VIVA O jt! FIM DO JT É TRISTE PARA TODOS NÓS. ARTIGO DE MOISES RABINOVICI PARA O DIÁRIO DO COMÉRCIO

Viva o JT!

  • Publicado em Terça, 30 Outubro 2012 23:20
Escrito por Moisés Rabinovici – DIÁRIO DO COMÉRCIO – WWW.DCOMERCIO.COM.BR

 

Sempre que me perguntam sobre o falecido JT, respondo com uma frase do político mineiro José Alkmin:-Morreu para você, filho ingrato, porquanto continua vivo no meu coração.

O JT nascido em 1966 continua vivíssimo, para mim. Sou, como jornalista, uma de suas potenciais atualizações. Foi ele que me formou. Ensinou-me a ser repórter. A escrever. A diagramar. E a editar. E a somar texto, foto e ilustração para criar um título e uma página, ou capas.

 

A redação do Jornal da Tarde reunida em foto de 1986.

Era revolucionário, quando saiu às ruas nas mãos dos garotos que o vendiam a partir de Três da Tarde (título na capa, abrigando última notícia). Nós, repórteres, tínhamos tempo para escrever, rescrever, ter o texto rejeitado, a escrever de novo, rescrever. As laudas amassadas cobriam a redação, ao amanhecer. A alguns passos, pelo “túnel do tempo” em que jogávamos futebol, a redação do Estadãoera um primor de limpeza e sobriedade. 

 As redações concorrentes disputavam o JT. Um dia fui mandado cedo para a praia de Cassino, no Rio Grande do Sul, o melhor ponto de observação de um eclipse solar total. Decolamos de Congonhas, num jatinho fretado, e deveríamos  pousar de volta antes de Três da Tarde. Já trabalhando, ouço “rabino/Jornal da Tarde” repetido com insistência pelo sistema de som do INPE/Nasa. Era a chefia de reportagem em SP querendo uma previsão para o fechamento. Quando desliguei, uns cinco repórteres gaúchos me olhavam. Um deles falou:

-Você é mesmo do Jor-nal da Tar-de?!

Fazíamos a revolução na imprensa nacional. Mary Quant, com a minissaia, revolucionava a moda mundial. Os Beatles, a música. A alemã Twen, as revistas. Os primeiros cabeludos chamavam a atenção, ou eram perseguidos, em SP. O novo pairava no ar. E nós, no JT, o percebíamos. Nosso editor-chefe, Mino Carta, prescrevia humildade à equipe. E dava o exemplo: sentava-se ao lado do repórter travado, horas em busca do lead, e o desembaraçava. E o Murilinho Felisberto criava páginas, capas, pôsteres, sempre surpreendentes, com refinamento tipográfico inigualável. Sabia de cor o expediente do Sunday Times, que cultuava. Para quê, exatamente? Para nada.

Sou este JT ainda hoje. Não parado no tempo, evidentemente. Considero-me o seu desdobramento, segundo minha interpretação. Mas há igualmente outros tão ou mais capazes: Ivan Ângelo, Fernando Mitre e Carmo Chagas, para citar apenas o núcleo mineiro de que fiz parte, embora carioca, ao partir de BH, para não cometer injustiças. Aqui já estavam Luciano Ornelas e Kleber de Almeida, na arrojada Edição de Esportes que o Estadão publicava aos domingos. In memoriam, lembro de Dirceu Soares, repórter de belíssimo texto. Com ele dividi a cobertura da Jovem Guarda. Até fui ao casamento de Roberto Carlos na Bolívia. Um furo de reportagem que mandei de lá via Western Telegraph ainda não chegou. Depois vieram os gaúchos, com o inesquecível Marcos Faerman à frente. Ao entrar na redação pela primeira vez, dei de cara com Rolf Kuntz e Renato Pompeu. Em outra mesa estava o Carlinhos Brickman, que já então conseguia o fenômeno de escrever e conversar ao mesmo tempo.

Este JT não morreu, nem morre. Seu DNA pode ser encontrado na origem das revistas Realidade e Veja. O enterro neste Finados é de um JT que se perdeu pelo caminho. Para mim, ele foi morto. Participei de um breve porém competente renascimento tentado por Fernão Mesquita, que resgatou o mesmo Murilinho para a empreitada. Parecia que os belos tempos voltariam, adaptados para o novo mundo em que a imprensa-papel está em luta de vida e morte com a Internet. Comentei com Mário Marinho, o veterano que nos reúne anualmente para celebrar “o verdadeiro” JT, que sentaríamos à mesa, neste novembro, como num velório. Ele foi rápido no gatilho:

-O nosso JT morreu há muito tempo. Não é esse da morte anunciada de agora.

Este jornal que hoje dirijo, o Diário do Comércio, tem lampejos do brilho do JT. Mas não vai para as bancas. Só 24 mil assinantes o recebem. Carlinhos Brickman, no Observatório da Imprensa, destacou esse cordão umbilical, ao enterrar a última reencarnação do jornal que criamos com paixão. Sim, paixão!Nós o fazíamos apaixonadamente. Direi mais, data vênia, sob o risco de ser fuzilado pelas hordas do jornalismo eletrônico, que um JT com tesão, aberto ao novo, irreverente, atualizado até para nerds e capaz de produzir big data, como o The Guardian, teria seu nicho. O DC cresce mesmo sem investimentos, sem recursos.

E não vou me conter: Viva o JT!