ARTIGO – Papagaiadas, pilhérias e modinhas. Por Marli Gonçalves

day28_210Não sei se vocês têm a mesma impressão que eu, mas por que é que tudo que chega aqui ao Brasil, mesmo quando é uma coisa legal, séria, importante, porque será que logo vira modinha, presepada, papagaiada? Perde o sentido. Fica escrachada. É só por o pé aqui, pronto, vira, vira, vira… Ih, acho que não dá nem para usar a palavra do que é que vira. Pode ter alguma criança na sala.

Claro que começo falando do tal balde de água com pedras de gelo, claro; claro que é importantíssimo chamar a atenção para a doença (esclerose amiotrófica), conseguir verbas, e não só para esta, bem sabem, mas para a pesquisa de outras várias doenças. Obviamente foi brilhante a ideia da campanha, jogar a água do balde em si, filmar, doar cem dólares, desafiar mais dois. Tornou especialmente visível o problema quando envolveu celebridades mundiais, e obteve alguns milhões de dólares rapidamente. Claro, ainda, e já que trabalho com isso, sei o quanto a imagem – o visual – é fundamental para o marketing, conquista de espaço e divulgação de algumas coisas mais barata e rapidamente. Nem conto para vocês o quanto inventamos na primeira campanha do Partido Verde à Presidência em 1988. Tudo era primeira página, afinal não era todo dia que árvores andavam e protestavam ou que surgisse o som do silêncio para alertar sobre a poluição sonora.

graphics-buckets-507156Mas precisa virar palhaçada? Todo mundo é obrigado a aderir? Precisamos mesmo assistir, por exemplo, a políticos cara de pau em campanha, tipo Suplicy, Maluf (!), este dentro de uma piscina já que até para aderir a alguma causa ele dá uma roubada? Duvido. Quero ver o recibo da doação. Maluf dando alguma coisa? Duvido-ó. Precisamos mesmo assistir estrelinhas de pouco brilho se molhando, gritando, fazendo foto ou filme e passando para as revistas de celebridades tentando obter essa tal de celebridade? Particularmente sinto certo asco quando misturam esses interesses com coisas sérias, mas aqui é tiro e queda. Já passamos para a história da Humanidade como um país não sério. Sim, óbvio que vi brasileiros sérios e de boa vontade aderindo. Pouquíssimos, mas vi. Acreditam? Juro que até guardei o material de divulgação para quem duvidasse: um grande magazine divulgou que a sua boneca virtual tinha entrado na onda? Enfim, pelo menos, já que é virtual, ela não ocorreu o risco de pneumonia.

food_truck3Acontece com tudo essa azaração. Vou dar outro exemplo, daqui de São Paulo. Liberaram a comida de rua, os tais food-trucks. Pois não é que já dá até para tropeçar neles? Não é que outro dia vários se uniram (outra “tendência”) dentro de um estacionamento coberto e eu vi (sim, vi sim) muitas pessoas sentadas no chão todo sujo de óleo, de um lugar abafado, para comer? É modinha. É moderno. Daqui a pouco vai ter gente até fazendo tatuagem para frequentar.

Depois certamente muitas dessas pessoas vão postar nas redes – que passarei a chamar de redes antissociais – porque não basta ser moderno, tem de mostrar ao mundo, fazer muquinho na academia, como faz um agachamento invejável, ao lado do “personal trainer”. Aproveita e, já que está por ali, xinga, briga, critica e fala mal de alguém, posta uma frase em algum quadradinho com indiretas.

Nas mesmas redes onde li gente “horrorizada” porque houve quem fizesse selfies no funeral de Eduardo Campos. E daí? Qual o problema? Não percebem que hoje cada um de nós virou mesmo um jornal pessoal ambulante? “Estive no velório e lembrei-me de ti”. Antes eram souvenirs; agora são selfies. Melhor não dar ideia porque senão no próximo espetáculo macabro desses vão vender caixõezinhos de recordação. Perguntem a alguém mais velho que foi, por exemplo, ao velório de Getúlio Vargas, que será largamente lembrado essa semana. Quem podia fotografou. São registros que ficarão aí, serão importantes no futuro. Ou não. Do jeito que as coisas vão indo nada vai ser mais marcante, já que massificado, moído e abandonado, ultrapassado sempre por outra e nova onda.master-chef-cooking-smiley-emoticon

Quer ver uma outra modinha? Diagnósticos médicos: depressão. Já devem até estar mandando fazer carimbos com a palavra. Dor de cabeça, tonteira, dor de estômago? É depressão. E tome antiisso. Uma amiga foi ver como lidar com menopausa, a coisa estava falhando um mês ou outro. Carimbada: depressão. Agora, além dos calores, a coitada está pirando no antiisso. Há pouco tempo, lembram o que era, tudo? Era stress. Qualquer coisa era stress, estresse em bom português. Como se fosse possível sempre controlar. Daí, se não resolvia, o problema era… seu!

jspcookDe modinha em modinha, dá vontade de enfiar é a viola no saco, e antes que inventem alguma coisa meio esquisita que seja obrigatória. Criatividade (e charlatanismo) não falta nesse país. Vide o tal horário eleitoral onde tem candidata cozinhando, como se diz popularmente, até o galo. O nosso galo. Só falta agora a outra vir mostrar como se faz salada.salting_the_turkey

Vem onda por aí. Pode olhar. Onda que pode ser verde. Ou azul da cor do olhar.

São Paulo, 2014. 

Marli Gonçalves é jornalista – Estou tentando não desistir do Brasil, mas está difícil. Se papel já aceitava tudo, imagine a internet. Imagina na copa; imagina na cozinha.

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ARTIGO – Entupimentos emocionais

MARLI GONÇALVES

 Apertos de coração em geral, sensação de sufoco, aquela certa depressão. A saúde mais debilitada, o frio que fica mais frio, quase gelado; e se é o calor, ele parece bem mais quente. Dói aqui, dói ali. A ansiedade maior de não saber o que tem e o medo de, afinal, saber o que tem – igual quando a gente vai a uma cartomante e gostaria de ouvir só o que for bom. Será que o melhor é botar para quebrar? Como desentupir?

O jeito oriental de aproximação, o olhar baixo, tímido, a voz de borboleta, as mãos mágicas que se estendem, macias, mas decididas, para tocar seu pulso, e auscultá-lo sabe-se lá como – o barulho de um riacho, talvez. Parecido quando a gente põe só a pontinha do pé para ver a temperatura da água, semi-alerta. Um tempo de silêncio que parece tão interminável quanto aquele no qual a cartomante põe as cartas à sua frente e as fica olhando. Agora quem prende a respiração é você, certo de que tudo o que tem ou que lhe acontecerá está ali, na pulsação dos pontos de seu corpo, ou nas tais cartas de desenhos e símbolos coloridos.

Nos dois casos você fica nu, entregue, embora pareça e seja bem melhor mesmo estar nas mãos daquele mestre japonês conhecedor da medicina oriental do que na de algum charlatão ou adivinho. Muita gente procura saber o que o futuro lhe reserva e apenas obtém um enigma, uma pressão e mais dores de cabeça.

O sistema todo intrincado de canos no nosso corpo, a nossa corrente sanguínea, parecida demais com o sistema de abastecimento de uma casa, bombeia e corre com o que tem, passando por onde pode, levando, indo ou voltando. Flui mais decidida onde pode fluir; onde há problemas, desvia, ou para. A gente vai criando vazamentos e entupimentos, que podem ser – veja que doido – emoções! Que viram doenças, dores, ziquiziras, piripaquis, pitís e outros. Não controladas, imprevistas, diagnósticos raros e difíceis, porque adoramos parir monstrinhos. Entendeu?

Esse rio de sangue pululante no caminho natural de seu curso é o que ocorre ao mestre quando toca o seu pulsar. Procura os nós. Nós e os nossos nós, os pontos onde espetará agulhas de milímetros, mas em pontos tão certeiros que fará lembrar um grande arqueiro. Um Robin Hood particular, salvando o que pode, e de nós mesmos, de nossos desajustes, que desenvolvemos com incrível facilidade – esses entupimentos, as mazelas de nossos emocionais. Precisaríamos inventar um desobstruidor, um rotorooter, para encontrar a tão falada Felicidade?

Vocês não vão acreditar se eu disser por causa do quê pensei em tudo isso. Reparei que ultimamente a propaganda tem mostrado referências e pessoas expondo suas próprias, digamos, deficiências. O cantor esquecido de um hit só – um enlouquecedor refrão – na propaganda de seguros. O bonitão ator de uma frase só, massacrado pela crítica, mas que se dispõe a contracenar com um dos maiores (embora baixinho) atores do mundo na propaganda do carro.

Apenas alguns exemplos, mas parece que há agências especiais de captação de modelos, só gente feia, esquisita, gorda, magra, careca, caolha, baixinhos, altos, sei lá mais de que tipo. Tudo bem que o cachê que recebem também pode e deve fazer bem à saúde, mas penso que a auto-referência crítica também pode funcionar como uma espécie de desentupimento pessoal, uma liberação.

Uma nova revolução. O rir de si mesmo. Mais do que moda, essa, de sair por aí expondo fraquezas, deve ser uma nova onda e forma de buscar saúde e equilíbrio. De desentupir. Talvez até sem precisar usar tanto as agulhas dos acupunturistas, ou deitar tanto a cabeça nos divãs.

Uma questão de fluxo e de fazer das tripas, coração.

São Paulo, cidade entupida e congestionada, mas com auto-estima lá em cima, 2011 (*) Marli Gonçalves é jornalista. Já ouviu de um sábio desses como eram as pedras que bloqueavam o rio as causadoras de algumas de suas dores. Também já ouviu de cartomantes que tudo ia dar certo. Ainda não foi convidada para fazer propaganda de nada, mas faria com gosto uma contra a corrupção e contra a violência que tudo destrói. E que nos deixa ainda muito mais nervosos e doentes.

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