ARTIGO – O patético ataque psicótico mundial. Por Marli Gonçalves

O ataque psicótico é mundial. Surto geral. Deu a louca e o mundo começou a rodar ao contrário, engatou a ré, está virando o pescoço e vomitando bílis, dominado pelas forças do mal. Chamem um exorcista – que isso tudo não é de cramulhão bonitinho de novela – para enfrentarmos o segundo semestre que começa semana que vem, a carruagem está bem desgovernada e a gente não quer que recolham nossa viola. Quer?

Já que agora virou moda e todos que aprontam feio, matam, espancam, estupram, babam se justificam com momentos de surto, engano, ideologia ou, pior, ataque psicótico, o mundo resolveu copiar. Senão, como explicar as duas últimas decisões da Suprema Corte dos Estados Unidos, uma liberando o porte de armas em locais públicos – uma ode ao bangbang, ao faroeste; outra, suspendendo o direito ao aborto após 49 anos? – deixem o corpo e as decisões das mulheres em paz! Deixem-nos viver em paz. Aqui, lá, acolá.

Como explicar mais de 120 dias de destruição, em plena Europa, essa guerra cruel que sacode os alicerces do planeta, aumentando a fome e ampliando toda sorte de consequências e medo?

Como explicar toda essa série de ordens sem sentido? Decisões controversas? Atos violentos? Falas deploráveis? Será 2022 o Ano da Besta? Aqui temos uma (besta) para chamar de nossa, nacional, bem grande, inspirada nos moldes da ignorância, e que faz parte dessa absurda guinada que soterra todos os avanços da tecnologia, da Ciência e do bom senso, e que ao menos estamos querendo soterrar, mesmo que com tão poucas opções, e em uma escolha única quase que obrigatória dadas as forças políticas em combate, mais uma vez apenas dual.

Não há otimismo que se sustente quando se tem um mínimo de consciência das mudanças e fatos, e desde que, claro, nos mantenhamos informados, mesmo que pouco, pela imprensa que ainda nos resta, mesmo aos trancos e barrancos, ela mesma desgraçada, e que agora, para piorar, as pesquisas demonstram que grande maioria esteja fugindo do noticiário, preferindo viver sem saber – uma das coisas mais perigosas que presencio em toda minha vida, jornalista que sou há 46 anos. Observem as redes sociais e vejam que presenciamos ali os debates mais miseráveis, pobres, perdidos, despropositados; até nojentos, se me permitem definir. Nos portais, a busca pelos cliques em frufrus, a superfície, patéticas confissões pessoais e sexuais, onde todos querem ser pioneiros do que sempre existiu e que tinha melhor qualidade.

A juíza que pergunta à criança estuprada e grávida se ela suportaria mais um pouco, querendo colher dali mais um desnecessário ser infeliz. Ver que há quem justifique isso porque o estuprador também era uma outra criança, aliás, mais uma sem a orientação sexual, silenciada, essa educação fundamental a eles negada, por religiões e homens. O homem que entra armado com faca e do nada mata três pessoas dentro de um ônibus de uma pacata cidade do interior, e o caso tem menor repercussão do que qualquer massacre com menos requintes coberto ao vivo em outro continente.

Não há mais parâmetros, inclusive na cobertura jornalística. Parece tudo se resumir a informar que o que houve foi um ataque psicótico, que a Justiça é assim mesmo, que a corrupção nunca será vencida, que há fome de milhões, que morreram mais outros que tentavam modificar a situação, que o homem falará ou fará uma besteira ainda mais cabeluda amanhã, que um dia apaga o outro, que o crime organizado domina, que soluções não solucionam. As manchetes de primeira página dos jornais impressos já nascem velhas e desinteressantes – olhe todos nas bancas. Eu, que ao sair desço as escadas, as leio jogadas nos capachos das portas de meus vizinhos, assinantes. Chego ao térreo desconsolada, sempre lembrando de algum dia vivido em tempos áureos, de edições extras, jornais esgotados, manchetes inesquecíveis.

Assim, vamos em frente com essa comunicação truncada, e uma infeliz constatação: aconteça o que for, a mediocridade continuará – já a conhecemos bem, e às suas propostas, vindas de quaisquer direção, ditadas por lideranças que não se renovam.

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marli - cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Que tal um samba? Ou melhor fugir do planeta? Por Marli Gonçalves

Chico Buarque propõe um samba no meio disso tudo que nos atordoa pesadamente dia após dia. Poético, mas também cansado, com cara de quem quer mesmo só olhar de longe como é que vai acabar a temporada desse vagabundo seriado nacional de horror, com capítulos sem fim

Entendo bem. O que a gente, que já viveu, guerreou, se trumbicou, alertou, pode propor à essa altura? Atordoada, esgotada, senti que precisava parar pelos menos uns dias, ficar distante ao máximo, mas como não dá para sair do planeta, o mais recomendável já que a turbulência não é apenas local, fui até ali, ao Rio de Janeiro, onde deu para chegar juntando os trocados.

Ver o mar, ao menos. Depois de mais um década, conferir se ele ainda estava lá. E ele estava tão revolto como estes nossos dias, a ponto de impedir até aquele rápido banho de descarrego. O Rio também estava frio, de usar casaco, e chuvoso. Nas ruas, nas esquinas, a presença ostensiva de carros de polícia e seus homens carrancudos armados e paramentados de negro contrasta duramente com as belezas naturais e relembra aqueles anos duros, quando o que mudava eram os seus uniformes, então verde oliva. Já que os crimes, as balas achadas e perdidas, a violência, tudo persiste, os vi ali parados apenas como adornos deselegantes de uma cidade que atrai turistas de todo o mundo em busca de achar suas maravilhas, mas até elas estão meio desbotadas. E tudo muito caro.

Mas que foi bom, foi. Respirar outro ar, andar para lá e para cá numa viagem que acabou sendo muito afetiva – fui feita lá, foi legal comemorar ali mais um aniversário, conhecer o Museu do Amanhã, ir ao Pão de Açúcar, pegar o bondinho todo modernizado. Na última vez, criança ainda, lembro daquele antigo, pequeno, barulhento, desengonçado, balouçante, hoje aposentado. Também estive na Academia Brasileira de Letras, na posse do amigo José Paulo Cavalcanti Filho, vendo tudo aquilo, aqueles autores, aquele mundo clássico que todo escritor sonha um dia alcançar.

Vi e andei de ônibus – gente, todos literalmente caindo aos pedaços! O metrô, tudo bem, diferente total de São Paulo, estações esculpidas em rochas.

Percebi o quanto é fundamental se curar do que a gente tanto espera de outro alguém. Melhor seguir. Retornar, o jeito, encarar. Tudo. E cá estamos nós.

O planeta perplexo com o desaparecimento do indigenista e do jornalista, assassinados, atingidos ainda pelas odiosas falas do presidente para o qual já esgotamos adjetivos. Se preparar aos tensos dias que antecederão as eleições de outubro. Saber do bodejos dessas pragas aos milhares que se intitulam como influencers e que têm feito mais mal do que bem aos que os conhecem sabe-se lá por quais feitos em seus círculos.

Pelo menos poder assistir ao colorido arco-íris que se forma antecedendo a Parada LGBTQIA+, de todos de uma comunidade que com alegria e alarido vai às ruas demonstrar liberdade e resistência, mesmo diante de tantas ameaças.

Que tal um samba, Chico? …Puxar um samba, que tal? Para espantar o tempo feio. Para remediar o estrago. Que tal um trago? Um desafogo, um devaneio …

 Pois bem. De tudo, entender que é preciso mesmo continuar sonhando, fazendo sambas e planos, pensando adiante. Aliás, onde se compra passagem para ser feliz total, sair batucando – nem que seja por minutos – igual aquele brasileiro que foi dar uma voltinha no espaço? Porque a tal Ratanabá, essa cidade inventada para mais mentiras dessa gente ruim,  é ouro puro, sim. De tolos.

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marli - cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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O bondinho era assim…

barquinhos - samba

Museu do Amanhã, o futuro e o arco-íris

ARTIGO – Tentam nos curvar de todas as maneiras. Por Marli Gonçalves

Nas ruas de nosso país observamos a angústia, a infelicidade, a preocupação, a ansiedade e luta por muitos e variados alguns. Andam perdidos, de cabeça baixa, os olhos sem brilho, desalento visível na caminhada lenta. Vítimas de uma absurda desorganização nas coisas de um governo que sacode e destrói a nação, do momento no qual a saúde é atingida pela desgraça da pandemia que continua em ondas malignas, e da natureza vingativa que castiga e desaba vidas e sonhos justamente dos mais vulneráveis

Bom, claro, tem também os curvados que passam te atropelando como se fossem os donos das calçadas, desatentos, pescoço caído torto, atenção apenas ao celular que não sei o que de tão interessante pode conter para esse exercício tão perigoso. Já vi muita gente atravessando ruas assim, alheios, assim como já os vi tropeçar, caírem em buracos e até quase serem atropelados justamente por estarem tão curvados nesse misterioso mundo. Serão as notícias?

Estarão interessados em eleições, candidatos, partidos? Em jogos de futebol, convocações de times? Talvez atentos ao YouTube e nos filmes absurdos sobre tudo que se pode procurar em diversas versões dos mesmos fatos? Nas dancinhas dos tiktokers?

Entendam os mais espertos em símbolos químicos, nos “cobres” a mais que parece está todo mundo atrás para se garantir e comentar. Pode ser que apenas estejam acompanhando as andanças e polêmicas do tatuado “cobre” da artista famosa e sem papas na língua e que acabou por desnudar um submundo de gastos públicos absurdos e nos mais miseráveis recônditos, justamente por isso sentindo-se livres para saquear o povo, entoando circo sem pão.

A polêmica já tem dias e mais de metro, criando mais uma divisão no país sempre repartido. Agora, são sertanejos e os “outros”. Tome-se por sertanejos alguns desses novos milionários de sucesso duvidoso, esbanjadores, apoiadores alinhados ao desgoverno e seus familiares, sorridentes em fotos e nas conquistas de prefeitos e outros candidatos a continuar fazendo a população continuar se curvando diante da vida. Esqueçam os violeiros antigos, os que por aí apenas cantam com sotaque a sua terrinha, seus amores, esses muitos que se apresentam em pequenos palcos e calçadas só em troca dos tais cobres, mas aí o da gíria de algum dinheiro.

A cantora influente e que está lá fora onde faz sucesso a ponto até de ganhar estátua de cera em museu famoso se diverte e nos diverte a cada vez que se pronuncia mostrando inclusive uma capacidade incrível de usar os sinônimos ao seu próprio e elogiado derrière. Na clara oposição sem partido – e que tanto perturba os caras – usa seus encantos para influenciar mais jovens a se entenderem, o que fez para que tirassem título de eleitor a tempo, ou doando e conclamando outros a doarem para ajudarem as vítimas de grandes tragédias. Faz mais com seu brioco, buzanfa, fiofó, rego, entre outras dezenas de formas, do que a caneta de governantes de Norte a Sul.

Uma tatuagem que deu pano para a manga, quando polemizada por aqueles homenzinhos esdrúxulos que não tinham é nada a ver com isso e poderiam ter ficado bem quietinhos. Inclusive para o bem de nossos ouvidos.

Pelo que se entende, ali no seu corpo que movimenta tão bem, ela apenas talvez tenha querido perpetuar o seu amor por alguém, dizem, marcando “I luv u”; pela frente, comenta-se, a flor de lótus. Só não sabemos ainda de que cor, que cada uma tem uma expressão. No geral, é flor que simboliza a superação, a força, a capacidade de passar pelas dificuldades e ver o lado positivo da situação, uma vez que é flor que nasce da lama.

Gosto de quem não se curva, de quem se defende e aguenta os trancos, e eles estão bem violentos porque mexeram com gente perigosa. Gosto mais ainda quando isso é feito com humor. Quem muito se abaixa, dito popular, mostra o traseiro. E ainda pode ser chutado, já que nem todos nascem virados para a Lua.

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marli junho 22MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Feminismo popular. Ninguém é Bruaca. Por Marli Gonçalves

O feminismo ganhando o que mais precisa, divulgação e entendimento de sua simplicidade e importância na força da ação e reação feminina. Está uma delícia. Todos os dias temos visto manifestações – algumas até bem engraçadas – de mulheres brasileiras revoltadas e resolvendo a situação com seus companheiros de forma inusitada: expondo o “gajo” nas redes. Na tevê, a reação das oprimidas faz sucesso e ensina de várias formas que há solução.

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A primeira é não se calar, e o quanto antes. É uma que “vira” onça diante do motel onde está sendo traída, e filma tudo.  A outra que gruda um cartaz no carro do companheiro traidor dando conselhos e inclusive apoiando, vejam só, a amante, pedindo respeito a ela também. Isso se espalha, viraliza. A sororidade se destaca mostrada com sucesso em personagens de novelas, como a Maria chamada de  Bruaca, de Pantanal, reagindo ao entender a situação vivida durante toda uma vida ao lado de um homem horrível,  machista, grosso, nocivo, tóxico, ao qual venerava até descobrir que, inclusive, o tal manteria outra família.

Em um país onde impera a desigualdade, os riscos e violência, e a ignorância tenta a cada dia botar mais as manguinhas de fora, é reconfortante assistir a matérias e matérias repercutindo a opinião de mulheres sobre como estão dando a volta por cima. Ou como estão entendendo muito bem o recado de que sempre chega a hora do “Basta!”. E que esse ponto final poderá salvar suas próprias vidas. O Brasil ainda ocupa o quinto país do mundo em mortes violentas de mulheres segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos – dado vergonhoso e que infelizmente se mantém, apenas piorado, ao longo dos últimos anos.

Em 2020 e 2021 houve uma severa explosão dos casos de violência contra a mulher e feminicídios – o assassinato de mulheres e meninas por questões de gênero, ou seja, exclusivamente em função do menosprezo ou discriminação à condição feminina. A pandemia de Covid, que obrigou ao isolamento, tornou a situação ainda mais calamitosa, especialmente entre as mulheres negras e mais pobres, mas atingindo brusca e diretamente a todas.

As denúncias recebidas pelo Disque Denúncia de São Paulo cresceram 35% em março deste ano, comparando com o mesmo período do ano passado. Em março deste ano foram 57 denúncias, contra 42 em março de 2021. Apenas no primeiro trimestre de 2022, foram 140 relatos de feminicídio no Estado – mais de um por dia!

Nos últimos anos o país tem piorado em muitas questões, particularmente algumas ligadas ao comportamento humano e liberdade individual, ou ligadas às minorias. Todos os dias ouvimos relatos de racismo, manifestações de violência contra as mulheres e contra a população LBGTQIA+.

Uma situação que não envolve apenas as mulheres, em geral atacadas por pessoas próximas, seus companheiros ou ex-companheiros, mas também seus filhos que muitas vezes presenciam esses atos. Atos e números desleais que precisam ser estancados, e luta para a qual todas as mulheres, maioria da população, deve assumir seu papel. Em todos os canais, inclusive políticos.

Daí a importância de divulgar vitórias, as reais e mesmo essas das ficção de filmes e novelas, de casos em redes sociais, muitas vezes a melhor forma de traduzir rapidamente essa batalha e seu significado. Repito: o feminismo é força, precisa ser compreendido em toda sua plenitude, e por homens e mulheres. Não diz respeito só a um ou a outro. São alicerces fundamentais para o futuro. Acredito firmemente que a humanidade não poderá ser assim chamada enquanto a mulher for tratada de forma inferior. Feminismo é prática diária. Presente em nossas vidas.

Não há de se ter vergonha. É preciso pedir ajuda. Por a boca no mundo. Como vítima dessa violência que deixa marcas profundas por toda uma vida, cada caso, cada morte que sei, é como se novamente a ferida fosse em minha pele, e me faz comemorar hoje conseguir ter ficado viva para contar a história, entender exatamente como ela se constrói, a dor que causa.

Me posicionar na frente dessa batalha, implorando pelo fim dessa guerra tão particular e odiosa.

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Marli - perfil cgMARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Ah, é Guerra? Por Marli Gonçalves

É muita coisa junta atraindo, merecendo e roubando a nossa atenção. Pandemia, mortes; guerra, mortes; violência, mortes; usinas nucleares em chamas, o mundo todo envolto em dramas, pó, chamas. Gente chata. Busca por sobrevivência. Me diz: quanto tempo você está conseguindo ficar pensando só em sua própria vida? Planejando qualquer coisa? Como se concentrar sem ser egoísta?

ah, é guerra!

Um dia após o outro, com calma. Respire fundo. Tenha pensamentos positivos. Concentre-se. Reze, reze muito. Apegue-se ao presente. Não será por falta de conselhos, mesmo que alguns sejam praticamente inexequíveis nesta altura dos acontecimentos.

Não teremos mesmo muitas outras opções, pelo menos não nos próximos dias, talvez meses, e que não se permita que essa agonia prossiga por anos. O ar irrespirável da guerra, mesmo que lá a mais de 11 mil quilômetros de distância, nos tira o fôlego, e especialmente o tempo de pensar em nossas próprias vidas, problemas e soluções.

Por aqui, os dias do Carnaval, que já não estava aquela beleza, ficaram muito piores ainda com os ecos da invasão russa à Ucrânia, não bastassem os gritos de perigo da pandemia, seu vírus e suas cepas continuamente renovadas. Nos últimos anos aqui em São Paulo o Carnaval tinha virado uma temporada de alegria, com diversão, blocos na rua – as pessoas nem mais viajavam tanto, abandonando a cidade, abarrotando estradas – e agora já vimos tudo isso de novo. Como se todos que pudessem sair, corressem para algum lugar onde pudessem relaxar, esquecer, ouvir o canto de pássaros, mergulhar com peixinhos. A cidade aqui ficou uma tristeza só. E olha que em 2021 já tinha sido punk, mas agora somou-se pandemia e a guerra lá, com ecos por aqui, e que já nos aperta e morde os tornozelos.

É uma guerra não contida só em suas fronteiras. É uma guerra que envolve os brasileiros, seja por estarem lá, ou por perto, ou no todo ameaçado continente europeu – e isso é muita gente, contando seja com familiares, ou mesmo nossos amigos – tanta gente que havia se pinicado daqui em busca de futuro. Para completar, a política errática do desgoverno Bolsonaro, que não sabe se vai ou se fica, se pula ou corre, e que abraça, para nossa tristeza, o lado dos ditadores. Não, não vou deixar de criticar uma inacreditável parte da esquerda nacional ainda capaz de vomitar tantas sandices, abanando o rabo russo, como se esse lhe coubesse em um caso tão claro de violação de direitos humanos e espalhamento de terror.

Quem não se sente perdido nesse mar de bombas, fake news, autoritarismo, oportunismo ideológico e de outras nações, violações, alarmes tocando dia e noite, mais um êxodo migratório gigantesco e desconfortável?

Tudo isso em 2022, logo já em seu início. Ano que se já não era simples para nós, piorou, quando aguardamos ansiosos uma eleição ainda indecifrável, com lista de candidatos pouco atrativos e nessa grudenta divisão que nos assola há anos, limitante e emburrecedora, capaz de nos por aqui, também, em uma guerra particular.

Ah, não quero ouvir falar de guerra! Ah, não quero saber de números da pandemia! Ah, não quero saber de noticiário!  – Tenho ouvido tanto isso, que acabo entendendo a apatia em que nos encontramos. E exageram.

Para vocês terem uma ideia, acreditem ou não, ouvi da gerência da academia que frequento – a mocinha foi capaz de dizer aos meus ouvidos que a terra há de comer, como se diz –  que as tevês estavam ligadas em canais de esporte por conta do “ambiente esportivo”. O que passava quando reclamei, coisa que parece as pessoas esqueceram como é, submetendo-se silentes a tudo, e era de manhãzinha? Das cinco tevês, três sintonizavam uma mesma e sangrenta luta de boxe; as outras duas, comentaristas sportvianos sentados nas suas mesinhas, e visto em tevês claro que sem som. As boquinhas se mexendo.

(…e eu só queria ver o mar, por exemplo, nas ondinhas das surfistas do Canal OFF, ou uma Ana Maria Braga com suas receitas deliciosas, um desenhinho animado, uma previsão de tempo…).  

A guerra não é aqui. Mas vai sempre ter alguém ou algo bombardeando nosso mais que valioso momento reflexão.

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ARTIGO – Repórteres no front. Respeite. Por Marli Gonçalves

Respeite a imprensa. No front de que falo eles estão lá é para você saber das coisas. Não se esqueçam deles, estão ali na frente de muitas batalhas e não falo só em guerras militares, mas da guerra pela informação. Eles ouvem o relato de situações dramáticas. Vão atrás de histórias pessoais de cidadãos que perderam tudo, têm diante de si a visão da morte. Fotografam seus rostos, filmam,  sofrem junto. E deles ainda se espera imparcialidade!

DIDA SAMPAIO - FRONT
DIDA SAMPAIO – FOTO DO TWITTER PESSOAL

Eles choram diante das câmeras, não se aguentam, homens e mulheres, profissionais gabaritados ou “focas”, iniciantes, como vimos tantas vezes essa semana em mais essa tragédia pavorosa na serra fluminense. Não conseguem se conter, nem poderiam. Estão ali, com os pés afundados na lama, muitas vezes sem dormir, sem comer, e muito menos ganhar bem para isso. Acompanham as equipes de resgate, consolam familiares, veem corpos sendo retirados de escombros. Crianças mortas, perdidas, órfãos. Destroços. Nunca mais vão esquecer essas cenas, acredite. São imagens e histórias que nos marcam para sempre.

Poderiam também ser as suas próprias histórias. Conheceram algumas das vítimas.

Não são só essas grandes tragédias que fazem parte do dia a dia dos repórteres. Ainda essa semana, dia 16, foi comemorado o Dia do Repórter, entre tantos dias que se comemora imprensa, dia disso, dia daquilo, mas pouco se valoriza de verdade. Nas ruas são profissionais que sofrem – e têm sofrido ainda mais ultimamente e com o incentivo do atual desgoverno – ataques de todos os tipos.

Volto ao esse tema porque tenho dois amigos internados em UTIs em Brasília exemplo disso, e do que viver essa nossa profissão pode causar na saúde. Dois dos maiores repórteres fotográficos de nosso tempo, Orlando Brito e Dida Sampaio, estão lutando por suas vidas. Brito, com graves problemas gastrointestinais; Dida teve um AVC. Autores de imagens que marcarão para sempre nossa história, quem os acompanha sabe o que passam na cobertura política, enfrentando agressões inclusive físicas de malucos de verde e amarelo, que deveriam estar sim em cercadinhos, onde se aglomeram para glorificar o tal mito inexistente, mas as grades deveriam estar bem fechadas, com cadeados, para que nós, a sociedade, pudéssemos estar protegidos de suas sandices.

Nos últimos dois anos de pandemia vimos repórteres em portas de hospitais e UTIs, muitas vezes eles próprios com seus familiares doentes ou internados.  Ou mortos. Temos sabido de muitos afastamentos do trabalho, por estresse ou pelo seu acúmulo máximo, a Síndrome de Burnout, a exaustão extrema. Não sabemos se eles têm tido acolhimento de suas empresas. Sabe-se sim, diariamente, mas é do passaralho voando nas redações, com demissões de alguns dos melhores; alguns por estarem sendo considerados “velhos”, e que levam com eles a experiência histórica do que já presenciaram em suas vidas.

Comecei muito cedo na profissão, onde já somo 45 anos como jornalista. Há alguns anos afastada desse afã do dia a dia, com o trabalho voltado para o site e em comunicação e consultoria empresarial, jamais esqueci trabalhando em grandes veículos os diversos momentos da vida de repórter em situações de grande pressão, como rebeliões em presídios, acidentes, crimes violentos, protestos, mortes de personalidades, embates políticos ainda na ditadura. Sobrevivi a chefes sentados confortavelmente em suas cadeiras. Sobrevivi ao preconceito contra mulheres nesse trabalho – vocês nem imaginam a dimensão! Fui moldada nessa batalha.

E ainda sinto na pele como se estivesse em cada situação dessas enfrentada pelos colegas no front.

Me sinto no dever de honrá-los e defendê-los. De aplaudir e torcer para que sejam fortes. E rezar para que se recuperem de tudo isso que nos mata internamente, nos deixa doentes. Do corpo e da cabeça.

Respeitem a imprensa. E as equipes de reportagem nas ruas.

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Da Época: mais um jornalista, menos um jornalista. Radialista é assassinado na Bahia

FONTE; SITE DA REVISTA ÉPOCA 

Jornalista é morto na Bahia

O radialista Djalma Batata denunciava crimes e recebia muitas ameaças. Seu corpo foi encontrado em Conceição da Feira

FLÁVIA TAVARES
26/05/2015 – 15h31 – Atualizado 26/05/2015 16h00

Apenas cinco dias depois de o corpo do jornalista Evany José Metzker ser encontrado decapitado e com sinais de tortura na cidade de Padre Paraíso, em Minas Gerais, mais um jornalista foi assassinado, desta vez na Bahia. Djalma Santos da Conceição, conhecido como Djalma Batata, era radialista e seu corpo foi encontrado nas margens da BR-101 em Timbó, área rural da cidade de Conceição da Feira, a 110 quilômetros de Salvador, na manhã de sábado (23).

O radialista Djalma Conceição. Ele foi assassinado em Conceição da Feira, a cerca de 119 quilômetros de Salvador (BA) (Foto: Reprodução)O radialista Djalma Conceição (Foto: Reprodução)

Djalma tinha 54 anos. Comandava o programa Acorda, Cidade! na rádio comunitária RCA. Das 7h às 8h30, Djalma era a voz mais ouvida da cidade. Sua cobertura era principalmente de crimes, mas ele também emitia opiniões sobre política. Recentemente, Djalma decidiu apurar o assassinato de uma adolescente por traficantes da região. “Ele foi ao local do crime sozinho, já que a polícia temia iniciar uma guerra com os criminosos”, diz Roseane Silva, colega de Djalma na rádio. Djalma pediu permissão aos traficantes e ajudou a recuperar o corpo para enterrar a garota. Irmãos de Djalma declararam a sites de notícia locais que o radialista sofria ameaças constantes, mas não disseram de quem. Na manhã de sexta-feira, Djalma recebeu, na rádio, um telefonema o ameaçando de morte. Não deu maiores detalhes. O radialista também era responsável por recolher doações para a população mais pobre da região. Para inteirar a renda, Djalma tinha uma empresa de dedetização e um bar na cidade vizinha de Governador Mangabeira, onde ele morava com a família.

Foi nesse pequeno bar, chamado Quiosque, que Djalma foi sequestrado por volta das 23h30 de sexta-feira. Três homens encapuzados saltaram de um carro branco, ainda não identificado pela polícia, e obrigaram Djalma a entrar no porta-malas, sob a mira de armas. O jornalista costumava circular de colete à prova de balas, mas foi encontrado, na manhã seguinte, desprotegido do colete, alvejado por pelo menos 15 tiros. Os policiais encontraram no local, uma estada vicinal de chão batido próxima à margem da BR-101, 25 cápsulas de pistolas 0.40, 0.45 e 0.380. Djalma estava com a língua cortada e o olho direito arrancado. Um investigador da cidade, que pediu para não ser identificado, disse que, por ser na beira de duas estradas importantes (a BR-101 e a BA-052), o comércio da região é alvo de assaltos frequentes.

Everaldo Monteiro, presidente do Sindicato de Radialistas da Bahia, disse que “infelizmente, até o momento, não fui procurado por ninguém do governo nem do Conselho Estadual de Comunicação para tratar do assunto”. O Conselho, do qual Monteiro faz parte, é formado por empresas de comunicação e de propaganda do Estado, pela secretaria de Comunicação do governo e por profissionais da área. O governador da Bahia, Rui Costa, do PT, informou, por meio de seu assessor de imprensa, Ipojucã Cabral, que “todos os crimes têm o mesmo tipo de empenho do governo nas investigações, independentemente se for médico, engenheiro ou jornalista”. Acrescentou que “no final do inquérito, se for caracterizado como crime de mando pelo que Djalma Conceição dizia em seu microfone, o rigor será absoluto e total”. Cabral informou que não foi formada uma força-tarefa para resolver o caso, mas que “a polícia de Santo Amaro da Purificação está colaborando”. Ele não soube informar quantos homens estão trabalhando no caso.