ARTIGO – Tropeços e tropicos. Por Marli Gonçalves

Aqui, pé esquerdo já todo roxo, mantido para cima enrolado com gelo, analgésico e anti-inflamatório daqueles, fortes, sublinguais, a coisa mais sensual que vivo nos últimos meses. Descrevo o momento em que escrevo, dois dias depois de virar o pé e cair após pisar em falso em um dos esburacados caminhos e calçadas de São Paulo. Pior é que tudo faz lembrar do governo, da política, do país: o país que tropeça diariamente.

TROPEÇOS
O LOCAL DO ACIDENTE

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Tropiquei. Ah, não estava com salto alto, que é impossível usar se for caminhar nas ruas, os coitados estão aposentados. Significativo que um aparente simples tropeço consiga fazer um estrago desses, capaz de me tirar do ar, atrapalhar, me parar. Quem me conhece sabe que isso não é comum, nem fácil. Dando graças, no entanto, por não ter sido algo pior, quebrando ossos, atingindo o tornozelo, e que me levou ao hospital para fazer Raio-X para ter certeza disso. Daqui há alguns dias melhorará, vou conseguir por o pé no chão, me firmar, talvez até dar uma corridinha. Mas quando a gente para, ora! – a cabeça continua a mil.

O país abalado, o Estado em guerra, a cidade abandonada em sua zeladoria entram em campo mostrando que, enfim, todos nós estamos vivendo tropeçando e caindo diariamente, inclusive mortos pela irresponsabilidade geral.

E os que se isentam de culpa? – piorando o que as instituições pouco se importam ou fiscalizam. Meu caso é daqueles, comuns: atravessava a rua bem na faixa de pedestres, mas o asfalto Frankenstein cheio de cicatrizes guardava uma elevação traiçoeira. O pé esquerdo virou, o equilíbrio se mandou e lá fui eu ao chão, batendo com força o braço e a mão direita no chão, o que me socorreu, e do que lembro agora dolorida até para batucar as “pretinhas” do computador. São mesmo negras as teclas do meu teclado, ressalto, antes que acusações racistas linguísticas me atinjam. Esquina de casa, porta de uma dos restaurantes mais chiques da badalada área onde o IPTU se inscreve entre os mais caros. No chão, lembro bem do comentário que ouvi: “Nossa, uma senhora caiu ontem aqui nesse mesmo lugar!”

E daí? Daí, nada. Nadica. Do jeito que estava, está, ficará, derrubará mais. Não há como não fazer um paralelo com a situação política. O que adianta tantos comentaristas, tantas notícias, análises, tantas revelações, reportagens, denúncias, médias móveis de casos e mortes na montanha russa dos gráficos? O tal presidente, os tais ignóbeis Filhos do Capitão, os tais ministros, os políticos em suas amadas reeleições até por falta de opções, a insana marcha da doença nas burras aglomerações que espalham a morte – tudo aí, assim como as esburacadas calçadas, passeios e meios-fios.

Um túnel da morte onde entramos sem ver a saída, correndo em círculos atrás de nossos próprios rabos. Acho lindo ver os proibidões, e as coisas acontecendo da mesma forma, já que, como meu pai diria, as autoridades falam, os burros zunem.

Para o que dão atenção? Para as informações falsas, mas propositadamente bem formuladas, pretensamente para dar cara de verdade, e que correm soltas nas veias abertas das redes sociais. Outro dia recebi um vídeo extenso. Seria uma médica americana. Passou uns dois minutos – e com tradução para o português, em legendas, primeiro enumerando títulos e entrevistas que já deu, e a partir daí desfiando bobagens contra a vacina, pregando – com cara de conteúdo – que elas nos  inocularão internamente de forma que viraremos todos robôs controlados, que nossos passos serão vigiados, todas as nossas atividades, inclusive sexuais ( já pensaram a suruba geral nas nuvens?). Confundindo RNA com DNA. Vou dizer mais: a mulherzinha falava que Bill Gates planejou tudo, num tal projeto 060606, e que ficaremos ligados de forma celular às criptomoedas. Sim, tudo isso, que até resumi, tal mal estar só em lembrar.

Claro que os dedos bolsominions são os que mais divulgam esse samba maluco nas suas teorias da conspiração. Já ouviram falar das 800 mil criancinhas mantidas presas no subsolo do Central Park, e das quais são sugadas forças para manter a juventude eterna? Tem quem creia realmente nisso e ainda ouse tentar nos convencer.

É mais que pedra no caminho, buraco, obstáculo, os tropeços diários dos quais não conseguimos nos livrar. Quando foi que deixamos que essa situação toda ocorresse, me pergunto. Essas mancadas, comportamentos obscuros e insensatos, ações impensadas, falas vergonhosas que nos levam ao buraco profundo. Não conseguirmos nem cair em si.

Quando é que eles vão cair? Precisaremos dar um empurrãozinho?

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MARLI

MARLI GONÇALVES –  Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Os medos de dezembro. Por Marli Gonçalves

Difícil tocar nesse assunto desagradável, mas temos que bater a real: este dezembro será muito esquisito, tanto quanto quase o ano inteiro de 2020 foi, ou até um pouco mais, se novamente formos cobertos por mais uma onda alta sem que nem tenhamos recuperado o fôlego e já com nossa saúde mental tão afetada

DEZEMBRO

Lembro de fevereiro, o povo nas ruas, fantasiando suas liberdades e alegria atrás de trios elétricos, se espremendo, se encostando, se pegando, suor, brilhos, unicórnios, purpurina. Em quantas coisas ainda, persistentes, acreditávamos. Que Bolsonaro não resistiria mais muito tempo com suas sandices, que já ouvíamos sem acreditar que pudessem piorar, uma das principais. E, para aumentar mais ainda a desilusão de tudo o que os outros meses acabaram nos trazendo, o homem está aí, cada vez mais celerado e fora de si, criando fatos e nomeando pessoas que tornam ainda piores e incertos nossos dias.

No Carnaval e até antes, na passagem de ano, eu estava por perto, assistindo às festas nas ruas, mas já muito ressabiada com os ventos que sopravam do Oriente sussurrando uma doença que se espalhava pelo ar fechando cidades inteiras. Por precaução já tentava me manter mais longe, também até por conta do pânico de aglomerações, pavor que ganhei há alguns anos após um acidente no meio de uma delas. Sempre preciso estar perto de uma saída, sempre preciso saber como escapar, sempre preciso conhecer a área onde estou para me sentir segura. Agora não existe mais essa área, essa saída segura, o beijo, o abraço, e nem sorrisos mais são vistos.

Mas, admita, creio que nunca imaginamos de verdade o que poderia ocorrer aqui. O que aconteceu em todo o mundo. Que tantas vidas seriam levadas, de gente tão próxima, tão rápido. Que, ao contrário das ruas transbordantes, veríamos por meses portas fechadas, ruas desertas, capitais que viraram cidades mortas, fantasmas, onde transitavam apenas entregadores em motos e bikes. Que tanto álcool em gel seria usado em nossas mãos que se esfregam nervosamente. Que os rostos seriam cobertos por máscaras, e elas não eram de fantasias. Que nossos passos, o ir e vir, seriam determinados por regras governamentais. Que esse pesadelo se estenderia por todos esses meses, sem cura, sem solução.

…Adoraria afirmar que os alquimistas estão chegando com uma fórmula mágica. Mas a verdade é outra: os oportunistas estão chegando; estão chegando os oportunistas.

Que outra fase dessas viria e ainda há quem nela não acredite. Pior. Muitas portas permanecem fechadas. E as ruas? Lotadas, como se não houvesse amanhã, apenas outros dias anormais.

Agora chegou dezembro, e quando pensávamos que os caminhos estariam mais livres, eis que podemos ser cobertos por outra onda, e nem bem passou a espuma da primeira, que nos deu um caldo, afogou muita gente, detonou o país. Agora, ainda sem vacina ou proteção especial, estamos sem recursos, cansados, descrentes ao ver que pouco se aprendeu, e que muitas pessoas, principalmente jovens, estão preferindo apostar no pior, pouco se importando se espalham vírus que matam gente que elas nunca chegarão a conhecer ou nem a saber que foram as culpadas.

Pensam, talvez, que estejam praticando a liberdade, a desobediência civil? Exercendo “sagrados direitos inalienáveis”, curtindo a clandestinidade, desafiando o proibido, ou apenas vendo se adiam um pouco mais a volta às aulas onde aprenderiam que o futuro poderá penalizá-los de forma cruel por essas atitudes?

Como passaremos esse final de ano me parece um grande mistério, entre os maiores que já vivi. Há festas marcadas, lugares com reservas esgotadas. Como fechar as praias onde estarão indo e vindo as irresistíveis sete ondinhas a serem puladas? Que regras serão impostas? E quem as fiscalizará de verdade? Como as famílias se reunirão, sendo que algumas não tiveram contato entre si todos esses meses até agora? Como preservar os idosos?

Com a economia no buraco, a miséria e o desemprego, será que este ano vai bater aquele sentimento comum às festas de fim de ano quando todo mundo vira bonzinho da forma muito superficial, e quem pode finalmente abrirá a mão, o bolso, dividirá o pão? Ou alguns desses que podem, que mandam e desmandam, apenas aproveitarão para poder mais, dar ordens que não deviam, fazer muxoxo dos que se protegem, fazendo que um outro vírus que já se aproxima célere espalhe ainda mais incertezas?

Adoraria afirmar que os alquimistas estão chegando com uma fórmula mágica. Mas a verdade é outra: os oportunistas estão chegando; estão chegando os oportunistas.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – A incrível marcha da insensatez. Por Marli Gonçalves

Marcha da insensatez acelerada, vil, dá a impressão que o nosso otimismo sobre como sairíamos “melhores” depois desses meses de pandemia fez efeito contrário: encontramos já agora a face de uma sociedade pior, egoísta,  jovens olhando para seus próprios umbigos com cabeças baixas e desmascaradas, as pessoas loucas, desvairadas, pensando que aglomeração é liberdade

MARCHA

Sei, a gente tem a impressão sempre que o clandestino, o escondido, o ilegal é muito mais interessante, divertido, emocionante. Nem adianta negar, que seria hipócrita. Quem nunca?…  Mas o que estamos presenciando não é apenas uma molecagem sem repercussão ou efeito, protestinho por liberdade, blábláblá. Trata-se de vidas que a ignorância está tirando aos borbotões. De uma doença da qual ainda pouco se sabe, mas que se vivo deixa, acrescenta sequelas, e tudo na loteria macabra. Pode pegar qualquer um, pelo ar que se respira. Arrependimento não vai curar depois que o leite derrama.

Vimos – e creio que ainda veremos – marchas incríveis pelas ruas, significativas, mas esse ano assistimos horrorizados apenas a da insensatez. Um país, cidades e estados com leis, planos, normas, indicações, mas quem organiza? Quem fiscaliza? Mesas separadas em restaurantes? Filas com pessoas distantes entre si? Nem na eleição. Medição de temperatura? Quando é feita! – desleixada, e o pior no pulso, porque as malditas informações falsas disseram que na testa dá câncer, e essa coisa pegou no país da ignorância. Não pode torcida no campo de futebol? Ora, sem problemas, o povo põe um telão lá fora e a festa corre solta. Ouvi dizer essa semana que a torcida do São Paulo F.C. foi multada. Aliás, alguém soube de alguma multa real, que tenha sido paga, que tenha havido punição?

Agora, vamos e venhamos: qual parte do Natal 2020 e passagem de ano que vocês não entenderam ainda que será o horror, que não será como sempre, que não poderá ser? Que loucura é essa de se preocupar com compras, enchendo ruas, marcar viagens, “remarcar” Carnaval para o meio do ano? Estamos todos tão desarvorados assim?

A história do uso das máscaras. Muita gente, isso é bom, tem usado corretamente. Mas e os narizes fora delas, as frouxas “para entrar ar” (e muitos vírus), máscaras nos queixos, no pescoço, nas mãos, como pulseiras, penduradas nos retrovisores dos carros? E a invenção das moderninhas, a tal confortável máscara de tricô que as blogueirinhas incentivaram? Claro, toda furada, muito refrescante, e já tá deixando é muita blogueirinha idiota doente. Quem seguiu, também.

(Parêntesis político, por falar em máscaras: cá entre nós, será que agora o tal Russomanno se deu conta do grande erro da assustadora máscara transparente de acrílico que usou na campanha que foi, graças a Deus, por ralo abaixo? No caso dele, cobrir a cara teria sido muito mais apropriado, se é que me entendem.)

Mas quem dera a insensatez estivesse só ligada a fatos da pandemia! Quem dera! Estão acompanhando a tentativa de acabar com os artigos “a” e “o”, trocando por “e”? O tal todes, ao invés de todos ou todas, como exemplo. Acreditam de verdade, mesmo, que assim estarão resolvendo as questões de gênero? Lembram do presidenta da Dilma? Como é que é? Tem gente querendo fazer lei para essa mudança?

Viramos o país do ridículo sem fim, do horror, do medo, da tristeza, do cansaço, com um desgoverno vergonhoso, mulheres violentamente assassinadas diariamente, negros mortos em cada esquina onde se defrontam com policiais ou metidos a, seguranças desclassificados, bêbados dirigindo tão desgovernados como nossos políticos e matando o que não veem pela frente, ou o que suas mentes ou olhos embaçados talvez vejam em dobro. Nosso meio ambiente destruído, apagões não só de energia, mas de qualquer bom senso. Oportunistas espalhados prontos a remarcar sem dó os preços de tudo, tentando retomar seus prejuízos, como se só eles os tivessem tido.

E vamos ficar preocupados com os as e os? Dançando até o chão nos proibidões, como se apenas uma interminável onda existisse, embora já vejamos a outra vindo atrás muito maior? Não tem nada de normal em tudo isso. Nada.

Pensando, talvez, em qual roupa branca usar no réveillon? Desculpem, mas creio que a cor negra será a mais apropriada como uniforme dessa insensata marcha na qual todos acabamos caminhando, empurrados, mesmo que contra nossa vontade.

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ARTIGO – O país precisa de você. E é agora. Por Marli Gonçalves

Atenda, por favor, ao chamado. O país precisa de você, precisa de todos. Rápido, antes que seja tarde demais. Participe. Atente. Comece já, votando, e de forma consciente. Lembra daquele famoso cartaz americano do Tio Sam com o dedo em riste? Lá, a convocação era para uma guerra. Aqui, não. A convocação é para a paz, para a mudança, para união, para melhorias, para o fim da insanidade que parece se espalhar como o rastilho da pólvora que não temos e nem queremos usar

PRECISA

Não é brincadeira de redes sociais que, tudo bem, nelas pelo menos ainda mantemos o humor nas piadas, memes, trocadilhos. E olha que não faltam assuntos, imagens, falas ou temas para esses chistes. Só nessa semana foi mais uma saraivada deles. Fomos chamados de maricas por não querermos morrer. Vimos a diplomacia morrer mais um pouco e a formiga chamando o elefante pra briga. Da boca do próprio, de onde jorraram impropérios, percebemos um presidente sem qualquer condição de governar, e que até admite isso ao se dizer sem sossego, satisfazer-se com a morte, negacionista, e a quem – parece – só resta apelar à violência e ao moralismo ignorante.

Mas ele imagina que está brincando, talvez, com soldadinhos de chumbo, uma armada Playmobil, joguinhos de tabuleiro, como parece ver as Forças Armadas; e esta já se incomoda clara e publicamente com essa forma de tratamento. Não é porque ocupou, loteou o governo como quis, com militares em postos importantes na administração, que todos se sujeitarão às suas ordens, deixam bem claro os principais comandantes, os mandachuva.

Não tem nada de normal em tudo isso. Precisamos refletir e falar sério sobre o que está acontecendo ao nosso redor, em nosso país, sobre as palavras que saem da boca do dirigente e de alguns de seus aliados pelo poder. O presidente aparenta não estar nada bem das ideias, para não falar outra coisa. A situação toda vem se degringolando com rapidez e é necessária mais rapidez na conscientização do que pode ocorrer se o tempo fechar.

A chuva será ácida. Há dois anos, desde a eleição de Bolsonaro, assistimos a uma escalada maliciosa, ignorante, e que não está levando o país a lugar nenhum, a nada melhor. Pensa. Aponte algo que melhorou. Não precisa pôr a culpa em pandemia, que essa só se agravou mais com as suas posições.  Ao contrário, diante do mundo, do qual cada vez mais há interdependência econômica em uma sociedade globalizada, viramos piada, perdemos respeito. Internamente assistimos apenas a retrocessos, à piora dos índices, todos, sociais, econômicos. Levados a um país dividido que precisa se unir rápido para não ver repetir-se aqui o que vemos ocorrer lá no mais poderoso do mundo. Para não vermos repetir-se aqui uma nova noite como a que já atravessamos, e que durou mais de vinte anos.

Ninguém ganha nessa situação. Ninguém. Para tudo há um limite, e ele parece se aproximar mais rápido do que os dois anos que ainda nos separam de novas eleições estaduais e federais. Daí, já, agora, nessa eleição, municipal, a mais próxima de nós, já precisarmos votar com mais atenção, informação, análise, percebendo a fragilidade e falhas das estruturas e programas dessa miríade partidária absurda com a qual convivemos, cheias de cacarecos.

Sinta-se importante. Não apenas mais um brasileiro. Pense com sua própria cabeça, acompanhe os fatos, não acredite nesse tanto de notícias falsas disseminadas para fazê-lo pensar até que há em andamento um ataque à sua família, que seria invadida e destruída por monstros terríveis, amorais. No fundo, você sabe que não é assim.

Respeite a inteligência, a imprensa séria, os movimentos sociais, as ideologias, a liberdade, a Ciência.

Todos nós somos diferentes entre si, claro. Mas há uma gama, uma base, comum a todos nós, e que já pode ser a plataforma para a união, por um país que aponta, aflito: precisa de você. De todos nós.

Rápido! Antes que realmente seja tarde demais e não possamos nem mais rir de nossas próprias piadas, que ficarão sem graça alguma.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Se os carros falassem. Por Marli Gonçalves

Os carros andavam em total baixão, dispensados sem dó, trocados por Ubers, motos, transporte coletivo, bicicletas, patins, rodinhas, patinetes. Agora? Voltando gloriosos, cheios até de sentimentos, vejam só. Avançaram muito junto às famílias dos humanos nesse ano pandêmico, uma coisa impressionante. Faltam falar. Se bem que…
carros

Alguns até meio que  já falam. Cada vez mais digitais, com controles ligados à internet, redes sociais, aplicativos e câmeras que praticamente os manobram sozinhos para os motoristas na sempre odiada baliza. E dizer que aquele apito que davam ao se aproximar do carro de trás e da frente nas estacionadas já era um avanço. Pensar que suas piscadas de luzes no painel já eram alguma interação, e que os barulhos que emitiam de repente tentavam a comunicação com seus donos. Que os “grilos” já eram uma linguagem.

Agora? Entraram na nova e gloriosa era do Drive-thru, do Drive-in, este completamente modificado do que outrora, verdadeiros motéis mais baratos e descomplicados. Têm vez. Já meio que falam; robóticos, mas se comunicam. Alguns até se recusam a sair do lugar, empacados como mulas, enquanto não estiver tudo ok, todos com cintos de segurança, portas travadas, coisas assim. Até a chave da partida anda virando é botão de apertar.

Nesse 2020 frequentam pomposos – juntinho com suas donas famílias – o cinema, o teatro, casamentos, shows, e essa semana os vimos em comícios e, inacreditável, até na igreja, fiéis. A Marcha para Jesus, a grande e anual manifestação evangélica liderada pela Igreja Renascer, este ano não foi marcha; foi carreata, com mais de dez mil, entremeada por trios elétricos. E terminou com 1500 deles no Anhembi em São Paulo, assanhados, ouvindo discursos e cânticos, além de shows. Tive dúvida de um detalhe: na Marcha, os fiéis costumam usar papeis dentro de seus sapatos, debaixo de seus pés, onde colocam os pedidos, as graças alcançadas, e sobre as quais andavam nas grandes caminhadas. Esse ano não sei como foi feito, se os pneus tiveram alguma participação.

Pois bem, não é que eles, os carros, participam ativamente das solenidades? Buzinam, piscam faróis, o som do rádio num frequência especial repica lá dentro o que está no palco. Faltam bater palminhas. São eles que manifestam os sentimentos de seus donos. O velho Herbie, o fusca do famoso “Se o meu fusca falasse”, o 53, criado em 1968, deve andar por aí todo deprimido com tantas novidades.

Mas não para aí. Antes, nos fins de semana, os amados carros eram lavados, polidos, vistos brilhando nas portas das casas – era comum ver isso. O orgulho da propriedade. Seus donos eram levados por eles para paquerar (sim, essa é a expressão) outras pessoas, em outros carros. Na Rua Augusta houve até um programa de rádio que era feito exclusivamente para ajudar esses encontros – na ladeira, carros rodavam subindo e descendo – emitindo recados, onde eram eles os citados. “A loira do fusca azul” quer falar com o “rapaz da Belina amarela”. Era bem legal.

Agora? Já tem até apartamentos sendo feitos especialmente para que eles – os carros! – possam ser guardados dentro de casa, tipo na sala – sobem pelo elevador. E você achava que o Eike Batista que guardava um dos dele, especial, na sala, era maluco? Pois bem, um sertanejo desses aí acaba de comprar um apartamento assim, lá em Goiânia – e divulgar pra quem quiser babar. Tudo bem, já sei, você aí não tem espaço nem onde deixar sua bicicleta…Fazer o quê? Quem pode, pode.

Sempre estranhei um pouco essa coisa, muito paulistana, inclusive. Via gente que, se pudesse, levava o carro para sentar na mesa do restaurante. Agora a coisa se adiantou. Há várias montadoras que até antes das pandemia já desenvolviam estudos acelerados para implantar a inteligência emocional nos novos bichinhos que, assim, seriam capazes até de “conversar “com os seus motoristas (claro, também há estudos para que não precise mais nem de motoristas nos carros autônomos). Eles discutiriam futebol, por exemplo. Perceberiam se o cara está com sono e o despertariam “puxando assunto”. Uma humanização. Já houve experiências que mostraram carros emitindo sentimentos reais, pedindo beijos, abraços, carinhos. Piscando, mandando beijinhos pra quem passasse por eles.

Enquanto esperamos que os carros ao menos não sejam mais usados para matar, guiados por bêbados ou irresponsáveis, ficamos por aqui, sonhando se algum dia teremos como comprar essas novidades bem caras, distantes dos comuns.

Eu, por exemplo: coitado do meu “Poiszé”, tão antigo que ainda é totalmente manual, analógico. Até para ver o velocímetro – e respeitar velocidades máximas – tenho de contar risquinhos. E quando o Waze fala “em duzentos metros vire à direita” tenho de calcular nos dedos olhando o odômetro. Ó, vida!

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marli

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – As nossas reais alucinações. Por Marli Gonçalves

A pandemia de coronavírus afeta tão seriamente as pessoas, todas, não importa idade, sexo, raça, religião, e de uma forma tão grave, que fica difícil, quase impossível, vislumbrar a volta, se é que um dia haverá essa volta, a um mínimo de normalidade. Parece – e é – um pesadelo. Cheio de alucinações, bem reais.

How have mental disorders with hallucinations been treated in the past?

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Quase um ano de terror, diário. Nessa loteria macabra onde ninguém quer ser sorteado por ser impossível saber como aquela bolinha cheia de coroas – invisível, imprevisível, traiçoeira, desconhecida e mutante – vai se comportar se entrar em seu corpo, cheio de frestas que podem lhe dar passagem. Um ano com tantas perdas de pessoas queridas, importantes, famílias inteiras destroçadas, e já praticamente 160 mil mortes desde março quando começaram a ser contadas oficialmente aqui no país.

Chegamos ao Dia de Finados. Acredite. Já é novembro de 2020, o ano marcado a ferro e fogo, morte, vergonha, atraso. E na passagem, o tal Halloween, o mais sinistro de todos os tempos. Imaginem se vai ter graça ver bruxas, bruxos, esqueletos, casas mal assombradas, brincadeiras de qualquer sorte na segunda noite de Lua Cheia do mês de outubro. O terror veste toga, camiseta falsa de time, usa cabelo acaju ou cor de laranja, blasfema e acena com a Bíblia em uma mão e armas na outra, envenena, mata e persegue o que é diferente. Uma encruzilhada, e o despacho anda difícil de ser arriado no alguidar gigante para livrar a Terra.

Parece que tudo conspira para ser pior a cada minuto: nosso dinheiro virando água desvalorizado diante de todas moedas, ou dinheiro aparecendo saído de buracos negros;  atentados terroristas, explosões, degolamentos, ameaças, incêndios, tempestades; e não faltou nem um terremoto com poder de causar tsunami agora atingindo a Turquia e a Grécia. Ondas fortes de contaminação, a segunda pela Europa, essa primeira que não passa aqui no Brasil, com pulinhos em suas curvas, números alarmantes em todo o mundo obrigando a novos fechamentos, a isolamentos ainda maiores.

E eleições no país mais mais no mundo, louco para encrencar severa e perigosamente com o outro, ou outros, China e Rússia, fora outras rusgas de caráter religioso. E eleições aqui, onde vivemos um pesadelo particular com um grupo de seres abjetos que parecem apenas conspirar dia e noite para aumentar ainda mais os nossos pesadelos com suas falas, promessas, mentiras. E você quer ter sonhos bonitos quando adormece?

Falar desses seres abjetos, pior, atrai outros desses seres abjetos comuns que se desenvolvem como vírus, prontos a tentar defendê-los como se o que fazem pudesse ter alguma explicação. Acreditem que essa semana recebi ataques me acusando de ser parte de uma nova “Ordem Mundial” (?); que achou que me jogava praga ao dizer que não vou reencarnar “nesse plano”. Fui ver quem era o cidadão e é ele próprio quem se define: se diz “um espírito muito antigo, banido do sistema Capela, como milhares de outros, também de outros sistemas solares, praticando, como todos o fazem, a difícil jornada da evolução”. Daí pra frente, seja lá o que for isso. Vocês não tem noção o que nós, jornalistas, andamos aguentando, escutando, sob ameaças.

Está todo mundo louco e não é “Ôba!”. É perigoso demais. Infelizmente não tem qualquer graça num momento tão difícil  ficar assistindo  as molecagens que fazem, passando boiadas, brincando de dar apelidos uns aos outros, virando “boiolas” sorvendo refrigerantes, dando dois passos para a frente, quatro para trás, numa direção que não é nem centro, nem esquerda, muito menos direita, que nem ela quando verdadeira aceita tanta ignorância. Não são travessuras e nem gostosuras. São ameaças reais que levaremos muito tempo para corrigir quando nos livrarmos deles, somadas às que ainda tentávamos já corrigir e que se tornaram piores quando eles aportaram, vindos de um infernal baixo clero.

Eles não têm programas, objetivos, não são sérios. Nasceram de redes sociais pantanosas, onde se alimentam. O presidente zumbi, gaiato, faz o único que sabe fazer. O zumbi zomba. De nossa inteligência, de nossas aflições, das necessidades cada vez mais prementes, de tudo o que efetivamente precisamos para acordar desse pesadelo o quanto antes.

Zomba de todos nós. Mas ainda temos força para ao menos pedir:

– Respeite nossos mortos!

Ou eles virão, logo, furtivos, puxar bastante o pé de vocês quando estiverem em suas camas. Ameaça por ameaça, esta pelo menos combina com esses dias.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Ranço, ranço total, geral e irrestrito. Por Marli Gonçalves

Peguei um ranço horroroso, monumental, dessa gente, de tudo isso, desse momento de horror pelo qual passamos, não estou podendo nem escutar as vozes deles. Você também já deve ter visto pelas ruas muitas daquelas camisetas horrorosas onde está escrito “Ranço”. Palavra horrorosa. Mas começo até a entender melhor a sua disseminação louca. As pessoas mais jovens podem até não ter noção exata de qual é o seu sentido, seja o real ou o figurado, mas é ranço mesmo.

Pois não é que agora agarrei no sentido figurado? Não é uma questão ideológica. Nem de oposição, que sou mesmo, disso não tenha dúvida. Nem é birra pura e simples. Está insuportável, fazendo muito mal inclusive para a nossa saúde mental ouvir as declarações, saber dos atos e acontecimentos, acompanhar o momento pré-eleitoral, os bate-bocas, o dia a dia nacional, as bandidagens, o cenário de terror que buscam impor.

Resisti. Ah, resisti sim. Mas admito agora que não há palavra melhor do que ranço para definir o que sinto ao ver e ouvir os caralavadas e ignorantes espalhados nesse governo federal, seus asseclas e apaniguados, civis, militares, religiosos, parvos, ignorantes, machistas e já nem sei mais o quê; tantos problemas, falas, que levam o Brasil rapidamente a um retrocesso cada vez mais visível. Um presidente verdadeiramente patético, aplaudido por seres que nos apresentam uma triste ópera bufa, e lacaios, ignorantes que ficam batendo palmas para maluco dançar, sem máscara, batendo no peito, arrotando disparates com aquele irritante sorrisinho de canto de boca.

Ranço. Também em outros níveis, para não ser parcial, ranço dos tais gestores que não gestam é nada. De discussões ignorantes e fora de hora sobre uma vacina – seja de onde for, até da Cochinchina, e que nem bem ainda existe, mas já tem até embalagem nova. Uai! Viu isso? Pois é.

Ranço de assistir o país entrar cego em uma perigosíssima política internacional.

Ranço de – não tem jeito – mesmo que tirando o som – ver a cara pálida e de plástico do Russomano desfilando promessas e falsidades, com aquela expressão oleosa, lívida, cheia de botox (vamos apostar quantas aplicações de repuxantes foram feitas só naquela testa? Vamos? Eu calculo umas dez, e você?). E o tal Mamãe, falei? O Sabará Saberá, que já foi até expulso do partido Novo, e que de novo não tem é nada? Já não tem mais humor que resista ao horário eleitoral. Imagino como está a campanha em outras regiões. Minha solidariedade. Feliz Ranço Eleitoral 2020!

O significado literal de ranço é “decomposição ou modificação que sofre uma substância gordurosa em contato com o ar, dando causa a um gosto acre e a um cheiro desagradável; mofo”. No sentido figurado, “coisa de caráter obsoleto, ou que perdeu a atualidade, se tornou antiquado”. Na gíria, ranço é um “sentimento de repúdio, raiva ou desprezo que uma pessoa tem por outro alguém; quando você não quer ver aquela outra pessoa nem pintada de ouro”.

Adoraria não vê-los mais nem pintados de ouro, muito menos com dinheiro saindo das cuecas. E não é que dá para usar o sentir ranço deles em todos os sentidos? –  são gordurosos, mofados. Suas mentiras e atos cheiram mal. São antiquados, fazem uma política velha, e, pior, diariamente estão nos fazendo lembrar tristemente de alguns dos piores momentos da ditadura militar que assombrou por duas décadas o país.

Estão aí, tentam se disfarçar, mas são os mesmos e estão aí. Atacam as mulheres, os jovens, as minorias, a Constituição, os direitos humanos, o bom senso, as liberdades individuais, as conquistas. Queimam riquezas, paralisam a Ciência, menosprezam o conhecimento, a Educação, a Saúde.

Menosprezam a nossa inteligência. Nos despertam os nossos sentimentos mais primitivos. Nos dão ranço. Um gosto horrível.

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ranço

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Dinheiro na Ordem do Dia. Por Marli Gonçalves

Pegou em dinheiro? Lave bem as mãos, cantando “parabéns a você”, dizem, é o tempo de fazer isso de forma completa. Use álcool em gel, líquido, água sanitária, purificadores, acenda um incenso, tome banho e passe sal grosso do pescoço para baixo, que ultimamente o dinheiro, além de vivo, é sujo e passa por lugares inimagináveis

dinheiro

Não só porque esse dinheiro que tocou pode conter bactérias, mas porque pode estar impregnado com o pior vírus: o da corrupção. E aí ele, o dinheiro, se originou e andou por lugares incríveis, alguns até bem pequenos. Ultimamente o dinheiro está mesmo na Ordem do Dia. Tudo bem que os bancos não são lá aquelas coisas, mas a quantidade de dinheiro vivo, vivíssimo, que estamos vendo todos os dias sendo aprendido é realmente espantosa, assim como as mais variadas formas de guardá-lo, para lavá-lo sem água. O colchão absolutamente saiu de moda. Cofre? Bem, cofrinho, talvez.

Olha que estou falando em dinheiro guardado, não só sobre o dinheiro que foi manchete espetacular essa semana quando o tal senador Chico, com quem Bolsonaro há pouco tempo disse ter uma relação estável, casadinhos, tentou esconder entre as nádegas  e o que ele deve achar uma merrequinha, um troco, perto do que, ao que parece,  foi usurpado dos cofres públicos– e da Saúde, minha gente! Somos um país campeão de mortes, passamos de 150 mil mortes e mais de um milhão de casos de Covid-19, e os caras roubando dinheiro dos equipamentos de respiração, dos itens de proteção, dos remédios!

Pelo menos a situação do senadorzinho foi exposta e constrangedora nos detalhes. Pelo menos pudemos rir das notas borradas, da cueca. Desopilamos um pouco nosso fígado.

Esses últimos dias, só de cabeça, lembro de ter visto na tevê a apreensão de um armário desses de ferro, grande, com três gavetonas forradas, repletas de dinheiro – notas de 100 reais arrumadinhas, esticadas, para caber mais; isso fora os pegos em outras operações, em flagrantes nas estradas, misturados com armas e drogas pesadas. Vi até notas sendo jogadas, às gargalhadas, na água, como brincadeira em festa de bandidos no mar, e por eles próprios filmadas. Não são pequenas quantias, são milhares de reais, dólares, euros, que essa gente é tão troncha e grosseira que nem em arte mais tenta investir. Gosta de ver a bufunfa.

Não nos admira o interesse e pressa em implantar a tal nota de 200 reais, com o coitado do lobo guará, que na realidade ninguém cuida, só queima. Foi tanta a pressa que esqueceram de detalhes como o do tamanho das notas que pode confundir os deficientes visuais. Até a tinta usada para essa nova nota laranja anda passeando fora da Casa da Moeda, o que ajuda na falsificação que já ocorre. Tudo muito mal explicado, como sempre.

É a nossa cara de otários que se estampa nas notas que poucos verão. Somos nós os vira-latas laranjas; nós, os brasileiros que ainda temos de aguentar as falas de um presidente e seu vergonhoso governo e equipe. Gente que parece não ter fim em pensar e promover retrocessos em todas as áreas. Que confunde a Nação com o galinheiro de suas ideias esdrúxulas, com seus atos e vontades a bel prazer.

Pior ainda é ver um povo tão necessitado e que se vende por tão pouco. Não entende que é uma obrigação do governo a ajuda em um momento de emergência como este. Ninguém está dando nada. Não é benevolência. É obrigação. A cada dia sabermos de mais e mais milhares, inclusive vários já milionários, que pediram e receberam, na maciota, o auxílio emergencial. Conheço – e você também deve conhecer – muitas pessoas bem pobres que precisaram, pediram, e tiveram o auxílio negado. Continuaram invisíveis aos olhos do Poder Público. E desabrigados da Justiça e suas cegueiras momentâneas.

Mas parece que sempre foi assim, e a política está cada vez mais sórdida, porque agora – agora, agora, exatamente, não, porque a bem da verdade também já tivemos um governo popular petista implantando bolsas para comprar seus próprios sapatos – tenta comprar votos e aprovação.

Aprovação logo de quem, de quem negou e nega a pandemia, as medidas, acaba com a maior operação já feita contra a corrupção no país, a Lava Jato, e bate no peito com orgulho disso. Um governo com vários “líderes” e operadores que de pijamas e remela nos olhos, cedinho, recebem a Polícia Federal na porta de suas casas. Casas essas com gavetas, caixas, malas cheias de dinheiro vivo, grosso e palpitante – quem sabe precisam para fazer a feira ou o mercado, umas comprinhas.

Por dinheiro, o povo parece fechar os olhos sem compreender o quanto o futuro do país está sendo comprometido. Abusar da necessidade premente de miseráveis, roubar dinheiro público, corromper, e ainda vir com moralismos, falando em Deus, família (e tem uma família especialista em usar dinheiro para pagar coisas bem grandes), até quando isso será suportado?

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ARTIGO – O frútil e as brincadeiras de criança. Por Marli Gonçalves

Não escrevi errado, não. É frútil mesmo. Adoro inventar palavras e essa já vai ser mais uma; assim, com acento, um misto de fútil, útil, frívolo, com umas pitadas de dislexia. Coisas fúteis são aquelas fúteis com alguma serventia, nem que seja a de fazer pensar um pouco sobre o nada

O frútil tem alguma valia. E nesse momento tão chato, triste, mal humorado, perigoso, precisamos de dar algum valor à quantidade de pessoas, artistas, personalidades, celebridades e subcelebridades que, de forma até impressionante, estão fazendo de um tudo para não submergirem. Nos mostram suas casas, seus sentimentos e acontecimentos mais íntimos, se abrem todos, mostram seus corpos (e isso é legal), se casam, descasam, saem dos armários, abrem seus armários. Cometem até ilegalidades, como dar festas em plena pandemia, como vimos algumas. Até o cancelamento promovido pelos interneteiros – quando ocorre – é bem-vindo – vira notícia, entra para o #trendtopics. Virou notícia? Tá bom para eles. E tá bom também para a imprensa que cada vez abre mais e mais espaços para esse mundo. O fútil vira frútil.

Nesse universo paralelo, colorido, quase todo mundo é bonito. Quando não é, se remenda, repuxa, corta aqui, ali, faz harmonização facial, o hit. Ou desfaz, que até isso a gente tem visto ir para o Fantástico – a desarmonização facial. Teve tempo que o quente era tatuar o nome do amado ou da amada, mas como cada vez as relações estão mais efêmeras e tirar as tais letrinhas da pele custa caro e dói, parece que passou essa onda. Já pensaram a Gretchen, que está no 18º casamento, se fosse adepta? O corpo seria uma lista, tipo aprovados do Enem, em ordem alfabética. Ou iria ficar buscando repetição. Josés! Joões!

Hoje mesmo li uma notícia bomba: Gracyanne Barbosa comeu mais de 8 mil ovos durante o isolamento social – anunciou a capa de um dos principais portais de informação do país. Nossa, mudou minha vida. Saber isso, capaz até de mudar a sua também. Predadora. Escondam suas galinhas. Cuidado com os ninhos dos passarinhos. Uma outra apareceu mostrando seu novo pet, um sapo de raça exótica, a quem deu o nome de Snoopy. Vou parar por aqui, mas se você rodar pelos portais vai se divertir.

Enfim, os frúteis, como dizia no início, têm uma função importantíssima nesse momento – a de nos fazer rir em meio a tantas desgraças e à proximidade de uma eleição, onde alguns candidatos, parece, resolveram entrar nessa onda. Assistam um pouquinho os hilariantes segundos eleitorais. Não perca a Joice Hasselman, dezenas de quilos mais magra, nos trinques, com a autoestima lá em cima, usando até a Peppa Pig (como era chamada pelo clã dos Filhos do Capitão), misturando desenhos animados. Uma coisa louca. Temo que não dê votos. Mas pelo menos suaviza nossa vida e nos faz executar o exercício que tira rugas – rir, sorrir. Não precisamos mais de usar tanto ácido hialurônico – quando rimos nosso corpo produz um pouquinho, diz a lenda. Brincadeirinha! É que rir/ sorrir faz bem de alguma forma. Isso é certeza. Nem precisa de cremes ou injeções.

Se fosse “só” a pandemia nosso problema… Ainda há – graças até à Nossa Senhora de Aparecida, que festejamos como a nossa Padroeira agora dia 12, junto com o Dia da Criança – uma parcela da população que pensa, e está aterrorizada com o que diariamente assiste, e que é sério. Não é frútil. Mas essa parcela – que esperança é a última que morre – há de florescer mais pós-vacina; agora está anestesiada, perplexa, ou sem condições de agir.

Comungo com essa parcela. Que se estiver fazendo o que estou pensando – e que eu aqui estou nessa – prepara quietinha a “Lista de Bons Motivos para ir à rua protestar”.

Já virei a página da lista que escrevia manualmente. E cada dia me preocupo mais e me pergunto se quando fizermos isso, ir às ruas, não será tarde demais, muito tarde demais. Já tem cargo praticamente vitalício sendo negociado, e o que em mais alguns dias, já era. Já foi. Entrou tudo.

Enquanto isso, ora, vá ser frútil na vida! É o que dá agora. Vai que de repente chama a atenção e consegue mudar o rumo das coisas.

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ARTIGO – Devaneios de Mafalda. Por Marli Gonçalves

Um mundo visto no globo todo emendado, machucado, enfaixado e problemático, com aquela menininha de ar rabugento diante dele, pensando, apontando, observando. Mafalda faz cada vez mais sentido, com suas tiradas, em tiras mesmo que, já antigas, continuam absolutamente atuais. Quem hoje, ontem ou sempre, não teve vontade de abrir o berreiro igual a ela? E quem não quis permanecer no tempo?

MAFALDA

O enorme pesar pela morte, esta semana, de Quino, genial criador de Mafalda, de sua turma e de suas lendárias frases, foi um dos temas que valeram parar um pouco para refletir. Inclusive sobre a atualidade dos seus desenhos, uma vez que doente há muito já não os produzia. Quem escreve gostaria sempre que seus textos fossem assim, perenes, não envelhecessem. Que pudessem atravessar o tempo, mostrando que o autor apontava seu olhar sobre os fatos corretamente. Que em cada um estivesse marcada a vitalidade de seus dias, preservando assim uma quase imortalidade.

Pena que seja tão difícil conseguir isso, principalmente em um tempo de tantas transformações digitais, velocidade, de inseguranças, de um dia após o outro ir apagando os próprios rastros – como se ninguém mais lembrasse do que já ocorreu, e sem qualquer romantismo como o daquele do filme onde o namorado todos os dias precisava reconquistar sua amada que dele esquecia ao dormir.

Todas as manhãs nos deparamos com realidades obrigatórias que nos fazem ou repetir ou esquecer até o que já escrevemos, ou até mesmo pedir que esqueçam, tal a frivolidade e rapidez com que se esvanecem, tanto como os amores vividos, as muitas juras eternas largadas no caminho, as  experiências de tempos atrás que recordamos, melancólicos. Lembrar de muitas nos faz até tachados de saudosistas, além de carregar irônica e pesadamente o envelhecer. De que servem?

Essa aceleração contínua não nos tem feito nada bem. Para cronistas como nós que se apegam aos fatos cotidianos para buscar lhes dar mais sentido, e quando possível até alguma poesia, é uma corrida insana. Sofro dela toda sexta-feira quando, em geral, busco um assunto para conversarmos. Quanto tempo vai durar?

A primeira ideia é sempre procurar algo positivo, que possa transmitir algum otimismo. Nem preciso dizer a dificuldade de encontrar tais fatos nos últimos tempos que nos tem trazido tantos dissabores, dúvidas, medos. Você olha, por exemplo, para a política e o que ela tem provocado, que descrevo como erosão de cérebros e de razão, além de retrocessos inaceitáveis – mas como protestar diante de tanta ignorância e no atual isolamento que nos é imposto em prol da vida?

Sou jornalista, vivo de acompanhar fatos, mas juro que também não aguento mais ler e ouvir comentaristas se repetindo. A melhor crítica, como vemos em Mafalda, ainda vem de programas de humor, eles podem literalmente escrachar situações e assim as mostram para um público mais amplo, o sonho de todo escritor, ir longe atrás de seus leitores, e que estes estejam em todos os cantos onde nem imagina.

Nesse campo da política é fácil fazer sucesso, acredite. Busque um lado, seja grosso, xingue, arrume tretas com Deus e o mundo. Mas para tanto precisa ter costas bem largas, patrocínios, proteção jurídica, o que não é bem o caso aqui no meu pedaço.

Sendo assim, caro leitor, cara leitora, hoje peço vênia apenas para o entendimento de minha perplexidade contínua. Dá vontade de escrever só contando casos que vi. Ou os casos que vivi. Sim, interessantes, mas talvez precisem mesmo esperar um pouco mais para não causar entre os personagens que envolvem. Dá vontade de escrever, claro, e até faço isso de vez em quando, sobre política, sobre esse governo desconexo, com seu conservadorismo burro e que, este sim, deixará marchas na história por longos tempos. Mas fazer isso sem tirar muito sarro deles, é chover no molhado – e eles estão no Poder. Queimando o que podem.

Vou precisar bater um bom papo qualquer hora com alguns amigos que resistem em seus espaços– como Ruy Castro ou o já imortal Ignácio de Loyola Brandão, e que conseguem inspirações de onde menos se espera, e com tanta classe e dignidade.

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MARLI GONÇALVES

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ARTIGO – Como você está? Na moral? Por Marli Gonçalves

Na moral, andamos há tanto tempo tão longe uns dos outros, sem encontros, sem calor humano nesse mundo digital tão frio e cheio de falsidades, que de vez em quando precisamos mesmo perguntar, inclusive a nós mesmos – e esta precisará ser a resposta mais sincera

MORAL
FOTO SPENCER TUNICK – BRASIL – PARQUE IBIRAPUERA – 2002

Aturdida. Assim eu responderia para você de como é que, pelo menos eu, me sinto no momento, e é difícil de explicar a extensão desse atordoamento. Nada muito sério a ponto de preocupar ninguém, acredite, até porque devo estar na inscrição de número bem mais de um milhão no Clube dos Atordoados, que pode me saudar em uníssono nesse momento. Demorei para achar uma palavra que expressasse esse meu sentimento de forma geral. Talvez você também estivesse procurando alguma definição, essa palavra, e daí revelá-la. Quem sabe ajude…Aturdidas e aturdidos, apresentem-se!

Calma lá que, claro, esse atordoamento tem muito a ver com os desatinos diários da política nacional, que mais para frente podemos dar uma comentada. Não só. Esta, ajuda, mas não é realmente a única razão. Até porque quem já viveu algumas décadas não se surpreende mais tanto com essa gente – só fica esperando o fim da história – e vai ter um fim, acredite. Está demorando, sei. Mas não há mal que nunca acabe.

O atordoamento passa pelo rolar ladeira abaixo que sinto com relação à caretização total que assola os mais variados segmentos da sociedade – o que inclusive explica essa gente do poder, seja de direita ou de esquerda. Quando penso que até em plena ditadura surgiram personagens tão interessantes, revolucionários, livres, como os que inclusive até hoje cultuamos e  alguns que já beiram seus 70, 80 anos (não apareceram muitos outros depois dessa geração), e não são poucos – Ney, Gabeira, Caetano, Lennie Dale, Gil, que a lista é longa.

Na moral? Essa semana foi censurada pelo Instagram uma foto do sertanejo Zé Neto, da dupla com o Cristiano. A foto? Ele, na praia, com a sua super normal esposa. Na praia; portanto, de sunga, e não com aquelas bermudonas horrorosas. Na foto, sem conotação sexual objetiva, posava na praia ao lado da mulher simples assim, transparecia o seu pênis, digamos, avantajado. O que houve?  Foi notícia a semana toda, ganhou 900 mil seguidores a mais. Isso, no Brasil, que eu saiba – se ainda é o mesmo país em que todos vivemos – um país de praia, de gente gostosa, desnuda. O pênis notícia. Melhor do que homem mordendo cachorro.

Acontece que a caretização, igual à pandemia, é mundial. Tem sido comum esse tipo de censura – tenho vários amigos fotógrafos sofrendo com cortes em seus trabalhos – alguns até pueris – nas redes sociais. Chocada fiquei – mais ainda, ao ver – e até fui verificar se estava assim mesmo na origem, também essa semana, fotos de Spencer Tunick, o fotógrafo americano famoso pelas suas fotografias de grandes aglomerações de pessoas nuas e que até já veio ao Brasil, onde fotografou no Parque Ibirapuera ( e eu estava lá, pode ter certeza). Nas fotos que fez em Londres (@spencertunick), as pessoas aparecem nuas, mas com tarjas na frente. Uma destruição do sentido de seu próprio trabalho. Bunda pode, ao que parece. Estas aparecem livres e soltas, gordas, magras, grandes, velhas, novas, bonitas, feias, empinadas, caídas. De frente? Proibido.    

Atordoada, só quero ver até onde vamos com isso. Com a criminalização do corpo humano. Mais, com a criminalização do comportamento humano, da liberdade.

Aqui, onde vamos? Um país que tem um ator do nada como Secretário da Cultura, revoltado porque se fala em vibradores, um religioso Ministro da Educação capaz de proferir (desculpem, mas não há palavra melhor) a seguinte declaração: “Acho que o adolescente que muitas vezes opta por andar no caminho do homossexualismo (sic) tem um contexto familiar muito próximo, basta fazer uma pesquisa. São famílias desajustadas, algumas. Falta atenção do pai, falta atenção da mãe”, disse. Sim, ele disse. Ao que se saiba, sem corar.

Cá entre nós, além de tratar a homossexualidade como doença, “opção”, já pensaram o número de famílias “desajustadas” que haveria, só nesse ítem?

Só rindo, tirando um pelo, como se dizia em gíria antiga, mostrando uma banana daquelas bem grandes, mandando-os se catarem. Sem censura.

moral?

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ARTIGO – Estação muda. Por Marli Gonçalves

Normalmente a chegada da primavera é saudada com alegria, como um tempo de renascimento, procriação, vida, florescimento. Normalmente. Mas não nesse ano de 2020; não nesse momento em que o nosso chão tanto queima, nosso céu se esfumaça, nossa energia se esvai. E continuamos mudos. Ou talvez não, o que ocorre é que alguns ouvidos ainda estão moucos.

MUDA

Vai mudar a estação, sim. Será primavera. Às 10h31 da próxima terça-feira, 22, será primavera no Brasil, o equinócio, e a luz do Sol incidirá igual sobre os dois hemisférios, 12 horas dia, 12 horas noite. Mas temo que a nossa noite aqui vai nos parecer maior, estendida que está com suas sombras sobre nós nos últimos tempos.

Você reparou nas nossas estações mudas, mudando? Saímos do verão aflitos com o que viria, no dia 20 de março, já com a anunciada pandemia, já em isolamento social. Assim passamos o outono inteiro e o inverno que chega ao fim nas próximas horas. E está tudo tão louco que o dia mais quente do ano se deu agora, no inverno. Como será, como estaremos no próximo ciclo? Como será o nosso próximo verão, a partir de 21 de dezembro, dias antes do Natal, da virada do ano?

Continuaremos mudos? Que continuaremos com nossos narizes e bocas cobertos com máscaras parece inevitável. Que os nossos sorrisos continuarão invisíveis, talvez até porque ultimamente pouco sorrimos, sem motivos para tal, com sequências de notícias desagradáveis e momentos de angústia, é quase certo.

Mas nossos olhos, mesmo que irritados como os nossos corações e mentes, precisarão manter-se abertos para prestarmos atenção e continuarmos a caminhada sem cair ou tropeçar em tantos buracos, verdadeiras fendas abertas nesses últimos meses e que durarão anos com suas consequências, sejam na natureza, no comportamento, no nível de vida, na economia, na saúde e educação. Seja na cicatrização desse rompimento entre as pessoas, entre a ciência e a razão, impostos pela política.

A uma parte dessas pessoas, ainda não parece suficiente que mais de 135 mil brasileiros tenham sido vencidos pela Covid-19; mais de 4 milhões e meio atingidos. Não são capazes de se enternecer por mais nada, com seus arroubos de ignorância, covardes que se dizem corajosos, como se coragem fosse assim. Fosse isso.

Uma oposição desunida; e um rebanho atrás de espaço que conquistam, violentos, tacando fogo, sem entender que a carne que queimará não será a do churrasco que fazem nas aglomerações com que insistem a desafiar a realidade, mas a dos milhares de animais acuados e aprisionados pelas chamas, e nos campos e plantações que já chegam ardendo em nossos bolsos com os preços altos, falta de produtos.

O ciclo da primavera está em risco. Estações mudam, estações mudas. Mas não podemos continuar mudos.

Temos compensações e precisamos de mudanças, e mudanças, transformação, trocas, só são feitas iniciando plantios. E plantios se fazem com mudas. Sementes, vida pra brotar, renascimento.

Pessoas continuando mudas assistindo a tudo pegar fogo não ajudam nada nisso.

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ARTIGO – Dei pra filosofar. Por Marli Gonçalves

Um velho amigo, ao ler esse título, certamente me arremedará, com um sorrisinho sarcástico, retrucando em voz alta, de onde estiver: “Pode filosofar sem dar”. Só buscando algum bom humor para sobreviver na atual seara nacional. Tem outro jeito, a não ser ficar por aí, pensativo?
filosofar

Bem, se um presidente pode falar de sexo com uma criança, como fez essa semana, e de novo, numa “live”, referindo-se daquela forma peculiar, para não dizer outra coisa, que palavrão não cabe, posso fazer também alguma referência mais marota, uma vez que escrevo para o público adulto. Público esse para o qual dirijo meus pensamentos, e para o qual peço, por favor, por instantes que seja, que deixe de lado essa divisão político-ideológica meio burra com a qual estamos convivendo, de “ou é isso, ou é aquilo”. Cansei. Estou querendo conversar sobre comportamento, um monte de coisas sobre as quais ando pensando. Você não pode estar achando isso tudo normal. Não pode.

Coincidência, talvez, essa semana assisti à entrevista do Caetano Veloso, 78 anos, ao Pedro Bial, e a dois documentários; um, sobre Ney Matogrosso, 79, e outro, sobre Milton Nascimento, 77. Ouvi as suas músicas, suas letras fantásticas, suas histórias tão ricas. Me emocionei e me orgulhei muito de viver a época que nasci, e que pude acompanhar por anos esses e outros dessa mesma faixa etária, e em todos os campos, inclusive intelectual.

O que será de quem chega agora? O que podem aprender? Que arte, que música poderão fazer (nossos ouvidos que o digam) convivendo com época tão escassa em inteligência? Como veem a vida, o país, os fatos, a política, como participarão?

Todo dia – quem pode achar isso tudo bem? Não estamos sendo governados pelos Trapalhões, muito menos sentados no banco da Praça da Alegria. Vivemos um momento mundial dramático, e dramático num nível que me parece quase impossível que alguém não tenha sido de alguma forma atingido. E ao invés de algum refresco, o que temos?

Todo dia tem bronca, tem bobagem, tem briga, tem mico, ameaças à democracia e à razão, trapalhadas, frases desconexas, moralistas ou com informações erradas ou falsas, sem qualquer sentido, e vindas de algum membro do governo instalado e formado sabe-se lá Deus com quais critérios.  Não que da oposição (onde mesmo está Wally?) seja melhor, que dali também, convenhamos, ouvimos cada balbuciada quando esta aparece, põe a carinha na porta! Mas estas manifestações ainda são tão ralas e ainda com aquela velha mania de falar só para já convertidos que se fosse uma igreja chamando fieis os bancos ainda estariam vagos.

Quieto há mais de mês, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, apareceu. Afirmou em evento lá por aquelas bandas, que jovens se tornaram “zumbis existenciais” ao não acreditarem mais em Deus e também na política. Discursou e quem ouviu já se ligou: lá vem censura de assuntos nos livros do MEC. “Valores”. Que valores, pastor? ops, ministro! Que política, ministro? E quanto a Deus, deixe-o em paz, que cada um tem sua forma de entendê-lo.

Horas depois, na tal live  ao lado de uma menininha country com QI de sempreviva, e que não tenho a menor ideia de onde tiraram, cercado de seus puxa-sacos habituais, o presidente, em poucos minutos, rindo, e como diria meu velho pai, fazendo papagaiadas, ofendeu os gordos, falou a favor do trabalho infantil, fez menções contra os LGBTs, agrediu as mulheres com sua misoginia latente ( que pelo menos agora ele sabe o que é misoginia) e ainda discorreu sobre a raça negra de uma forma que é difícil até de comentar. Faltou falar sobre a posição papai e mamãe, rosa e azul, mas passou bem perto.

No mesmo dia vemos um vídeo circulando – sendo repercutido até pelo vice-presidente – negando que haja o que o mundo inteiro está cansado de assistir diariamente – queimadas na Amazônia, o horror, o descuido com uma de nossas maiores riquezas naturais. O bichinho que apareceu, “amazônico”? O coitado do mico Leão Dourado, o belo macaquinho que vive muito longe lá da Amazônia, da floresta, é daqui da Mata Atlântica do Rio de Janeiro.

Parafraseando o que todo dia acompanhamos da pandemia, a média móvel de sandices só aumenta, só sobe. E eles nem coram.

Concluo que vivemos uma outra pandemia paralela, onde distraídos chegamos. A um retrocesso absoluto. É muita hipocrisia, moralismo, incapacidade de pensar, estudar, lidar com a razão, o conhecimento e a Ciência, desrespeito às liberdades individuais, o que vivemos – e não é só deste ano, deste governo. Isso nos atinge há algum tempo, a todas as gerações, nos torna pessoas piores, devasta a cultura nacional e a criatividade, leveza, ousadia e simpatia com que éramos conhecidos.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Independência ou… Por Marli Gonçalves

São tantas as palavras ou sentimentos que podemos anexar a essas reticências em momentos de bravatas, mas que podem ser passos decisivos, históricos, discutíveis ou não, como há 198 anos atrás. Que nos levou a este país ainda, infelizmente, tão dependente, inclusive de liberdade

independência

Independência ou morte! Se Dom Pedro falou exatamente isso, se foi à beira de um riacho ou de detrás de uma árvore onde resolvia seus problemas de desarranjo intestinal enquanto voltava de Santos para São Paulo, ainda há discussões. Mas a frase é boa, convenhamos.  Acompanhada das imagens pintadas anos depois por Pedro Américo que encravaram no nosso subconsciente mostram mesmo um herói e tanto.  Sob um céu azul de poucas nuvens, montado em um cavalo maravilhoso que só faltou mesmo ser branco, espada em riste, luxuosamente vestido, cercado de companheiros. Até que fotos e vídeos existissem como hoje, eram os pintores e ilustradores os contratados para criar e congelar imagens dos fatos, conforme elas “deveriam” ter ocorrido, ou porque assim o imaginaram; ou porque assim foi a encomenda.

Verdade é que as pesquisas históricas mostraram que, infelizmente, não foi bem assim. Além da diarreia resultante de algo com o qual tinha se alimentado no caminho, Dom Pedro estaria mesmo é montado em uma mula, que seria como se viajava naqueles tempos, e que, coitada, não passou para a História.  Devia estar acompanhado de, no máximo, dizem, 14 pessoas, e todos brancos, que a escravidão ainda demorou foi muito a ser questionada. (Repare que os negros, na pintura, estão à esquerda, apenas assistindo a cena toda).  Aquela roupa maravilhosa que aparece, impecável, de botões dourados, chapéu de Napoleão, também devia ser outra bem mais confortável e suja de pó – se até hoje nossas estradas estão cheias de pó, lama, buracos, e você vai até ali e volta imprestável… E as margens do imponente rio? Nada! – quando o mensageiro o alcançou provavelmente estava perto de algum veio de água, algum corregozinho mequetrefe e providencial.

Hoje chamaríamos de stress o que já acumulava há meses. E mau humor, que não teria como ficar bem com a tal baita dor de barriga, nem aqui, nem lá.  Dom Pedro ficou pior e furioso com as cartas de sua esposa, princesa Leopoldina, e de José Bonifácio, que chegavam com informações de mais ameaças vindas de Portugal. E com o, digamos, conselho, de que seria chegada a hora de se emancipar, declarando o Brasil livre. Quem sabe faz a hora, não espera acontecerOps, essa letra já é bem mais recente, mas continua bem boa para ser lembrada.

Enfim, teria sido assim. Mas talvez ele nem tenha mesmo dito a tal frase que surgiu escrita – e só assim, dizem, comprovada como seu pensamento nas correspondências que depois enviou a todas as regiões. Mas naquele 7 de setembro sua resposta, após ler a correspondência, quem sabe, poderia ter sido também apenas um sonoro palavrão (deviam existir alguns bem bons), ou talvez um discurso inteiro.

Enfim,  de frases, falas, bravatas ( e essas temos ouvido aos borbotões), de discurso em discurso, de tropeção em tropeção, atos heroicos ou não, pacíficos ou sangrentos, de jegue ou com tanques de guerra, aos trapos ou com roupas verde-oliva, chegamos aqui nesse país, tão assustador para quem acompanha os fatos, a versão dos fatos, as imagens e como as novas comunicações chegam a cada um. Hoje, além dos pintores, dos fotógrafos, dos vídeos, dos criativos internautas e seus memes, são os chargistas com seu humor e acidez que no futuro mostrarão o tempo, quando algum maluco tentar decifrar como chegamos, em 2020, nesse atual desolador cenário social e político. Será revivida até uma certa facada, que virá com tantas dúvidas quanto aquele longínquo Sete de Setembro.

Independência ou…Precisamos pensar muito nisso. Ou serão as reticências que nos esperarão.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – A farsa dos 99,9% e seu 0,01%. Por Marli Gonçalves

Você acredita, realmente acredita, em produtos que proclamam ter 99,9% de eficácia contra qualquer coisa? Esses 0,1% restantes podem virar álibi imediatamente e o uso desse marketing ostensivo em momentos como esse que vivemos, de pandemia, a mim parece até criminoso

Veja bem, não é 96,5%, 96,6% – é 99,9% o que vendem. Já surgem alguns muitos produtos – para chão, banho, cabelos, mãos, e até tecidos -que perderam a vergonha de vez: chegam até a falar em 100% de eficácia, sem eira nem beira, e destacam ainda sempre em letras assinaladas, que matam “inclusive o vírus da Covid-19”. Estamos mesmo às traças, com as instituições ligadas às áreas de saúde, vigilância sanitária – aliás, qualquer vigilância, pensando bem – destroçadas. Campo aberto para que nos tentem vender todos os embustes possíveis e imagináveis. Até presidentes, governadores e etcs, como bem temos visto.

Inclusive, Bolsonaro andou reivindicando 0,1% de poder de veto na economia, nas decisões do ainda, por enquanto, ministro Paulo Guedes. Embora essa semana tenha ficado mesmo é com os 99,9% de concentração de poder e mandado o Projeto Renda Brasil que seria anunciado, digamos, para a “cesta seção”, como nós da imprensa chamamos a lata de lixo.

Quer evitar infecção? Fique na clássica mistura de sabão comum e água. No álcool 70%. Essa é a recomendação literal da FDA, que regula remédios e alimentos nos Estados Unidos, e que lá funciona, ao contrário de nossa Anvisa. Desde 2016 a agência baniu 19 químicos que seriam usados na maioria dos sabonetes que dizem eliminar “até 99,9% das bactérias”. Não sei se conseguiram, como queriam, que esses produtos, inclusive, saíssem do mercado. Duvidaram não só da eficácia, como da segurança de seu uso, até porque muitos dos componentes químicos que estavam sendo usados poderiam ampliar a resistência dos bichinhos malditos, vírus e bactérias, criando, inclusive, super bichinhos, e que não há antibióticos ou remédios desenvolvidos que possam curar.

Antes, solicitaram às empresas que enviassem estudos e dados que comprovassem que seus produtos matavam mais micróbios que o sabão neutro comum. Grande parte das marcas não chegou nem a mandar documento algum; alegaram que estudos clínicos com seres humanos são caros e longos. Vejam só.

Assim, o FDA baniu 19 componentes químicos, os mais comuns, Triclocarban e Triclosan. Não conseguiram precisar o tempo que permanecem no organismo, e descobriram que, mesmo enxaguados, alguns deles foram absorvidos pela pele, foram parar na urina, e o que consequentemente os leva aos esgotos e… bem, se espalham pelas águas. Estudos mostram que o Triclocarban pode causar alterações nos hormônios da tireoide e na ação da testosterona. Testes com ratos na puberdade mostraram riscos até para o desenvolvimento sexual.

Foram muitos estudos, sobre todos os mecanismos. Um deles mostrou, por exemplo, que a Salmonela se torna mais resistente a vários medicamentos depois da exposição prolongada a sabonetes desinfetantes. Daí continuarem com a recomendação de uso do sabão simples, e do álcool 70 graus, também em álcool gel, como estamos usando.

Peguei umas dessas marcas que aparecem por aqui prometendo tudo em seus anúncios e tentei ver qual era a sua formulação. Me deparei com “informações” assim, em seus rótulos: Princípio ativo, tensoativo não-iônico (álcool graxo etoxilado), agentes de controle de PH , fragrância e água. PRINCIPIO ATIVO: cloreto de benzalcônio, 03%.

Tinhosa, fui atrás de saber do tal cloreto. Tudo bem, muito usado em descongestionantes nasais, tratamento de feridas, limpeza de hospitais.  Na pesquisa, acabei chegando em alguns desses produtos 99,9%. Um deles inclusive, três conhecidas letrinhas do mercado, deixa claro em seus asteriscos: *Teste conduzido em laboratório por 15 minutos com os microrganismos salmonella choleraesuis, staphylococcus aureus, pseudomonas aeruginosa, enterococcus hirae, escherichia coli e trichophyton mentagrophytes. **fragrância com ação prolongada.

Ou seja, o perfume fica. A tal ação – e contra esses seres – só garantiriam por 15 minutos.

Considere que comentando tudo isso estou querendo ajudar, inclusive, na sua economia; sei que em momentos paranoicos como esse a gente busca qualquer coisa para se defender e à nossa família. Eles sabem disso e cobram exorbitâncias pelo marketing que inventam, que vendem até que alguém os obrigue a provar o que dizem.

Se cuide, mantenha o isolamento social, use máscara e lave sempre as mãos. Estou bem cansada de tanta enganação em nossos caminhos. Grande parte delas costuma usar percentuais mágicos que a gente pouco sabe baseados em quais 100% tratam. E esse cuidado que precisamos ter é aplicável em todos os assuntos que precisamos atentar para não virarmos nós mesmos os percentuais. De vítimas.

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ARTIGO – Como é o seu candidato ideal? Por Marli Gonçalves

Como é a pessoa em quem você votaria de olhos fechados, sairia feliz para votar até debaixo de chuva e frio, como se diz, ou até debaixo de facas, não temeria a pandemia e voltaria para casa orgulhoso por ter praticado a cidadania em sua melhor forma? Ela existe?

candidato

Mulher? Homem? Alguma causa social a ser defendida? Você se importa com o partido ao qual pertencem? É que temos tantos (33) que é até bem confuso, porque pouco eles se diferenciam entre si, sejam de centro, esquerda, direita, direções que cada vez mais apontá-las se torna indiferente nessa nova sociologia que enfrentamos. Existem tantos porque tem uma torneirinha que vaza nosso dinheiro para cada um deles.

Essa semana pensei muito nisso. Passamos por seis horas de imersão no tema eleições e marketing político, em curso online do jornalista e um dos experts no assunto, Carlos Brickmann. Foram seis horas, duas horas em três dias. Interessante pensar nos variados aspectos eleitorais pelo menos um pouco antes, e, especialmente, neste ano tão cheio de surpresas, mudanças, medo. Além da premente e visível necessidade de renovação e mudança. Tempo muito curto. Piscou, e vai chegar o dia, um domingo, 15 de novembro, primeiro turno; e onde houver segundo turno será 29 de novembro, apenas 14 dias depois.

Como será a presença? Terá forte abstenção? Vacina, até lá, desistam. A eleição atual será de âmbito municipal, prefeitos e vereadores, tudo o que é mais perto da gente, de onde moramos, vivemos, transitamos. A “outra”, nacional, federal e  estadual, tão esperada por grande parte da população que não sabe nem como é que chegaremos lá, tão destroçados que já estamos, só em 2022. Você seria a favor de que todas as eleições fossem unificadas? Gostaria que esta tivesse sido adiada? Você vai votar?

O tempo curto: a campanha começa oficialmente só no próximo dia 27 de setembro. Imagino que já deve ter recebido aceno de algum amigo ou conhecido que será candidato, com quem você há anos não falava e já esteja percebendo a candura e “saquinhos de bondades” de alguns prefeitos que adorariam se reeleger. Acredito ainda que já perceba de repente até algumas máquinas na pista e homens trabalhando em locais onde eram esperados já há algum tempo.

Nas nossas conversas sobre o assunto, na qual participaram pessoas de todas as regiões do país, percebemos a chegada de vários candidatos bem intencionados, que vão tentar serem eleitos para buscar contribuir com seus conhecimentos. Embora pelas Câmaras passem todos os assuntos, seria muito bom se nelas houvesse conhecimento mais preciso sobre temas como Saúde, Educação, Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano, Segurança Pública. Mas também é fundamental, muito especialmente, que a Câmara seja composta de forma diversificada e que atente também a temas comportamentais, como as questões de gênero, raça, entre outras que nos são tão caras e sempre tão esquecidas ou deixadas de lado.  Pense bem nisso quando for votar.

Na questão feminina, pela qual tenho especial apreço, pensa na importância de termos mais mulheres nos parlamentos. Não só pela luta pela igualdade, mas pelos aspectos que tanto nos afligem, e só a nós, que precisam ser consertados ou resgatados, inclusive em relação ao respeito aos direitos conquistados e nos tantos que ainda faltam. Cuidado com essa questão de cotas, onde muitas são postas apenas como números. Procure as que realmente fazem a diferença. É a hora das lideranças comunitárias, daquelas que há muito tempo guerreiam, sejam de qual idade forem. O mesmo para as questões LGBTs.

No curso, interessante, se concluiu que o povo vota por emoção, mas não gosta de quem ataca os adversários, especialmente se esse ataque for abaixo da linha da cintura. Agora não é hora de acirrar ainda mais essa divisão nacional, bolsonaristas, lulistas, etc… – mas, sim, hora – e oportunidade – de dissipá-las, em prol de uma união nacional. Vote em quem fala a verdade, aliás, quem sempre falou, porque nessa hora o que tem de gente esquecendo o que disse, o que escreveu, o que já prometeu e não cumpriu, não é brincadeira.

Se eu pudesse pedir voto, apenas diria: vote contra a ignorância que precisamos conter, com tanta força. Fique atento às notícias, promessas e informações falsas, a arma dos incompetentes. Muitas coisas talvez não dê para falar pessoalmente, nesse ano o contato será muito “digital”, com máscaras. Não se deixe enganar por quem é capaz de levantar, sem perceber, um anão, pensando ser uma criança. Esqueça a política antiga e, já que essa chegará em grande parte por redes sociais, utilize esse mesmo campo com consciência, seja para apoiar, seja para incrementar com os temas que farão a diferença nesse futuro ainda tão incerto que vivemos.

Ah, me conta, por favor, se puder, como é o seu candidato/candidata ideal? Não é de hoje que me dedico a tentar entender este país.

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MARLI GONÇALVES Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Este país está uma piada. Por Marli Gonçalves

Uma piada de mau gosto, daquelas que a gente ri meio de lado, sem graça, com aquele sorriso amarelo; no fundo, no fundo, está é um desconsolo só, e na verdade só rimos para não chorar muito, porque cada vez mais sério. Já acorda certo de que vai ter a surpresa do dia, e o que é pior quando esta mostra o verdadeiro perfil de parte dos brasileiros, que só quer comida no prato, não importa quem a cozinhe, e nem quer saber dessa tal democracia.

Não é mais o país da piada pronta, mas o daquelas bem batidas, velhacas, que parecem contadas todos os dias em suas versões diferentes. O impasse é total. É pandemia, medo, recessão, paradeira mundial, milhões de infectados, milhares de mortos. Difícil até de acompanhar, e a gente então desiste, desiludido com a raça humana como muitos falam. Passa à etapa do ligar o foderaizer, uma alavanca mental, e querer apenas se salvar, tentando nadar e chegar à margem que ninguém tem ideia em qual distância está; aliás, onde está? Está?

Só isso pode explicar e é até fácil de entender as pesquisas que vêm mostrando neste momento a subida na aprovação do presidente.  Não é coisa para morrer de se preocupar, que ainda tem tempo e essa piada ainda vai longe. É fotografia de registro de momento: aquele dinheirinho do auxílio emergencial está mesmo fazendo a diferença: é como se fosse o oxigênio das máquinas de respiração para os que estão nas UTIs,  só que para quem está fora delas e conseguiu (incluindo os que não deviam nem ter pedido, mas conseguiram). Consciência política? –  Não é hora de ela ser chamada. Pode gritar que ela não vem. Não vai atender nem a porta.

Apontamos em direção deles, acusando: populistas!  Quem trabalha com marketing político sabe que essa palavra tem entendimento bem diferente – um é o que os intelectuais falam, e como entendem; outra é o que o povo mesmo ouve, e entende como coisa boa, positiva, popular. Então, não será por aí o embate.

Vamos ter de continuar rindo da caspa no paletó do ministro da Economia mais perdido que visitantes que entram errado em “comunidades” e saem alvejados. Como quem não tivesse onde atirar, esse senhor baixinho e prepotente se equilibra na corda bamba e quer agora taxar, vejam só, os livros, a cultura, essa que já está muito mais para lá do que para cá, tantas bordoadas tem levado nos últimos tempos. Fortunas, aviõezinhos, mercado de luxo? Não. Pensa ele, talvez: para que os livros, sem educação, sem escolas? – Algo que veremos os efeitos funestos mais adiante.

Aí explode o horror no Líbano. O que fazemos? Um voo da alegria para ajudar. Repararam, viram aquela feliz masculina comitiva embarcando? 13 pessoas. O que é que foram fazer lá? Os libaneses precisam de ajuda, mudanças na política, remédios, comida, decididamente, não precisavam da visita, entre outros, de Michel Temer, Paulo Skaf, amigos, ou do senador Nelson Trad, por exemplo, que tinha tanta coisa para ver aqui, como o tal dossiê que não pode ser aceito sob hipótese alguma. O que ele fez? Trancou o documento no armário e foi viajar, como se não houvesse ontem, hoje ou amanhã.

Aiai, que estou vendo você aí também até já confundindo Bolsonaros, os Filhos do Capitão, Carlos, Flávio, Eduardo. Podiam ser Huguinho, Zezinho, Luizinho. Porque cada um deles, todos, tem uma ficha corrida para explicar, a gente nem sabe mais qual é qual – todos com alguma capivara, como se fala no jargão policial. Chato, chato, assunto chato, só vai melhorar se o tal Queiroz e sua esposa, agora mandados de volta para a cadeia, resolverem, digamos, cantar. Duvido um pouco, porque a pele deles deve arder muito no fogo das milícias que os originam.

Enquanto tudo isso ocorre diante de nós, lá no Espírito Santo uma menininha de dez anos está grávida. Estuprada pelo seu tio desde os seis anos de idade, ela ainda está tendo de se sujeitar que discutam – sim, ainda estão discutindo – seu direito de abortar. Que compaixão é essa?  Onde está a humanidade? Que religião esse povo do poder acha que lhes dá esse direito? Dona Damares, por favor!. Essa criança não pode ser obrigada, nem condições tem, de ter essa outra criança. E, acredite, se algo lhe acontecer de mais mal ainda, porque ela pode não resistir, não serão poucas as pragas que rogaremos contra vocês.

Muito anos de luta para tentar fazer com que esse país fosse considerado e tentando que melhorássemos em pontos essenciais para agora estar assistindo a esse desmonte, esses desrespeitos, os ataques racistas, a continuidade da absurda desconsideração com as mulheres, essa marcha da insanidade contra tudo que nos é tão caro.

O país está uma piada que, quando nos contam, temos é muita vontade de chorar.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Carta às 77.649.568 eleitoras brasileiras. Por Marli Gonçalves

Mais precisamente às 77 milhões, 649 mil, 569 eleitoras, contando comigo, que estou e estarei bastante atenta às questões relacionadas às mulheres e a outras que poderemos influenciar muito com o nosso voto, agora em 2020, e em todas as eleições para as quais as brasileiras forem chamadas a opinar; e somos maioria. O voto é uma arma, pacífica. Precisamos usá-la. Por nós, mulheres, pelas nossas famílias, por todos os brasileiros, por um futuro mais digno.

ELEITORAS

Prezadas,

Vejam que estamos em 2020 e ainda não somos respeitadas e nem representadas na medida em que somos a maioria da população brasileira. Nem nos cargos legislativos, nem em outros, incluindo Executivo, Judiciário e, ainda, nem na sociedade, nem dentro de empresas, ou no comando, nem no respeito. A população brasileira é composta por 48,2% de homens e 51,8% de mulheres. (Dados IBGE/ PNAD Contínua/2019). Em termos eleitorais, somos 52,49% do total; os homens, 47,48% do total. (TSE/2020). Podemos ser a decisão, pela melhoria para todos.

Acredita? Por aqui, por exemplo, as mulheres compõem apenas 10,5% do conjunto de deputados federais. E de um total de 192 países, o Brasil ocupa a 152ª posição no ranking de representatividade feminina na Câmara dos Deputados, ficando até atrás de países como o Senegal, Etiópia e Equador.

A eleição deste ano, para prefeitos e vereadores, é aquela que está mais perto de nós, de nossa ação. É a que cuida de nossa região, onde vivemos e onde passamos nossas vidas, onde está a nossa casa, as mesmas casas onde um número absurdo de mulheres continuam sendo assassinadas por seus companheiros e ex-companheiros, e onde a proteção policial e as promessas de proteção ou garantias não têm passado em geral de apenas promessas. Você está vendo isso, não? Sentindo na própria pele, talvez?

São Paulo, por exemplo, registrou 87 mortes por feminicídio apenas no primeiro semestre de 2020. O maior número de casos desde a criação, em 2015, da lei que especifica o crime – é o homicídio praticado contra a mulher em decorrência única e exclusiva do fato da vítima ser mulher (misoginia e menosprezo pela condição feminina ou discriminação de gênero, fatos que também podem envolver violência sexual), ou em decorrência de violência doméstica. No Brasil todo dados preliminares mostram aumento de mais de 22% nesse crime, em relação ao ano passado, que já era absurdo, e apenas contando os primeiros meses do ano. Uma situação ainda claramente mais agravada pela pandemia, quarentena e necessidade de isolamento social, crise econômica, etc.

Esta é apenas uma questão, mais específica. Temos todo um país a resolver, atrasado com relação a tudo, Educação, Saúde, Saneamento, aprimoramento da cidadania. Não é só uma questão de cotas – temos 30% de cotas nas candidaturas, mas sempre manipuladas, usadas para obtenção do Fundo Partidário, com nomes que muitas vezes, usadas como laranjas, nem as próprias mulheres sabem que as colocaram para votação nas chapas partidárias. Anime-se inclusive a se candidatar, vamos!

Junte-se a todas as mulheres do mundo!

Meu apelo é para a consciência; não é reserva de mercado, nem obrigação de votar apenas em mulheres, mas que o façam, participem, votem, e em pessoas sérias, que estejam comprometidas verdadeiramente com a sociedade em geral, sejam de que gênero ou raça forem, idade ou classe social. Será esse comportamento que levará à melhoria das condições, não só na política. Nos fazer ouvidas.

De qualquer forma são as mulheres que sempre têm a maior noção do que todos enfrentamos, fatos tão agravados este ano e que terão ainda ampla repercussão pelos próximos tempos: desemprego, falta de assistência, necessidades especiais e de direito reprodutivo, segurança – as mulheres são sempre as primeiras vítimas. E é cada vez maior o número de nós chefes de família, como principais responsáveis pelo sustento.

Chega de nos contentarmos com migalhas, segundo plano, pequenas conquistas que chegam de forma tão lenta, e que nos são devidas há décadas.

Animated%20Gif%20Women%20(63)Peço encarecidamente que se informem, não acreditem em notícias falsas, pensem com suas próprias cabeças, sejam independentes, respeitem-se entre si, estendam a mão a outras mulheres ampliando nossa ação, explicando como se dá a igualdade de direitos, e quais são esses direitos, que as mulheres, merecidamente, tem até em maior número por conta de sua fisiologia. Estenda a mão e atenda os gritos de socorro ao seu redor.

Vamos parar de achar normal o que não é – e nesse momento nada está normal; estamos vivendo num país perigosamente flertando com o retrocesso em vários campos, e onde até nossas acanhadas conquistas estão em risco, desmerecidas diariamente que vêm sendo.

Chamo você para o nosso encontro mais importante este ano: domingo, 15 de novembro, primeiro turno; e domingo, 29 de novembro, segundo turno, onde houver. Se arrume toda, chama a família, aproveite para arejar as ideias. Pensa bem em quem vai acreditar. Ah, e use máscara, que até lá ainda estaremos em perigo.

Todas nós contamos especialmente com todas nós.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Filme nacional, de todos os gêneros. Por Marli Gonçalves

Assistimos, só, não, somos em muitos deles os seus próprios protagonistas, mesmo contra vontade. Vivemos dentro deles. Outro dia um amigo comentava que se sente como se estivesse em um filme. Verdade absoluta, que me fez pensar nesse momento e daí descobrir ironicamente que estamos é vivendo intensamente dentro de todos os gêneros cinematográficos, inclusive os seriados

Ninguém sabe ao certo quando vai poder ir ao cinema, sentadinho no escurinho, com aquele balde de pipoca. Nem venham me falar em drive-in que não tem graça pagar uma grana preta para entrar em um estacionamento de carro e ficar ouvindo o som da tela pelo rádio, pedindo licença para ir ao banheiro, ou esperando um hambúrguer frio chegar pela janela. Aliás, sou do tempo de drive-in bem diferente, não sei se ainda sobrou algum, lembro de um enorme que havia aqui na Avenida Santo Amaro. De outra finalidade, era um box, com cortininha e tudo, valendo os embaçados vidros do carro, que de vez em quando balançava, se é que me entendem. Mais barato e acessível que motel, que não eram tão numerosos como hoje.

Está claro que vários filmes estão sendo produzidos diariamente diante de nossos olhos, e com conteúdo que dificilmente os melhores roteiristas do mundo seriam capazes de imaginar. Mas o melhor é observar a variada produção de filmes nacionais, brasileiros, que estão diariamente em cartaz. Ora chanchadas de péssimo gosto, ora comédias dramáticas. Temos até ficção científica no filme rodado por negacionistas e terraplanistas que inventaram um planeta diferente, todo achatado; agora acrescentaram ao enredo Ets esmagados que seriam usados em vacinas chinesas que nem existem, mas que já são contra, contra o coronavírus, uma gripezinha inventada para dominar o mundo segundo esses gênios criativos, que ainda adicionaram nessa fórmula sangue de fetos. Ficção de puro terror, para exorcista nenhum botar defeito.

Os diálogos desse filme ruim também são encontrados em filmes mais rigorosos, de cunho político, ou documentários desses tempos de pandemia. Neles, ou estamos integrados ou estamos como atingidos, as vítimas retratadas nessa tragédia para a qual a única trilha musical é macabra, e o letreiro inicial deve iniciar com in memoriam trazendo já quase cem mil nomes. Se for escolhido fazê-lo como letreiros finais certamente serão bem mais, dado o desenrolar desse enredo em câmera super rápida.

Interessante como os gêneros se misturam nesse cinematográfico Brasil. Faroeste/comédia: um presidente montado a cavalo correndo pelos campos do Nordeste empunhando em forma de arminha uma caixa de cloroquina; em outra cena, ele, cheio de empáfia, tira a máscara, corre atrás de emas nos campos do Palácio, que o bicam seguidamente. Manda o xerife que comanda facilitar que mais pessoas tenham armas, é aplaudido pelos filhos, pela claque da bala, pelos robôs do mundo digital. Nós só podemos prever que seja uma preparação para um próximo filme, uma continuidade, desta vez de guerra. Ou catástrofe.

Tem filme de espionagem, com dossiês sobre inimigos sendo preparados, fichas pessoais sendo levantadas por um bunker para o qual quem não está com eles é inimigo, de esquerda, comunista, gay, feminista, imprensa, categorias que pretendem exterminar porque lhes impediria de manipular a população como um Grande Irmão, personagem de um lugar aí que eles não sabem qual, quem que escreveu, do que se trata, mas ouviram falar; porque se tem um gênero de  filme que não sabem fazer é o Cult.

casal no cinemaOs últimos meses, fatos, acontecimentos, ações, decisões, diálogos, registros, surgimento e desaparecimento de personagens, que incluem até astronauta, além de generais e quetais, pastoras e jabuticabeiras, gurus de araque, milicianos, entre outras caracterizações que é melhor nem lembrar, englobam e criam roteiros e cenários  (queimadas, devastação da Amazônia, boiadas, reuniões ministeriais, lives, Brasília, cercadinhos, etc.) para todos os gêneros, sem exceção. Podem se misturar. Os figurinos, sempre todos péssimos, incluindo camisetas de time falsificadas. A trilha, em geral sertaneja (ou o hino nacional cantado de forma solene). Os objetos de cena: canetas Bic, caixas de cloroquina, fuzis, pães melados com leite condensado, carimbos com a cara da família estampada, cartazes antidemocráticos. Participações especiais do presidente Donald Trump e de trogloditas que estão saindo das cavernas de forma assustadora.

Drama ou comédia, infelizmente, É Tudo Verdade. Pelo menos por enquanto. Mas precisamos editar esses filmes enquanto ainda é tempo de tirá-los do cartaz. Do jeito que estão, no máximo ganharão a Framboesa de Ouro. O tapete da cerimônia, como eles dizem, jamais será vermelho, a não ser tingido pelo nosso sangue, e de forma cruel.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Vacina: vai funcionar contra raiva? Por Marli Gonçalves

Mais do que uma vacina contra o coronavírus precisaremos insistentemente apelar aos cientistas e pesquisadores de todo o mundo para que, por favor, também desenvolvam vacinas, fórmulas, indicação de ervas ou remédios eficazes contra a loucura humana nesse período alucinante que vivemos. E pra que não tenhamos raiva do que aconteceu, acontece e terá repercussão durante ainda longo tempo. Não está fácil, especialmente por aqui, acompanhar o andar dessa carruagem desgovernada.

Ilustração dos desenhos animados, louca beleza cabelos compridos ...

Todos os dias tentamos acompanhar e entender gráficos, tabelas, cálculos, dados móveis e imóveis, flechinhas coloridas apresentadas sobre as tais últimas 24 horas. Um leve ar alegre dos apresentadores tentando passar algum otimismo informa, enfim, termos alcançado um platô, o cume. Mas quando vamos ver com atenção é apavorante, o cume do terror – como tão bem definiu claramente um especialista, essas curvas e tendências nos mostram nada mais do que uma “assinatura do fracasso”.  Lá em cima. Mais de mil mortes dias seguidos, outros milhares de contaminados dia após dia.  Isso contando só números oficiais, que todo sabem bastante defasados.

Os dados mostram números ora estacionando, ora dando pequenas marcha-a-ré, ou engates de primeira, como se fosse algum teste de direção para tirar habilitação. Como não diria, ou diria, Michel Temer, “não tem de manter isso aí”. O tal platô está lá no alto, não tem o que comemorar, relaxar. Mas não é o que o parece ser entendido como informação para a população deste nosso país atrasado, com tal ignorância de consciência social e de coletivo, além da sua enorme população tão carente de recursos que exigir compreensão, “protocolos” e mais sacrifícios chega a ser surreal e malvado.

E daí? E daí que é como se alguém embaralhasse de tal forma as informações, que ninguém sabe direito ou tem segurança é de mais nada. Vêm sendo liberadas atividades aqui e ali, as pessoas já estão tomando as ruas, o trânsito, os problemas do velho normal agora somam-se aos do tal novo normal. Tudo parece meio chutado.  Uma coisa pode abrir cinco horas, outras oito. outras só de dia; ambulantes podem, e já invadem com suas máscaras penduradas no queixo as calçadas das grandes cidades. Tanto pode e não pode como se houvesse alguma fiscalização real sobre o cumprimento dos tais protocolos. Tenho vontade de rir quando ouço falar em multas, punições de estabelecimentos; coitados dos quatro ou cinco escolhidos como flagrados, para dizerem que estão agindo. A real é que a Casa da Mãe Joana está com as portas abertas, escancaradas. E a economia, pálida, sem energia.

Enquanto isso, dá para acreditar? Não sei se temiam a reação ou alguma revolução popular nacional se não acenassem logo com nova data, transferiram o Carnaval de 2021, que cairia de 12 a 16 de fevereiro, e remarcaram para maio do ano que vem. Ou junho, ou julho, ou agosto, sabe-se lá.  Então, combinado: em maio do ano que vem, junto com noivas e mães, arlequins, pierrôs, colombinas, unicórnios, e um pouco mais de dias, que se junte logo às festas juninas, com seus alegres caipiras e quadrilhas. Só não fizeram o papel ridículo total porque ainda, pelo menos ainda, apenas cancelaram as festas da passagem do ano, não tentaram mudá-las de data. Mas não duvidem. Agora não duvido é de mais nada. Depois de transferirem, deslocarem, o Carnaval, tudo pode acontecer.

Datas, todas, inclusive, que dependerão sempre, exclusivamente, da existência de uma vacina. Vacina que a ignorância da negação já ataca, de antemão, com os mais estapafúrdios argumentos.

Enquanto isso um presidente infectado com o vírus passa as tardes pensando como vai aparecer para nos aborrecer um pouco mais, tinhoso que é. Corre atrás de uma ema em seu jardim encantado. Empunha nas mãos uma caixa de cloroquina, da qual aliás não se desgruda mais, e um dia saberemos a verdade atrás dessa história – como um maluco, esperando tomar mais alguma bicada, ser confundido com um prego. Sem ter ao que parece nada o que fazer – nesse desesperador momento – vai passear de moto, parando para conversar bem de perto e sem máscara com os serviçais de seu palácio.  Vive em outro mundo, assim como alguns de seus ministros irreais. O da Saúde, general interino, disse, repito, disse, falou, eu ouvi, você também deve ter ouvido, que assintomáticos não transmitem os vírus para outros, fora ignorar todos os alertas que recebeu e tudo que a Ciência propõe. E ainda tem o ministro Imposto Ipiranga querendo mais…impostos! E queimadas, e o mundo perplexo, e o tempo passando.

Não bastasse já estarmos precisando conviver com a gente mesmo de uma forma que jamais imaginávamos, e que é tão difícil, não temos um dia de paz, nem um dia que não nos envergonhemos de alguma fala, ato, decisão, ou que não tenhamos de fazer de conta que tudo isso vai passar logo. Não tem nem um dia em que não passamos pelo sentimento que tanto mal pode fazer, principalmente por nos sentirmos imobilizados e impotentes: raiva. Ainda não estamos babando, mas falta pouco.

Precisamos poupar energia para pedir uma vacina também contra isso, contra eles. E essa fórmula não parece que será dada nas próximas eleições, que essas –  interessante – ninguém teve coragem de cancelar.

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ARTIGO – Nossa história. Quem vai contar? Por Marli Gonçalves

Um baque atrás do outro, numa sequência trágica. Já não fosse o mais, digamos,  tradicional, idade avançada, acidentes, doenças terríveis, os fulminantes, agora a perda de pessoas com as quais tivemos períodos importantes ou toda uma vida em relacionamento parece não ter fim, se acelera de forma a quase não dar tempo para que possamos nos recuperar. Quem vai sobrar para contar nossa história?

Our History - Totally Local Company

Dependemos muito do testemunho de amigos para contar a nossa própria história, inclusive acrescendo detalhes, pequenos, grandes, engraçados, sórdidos, esquecidos, ou muitas vezes até nos ajudando a exagerá-los. Dependemos da memória das outras pessoas para relembrarmos muitos dos fatos que vivemos. E a cada dia, com tantas perdas, morremos um pouco junto.

De novo mais uma semana triste. Penso que isso está ocorrendo nessa pandemia com cada um, cada pessoa ligada a cada uma dessas quase 80 mil pessoas mortas até agora no país; 600 mil em todo o mundo. Mundo onde praticamente 14 milhões de atingidos nem sabem bem se, quando se salvam, terão sequelas ou quais serão. Cada dia é uma informação nova, não lembro de em meses algo estar sendo tão pesquisado, escarafunchado, e ao mesmo tempo confuso, como esse coronavírus. Nem no caso do HIV que, aliás, continua décadas depois sem cura efetiva, embora os remédios tenham avançado mesmo que muito lentamente.

Cada morte leva um pedaço da gente, e ainda nos surpreende. Como assim, morreu? Descobrimos aí que decididamente não somos imortais.

Mas aí que está: enquanto estamos vivos por aí, temos nossas histórias vistas, testemunhadas, podemos dar até referência, telefone, e-mail, formas de contatos para quem de nós acaso duvide. “Pergunte então ao fulano se não acredita!” – provocamos.

Quando morremos, os registros, a mim parece, são feitos sempre de forma muito mais pobre e reduzida. Isso levando em conta, claro, que tem muita gente que imediatamente vira herói ou anjo, mesmo tendo sido uma pessoa terrível,  má (quem pode ser tão sincero?); ou, por outro lado, se o coitado passou a vida na batalha pelo reconhecimento, esse se dá somente nessa hora, como legado moral a seus familiares. E ponto.

Tenho reparado nos obituários, especialmente nos de amigos importantes, personalidades que perdi nos últimos dias – Antonio Bivar, a fotógrafa Vania Toledo, além do radialista José Paulo de Andrade, este não tão próximo, mas tínhamos grande mútua admiração, muitas vezes ele leu meus artigos para seu público na rádio, no Pulo do Gato. Fiquei impressionada com o raso das informações publicadas, todas muito protocolares. Emoção mesmo só achei nas redes sociais, nos casos de convivência colhidos aqui e ali nessa imensa colcha de retalhos.

Não falo de biografia que isso é mais sério, coisa para livros, mas dos causos, das aventuras, das desventuras, até das brigas, porque não? De tudo aquilo que a gente imediatamente recorda ao sentir a morte de alguém com quem de alguma forma se relacionou. E quanto mais se vive, mais destas passagens temos lembranças, e ultimamente com mais facilidade, o registro de fotos.

Escrevo tudo isso porque tenho me sentido “esburacada” com esse momento que leva tantas pessoas com as quais convivi, alguns até muito mais de 40 anos. Estranho admitir que hoje praticamente já não tenho mais por perto quem possa recordar, por exemplo, de histórias de minha infância e adolescência – tenho de fazer isso por conta própria.

E creio que talvez seja importante alertar aos mais jovens sobre essas coisas que se tornam tão sensíveis e visíveis quando o tempo vai passando. Talvez, em tempos tão digitais, tão instantâneos, seja bom guardar com mais cuidado cada momento, até para poder contar mais adiante com orgulho. E, muito importante: dar em vida o reconhecimento, o amor e o carinho devidos.

Admitindo: a cada morte – esse assunto difícil – quem fica, fica mais pobre de suas próprias memórias.

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ARTIGO – Perguntas que faço. Por Marli Gonçalves

Como você está? Nesses mais de cem dias, que parecem séculos, de quarentena e isolamento social, tanta coisa mudou, tantas coisas ficaram para trás, por imediatamente consideradas desimportantes ou por terem se tornado impossíveis até de se pensar sobre elas. Muitos sentimentos se misturam, e isso é muito pessoal, individual, chega a ser solitário

PERGUNTAS

Como você está? Tem ficado meio paranoico com limpeza? E os sonhos/ pesadelos estão bem loucos? Ouviu falar que isso está acontecendo com todo mundo? Tem conseguido tomar decisões? Pensar no futuro? Acha que o mundo vai mesmo mudar – para melhor ou pior – depois de tudo isso? Tem tido oscilações de humor, otimismo, que parecem montanha russa, e é obrigado a disfarçar, o que piora ainda tudo mais? Está tudo meio descontrolado? Horários, trabalho, disposição, pensamentos, desejos, inclusive sexuais? Do que sente falta?

Tem encontrado prazer em fazer coisas corriqueiras como cozinhar, jardinagem, séries de tevê, filmes B, comédias românticas que arrancam lágrimas, novelas velhas sendo repetidas? O meu cúmulo, confesso, se deu quando me peguei essa semana arrumando as roupas para secar no varal como se fosse arte para uma foto, tudo esticadinho, cor com cor, calcinhas de um lado, meias de outro, tudo equilibrado.

Enfim, o melhor e mais seguro lugar do mundo passou a ser sua casa e cada vez que tem de sair sofre? Incorporou a máscara? Fica muito exasperado quando encontra alguém ou sem ela, ou com ela no queixo, no braço, no pescoço, pendurada na orelha ou pendurada no retrovisor do carro? E as jogadas nas ruas? Fica perplexo e desiludido com a humanidade ao saber das aglomerações, festas, verdadeiros desafios e focos de contaminação?

Como você está? – pergunto novamente. Dizem que fazer testagem mais completa seria bom, mas já viram os preços? E as dificuldades impostas para consegui-los em postos de saúde ou com os convênios médicos? Os testes rápidos viraram febre, mas têm questionados sua eficácia real, a história do falso positivo, falso negativo.

Pelo que estou vendo, somos normais. Está acontecendo e é geral essa que pode ser chamada angústia, mas é até mais do que isso.

Lidamos com medos o tempo inteiro em nossas vidas, mas parece que desta vez esse sentimento mundial, a possibilidade de morte tão próxima de nós e de quem amamos, ou mesmo de quem apenas sabemos, uma morte besta, por um vírus microscópico, invisível, aéreo, feio e cheio de pontas, nos tornou mesmo outras pessoas. Para o bem e para o mal, que tem gente para caramba se dando bem, e aproveitando para abrir o saquinho de maldades, roubar, deixar passar a boiada em algum assunto.

Como você está? – insisto. 70 mil mortes no país, número oficial, e que pode ser ainda muito maior. Difícil não ter sido atingido de alguma forma, no mínimo por um terrível sentimento de impotência. Ou, pior, pela perda de alguém querido, um familiar, um alguém que lhe era importante. Essa semana perdi um grande e admirado amigo, mestre de décadas: o escritor, teatrólogo e pessoa boa Antonio Bivar. Ficaria horas falando sobre ele. E bem. Um garoto de 81 anos que flanava pela vida da forma mais simples que pode haver, caminhando nas ruas, sentindo o ar, ouvindo as pessoas, se enternecendo por suas histórias, acompanhando-as em suas pequenas vitórias.

 Me senti dividida entre sentimentos difíceis de serem descritos, além da tristeza. O alívio de quem não queria que ele sofresse mais numa cama da UTI. Raiva, muita, por esse vírus levar embora ele e tanta gente boa com ainda tanto a fazer, produzir, acrescentar.  Dúvidas, ouvindo números assustadores e a reabertura das porteiras, lojas, atividades, de uma forma um bocado confusa. Pavor, por encontrar nas ruas muitos que parecem ainda não se dar conta do quanto pode ser terrível essa doença e que ninguém, ninguém mesmo,  sabe se está entre estes que sucumbirão, ou ficarão com sequelas, ou se terão apenas sintomas leves, ou mesmo nem isso – apenas poderão transmitir; deixá-lo, traiçoeiro, onde tocarem, por exemplo.

Fora, enfim, estarmos governados por um presidente, agora infectado, como até parece ter sido, mas que ninguém põe a mão no fogo por conta de tantas mentiras já contadas, e que ainda insiste em propagandear um perigoso medicamento que mandou produzir aos milhões.

Eu teria muitas perguntas ainda a fazer sobre como estamos nos sentindo em vários aspectos, e certa de que estaria ouvindo você responder: “eu também”. Mas não temos outro jeito por enquanto a não ser enfrentar nossos medos, nossas tristezas e, especialmente, essa máquina louca de pensamentos só nossos e que às vezes nos pega tão sozinhos os combatendo, os afastando, mas eles teimam em voltar, voltar…

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ARTIGO – Brasil drogado, desarranjado, desmiolado. Por Marli Gonçalves

E o sanfoneiro ainda toca e canta desafinado. Inacreditável: é o cara responsável por vender o Brasil para o turismo, e ainda nos compara à Austrália no criativo idioma inglês que entoa. É muito, muito mais do que estar fora da ordem; é estar como se vivêssemos dia e noite um pesadelo tenebroso, uma série antiga, alucinações coletivas. Vocês estão acompanhando esses vaivéns, as declarações e decisões políticas, o comportamento irresponsável das populações em meio a uma pandemia tão séria que vem dizimando milhares sem dó?

Não temos cangurus, nem coalas, nem os dingos, nem crocodilos que saem do mar (pelo menos por enquanto). Mas os gafanhotos se aproximam. Tem ciclone-bomba. Uma Amazônia que queima, devastada. O mundo caindo e o presidente emitindo vídeos com o sanfoneiro lá atrás, a tradutora tentando descrever desatinos em libras, e puxa-sacos sorridentes de um lado; outros, aparecem ali, obrigados, apenas constrangidos. A primeira dama do principal Estado do país, Bia Doria, defende – com seus louros neurônios iguais aos de quem a entrevista, aquela tal de Val Marchiori, que “ninguém entregue comida e roupa para os sem-teto, porque as pessoas gostam de viver na rua”. Gostam?

Volto a perguntar: que água é essa que está correndo nos canos deste país? Que água é essa, que droga é essa, parece espalhada, e que, de um lado amortece, de outro enlouquece? Causa esse desarranjo, esse surto de burrice coletiva? Que nos faz temer a cada dia mais pela nossa própria sanidade?

Leis que não são cumpridas, um presidente e um equipe de governo que nega, negam e renegam os fatos mais singulares, e o fazem diante de um mundo todo também perplexo. Me digam se não é um desarranjo em seu sentido mais completo: que se conseguiu desarranjar; que está ou se encontra desalinhado; desarrumado ou desorganizado. Que não funciona perfeitamente; que está enguiçado, e na forma popular, com desarranjo no intestino; diarreia.

Remédios? Uma tal cloroquina, já rejeitada por ineficiente, em absurdos estoques militares; ivermectina, remédio para gado (se bem que…), propagandeada e receitada até por, entre outros “doutores do caos”, um ex-deputado como o Roberto Jefferson, que vocês bem sabem onde deveria estar morando, quietinho. Uma listinha que corre pelas redes e alguém (alguéns) deve (devem) estar ganhando muito dinheiro com isso. A perigosa automedicação vai trazer é mais problemas de saúde, e em um futuro bem próximo.

Estamos tão desarranjados que daqui a pouco será mesmo só o velho Imosec que nos trará algum alento. Testes? Virou um comércio sem controle, de esquina, com preços nas alturas, pouco acesso real, e muito mais ainda poucas explicações. No noticiário aparecem como se todos pudéssemos fazê-los e pronto. Leiam as entrelinhas, leiam as letras pequenas.

Tudo tem um porém, um “mas, todavia, contudo”. Governadores decretam estado de emergência – que os livra de compromissos com gastos e recursos – quase no mesmo momento em que liberam as atividades e todos são irresponsáveis, inclusive a população que temos visto lotando ruas, bares, jovens sem máscaras, como se não houvesse amanhã, e de repente desse jeito não vai ter mesmo. Quem fiscaliza, quem segura esses rojões?

O presidente assina decreto e derruba a obrigatoriedade do uso de máscaras em escolas, templos e comércio. Vai ser um massacre se for espalhada essa ideia da contaminação em massa – será forçar muito mais a barra que já pesa. Bem, não temos comando na área de Saúde, a Educação está ao Deus-dará, e militares ocupam postos para os quais decididamente não estão preparados. Fora os tais ideológicos de carteirinha.

Não é só que o Poder esteja tomado; está perdido, solto por aí, batendo cabeça.

O resultado está desgraçadamente nas ruas. Só pode ser a água. Ou todos esses remédios misturados fazendo efeito.

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MARLI GONÇALVES Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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IMAGEM ABERTURA: disarranged sunnyboy Painting by Peter Treu | Saatchi Art

ARTIGO – Segunda Etapa, e lá vamos nós! Por Marli Gonçalves

E salve-se quem puder. Semana que vem. Acredite. Chegou o segundo semestre de 2020 e, se está aí do outro lado, por favor, sorria. Você está vivo, e isso não é pouco visto o que passamos nesses últimos seis meses. E a força que precisaremos para vencer os próximos

Todo ano nessa época gosto de brincar de fazer o réveillon do segundo semestre, na passagem de junho para julho. Este ano, então, vamos fazer assim: nessa hora, à meia noite, uma prece forte pelos milhares de mortos e um agradecimento verdadeiro pelos que estão bem, pelos que se curaram. E por nós, que estamos contando a tal triste história.

Passou rápido. Perdemos muito da dimensão do tempo, esse sempre misterioso contar das horas. Aprendemos. Tivemos e temos medo. Coragem. Ir até ali já é um desafio. Como já vivi muito mais de meio século, dá para dizer: quanta coisa mudou, quantas coisas que jamais imaginaríamos estão acontecendo, aqui, especialmente, e no mundo todo. Quem algum dia pensou em viver uma época assim? Que não poderíamos nos tocar, abraçar, beijar, amar. Que afogaríamos e embebedaríamos nossos corpos (e coisas) no álcool? Em gel. Que temeríamos também o andar da política. Que tantas mentiras novamente nos atordoassem.

E há ainda esse vaivém que a todos nos deixa a cada dia mais confusos. Uma hora pode isso; na outra não pode mais. Autoridades batendo cabeça, cientistas fritando os miolos, as equipes de Saúde tentando controlar o que mais já está claro que é incontrolável, pelo menos por enquanto.

E o combate? Como lidar com os negacionistas, com a ignorância, com a ignomínia, essa palavra que diz tudo?

Como lidar com as pessoas nas ruas que nos pedem ajuda, olhos fundos, muitas esfregando a barriga no lamento para demonstrar que estão com fome, o desespero máximo que poderá se juntar ao frio que anuncia sua chegada pelas bandas de cá?

Não sei dizer realmente se estamos melhores ou piores do que outros países, que todos têm problemas a resolver, mas uma coisa é certa: nesses meses, mais do que em muitos outros locais, aqui estamos guerreando contra vários inimigos, muito além da pandemia, do vírus, das incertezas. Gafanhotos políticos que corroem a democracia, os princípios básicos da liberdade, tentam por abaixo os pilares básicos que construímos tão esforçadamente, picotam a cultura nacional, tentam impor e limitar costumes, e ainda aparecem gatunando onde podem, inclusive nos remédios e equipamentos de salvar vidas, ou na absurda remarcação de preços, na cobrança impiedosa de impostos que não vemos serem aplicados. Na pressão para que quem precisa sucumba ao rebaixamento geral imposto, muitas vezes para apenas quem tem, ter mais, acumularem mais e mais. Levantam poeiras e fumaças para que muitos não consigam avistar qualquer porta de saída. Suas declarações nos ofendem, por acreditar talvez que já estejamos mortos e sem reação. Eles nos cansam, atrapalham nossa concentração para prosseguir.

Depois, correm, doam alguma coisinha aqui e ali, pedem desculpas, clamam pelos céus, se dizem perseguidos e, como agora, buscam parecer até que querem entendimento. Se fosse uma relação pessoal devíamos denunciá-los como espancadores domésticos, do tipo que todo dia bate e depois promete que isso nunca mais vai acontecer. E é só esperar que sempre vem mais. Melhor se separar antes.

Nesse segundo semestre, enfim, será quando saberemos se realmente aprendemos algo, se a solidariedade cantada em verso e prosa será mantida, e se esses dois Brasis – contrapostos –  tão claramente delineados numa descrição perfeita feita pelo jurista José Paulo Cavalcanti em artigo – poderão se encontrar, nem que seja um pouco mais lá na frente para a reconstrução desse chão. Vamos a ele, que ainda tem muito 2020 por aí.

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ARTIGO – Pesadelos no país tropical. Por Marli Gonçalves

O Sol escancarado, o céu azul, a temperatura amena, as noites fresquinhas, quase tudo o que a gente poderia precisar para ser feliz. Mas quem consegue? Com sobressaltos de dia, de tarde, de noite… e de madrugada! Os sonhos são estranhos, os pesadelos reais. Os dias, o tempo, o futuro, alterados.

Mauvais rêve | Mon petit nombril

Nas ruas, um bando de gente louca continua andando pra lá e pra cá sem máscara, ou com ela, digamos, posta ou pendurada em lugares bem estranhos. Precisa dizer que não precisa tirar para falar ao celular? Que máscara é feita para cobrir o nariz e a boca, os principais meios de transmissão dessa doença maldita que veio bagunçar o coreto mundial coma música tenebrosa do terror? Que o horror é invisível?

O inverno deve ser longo: arrebatou o verão, o outono e já se anuncia na primavera do ano que não mais esqueceremos. Ultrapassamos oficialmente um milhão de infectados, quase 50 mil mortos. Por essas e outras que parece que a cada dia, as coisas pioram, e não é só no número, mas com o bagunçado afrouxamento das regras da quarentena, com a forma que as informações (não) são entendidas e em um momento tão delicado.

Pegam o mapa e colorem: vermelho, laranja, amarelo. Regras são baixadas alegremente como se nosso povo fosse suficientemente esclarecido para segui-las sem a devida fiscalização, que todos sabem que não haverá, ou se ocorrerem, só pescam as sardinhas tentando fugir de tubarões. Um dia se fala uma coisa; no outro, já não é mais. Fora as medidas que só podem nos fazer gargalhar, tipo aquela de que os ônibus só poderiam circular com as pessoas sentadas – e que não levou em conta, por exemplo, que ninguém anda querendo sentar nem ao lado, nem no quentinho de outras pessoas. Tem quem prefira só pegar nos ferros; depois limpar as mãos. Por aqui em São Paulo, já caiu essa medida também. Não, ninguém mandou aumentar a frota, para evitar aglomeração e gente pendurada; e os horários escalonados estão bem doidos. As portas se abriram, e as pessoas precisaram sair, com sua fome, seus medos, suas obrigações.

Outro dia, onde entrei, encontrei uma figura, uma mulher – que deixo pra vocês bem imaginarem suas divertidas formas e triste tipinho –  toda metida, sentada no meio de mais gente, sem máscara, e que ousou ficar toda irritada e emproada porque perguntei na hora a ela se era possível que pusesse, então, um farol verde sobre sua “linda” cabeça, já que, ríspida, disse que já tinha contraído o vírus e não precisava mais usar. Ela fechou a cara. Portanto…Volto a perguntar: e vocês acham mesmo que sairemos melhores dessa? Infelizmente o que tenho visto está na linha do “cada um por si”, e já nem falo em Deus, porque nem Ele deve estar acreditando o quanto seu Santo Nome vem sendo clamado em vão.

Meu lado diabinha tem pensado seriamente em começar a espirrar e tossir bem perto desses seres, só de sacanagem. Mas na verdade me sinto – e vejo muita gente que conheço da mesma forma – cada vez mais preocupada e isolada, até para evitar aborrecimentos, já que não tenho um pingo de sangue de barata em minhas veias.

O mesmo sangue que simplesmente ferve ao acompanhar a escalada vertiginosa da crise política. Que chega ao cúmulo do cúmulo, acumulando as digitais de um presidente cada vez mais insano e sua família e equipes envolvidos em tudo de ruim, perdidos, tentando justificar malfeitos diários, muitos até mais antigos, revelados pela imprensa que odeiam com todas as forças.

Dizer que o país está à deriva é pouco: todo o futuro está comprometido. Olha as áreas de Educação e Saúde, os desatinos da área econômica, o relacionamento diplomático, agora também estamos mandando lixo para instituições mundiais, como é o caso do ex-ministro Abraham Weintraub. Os poderes se digladiam entre si, as forças militares se assanham ocupando alguns postos chave. Saqueadores de outrora se aproximam, sedentos e cobrando caro para serem muletas e esteios de poder.

Enfim, um pesadelo, como os que vêm ocorrendo em nossas noites de sono e insônia, desses, que estamos caindo em um abismo, sendo perseguidos, gritando por socorro sem seremos atendidos, pendurados numa corda puxada de um lado e de outro.

O problema é que a tal corda puxada e que se estica está mesmo enrolada em nossos pescoços. O que descobrimos todos os dias, bem acordados. Apavorados.

– “Pamonhas, pamonhas, pamonhas” – um carro com alto-falantes passa agora aqui em frente, percorrendo as ruas. Essa realidade é mesmo muito dura em seus sinais.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO -O novo (a) normal. Por Marli Gonçalves

Ora, não me venham falar nesse tal de novo normal, que as pessoas vão mudar, que aprenderam, que daqui pra frente tudo vai ser diferente, que isso só é letra de música. A realidade é que a natureza humana gosta de viver seus conflitos e que a luta pela sobrevivência ainda é um pisando no pescoço do outro

O que é "normal"?: duração e variação do ciclo menstrual

O estouro da boiada. Como não vivo no campo, aprendi essa semana, vendo como as pessoas estão se comportando logo aos primeiros sinais de relaxamento do isolamento social, e compreendi a expressão – foi o que me pareceu um estouro da boiada. Vendo as filas horrorosas, os apertos e ajuntamentos, as burlas das leis ordenadas, mas sem fiscalização em um país onde faz tempo se aprende a viver ilegalmente. Parece que ficaram os quase 90 dias em casa esperando o sinal tocar, como esperávamos o sinal do recreio na escola, e que passaram esses dias anotando o que comprariam com o pouco que ainda lhes restou, se é que ainda restou. Ou se apenas o que aconteceu é que ficou mais escancarada a possibilidade do fim do mundo, ou da instantaneidade da vida. Partiram para o tudo ou nada.

Nos noticiários vi gente impaciente esmurrando a porta da loja que se atrasou para abrir. Vi também alguns comerciantes reclamando do horário limitado e do número baixo de clientes, como se isso já não fosse de certa forma normal até bem antes da pandemia. Gente atabalhoada tentando tirar o atraso, e esse atraso correndo deles.

Diferente das filas criadas pelo confuso e desatinado governo para dar o auxílio emergencial e quando muitos correram para portas de bancos para tentar garantir aquele trocadinho, o que até valeria algum risco, desta vez se aglomeraram para comprar nas ruas e shoppings populares, bater pernas atrás de presentes para datas que já não marcam é mais nada. Houve também muitos que vieram com sacolinhas e sacolões para comprar o que venderiam em outras filas e aglomerações, em outros locais, nos paraguaizinhos de todo o território nacional.

Máscaras foram o hit da vez nas barracas dos camelôs, mas nem todos as usam no lugar, ou mesmo as usam. Estão faltando beber álcool em gel, como se esse pudesse ser servido em copinhos e, espirrados, fossem mágicos seus respingos. O resultado dessa loucura estará no futuro logo ali, nos números de novos  infectados e mortos, como se não bastasse já termos ultrapassado a terrível marca oficial de 40 mil brasileiros mortos e de quase um milhão de infectados, números ainda acanhados perto da realidade, subnotificados de todas as formas possíveis, inclusive oficialmente, na cara dura.

Repito: e vocês aí achando que uma nova sociedade surgiria dessa experiência que, inclusive, não tem qualquer data para acabar, sem vacina, sem remédios, só desatinos e improvisos. Como? Com um dirigente máximo insano?, que pouco está se lixando para a vida, e que agora – dá até vergonha de falar – incentiva seus seguidores chucros (que certamente poderão, com razão, serem chamadas de gado, se o fizerem) a entrarem nos hospitais para registrar e “denunciar” (!) camas vazias… Qual o próximo passo?

Esse presidente e sua equipe, sim, podem ser chamadas de anormais por não pararem um minuto de multiplicar a ignorância e o perigo. Obrigaram até a oposição a tentar  se organizar e chamar protestos nas ruas, antes ocupadas apenas por uns seres estranhos e feios vestidos de verde e amarelo abanando bandeiras antidemocráticas ou desconexas, montinhos perdidos que podiam ser encontrados tentando  se acasalar e se multiplicarem lá na frente do Palácio da Alvorada; aqui em São Paulo, na porta da Fiesp e em frente ao II Exército.

E os ladrões, espalhados, enchendo os bolsos com o super faturamento de equipamentos e insumos hospitalares? Aumentando preços como se realmente não houvesse amanhã? Bancos posando de bonzinhos nas propagandas e ignorando pedidos de socorro por créditos a juros mais baixos?  A lista é enorme e você aí já deve ter lembrado de mais algum fato entre esses que assistimos estupefatos.

Daqui de meu posto de observação estou é vendo muita gente brincando com a morte, como se ela já não estivesse bastante visível. E fico, acreditem, cada dia mais preocupada e temerosa com a forma dessa abertura precipitada, sem conscientização, como se o vírus tivesse tirado férias. Mas ele ainda está lá escalando a montanha em busca de asfixiar e tirar o oxigênio vital, todo feliz com os pratos oferecidos para sua alimentação, especialmente os pobres.

Para finalizar, não me venham falando em percentual de ocupação de leitos estar folgado. Ninguém quer vê-los cheios. Ninguém quer ficar doente. Não é possível que esse tal novo normal seja tão burro que não possa entender isso.

Normal. O que é normal?

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

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ARTIGO – Estamos todos ajoelhados? Por Marli Gonçalves

Ou estamos todos sufocados? No mundo inteiro, em fotos simbólicas, nas grandes manifestações contra o racismo, contra a morte, nos Estados Unidos, do negro George Floyd, sufocado pelo joelho de um policial branco por exatos oito minutos e quarenta e seis segundos, as pessoas vêm se ajoelhando.

E os joelhos que também podem matar adquiriram assim mais um sentido, o que não é de submissão a nenhuma autoridade, nem de humilhação. Ao contrário, são momentos de súplica para um basta. Resistência. Um basta ao desprezo pela vida humana, tão claramente exposto essa semana também pela morte, em Pernambuco, do menino Miguel, cinco anos, deixado em um elevador que o elevou, sim, mas ao nono andar de um prédio luxuoso de classe alta onde uma grade se desprendeu em sua procura pela mãe, e o projetou 34 metros abaixo.

Negro, criança, pequenino, havia sido deixado por minutos pela mãe sob os cuidados da loura patroa mulher de prefeito que a havia mandado passear com o cachorro da casa. Bastava que ela, a patroa, o tirasse do elevador para onde correu – mas ela, não, fez pior, apertou ainda o botão para que o elevador subisse. A mãe de Miguel, hoje com razão desesperada, pergunta: e se fosse ao contrário? Os joelhos da sociedade estariam sobre seu pescoço. Enquanto a patroa rica pagou uma fiança e está em liberdade.

João Pedro, 14 anos, negro, brincava dentro de uma casa em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, quando um tiro o atingiu pelas costas, vindo de mais uma desastrada operação policial, dessas que atira para todos os lados, especialmente em comunidades negras, pobres, e que tantas crianças matam, tantas pessoas matam.

Nós nos ajoelhamos para rezar por elas, sempre mais tarde de tudo que poderíamos ter feito.

Vidas negras importam, diz o movimento que se espalha pelo mundo. Vidas importam, todas, ainda não diz claramente o movimento que esperamos de joelhos aqui no Brasil. 35 mil mortos em poucos mais de cem dias da pandemia de Covid-19, negros muitas de suas principais vítimas. Um presidente que diz “E daí?”, que balbucia sem corar que “sente muito, mas todos vamos morrer”, como se essa frase fosse de alguma inteligência e não apenas demonstrasse o profundo desprezo pela população que governa e que é encaminhada para um matadouro, às vezes até com pauladas mesmo.

Como representante dessas vidas negras, é posto um ser asqueroso, que chama o movimento antirracista de “escória” e continua ali como se nada tivesse acontecido, sentado em sua cadeira na Fundação Palmares, talvez se achando de branca candura, sem se ver negro, sem se ver, sem fazer.

Eu quase já não consigo mais respirar esse ar nacional há mais de um ano e meio, desde que esse grupo chegou ao poder buscando asfixiar tudo o que é livre, sensato, conquistado. Que vem dando largos passos em direção a um abismo irracional e de ignorância aproveitando as mortes que incentiva em seus movimentos contra o isolamento social, aproveitando nossa perplexidade com atos e fatos que se sucedem dia a dia mais graves e cruéis.

Está tudo em vermelho e negro. A informação acaba sendo o vermelho sangue que corre nas veias do país que parece não mais querer acreditar nelas, as notícias, os fatos sendo revelados, como se estancar esse sangue com cegueira pudesse paralisar todo esse mal que nossos joelhos sangram de tanto que os dobramos para orar, com fé , em súplicas, pelo entendimento da importância de uma democracia, por Justiça e igualdade entre todos, raças, gêneros, classes, povos.

Ele implorava. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Por, repito, oito minutos e quarenta em seis segundos, ele implorou. Os joelhos que asfixiaram George Floyd, cena assistida, gravada, documentada, é muito mais do que apenas americana, muito mais do que apenas contra a violência policial ou o racismo. Ela é a forma sufocante da morte de quase meio milhão de pessoas em todo o mundo nesse terrível 2020.

Estamos todos já quase sem ar, e preocupados com o avanço do sufocamento democrático desse desleal grupo no poder. E o que parece é que esse poder já está tomado. Pelo fatos, posições, pelo silêncio nacional de um povo que se humilha, sendo que um percentual deles, infelizmente, se ajoelha paramentado em verde e amarelo por adoração a (mais um) ídolo de barro, onde ele apenas escorrega, sem cair de vez.

 

 

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ARTIGO – Alvoroço no Alvorada. Por Marli Gonçalves

Virou praxe. No nascer do dia, logo após o toque de cornetas, clarins e tambores nos quartéis ao amanhecer, na alvorada, surge um homem completamente alterado à porta de seu Palácio, o Alvorada. Ele vai abrir a boca, dizer sandices, um ou dois ou mais palavrões, gesticular, ameaçar a democracia e as instituições, pior, por isso ser aplaudido por um pequeno grupo fazendo alarido no seu quintal

Agora esse homem deu até de usar gravata ostentando o símbolo de suas loucuras. Pequenos fuzis em verde e amarelo, como tão bem registrou o genial repórter fotográfico de Brasília e da história, Orlando Brito. Outro dia mesmo, Brito, mais de setenta anos, foi ao chão, teve os óculos quebrados por essa turba que surrupia as cores e símbolos nacionais para enaltecer o obscuro, para tentar que o Brasil novamente anoiteça sem liberdade. Outro repórter, Dida Sampaio, derrubado e chutado.

Não era sem tempo que alguns dos principais meios de comunicação do país deixassem de presenciar essa cena macabra ocorrendo sob o brilhante céu da Capital da República, onde diariamente – além de registrarem esses descalabros – ao tentarem fazer perguntas, recebem de volta ironias, provocações e ameaças que vêm aumentando em escalada, sem que providências sejam tomadas para garantir minimamente sua presença no local. Essa semana muitos deram um basta.

Mas o homem não para. A cada dia mais violento, ameaçador, faz desse show matinal material para os vídeos que planta na internet para serem dispersados por uma equipe que coordena milhares de robôs e gente que se diz “patriota”, entre outros que, coitados, acreditam que os robôs sejam gente de verdade. Nessa semana vimos bem a cara de alguns desses seres digitais capturados na realidade da rede de uma parcela da Polícia Federal que se esmera pela independência.  O homem chiou, os olhos chisparam, mais disparates foram ditos, feitos, anunciados e ordenados em ameaças, inclusive de grave descumprimento da ordem constitucional.

A cada alvorecer mais preocupante, os dias nacionais quando já acordamos em sobressaltos, como se já não bastassem os milhares de mortos, os números que diariamente sabemos no crepúsculo dos dias em meio à pandemia, ao desencontro de ações, dos conflitos entre regiões, do vazio verde-oliva ocupado na Saúde por patentes e coturnos.

A vestimenta da Alvorada traz detalhes que acabam passando, como se lei não tivéssemos mais: talvez vocês não tenham reparado ainda que o homem da gravata com fuzis agora aparece cercado por seus seguranças ostentando máscaras de proteção com a sua figura carimbada, em um personalismo que conhecemos no século passado durante a ascensão do mal do fascismo e nazismo.  O “e daí?” usado alegremente na máscara da deputada que já estaria cassada em momentos normais. E naquela reunião do dia 22 de abril que agora, perplexos, assistimos, vários ministros e autoridades regurgitaram suas ignorâncias em alto e bom som, sem que tenham sido presos. Aliás, o que é compreensível, se ali tivesse havido voz de prisão entre uns e outros não sobraria quem apagasse a luz daquele salão.

O alvoroço não é pouco, e se distribui muito além da alvorada e do Alvorada, das manhãs, tardes e noites, causando inquietação no nosso sono das madrugadas, do Planalto às planícies; entre os Poderes, agora em isolamento social, engaiolados em lives e encontros digitais, reuniões extemporâneas, declarações e notas de repúdio em redes e folhas de papel que não duram minutos respirando até que outras tenham de substituí-las.

Fosse só o homem, mas ele tem os filhos enumerados, porque agora é moda, além do banheiro, o ir lá fazer 01, 02, que já era bem ridículo como expressão. Temos por aqui mais zeros, sempre à esquerda, nunca nos lugares onde no mínimo deveriam estar trabalhando, mas tentando desgovernar juntos, como clones do sobrenome que precisamos urgentemente, e antes que seja tarde, parar.

Nosso alvoroço – dos que prezam pelas liberdades individuais e pelo respeito – tem de começar a ser sentido lá no Alvorada.

Nossa alvorada haverá de ser muito melhor. Do jeito que está, sujeita a trovoadas, poderá nos levar a uma noite terrível. Mais terrível dos que os pesadelos que atormentam nosso sono buscando sobreviver, além da pandemia, além deles, e de todo o atraso e violência que claramente representam.

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FONTE: OS DIVERGENTES – FOTO DE ORLANDO BRITO

ARTIGO – Máscara negra: uma nova marcha. Por Marli Gonçalves

A marcha entoada agora é fúnebre. E mesmo ela só pode ser silenciosa, já que não há tempo, esse senhor que nos mastiga, sempre empurrando, sempre sem volta. Os dias passam em um ritmo inexplicável. Cada um de nós os terá marcados na vida de uma forma, e sem que se possa saber o que será; mas certamente o que será, será.

 “…Quanta tristeza! Quanta agonia!

Mais de vinte mil mortos pelo chão

Todos estão chorando

No meio da multidão.


Quanta tristeza, oh, quanta agonia!

Mais de vinte mil mortos no salão

Joãos, Marias e Josés chorando

No meio da multidão

 –

Que bom será te ver outra vez

Tá fazendo meses

O carnaval que passou, o mundo parou

Eu sou quem te abraçou e te beijou, meu amor

 –

Na mesma máscara branca, negra, colorida

Que esconde o teu rosto

Eu vou querer matar a saudade

Vou beijar-te, mas não agora

Não me leve a mal

Hoje é quarentena total

 –

Vou beijar-te, mas não agora

Não me leve a mal

Hoje é isolamento social…”

Temos de sobreviver. Essa é a nova missão imposta pela natureza nessa época em que não há mais datas previsíveis, todas deslocadas, como os feriados antecipados, os planos adiados, as propostas em compassos de ritmos bagunçados. O Carnaval já não foi o mesmo, pensa bem, os 40 dias da quaresma já foram uma quarentena real que agora se estende trazendo para muito perto datas outrora distantes. Tenta-se, assim, esticar prazos, propor o futuro, mas ninguém tem certeza é de mais nada.

O melhor e o pior de nós surge, inclemente. Não há protocolo, decreto, determinação, conselho, entre as palavras que mais andamos ouvindo ultimamente, que façam mudar a terrível natureza humana – e estamos vivendo para ver e comprovar tristemente isso.

É um pesadelo tenebroso. E há ainda quem não tenha se dado conta que esse acordar não se dará em um estalo. Há ainda também quem consiga que tudo se torne ainda pior, acelerando suas sombras e avançando para o que temos de mais valioso para agir, a liberdade, o pensamento.

Não sei se dormem esse mesmo sono intranquilo; ou se apenas foram moldados como destruidores, conviviam entre nós e não os percebemos a tempo. Para eles, amizades não valem. Honra é coisa que não sabem. E amor é próprio, o próprio. A opinião contrária, massacrada, mesmo que todos os fatos criticados sejam límpidos – há quem jure que esses seres que nos importunam têm corações peludos, almas negras ocultas por suas roupas, ternos, fardas, camisas de futebol, e que agora andam por aí usurpando símbolos nacionais, bandeiras, cores, considerando que estão protegidos dentro de seus carros que usam como tanques de guerra. Por onde passam a terra fica arrasada, inclusive dizimando até alguns deles, mas isso não lhes importa – querem avançar sobre tudo. Afinal, como disse, são sombras.

Querem encobrir a luz, mas haveremos de desmascará-los. Vivemos uma tragédia. Nacional.

… “Quanta tristeza! Quanta agonia!

Mais de vinte mil mortos pelo chão

Todos estão chorando

No meio da multidão”…

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ARTIGO – O epicentro de cada um de nós. Por Marli Gonçalves

Acostumada a vida inteira a resistir às inúmeras pressões, dificuldades, verdadeiras visões do inferno assistidas como jornalista, como mulher, na vida pessoal, admito: me encontro agora com o emocional abalado como há muito não acontecia. Pior: desta vez não está em minhas mãos a solução, mas na de todo um país, completamente desarvorado, triste, confuso, louco, e claramente nas mãos de uma equipe de desajustados. Mais perigosos a cada dia que passa.

Saxofonista. Pano de fundo preto. — Vetores de Stock © JonCrucian ...

Sim, é um desabafo. Sincero, necessário, para não explodir. Sinto também que falo por muitos e muitas em todos os cantos desse país perplexo e assustado, que tem medo não só da mais da morte ou da terrível doença que nos assola a todos, mas também do desenrolar do embaraçado (e embaraçoso) novelo político que torna tudo ainda pior. Não há nervos que aguentem.

Rompi em choro descontrolado pouco antes de começar a escrever. Assim. Ouvia o noticiário de tevê, com todo o cotidiano das histórias terríveis, emocionantes, dos números tenebrosos, dados sobre a ignorância das desobedientes aglomerações, as falas patéticas reveladas, a queda de mais um Ministro da Saúde em meio a esse caos, quando de repente ouvi um som magistral, um jazz. Não vinha da tevê, claro, que dali ultimamente as belezas andam afastadas.

Corri à janela e, lá embaixo, estava, na esquina, um solitário saxofonista que entoava as mais belas canções, Pixinguinha, Adoniran, Tom Jobim, Cole Porter. Junto comigo, outras janelas se abriram juntando seus sons a aquele som mavioso, esse despertar. As minhas lágrimas teimosas rolaram com gosto, como um desabafo necessário, que devia estar ali represado, querendo virar água, fluir.

Somos todos hoje nós mesmos um epicentro – essa palavra que tanto ouvimos – e que veio se mudando, da China, passando pela Europa, Estados Unidos, até nos atingir tão pesada e brutalmente. Somos, cada um de nós, um epicentro de emoções. Tão controversas quanto absolutamente incontroláveis.

É bonito demais ouvir as janelas se abrindo. As pessoas aplaudindo, várias mandando colaborações para aquele chapéu que o músico passava, para amealhar alguns trocados.  Creio que todos um dia merecem ouvir serenatas. Por aqui onde moro, São Paulo, sempre estranhei não ver ninguém nas janelas, as cortinas sempre fechadas. Precisou desse isolamento para descobrirem que elas podiam ser abertas. Para ouvir seja a música do saxofonista, do amolador de facas, ou o som do bater das panelas, dos protestos que se multiplicam, entoados pelos mais ativos. Muito além dos costumeiros alarmes disparados, das ambulâncias e sirenes, do trovoar, das turbinas do aviões que já não cruzam mais os céus.

SAX MUDOSair às ruas não dá mais prazer como outrora. Não há passeio ou destino legal quando se sai apenas por necessidade, para o médico buscando socorro, para o mercado onde os preços nos esmagam a cada dia mais, assim como na farmácia onde borrifam um álcool gel fedido em nossas mãos, como se fizessem algum favor. Não reconhecemos rostos amigos que passam de nosso lado, e os olhos, ah, os olhos descobertos! Nos rostos mascarados demonstram toda essa ansiedade, o pavor, e a tristeza. Claro, isso quando a máscara não está no queixo ou, às vezes, nos mais humildes, tão suja que dificilmente pode proteger alguém, seja de fora ou de dentro.

As insanidades, as frases irritantes, as revelações em gravações, vídeos, as ordens e medidas sem pé nem cabeça tomadas por governantes que se debatem uns com os outros, ver um povo tão dependente de um líder que é capaz de ficar cego, pular num cadafalso, num buraco aberto. E incitados por alguém que a cada dia parece apenas querer provocar a hecatombe, e que ele, sim, no momento é o epicentro de tudo que é ruim, e que nos traz ainda mais angústia. O epicentro do mal.

Como assim? Exames de laboratório feitos com pseudônimo inventado? Airton Guedes, Rafael Augusto Alves da Costa Ferraz, 05? Vocês já tentaram fazer algum exame, sem que tenham pedido inclusive documentos originais, com foto, carteirinhas e etcs? Como alguém pode achar isso normal, aceitar? Dois ministros da Saúde derrubados no meio de uma pandemia sem igual, em menos de um mês? A insistência em um remédio rejeitado pela comunidade médica internacional; o que ele pretende? Até onde vamos deixá-lo chegar? Até onde essa equipe desnorteada e má continuará agindo, enquanto estamos amarrados, isolados?

Precisamos abrir mais nossas janelas para conversarmos pessoalmente entre nós, e nem que seja aos gritos.

Nem sempre tem um saxofonista na esquina. Mas não seja por isso: sempre haverá um Hino pela Liberdade a ser entoado.

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