ARTIGO – Desmanchando no ar, pisando em ovos. Por Marli Gonçalves

Chove lá fora. E aqui as coisas estão bem quentes. Se gritar, não sobra um, mermão. A sensação de que o que era doce se acabou, que ninguém a ama ninguém a quer está tomando conta do ar. Cada um quer ouvir uma música, só tem uma vitrola, e ela está arranhando o disco.

protestos!As estruturas se abalam. As certezas se desfazem. Se fosse ontem talvez ainda desse até para dizer que está tudo bem, que não é nada, que isso vai passar logo, que é só reflexo da eleição, reeleição, culpa do FHC ou da Costela de Adão, arrumar um ou dois dados sobre como diminuiu o número de miseráveis no Brasil. Mas hoje não dá mais. Não dá mais para brincar com o assunto, relevá-lo. O que já não era lá muito sólido se desmancha, e ninguém sabe como é que vai tapar esse buraco. Ninguém, temo dizer. As horas passam, avançam. Parece que há uma bomba-relógio programada, mas não aparece quem saiba desarmá-la, conheça a senha, quem saiba se corta o fio azul ou o vermelho. O tique-taque está cercado de curiosos querendo meter a mão. Perigo, perigo – diria o robozinho.

people-confusedmanA coisa toda efervescente agora vem de baciada, de montinhos, não é mais isolada, é todo dia, toda hora, uma facada, uma novidade dispensável, uma surpresa desagradável, uma revelação atordoante, uma delação premiada, combinada, preparada, apontada, fogo! – e o fato é que o inferno astral do Brasil se adianta célere. Se a gente pudesse fazer igual na novela e ficar escutando atrás das portas todos os murmurinhos que se formam, será que poderíamos fazer alguma coisa? Juntar algumas pontas desencapadas? Achar alguma tese com cabeça, corpo e membros?

Precisamos das mágicas no absurdo, como diria o Lobão. Mas até esse agora está ocupado agitando massas, pegou gosto pela coisa, só não consegue juntar todos os ingredientes. Até para fazer coxinhas é preciso descascar e amassar bastante batata.

“…Chove lá fora e pode ser a gota dágua para o pote até aqui de mágoa. De muito gorda a porca já não anda/ De muito usada a faca já não corta/ Como é difícil, pai, abrir a porta/ Essa palavra presa na garganta/Esse pileque homérico no mundo/De que adianta ter boa vontade/Mesmo calado o peito, resta a cuca”… O Chico está por aí disfarçando, talvez cantarolando em alguma rua europeia, em contato com o noticiário, já que agora todo dia somos manchete internacional. Parece que o mundo quer acompanhar bem de perto os rolos para dar bem risada na nossa cara, daquela empáfia de anos atrás, com seus cabelos de marolinha.

Como se ninguém tivesse responsabilidade pelos fatos, chegamos aqui na areia movediça, quase no fundo de um poço de onde pode sair um pré-sal, mas alguém tem de ir lá buscar; para isso precisa trabalhar, ser líder, e esse líder precisa nascer.

Sempre achei que essa história de ter dois presidentes, um oficial e outro volitando ao redor, não ia dar certo. Mas não imaginei que até aí o vidro fosse partir e tão rápido. Fogo amigo incendeia, é ainda mais inflamável quando se aproxima do aumento da gasolina, dos impostos, dos cortes, dos apertos, das greves, das promessas sociais esquecidas e metas descumpridas.

MULHER procuraHá uma imensa luta pelo poder sendo gestada de forma intestina já que não há útero que suporte tantos chutes como os que estão sendo dados aqui fora, tantos bebezões querendo mamar, encontrando apenas uma mãe ranheta, sempre irritada, brava, cheia de marra e birra, fazendo beiço, pisando duro.

Somos espectadores. Somos atores e roteiristas. As nuvens cada hora formam um desenho e a luz incide sobre algo criando novos ângulos e visões. Neste teatro, a peça é interativa, e estamos sendo chamados para subir ao palco, ou mesmo opinar de onde estivermos. Se quiser ser espontâneo, participar, falar da plateia, será bem-vindo. Levanta, não fica sentado, pede o microfone, chame as luzes dos holofotes para si. Faremos um jogral. Chama todo mundo.

Vamos tentar fazer uma apresentação inesquecível, impecável, orgulhosa e bem-humorada. No final seremos aplaudidos de pé.

São Paulo. 2015. Ninguém queria estar vendo isso.people

Marli Gonçalves é jornalista – Abram-se as cortinas. Brasil! Mostra tua cara. Quero ver quem paga. Pra gente ficar assim. Brasil! Qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim.

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ARTIGO – Qual será seu slogan para este ano? Por Marli Gonçalves

frog-x-letterPensou em algum? Será como uma ordem para nós mesmos. Ordem simples, daquelas para o cérebro entender e atender. Mas, por favor, pense em algo realizável, compreensível. Não faça como os lemas que inventam para nosso país e que acabam sempre por nos envergonhar no fim do filme

Todo ano – aprendi com um amigo empresário de grande sucesso – é importante você focar em uma palavra ou pensamento, talvez uma frase que você mesmo crie, uma coisa sua. Escrever e deixar sempre à mão para não esquecer, para ela entrar bem no cérebro, naquele local onde dizem que se fabricam as realidades desde que bem pensadas ou desejadas. Uma só. Palavra ou frase, uma ordem, que passa a ser ordem superior e o legal é que esse ser superior é você mesmo. Não é lista de desejos, rol de promessas, não sei se estou sendo clara. É como se fossemos um produto e ela, palavra ou frase, o nosso slogan, a nossa atribuição, tipo batata frita daquela marca “É impossível comer um só”. Fique bem longe das pieguices como esse que agora inventaram para o Brasil neste segundo mandato porque mais uma vez é muito ruim, tanto como o do país rico é país sem pobreza, sem miséria, coisa parecida. Acabou um mandato e vimos que não somos um país rico. Mesmo.

Agora é Brasil, Pátria educadora. Oi? Esse povo anda bebendo o quê? Tem coisa mais boba, nacionalista? Coisa mais distante do salto real que precisamos mesmo dar à Educação do país? Educação vista no sentido amplo, que não é só escola. É Futuro. Aliás, continuo achando mais verdadeiro aquele que a gente sempre fala, extraoficialmente, entre nós: Brasil, o País do Futuro. Que nunca chega.

A minha proposta não é igual a uma meta, foco, meta com foco, palavras que propugnam tantos administradores que até me arrepiam porque gostariam de formar exércitos de pessoas iguais e sem expor emoções nas companhias.

É uma coisa mais particular. Engraçado é que, embora eu faça isso já há alguns anos, não há jeito maneira de lembrar das anteriores. Ainda não achei qual será a deste ano, mas a de 2014, por exemplo, posso contar, foi “Não desista” . Imprimi em fonte grande. Fiz coloridos e efeitos especiais para que sambasse aos meus olhos todo dia e botei na tela do computador, aliás, em todas as telas com descanso para que ficasse passando na minha frente de vez em quando, como letreiro. Parece que deu certo, porque não desisti, e olha que não foi fácil, acreditem. Talvez até mantenha essa também como palavra de ordem vitalícia. Talvez troque por não esmoreça. Pensei também em paciência. Pode ser que escolha Viver um dia depois do outro, sem aflição. Concorrem ainda Avante, sem medo, Poupe suas forças, ou simplesmente Apareça.

Demorará ainda alguns dias até – pelo menos eu que estou sempre em dúvidas sobre isto ou aquilo – decidir de vez. Primeiro hei de sentir a “pegada” do ano. Ver qual a inspiração, o que dará sobrevivência e prazer; ser jornalista, descobrir coisas, desvendar e aparar injustiças, localizar os raros que têm reputação a zelar e que a consideram importante, público alvo do nosso trabalho de comunicação empresarial.

Às vezes penso que poderia até escrever um bom livro desses de autoajuda, onde relataria tudo que aprendi e observei nesses anos todos de vida, ouvindo e tentando, no mínimo, ser solidária. Tomo na cabeça. Me desiludo e decepciono, mas penso que um dia, quem sabe, será diferente – serei compreendida em toda a minha essência, bagunçada, mas verdadeira. Odeio, abomino, simplesmente detesto ver pessoas de que eu gosto com algum perrengue. É até meio infantil esse meu comportamento, tenho consciência, fazer o quê? Sou assim.graphics-best-friend-198591

Sempre a hora que lembro o quanto eu gostaria de ter poderes, ser fada (ou bruxa) para evocar ajuda e solução. Mas isso não tenho nem para mim.

Abracadabra!magician

São Paulo, engata a primeira, 2015

Marli Gonçalves é jornalista – Tem uma boa, que pode usar e só fará bem: “Você é uma pessoa amada” . Em algum canto desse mundo haverá alguém que concorde. Tomara, né?

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