ARTIGO – Natureza humana e o Feminismo. Por Marli Gonçalves

 

A paixão é da natureza humana. Por ela, enlouquecemos, nos transformamos, às vezes até nos subestimamos. Muitas coisas são da natureza humana, mas é importante pensar sobre elas para modificar essa natureza, especialmente quando mostram seu lado escuro. As mulheres têm uma importância enorme nessa criação e é preciso fazer todos compreenderem muitas das questões que nos diferenciam para que haja paz nessa relação. Simples de entender e apoiar, desde que não haja preconceitos. Muito prazer, esse é o Feminismo.

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Feminismo é para todos. Embora seja um movimento predominantemente feminino, pela igualdade de direitos em todas as áreas, luta por questões relacionadas às mulheres e às suas características inclusive físicas, por toda uma série de coisas que deveriam já estar há muito reconhecidas – mas que ainda não estão – diz respeito a todos. A toda a sociedade. Todos os sexos, idades, raças, classes sociais, gêneros. O feminismo trata do aprimoramento da natureza humana. É preciso acabar com os clichês e estereótipos que o envolvem, para que venha à luz. Quando nela chegar e puder ser visto claramente, não haverá dúvida: todos seremos feministas. Quem não for, bom sujeito ou sujeita não é… Não será.

Não é radicalismo. É a lógica. Quem pode ser contra a igualdade salarial entre homens e mulheres exercendo a mesma função? Quem pode limitar – e cada dia mais as mulheres conseguem glórias em novas e espetaculares áreas – as suas atividades, seu avanço? Quem lhes pode negar proteção em suas fragilidades? Quem lhes pode negar seus direitos e necessidades em saúde, justiça, participação na vida pública, tantos passos ainda a serem dados e respeitados?

 Apenas os que pregarem a dominação, a injustiça, o machismo, a incompreensão e a violência. E cada dia fica mais claro quem é parte desse grupo que dissemina o ódio, encobre a violência, ainda tenta manter o controle bruscamente, porque percebe que sua derrota se torna inevitável, rápida. Esses se isolarão.

Andam falando muito em mandar as mulheres nas missões espaciais à Lua. Bom. Mas demorou, hein?!? Agora há pouco bateram palmas para a nossa Seleção Feminina de futebol, mas elas há muito estão nessa batalha, e com muitas vitórias, vide Marta, que arrasou mais ainda ao jogar com a sua boca pintada, mulher, ironizando as velhas falas. Conhecemos mulheres interessantíssimas, do mundo inteiro, fortes, corajosas, e enfrentando poderosos.

Informação é fundamental. Mas as mulheres infelizmente, ainda não integram naturalmente as pautas de imprensa, embora vejamos que cada dia mais nela trabalhem, numerosas. Ainda aparecemos, sim, destacadas, mas como ETs e aí todo mundo se surpreende como esta ou aquela mulher chegou tão longe, seja no feito, no poder, no comando. A primeira mulher isso, aquilo vira manchete. Tantas outras passam despercebidas.

Há muito as mulheres vêm sendo assassinadas, violentadas, assediadas, cruelmente, mas foi só em 2015 que se moldou o termo feminicídio, que agora conta essas mortes às centenas; e precisou que estrelas de cinema abrissem as cortinas do espetáculo para que se percebesse o que ocorre todos os dias no trabalho, nos transportes, dentro das casas, nas relações. Assim por diante. Quem pensa nas crianças, que já devem ser educadas para esse novo mundo de igualdades? Quem pensa nas mulheres velhas e sem viço que vagam pelas ruas? Homens podem envelhecer com muito mais tranquilidade e sem cobranças – e vejam que até a Xuxa anda falando muito sobre isso.

Por isso e outras que tenho horror ao termo “empoderamento” que virou chiclete, uma espécie de adesivo. Ninguém precisar dar poder às mulheres, aos homens, aliás, a ninguém. Cada de um de nós o detém. E da natureza humana e de caráter individual encontrá-lo. Seja para ser como se quiser ser, seja para chegar cada vez mais longe.

Falo mais uma vez sobre esse assunto – que quem me acompanha sabe que está sempre na minha mira – porque agora escrevi um livro que chega nas livrarias esta semana, e que lanço oficialmente dia 20 de agosto, aqui em São Paulo: Feminismo no Cotidiano – Bom para as mulheres. E para homens também. Pela editora Contexto, que me convidou para esse que é o segundo livro da coleção “Cotidiano”. O primeiro foi de Luiz Felipe Pondé, Filosofia no Cotidiano.

Escrevi sobre o que vejo, vivo, e sei que viveremos ainda por um bom tempo. Realidades, sem teorias, mostrando o que se passou e o que se passa. Voltado para homens e mulheres. Hoje o movimento feminista se apresenta vibrante e abrangente – e talvez por isso mesmo estejamos assistindo a um recrudescimento contra ele, e com teses estapafúrdias. Não precisa se embandeirar.  É só ser. Viver. Deixar viver. Melhorando essa terrível natureza humana que parece sempre buscar conflitos.

Apresento a vocês, com orgulho, meu livro, e a fé de que passemos a andar um pouco mais rápido nesse assunto, ainda com conquistas tão lentas.

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Marli Gonçalves, jornalistaConsultora de Comunicação, editora do site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para as mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto, e que está nas livrarias e à venda online, pela Editora e pela Amazon

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ARTIGO – Limites terrivelmente irresponsáveis. Por Marli Gonçalves

 

Nossa paciência tem limites. O que podemos ou não fazer têm limites. Até a loucura tem limites. Nesse momento quem está dirigindo o país está brincando de testar os limites. E isso tem um limite. Não é política. É provocação.

Todo dia, toda hora, aqui, ali, em áreas técnicas, sociais, comportamentais: o presidente Jair Bolsonaro está abusando não só dos seus próprios limites, e ele têm muitos, limitado que é, como de nossa inteligência, paciência, honra e capacidade de suportar os ataques que desfere. Como se brincasse, parece. Como se não tivesse o que fazer e ficasse inventando. Como se estivesse se divertindo com nossa agonia. Não é agonia de ideologia, de direita, esquerda, de quem é a favor ou contra, esse insuportável debate no qual o país está mergulhado. Já são mais de seis meses que estouram em nós os limites do seu amadorismo, desconhecimento, pessoalidade.

Essas últimas dessa semana transbordaram. Primeiro, em encontro com pastores, a promessa verdadeiramente ameaçadora de indicação em breve de um ministro do Supremo Tribunal Federal, STF, “terrivelmente evangélico”. Como assim? Além de termos de buscar o máximo de laicidade nas instituições, o que isso significaria, especialmente na cabeça dele? Um ministro da Corte Máxima, seja o que for pessoalmente, homem, mulher, gay, católico, ateu, umbandista, evangélico, alto, baixo, magro, gordo, vegano, preto, branco, pardo, caboclo – o que for – deve seguir uma única luz: a Constituição Federal. O que é que Bolsonaro acha que alguém como ministro “terrivelmente evangélico” modificará? Descerá sobre nossas cabeças novas leis? Todas as imagens sacras serão execradas? Teremos de usar saias abaixo dos joelhos, como as mulheres-postes? Cortar cabelo nunca mais? Proibir unhas e batons vermelhos? O dízimo já pagamos.

Desculpem, mas respeito muito os evangélicos, e sei que entre eles há gente do bem, inclusive trabalhei com muitos que conseguiram que eu própria revisse meus preconceitos. Sei que até eles, em particular, não concordariam com muitos dos ideais e pensamentos bolsonarescos, porque sabem que estaria sendo celeremente criada mais uma terrível forma de discriminação contra eles próprios – aliás, já a caminho.

Para completar, o presidente resolveu dar um inesquecível presente de aniversário ao filho 03, Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo PSL/SP. Sua indicação à embaixada brasileira nos Estados Unidos, em Washington, o mais importante cargo da diplomacia nacional, de estratégica importância política e econômica. As qualidades do moço? “ele fala inglês e espanhol”, “não é aventureiro” … entre outras que é melhor nem citar para não nos aborrecer ainda mais, a todos nós.

Mas o próprio Eduardo Bolsonaro foi ainda mais longe na sua própria apresentação, acrescentou que fez intercâmbio lá, e que fritou hambúrgueres. Disse acreditar que será melhor visto por ser filho do presidente, que não é nepotismo e acena com a aprovação logo de quem? Do doido chanceler sabujo de Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo.

O prestigiado Instituto Rio Branco e o Palácio Itamaraty já devem ter começado a ter as paredes trincando, rachando, implodidas. Que o Senado nos livre de mais essa barbárie, recusando a indicação, furando bem furado mais esse balão de ensaio.

Não tem graça. Em seis meses está havendo um desmonte de toda uma organização, de todo um país, de conquistas fundamentais, qualquer coisa que se pergunte resulta em mostrar a total divisão do país, numa dialética maligna.

Mais: é cruel termos de dar atenção a assuntos de tanta ignorância em um momento do país em crise, com discussões envolvendo nossas vidas e nossos futuros, como a Previdência. Aliás, já fez os cálculos? Acha mesmo que será essa reforma que salvará a pátria? Só se a gente viver e sobreviver – e muito – para ver.

Isto não é política. É acinte. Passa terrivelmente de qualquer limite.

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Marli GonçalvesJornalista, Consultora de comunicação, Editora do Chumbo Gordo. Repara que a campanha presidencial já começou. E repara também que não é exatamente para a próxima eleição marcada para 2022. É para antes, bem antes.

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Brasil, quanto falta?

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JOÃO GILBERTO CANTOU SÓ PARA MIM

 JOÃO GILBERTO CANTOU SÓ PARA MIM

MARLI GONÇALVES

… Como se fosse hoje, lembro bem da única coisa que achei esquisita. Coca-Cola. Ele pegava a Coca-Cola, a garrafa, e esquentava na torneira de água quente. Por sua voz, seu bem mais precioso. A voz. A nossa voz. O Brasil. A Aquarela do Brasil. Guardo essa noite na caixa mágica da vida. Foi a noite que João cantou só para mim…

No carro, quase seis da tarde, distraída, ligo o rádio, na Eldorado, e ouço a locutora anunciar mudança na programação, e que daqui ali a minutos seria apresentado um “programa especial Gilberto Gil, em homenagem a ele que nos deixou hoje”. Foram suas palavras.

Fiquei com a boca amarga. Tive de parar. Imediatamente procurei o celular e fui ver o que havia acontecido. E havia acontecido que quem tinha morrido era João Gilberto, era ele quem havia nos deixado. Mas por minutos sofri por um, por dois, ambos amigos, ambos queridos, e um deles está ai, está bem, Giló. Passei a sofrer pela perda do outro, que se foi. Minutos depois, muitos para mim uma eternidade, a locutora volta, pede desculpas pelo que chamou de “gafe”. “O programa especial será para João Gilberto”, anunciou, como se seu erro tivesse sido pequeno.

Eu não perdoei o sofrimento que ela me deu, mesmo que por minutos, que já sofri por um, e que era o outro. Eu achei que eu – e quem mais a ouvia naquele minuto – merecia um pedido de desculpas muito mais incisivo.

Eu conheci o geminiano João Gilberto. Convivi vários dias com ele. Até intimamente, devo dizer.

Eu conheci o mestre. Conto que um dia, em um desses dias que estivemos juntos, eu ouvi esse mestre da voz que acaricia cantar só para mim; e ele naquele momento, muitos anos atrás, 85, 86, procurava o tom em que cantaria Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa, que pensava em gravar de forma especial.

“…Se o senhor não “tá” lembrado/ Dá licença de “contá”/Que aqui onde agora está
Este edifício “arto”/Era uma casa “véia”/Um palacete assobradado
Foi aquí, seu moço, que eu, Mato Grosso e o Joca/ “Construímo” nossa maloca
Mas, um dia, “nóis” nem pode se “alembrá”
Veio os “home” co’as “ferramenta”
O dono “mandô derrubá”…”

Tinha gostado muito da experiência de gravar “Me Chama”, do Lobão. Queria diversificar seu repertório.

“…Chove lá fora e aqui, faz tanto frio / Me dá vontade de saber/Aonde está você
Me telefona/Me chama, me chama, me chama. Nem sempre se vê
Lágrimas no escuro, lágrimas no escuro/ Lágrimas, cadê você
Tá tudo cinza sem você/ Tá tão vazio…”

Estávamos nessa noite no Hotel Maksoud Plaza. O jantar era especial, o chef de cozinha – que comandava o Cuisine du Soleil que, quem lembra, claro, não esquece, fez um jantar exclusivo para o João; para nós, e que levou pessoalmente ao quarto, onde ficou ainda um bom tempo conversando, contando de novos pratos e acontecimentos para o João. Se não me falha a memória tantos anos depois, o chef era da terra de João, Juazeiro, na Bahia. Ou de alguma cidade ali por perto. Matavam saudades e lembranças. Ali ele era o João. Simplesmente, João.

João Gilberto era exclusivo.

Quem disse que ele não falava com ninguém? Quanto mitos João Gilberto criou nessa vida que acabou nesse sábado, 6 de julho de 2019!

Como se fosse hoje, lembro bem da única coisa que achei esquisita. Coca-Cola. Ele pegava a Coca-Cola, a garrafa, e esquentava na torneira de água quente. Por sua voz, seu bem mais precioso.

A voz. A nossa voz. O Brasil. A Aquarela do Brasil.

Guardo essa noite na caixa mágica da vida. Foi a noite que João cantou só para mim.

Eu conheci João Gilberto. E ele era demais.

O João que conheci não era rabugento; era alegre, divertido, doido, na varanda olhava em direção às torres da Avenida Paulista e gostava de ver as aves noturnas, os morcegos, todos os que volitam em volta delas e que se vê da janela dos hotéis em noites limpas. Apontava, acompanhava os voleios nas luzes da cidade. Dizia que eram poemas.

Na época, como produtora cultural – a minha empresa chamava Chega de Férias! – organizamos e apresentamos dois shows com o João. Foi assim que o conheci.

Um, solo, na barca, o Latitude, – vocês lembram daquela construção em forma de barco, enorme, estacionado, que havia na avenida 23 de Maio, aquela casa de shows? Pois ali ele cantou lindamente, só ele, o banquinho, o violão.

Dias depois ele faria um outro show único no Palácio das Convenções do Anhembi. Ele, e orquestra. Completa, precisa.

Quem viu, quem esteve lá, em alguma dessas duas noites, nunca deve ter esquecido porque foram mesmo momentos formidáveis. O APCA (o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte) daquele ano foi dele, destes shows, dessas apresentações que fez em São Paulo depois de um longo tempo.

Trabalhar com o João era emoção, tensão. Ele já havia criado problemas antes, poderia não vir na última hora, diziam. Os jornais não acreditavam que ele cumpriria e apareceria para os shows. Tanto quanto Tim Maia, também tinha a fama de às vezes “não querer ir” se invocasse com algo.

Ele brigava porque era perfeccionista, e o microfone, o ar condicionado, o retorno, o palco, a luz, o banquinho, o violão, a afinação, nada lhe escapava – tinha de estar tudo perfeito.

E estando perfeito, ele cantava. Perfeitamente. Com seu repertório sempre perfeito. E seu humor ficava perfeito também.

João, João, lembro do pacote, um embrulho de folha de papel de jornal que trazia e quando abria, desenrolava, surgiam aqueles lindos “camarões” verdes, naturais, erva pura, nunca soube onde arranjava. Ele gostava de pegar por punhados. Na época fumava. Não sei por quanto tempo cultivou esse hábito ainda depois desses anos.

João, João, lembro de estar com ele em um outro hotel ali da Rua Carlos Sampaio – na época recém inaugurado – onde o hospedamos nesses dias pré esses dois shows e ensaios em São Paulo. Bravo, fazia que não, mas não gostava dessa fama, ficava bravo, não gostava dessas lendas que em volta dele se criavam. Odiava ler na imprensa que não viria, quando já estava aqui.

Pois veio, e nunca mais que eu soubesse deixou de ir a qualquer show marcado nos anos seguintes. Encrencou muito, reclamou, mas nunca mais faltou, pelo menos que eu soubesse, e também porque sempre foram raras suas apresentações ao vivo. Dessa temporada que fizemos, ele pediu, queria ficar mais. Descansou mais dois dias no hotel, mas quieto, sozinho. Não queria ver ninguém.

Seu desejo atendido. Nem o pessoal da arrumação ele aceitava que entrasse no quarto até que fosse embora para o Rio de Janeiro. A curiosidade foi o rastro que deixou quando partiu. Os pratos de comida? Guardava todos dentro das gavetas, das cômodas, dos armários da suíte.

João, João sempre pôde tudo.

Produzia outras lendas, ria das que criou, as que sempre acreditaram, como a do gato que se jogou da janela, que jurava ter sido mentira. E aprontava outras, e passou a vida fazendo isso, até essa sua morte. Pouco sabemos exatamente do João desses últimos anos, dessa família onde se meteu, desses problemas financeiros, das dívidas, dos processos, dos aluguéis, das gravadoras.

Sabíamos dele sempre por alguém, pensa, nunca por ele. Na minha cabeça, quem o cercava nesses últimos anos o manteve fechado, isolado, quase em cárcere. Doente, talvez de tristeza, inclusive com os rumos do Brasil que tanto cantou, que tanto esse baiano amava. Tudo bem, talvez esteja exagerando, mas é assim que sinto que não foram nada bons seus últimos dias, seus últimos tempos.

João, que baque saber que se foi. Sento e escrevo à memória do João que conheci, da música que ouvi, do carinho que recebi. O João que passou pela minha vida.

O João que a gente ouve desde tanto tempo e que vai sempre continuar ouvindo, ali, baixinho, cantando suave, com uma bossa que sempre será nova, sempre será só sua.

Chega a saudade.

Não fotografei você. Lembro também que não gostava, nem que fosse de Rolleiflex. Fica na minha memória. Registrado. No meu coração.

Em meus ouvidos…

“… Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu…”

6 DE JULHO DE 2019

#ADEHOJE – MAFIOSOS, BOLSONARO, FRIO…E PERDAS

#ADEHOJE – MAFIOSOS, BOLSONARO, FRIO…E PERDAS

 

SÓ UM MINUTO – Meu João Gilberto foi embora. Muita tristeza.

Foram presos no litoral paulista dois mafiosos italianos, pai e filho. Coisa grande, eram responsáveis, dizem, por 40 % do tráfico internacional de drogas, e aliados ao PCC também chamado eufemisticamente pela imprensa de organização criminosa com ramificações em presídios e em outros s países. Taí, PCC na Itália. Organização chama-se Ndrangheta

Saiu pesquisa Datafolha sobre o Governo Bolsonaro – 6 meses desse governo de desgovernos: 33% acham ótimo/bom; 31% regular; 33% ruim ou péssimo. De ponto em ponto vamos vendo a coisa cada vez mais dividida, comparável só ao Governo Collor que bem sabem o que deu.

A reforma anda um pouquinho. O frio congela no Sul e Sudeste.

E a gente perdeu o poeta da cidade, Paulo Bomfim, o jornalista Salomão Schwartzman, a técnica de som Tunica, e o mágico maquiador Duda Molinos… Xô, que fim de semana!

ARTIGO – Rigoroso rebolar. Por Marli Gonçalves

A gente rebola por aí, balançando quadril e batendo pernas, buscando vozes e mentes para esquentar os corações e almas que parecem estar simples e completamente anestesiados por uma avalanche tão grande e que não condiz em nada com essa nossa alegria tropical. Escutem, por favor, a cadência de nosso samba, batucando nas teclas. Somos a imprensa. Acredite nos alertas.

 Tenho diante de mim, na mesa, uma série de bonequinhas que se movimentam somente com luz, bateria solar, vocês já devem ter visto como funciona. São quatro havaianas balançando as saias e uma gordinha, essa, de biquíni, chapéu, um drink nas mãos. Elas costumam me alegrar muito durante o dia com seus quadris rebolantes sem parar enquanto trabalho. Gosto de coisas que se movimentam, vivas, como os cataventos, e elas são assim. Me dão a sensação do tempo, contra a imobilidade, musicais, dançantes.

Pois bem. Ultimamente observei que até elas – essas meninas – andam – ou melhor, param – silentes, cabisbaixas. O inverno, a falta de sol, de luz nova no horizonte tira-lhes a energia. Como se tivessem vida, sentimentos, solidárias, me acompanhassem no dia a dia, no que faço, e ao noticiário que buscamos repercutir. E são tantas bobagens, ignorâncias, notícias ruins, tristezas e retrocessos e que todas juntas sabemos e assistimos que elas de vez em quando literalmente param, estáticas. Ficam chocadas inclusive quando veem os mensageiros sendo atacados de formas tão cruéis.

Vontade de fazer o mesmo, parar de rebolar o dia inteiro – que é um pouco o que todos nós, brasileiros, fazemos – e hibernar, aproveitando a estação. Rebolamos para cumprir o papel que juramos. Rebolamos para pagar contas, juros exorbitantes, ganhar algum dignamente, cuidar dos nossos, de quem amamos, escapar de armadilhas, além de fugir de tantos querendo nos roubar. Rebolamos para que nos respeitem, especialmente, nós, as mulheres. Suamos e rebolamos para nos livrar de inimigos, do mal, de insídias e energias negativas. Rebolamos para conseguir lugar no transporte público, na saúde pública, na segurança, na educação e em tudo o mais, que é público, sim, pagamos, e não recebemos. Reclamar para o Papa? Pode ser. Nosso Francisco está bem na moda, bombando nas redes sociais até com vídeos bem avançados. Alguém aí tem o e-mail dele?  O whatsapp? Algum contato?

Tô brincando. Mas ao mesmo tempo falando muito sério. Preocupada. Infelizmente tenho encontrado ainda muita gente rebolando também, e é o que não entendo, mas para aprovar, justificar, bater palmas, defender o que não é possível que em plenos anos 20 do Século ainda estejamos presenciando, ouvindo, suportando. Isso envolve, claro, as falas do homem eleito para o país e que parecem irreais de tão absurdas, de tão grosseiras, carregando tanta ignorância. Envolve alguns ao seu redor, como os seus próprios filhos, amigos, ministros.

Envolve, ainda por necessária oposição, e antes que venham com pedradas dizendo que não vejo mais longe, envolve – e muito – também, grande parte daqueles que, derrotados, ainda não aprenderam os rumos necessários para a retomada de um mínimo de bom senso. Tem quem ainda não se deu conta da gravidade da situação. Não é exagero.

Mas se fosse só da política! O inverno é de ideias, de bom senso, de falta de estações e temas onde se plante e onde dali floresça, de preferência sem tantos agrotóxicos.

Continuamos sabendo diariamente de crimes horrorosos contra as mulheres, e aparece quem defenda – sem ser os advogados – seres abjetos como o Roger Abdelmassih ou João de Deus. Sabemos diariamente de mortes e mutilações causas por imperícia, irresponsabilidade e loucura no trânsito e há quem defenda o fim da fiscalização eletrônica, a forma mais ampliada e segura que consegue registrar e desencorajar batendo no bolso, o lugar do corpo do ser humano que mais dói e pode modificar índices tão brutais. A lista das sandices é enorme e não para de crescer.

Está frio por aqui. Muito frio. E muito feio tudo isso. Vamos aquecer nossas baterias. Quero ver minhas meninas, e as de todo o Brasil, mais da metade dessa população, ao menos elas, reagirem.

Enquanto isso, rebolando por aqui. Vou ter novidade em breve para contar. E contar com vocês.


Marli Gonçalves, jornalista Consultora de comunicação, Editora do Chumbo Gordo. Blogueira aqui…

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2019, Brasil

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ARTIGO – Nossos invernos infernos internos. Por Marli Gonçalves

Pode até fazer frio, mas o clima continuará bem quente por aqui no país do dedinho de arminha, da torneira que não vai parar de vazar e das falas, atos e decisões do homem que nos desgoverna sem ter ao que parece qualquer preocupação ou noção dos estragos que semeia com olhar tenso e sem brilho. Pare para pensar quem é que está se dando bem com tudo isso

O inverno é isso. O país tropical anda rendido. E absolutamente perplexo no dia a dia dos últimos meses assistindo a um espetáculo diário de besteirol sem qualquer graça, sem roteiro e com o apoio solene de comediantes medíocres de stand up. Sim, eles, de pé, em cima de palanques, tribunas, altares, púlpitos, onde quer que estejam, é só esperar, dali coisa boa é que não vem. O caso é pensar como chegaremos às próximas estações.

E, seja em quem foi que você, leitor, possa ter votado, não é possível que não perceba que estamos na famosa sinuca de bico, beira de precipício,  esquina do horror, e que não há reforma que resista a uma crise depois de outra, a tanta insanidade em verde amarelo, azul e branco – que agora aparece até na gravata que o homem coloca para anunciar  os amigos nos espaços vazios das crises.  O patriotismo é mais do que apenas refúgio; pode ser o biombo que esconde a incompetência ou algo mais que ainda não se revelou por completo. Apenas em parte.

Não adianta em público fechar os olhos, fazer marra, considerar-se feliz por tanta perturbação, pelo quanto pior, melhor, ou bater no peito, arrumar briga nas redes sociais, xingar a todos de comunistas ou “petistas”, dizer que “estamos” atrapalhando, e que não queremos o fim da corrupção, patati patatá. Esses discursos não cabem mais depois de 180 dias de sandices, isso sem contar todas que já foram disparadas durante o período eleitoral. O governo anônimo, sem marca, do Marcelo Álvaro Antonio e agora do Jorge Antonio de Oliveira Francisco, os nomes de nomes.

Tudo o que se poderia até ter acreditado que ocorreria, veja só, não ocorreu. Os índices continuam ladeira abaixo, nenhuma reforma, e agora até de reeleição já ousou falar, convencido, o mesmo que a negava. Se alguém ainda punha fé na ampla presença de militares de alta patente no sistema, apure seus ouvidos e ouça o burburinho que anda entre eles, tratados com desprezo, este sim, bem patente. No masculino governo sumiram até com as leituras de libras antes tão aplaudidas. Reparou?

Seis meses que se passaram de tal forma que até ser oposição tornou-se dispensável. Também … com essa que temos, desorientada, sem novos quadros, sem liderança. Ser imprensa acaba sendo apenas uma cruel repetição de gritos no escuro. Registra-se de dia o que à noite será mostrado nos telejornais, isso se não tiver havido algum recuo, uma dança sem par.

Depois eles se explicam lá no Programa do Ratinho. Em geral, gravado antes, bem editado. Não é sintomático?

Alguém, em algum lugar, nesse exato momento, deve estar se dando muito bem com isso tudo. É você? Temo que não.

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Marli Gonçalves, jornalista. Observadora.

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Os incríveis primeiros seis meses de 2019

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ARTIGO – Nas ruas, com fé, todos os corpos de Cristo. Por Marli Gonçalves

Ruas frias, quentes, religiosas, coloridas, para todos. Tem Marcha para Jesus, Parada do Orgulho Gay, procissões, e até torcidas uniformizadas. Têm fogueiras, quentão, danças caipiras. Quem põe mais gente na rua, se esse ano vai ser maior ou menor, quem vai, quem aparece, mobiliza daqui, dali, conta quantos juntos por metro quadrado. Essa semana vai ter muito povo nas ruas, rezando ou brincando, festejando ou protestando no mundo paralelo que corre junto à realidade, a parada dura. As pessoas estão com seus “corpus” nas ruas, e o espírito, santo.

RUAS

O povo caminha nas ruas. De alguma forma, por mais diferentes que pareçam, o objetivo comum sempre é conseguir. Conseguir viver, conquistar, ser feliz, agradecer, nem que para isso também precise protestar, mostrar força, e até escandalizar um pouco para ver se as coisas andam mais rápido.

Feriado em alguns lugares, só ponto facultativo em outros, dia para começar a enforcar a sexta-feira. Na quinta-feira, dia de Corpus Christi vamos saber de muita gente nas ruas, seja percorrendo avenidas na evangélica Marcha para Jesus, seja nos belos, coloridos e artísticos tapetes de serragem que adornarão os caminhos dos católicos e seus templos.

Nos pés, na sola, dentro de seus sapatos, os evangélicos levam escritos os seus pedidos na longa caminhada onde entoam seus cânticos, seguindo seus líderes. É a tradicional Marcha para Jesus. Os shows são todos de clamor, gênero gospel, sempre aquela palavra dirigida à fé, louvores e glorificações em uma adoração sem imagens.

Em tantos outros locais, nas mãos, os católicos carregam as velas acesas que simbolizam suas promessas, suas dívidas, seus desejos. A reza tenta chegar aos ouvidos daquele que não é visto, mas sentido e homenageado com adoração. A procissão de Corpus Christi lembra a caminhada do povo de Deus, peregrino, em busca da Terra Prometida. Os fiéis admiram e passam sobre os tapetes feitos durante a noite para serem admirados, trilhados e espalhados durante o dia. Quem sabe possam ser vistos por Deus, lá do céu. Por isso tão extensos, tão belos, e tão efêmeros.

LGBTNo domingo, a Avenida símbolo de São Paulo, a Avenida Paulista, tomada pela diversidade na Parada Gay, ou melhor, LGBTQIA+, todas as formas e letras de amor que valham a pena. A música é eletrônica, barulhenta, vem da dezenas de trios elétricos que desfilam, embalam a diversidade, a liberdade sexual, as conquistas e avanços. A caminhada é feita com dança, feliz, como em uma festa de Baco, embalada. O capricho das roupas, as fantasias, as transformações também de certa forma louvam a vida, a possibilidade de transformação da sociedade, a cultura da alegria. O arco-íris, suas sete cores, as bandeiras que tremulam e também pedem proteção. A divina e a da sociedade.

Eles vêm de todos os lugares, fazem alarido, têm todas as idades, formas, classes sociais, cores de pele, alguns trazem suas famílias, criam personagens, se equilibram em imensos saltos plataforma, sacodem suas perucas, piscam com cílios postiços, seios postiços, traseiros postiços, e o que mais puder ser postiço para desfilarem garbosos, estrelas máximas nesse dia do ano. Os homens, como mulheres; muitas mulheres, como homens. Lá, se é o que se quiser ser. Inclusive religioso, católico, evangélico, umbandista, que todos levam suas representações.

O Brasil, que bom, decididamente, aprendeu o caminho das ruas. Esperamos agora que todos caminhem juntos também para empurrar o país para a frente, e à frente de seu tempo, para o futuro melhor que nos observa, solene, ao longe.

Andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar.


Marli Gonçalves, jornalista

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Brasil, inverno, 2019


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