnaval. Sabemos de festas já canceladas de Ano-Novo. Máscaras continuarão obrigatórias, tenha certeza, por mais um bom tempo, embora cada vez mais estejam sendo abaixadas, criando conflitos com os que querem se cuidar. Corremos para vacinar mais e mais, ao mesmo tempo que as nossas porteiras e fronteiras continuam sedutoras aos que se recusam a elas. O coronavírus continuamente trocando de roupagem arreganha os dentes para todo o planeta.

Aí chega uma dúvida cruel. O que acontecerá se acaso as coisas se complicarem demais e novamente? Ou seja, se for preciso que se tomem decisões verdadeiramente radicais? Quero dizer, fechar tudo, parar tudo. Isso é terrivelmente possível.

Vai ter guerra? Desobediências que poderão levar a conflitos civis? Quem mais tentará se aproveitar desse momento? Qual será o comportamento nacional?

O futuro comprometido está próximo de, além de ter sido aceito um ministro “terrivelmente evangélico” para integrar pelas próximas décadas o principal tribunal de decisões fundamentais, todos entendermos na pele que esse não é um bom advérbio. Terrivelmente é tudo de ruim; assustador, forte, violento.

Temos de falar sobre isso. Ainda teremos muito o que falar sobre isso tudo.

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Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Máscaras, Carnaval e nossas agonias. Por Marli Gonçalves

Uma pressa que pode nos custar muito caro essa de liberar o uso de máscaras justamente nesta época e quando surgem novas ondas em todo o mundo, que podem rapidamente se transformar em tsunamis. Estamos em um país descontrolado e agora mais uma nova e terrível cepa liga o alarme da prudência em volume máximo

  Aconteceu exatamente assim no ano passado, lembram? Quando as coisas começaram a melhorar um pouco o povo já botou as manguinhas de fora incentivado pelos malucos negacionistas e ignorantes que nos desgovernam. O resultado: 2021 foi um massacre, e logo em abril o número de mortes já ultrapassava as ocorridas em todos os meses anteriores. Já chegamos em 614 mil mortes, ao todo. Diga esse número em voz alta, para entender o tamanho. Lembre de quantas pessoas perdeu; perdemos. E não aprendemos.

Parece até que queremos um repeteco, e não haverá fogos de artifício, pular sete ondinhas, fantasia e samba no pé, bloquinho e desfiles que mostre acerto nas decisões que vêm sendo anunciadas. Isso, claro, quando há alguma decisão.

Antes até da liberação – aqui em São Paulo prevista para 11 de dezembro o fim do uso de máscaras em locais abertos – já está insustentável e visível que os cuidados estão sendo largados pelos caminhos. Basta olhar o número de máscaras jogadas pelo chão nas ruas, como exemplo. A dificuldade de termos de explicar para os engraçadinhos em que data estamos. Nas academias – a que frequento me dá uma boa ideia – as máscaras caem dos narizes; os funcionários enfrentam o ódio quando alertam os egoístas seres. Tem mais essa: alguns alunos cariocas, e como lá liberaram a farra, os caras querem esticar o mapa e usar isso como argumento, acredite quem quiser.

Ultimamente as pessoas não ouvem as notícias inteiras, assim como, também, ou só leem as manchetes ou só o que lhes convém. Fazem questão de não assimilar a realidade. Tristeza maior é ver jovens não indo se vacinar, ou ainda “esquecendo” o calendário da segunda dose. Deprimente ver pessoas que além de não se vacinarem, ainda saem por aí fazendo campanha mentirosa contra as vacinas, ou mesmo disfarçando que tomaram, já que, do meu ponto de vista, na realidade está praticamente nulo esse controle.

Nesses tsunamis, vacinas ainda são a nossa única tábua de salvação. Eu conto ou vocês contam que, se nem quem tomou as três doses, como é o meu caso, está totalmente garantido, imaginem eles! Pior, podem estar, como nos piores filmes de ficção, andando por aí, sendo os agentes da morte, de transmissão. Vermes.

Estamos no fim de mais um ano bem difícil, onde já não há mais espaço nem para piorar. Inflação crescente comendo nossos tornozelos, miséria grassando, violência aumentando, sistemas em colapso. Governo que continua testando nossa paciência de uma forma nunca vista. Entrada de ano eleitoral, com personagens surgindo e sem propostas viáveis para qualquer via de direção.

Uma grande campanha agora seria “Vamos salvar 2022”. Mas pelo visto vamos ter de apelar mesmo é para Todos os Santos, e em nome de nossa saúde mental.

Ou você ainda não reparou que está todo mundo meio que pirando por aí?

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Marli GonçalvesMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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