ARTIGO – Os medos de dezembro. Por Marli Gonçalves

Difícil tocar nesse assunto desagradável, mas temos que bater a real: este dezembro será muito esquisito, tanto quanto quase o ano inteiro de 2020 foi, ou até um pouco mais, se novamente formos cobertos por mais uma onda alta sem que nem tenhamos recuperado o fôlego e já com nossa saúde mental tão afetada

DEZEMBRO

Lembro de fevereiro, o povo nas ruas, fantasiando suas liberdades e alegria atrás de trios elétricos, se espremendo, se encostando, se pegando, suor, brilhos, unicórnios, purpurina. Em quantas coisas ainda, persistentes, acreditávamos. Que Bolsonaro não resistiria mais muito tempo com suas sandices, que já ouvíamos sem acreditar que pudessem piorar, uma das principais. E, para aumentar mais ainda a desilusão de tudo o que os outros meses acabaram nos trazendo, o homem está aí, cada vez mais celerado e fora de si, criando fatos e nomeando pessoas que tornam ainda piores e incertos nossos dias.

No Carnaval e até antes, na passagem de ano, eu estava por perto, assistindo às festas nas ruas, mas já muito ressabiada com os ventos que sopravam do Oriente sussurrando uma doença que se espalhava pelo ar fechando cidades inteiras. Por precaução já tentava me manter mais longe, também até por conta do pânico de aglomerações, pavor que ganhei há alguns anos após um acidente no meio de uma delas. Sempre preciso estar perto de uma saída, sempre preciso saber como escapar, sempre preciso conhecer a área onde estou para me sentir segura. Agora não existe mais essa área, essa saída segura, o beijo, o abraço, e nem sorrisos mais são vistos.

Mas, admita, creio que nunca imaginamos de verdade o que poderia ocorrer aqui. O que aconteceu em todo o mundo. Que tantas vidas seriam levadas, de gente tão próxima, tão rápido. Que, ao contrário das ruas transbordantes, veríamos por meses portas fechadas, ruas desertas, capitais que viraram cidades mortas, fantasmas, onde transitavam apenas entregadores em motos e bikes. Que tanto álcool em gel seria usado em nossas mãos que se esfregam nervosamente. Que os rostos seriam cobertos por máscaras, e elas não eram de fantasias. Que nossos passos, o ir e vir, seriam determinados por regras governamentais. Que esse pesadelo se estenderia por todos esses meses, sem cura, sem solução.

…Adoraria afirmar que os alquimistas estão chegando com uma fórmula mágica. Mas a verdade é outra: os oportunistas estão chegando; estão chegando os oportunistas.

Que outra fase dessas viria e ainda há quem nela não acredite. Pior. Muitas portas permanecem fechadas. E as ruas? Lotadas, como se não houvesse amanhã, apenas outros dias anormais.

Agora chegou dezembro, e quando pensávamos que os caminhos estariam mais livres, eis que podemos ser cobertos por outra onda, e nem bem passou a espuma da primeira, que nos deu um caldo, afogou muita gente, detonou o país. Agora, ainda sem vacina ou proteção especial, estamos sem recursos, cansados, descrentes ao ver que pouco se aprendeu, e que muitas pessoas, principalmente jovens, estão preferindo apostar no pior, pouco se importando se espalham vírus que matam gente que elas nunca chegarão a conhecer ou nem a saber que foram as culpadas.

Pensam, talvez, que estejam praticando a liberdade, a desobediência civil? Exercendo “sagrados direitos inalienáveis”, curtindo a clandestinidade, desafiando o proibido, ou apenas vendo se adiam um pouco mais a volta às aulas onde aprenderiam que o futuro poderá penalizá-los de forma cruel por essas atitudes?

Como passaremos esse final de ano me parece um grande mistério, entre os maiores que já vivi. Há festas marcadas, lugares com reservas esgotadas. Como fechar as praias onde estarão indo e vindo as irresistíveis sete ondinhas a serem puladas? Que regras serão impostas? E quem as fiscalizará de verdade? Como as famílias se reunirão, sendo que algumas não tiveram contato entre si todos esses meses até agora? Como preservar os idosos?

Com a economia no buraco, a miséria e o desemprego, será que este ano vai bater aquele sentimento comum às festas de fim de ano quando todo mundo vira bonzinho da forma muito superficial, e quem pode finalmente abrirá a mão, o bolso, dividirá o pão? Ou alguns desses que podem, que mandam e desmandam, apenas aproveitarão para poder mais, dar ordens que não deviam, fazer muxoxo dos que se protegem, fazendo que um outro vírus que já se aproxima célere espalhe ainda mais incertezas?

Adoraria afirmar que os alquimistas estão chegando com uma fórmula mágica. Mas a verdade é outra: os oportunistas estão chegando; estão chegando os oportunistas.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon.

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – A incrível marcha da insensatez. Por Marli Gonçalves

Marcha da insensatez acelerada, vil, dá a impressão que o nosso otimismo sobre como sairíamos “melhores” depois desses meses de pandemia fez efeito contrário: encontramos já agora a face de uma sociedade pior, egoísta,  jovens olhando para seus próprios umbigos com cabeças baixas e desmascaradas, as pessoas loucas, desvairadas, pensando que aglomeração é liberdade

MARCHA

Sei, a gente tem a impressão sempre que o clandestino, o escondido, o ilegal é muito mais interessante, divertido, emocionante. Nem adianta negar, que seria hipócrita. Quem nunca?…  Mas o que estamos presenciando não é apenas uma molecagem sem repercussão ou efeito, protestinho por liberdade, blábláblá. Trata-se de vidas que a ignorância está tirando aos borbotões. De uma doença da qual ainda pouco se sabe, mas que se vivo deixa, acrescenta sequelas, e tudo na loteria macabra. Pode pegar qualquer um, pelo ar que se respira. Arrependimento não vai curar depois que o leite derrama.

Vimos – e creio que ainda veremos – marchas incríveis pelas ruas, significativas, mas esse ano assistimos horrorizados apenas a da insensatez. Um país, cidades e estados com leis, planos, normas, indicações, mas quem organiza? Quem fiscaliza? Mesas separadas em restaurantes? Filas com pessoas distantes entre si? Nem na eleição. Medição de temperatura? Quando é feita! – desleixada, e o pior no pulso, porque as malditas informações falsas disseram que na testa dá câncer, e essa coisa pegou no país da ignorância. Não pode torcida no campo de futebol? Ora, sem problemas, o povo põe um telão lá fora e a festa corre solta. Ouvi dizer essa semana que a torcida do São Paulo F.C. foi multada. Aliás, alguém soube de alguma multa real, que tenha sido paga, que tenha havido punição?

Agora, vamos e venhamos: qual parte do Natal 2020 e passagem de ano que vocês não entenderam ainda que será o horror, que não será como sempre, que não poderá ser? Que loucura é essa de se preocupar com compras, enchendo ruas, marcar viagens, “remarcar” Carnaval para o meio do ano? Estamos todos tão desarvorados assim?

A história do uso das máscaras. Muita gente, isso é bom, tem usado corretamente. Mas e os narizes fora delas, as frouxas “para entrar ar” (e muitos vírus), máscaras nos queixos, no pescoço, nas mãos, como pulseiras, penduradas nos retrovisores dos carros? E a invenção das moderninhas, a tal confortável máscara de tricô que as blogueirinhas incentivaram? Claro, toda furada, muito refrescante, e já tá deixando é muita blogueirinha idiota doente. Quem seguiu, também.

(Parêntesis político, por falar em máscaras: cá entre nós, será que agora o tal Russomanno se deu conta do grande erro da assustadora máscara transparente de acrílico que usou na campanha que foi, graças a Deus, por ralo abaixo? No caso dele, cobrir a cara teria sido muito mais apropriado, se é que me entendem.)

Mas quem dera a insensatez estivesse só ligada a fatos da pandemia! Quem dera! Estão acompanhando a tentativa de acabar com os artigos “a” e “o”, trocando por “e”? O tal todes, ao invés de todos ou todas, como exemplo. Acreditam de verdade, mesmo, que assim estarão resolvendo as questões de gênero? Lembram do presidenta da Dilma? Como é que é? Tem gente querendo fazer lei para essa mudança?

Viramos o país do ridículo sem fim, do horror, do medo, da tristeza, do cansaço, com um desgoverno vergonhoso, mulheres violentamente assassinadas diariamente, negros mortos em cada esquina onde se defrontam com policiais ou metidos a, seguranças desclassificados, bêbados dirigindo tão desgovernados como nossos políticos e matando o que não veem pela frente, ou o que suas mentes ou olhos embaçados talvez vejam em dobro. Nosso meio ambiente destruído, apagões não só de energia, mas de qualquer bom senso. Oportunistas espalhados prontos a remarcar sem dó os preços de tudo, tentando retomar seus prejuízos, como se só eles os tivessem tido.

E vamos ficar preocupados com os as e os? Dançando até o chão nos proibidões, como se apenas uma interminável onda existisse, embora já vejamos a outra vindo atrás muito maior? Não tem nada de normal em tudo isso. Nada.

Pensando, talvez, em qual roupa branca usar no réveillon? Desculpem, mas creio que a cor negra será a mais apropriada como uniforme dessa insensata marcha na qual todos acabamos caminhando, empurrados, mesmo que contra nossa vontade.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. À venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Estação muda. Por Marli Gonçalves

Normalmente a chegada da primavera é saudada com alegria, como um tempo de renascimento, procriação, vida, florescimento. Normalmente. Mas não nesse ano de 2020; não nesse momento em que o nosso chão tanto queima, nosso céu se esfumaça, nossa energia se esvai. E continuamos mudos. Ou talvez não, o que ocorre é que alguns ouvidos ainda estão moucos.

MUDA

Vai mudar a estação, sim. Será primavera. Às 10h31 da próxima terça-feira, 22, será primavera no Brasil, o equinócio, e a luz do Sol incidirá igual sobre os dois hemisférios, 12 horas dia, 12 horas noite. Mas temo que a nossa noite aqui vai nos parecer maior, estendida que está com suas sombras sobre nós nos últimos tempos.

Você reparou nas nossas estações mudas, mudando? Saímos do verão aflitos com o que viria, no dia 20 de março, já com a anunciada pandemia, já em isolamento social. Assim passamos o outono inteiro e o inverno que chega ao fim nas próximas horas. E está tudo tão louco que o dia mais quente do ano se deu agora, no inverno. Como será, como estaremos no próximo ciclo? Como será o nosso próximo verão, a partir de 21 de dezembro, dias antes do Natal, da virada do ano?

Continuaremos mudos? Que continuaremos com nossos narizes e bocas cobertos com máscaras parece inevitável. Que os nossos sorrisos continuarão invisíveis, talvez até porque ultimamente pouco sorrimos, sem motivos para tal, com sequências de notícias desagradáveis e momentos de angústia, é quase certo.

Mas nossos olhos, mesmo que irritados como os nossos corações e mentes, precisarão manter-se abertos para prestarmos atenção e continuarmos a caminhada sem cair ou tropeçar em tantos buracos, verdadeiras fendas abertas nesses últimos meses e que durarão anos com suas consequências, sejam na natureza, no comportamento, no nível de vida, na economia, na saúde e educação. Seja na cicatrização desse rompimento entre as pessoas, entre a ciência e a razão, impostos pela política.

A uma parte dessas pessoas, ainda não parece suficiente que mais de 135 mil brasileiros tenham sido vencidos pela Covid-19; mais de 4 milhões e meio atingidos. Não são capazes de se enternecer por mais nada, com seus arroubos de ignorância, covardes que se dizem corajosos, como se coragem fosse assim. Fosse isso.

Uma oposição desunida; e um rebanho atrás de espaço que conquistam, violentos, tacando fogo, sem entender que a carne que queimará não será a do churrasco que fazem nas aglomerações com que insistem a desafiar a realidade, mas a dos milhares de animais acuados e aprisionados pelas chamas, e nos campos e plantações que já chegam ardendo em nossos bolsos com os preços altos, falta de produtos.

O ciclo da primavera está em risco. Estações mudam, estações mudas. Mas não podemos continuar mudos.

Temos compensações e precisamos de mudanças, e mudanças, transformação, trocas, só são feitas iniciando plantios. E plantios se fazem com mudas. Sementes, vida pra brotar, renascimento.

Pessoas continuando mudas assistindo a tudo pegar fogo não ajudam nada nisso.

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