#ADEHOJE – Bem pior que uma decepção

#ADEHOJE – Bem pior que uma decepção

SÓ UM MINUTO – Bem pior que uma decepção. Vou usar o título do editorial do Estadão de hoje, porque ele é perfeito ao se tratar do governo que nos governa. Mas o editorial trata só das questões econômicas, as que não entendo bem. Mas entendo de comportamento, educação, saúde, segurança pública, e tenho posição firme com relação a esses temas. Não é coisa de direita ou esquerda. É coisa de respeito com a população. Destruir (mais ainda) a Educação, cortando verbas e fazendo trapalhadas, liberar armas, inclusive para crianças e adolescentes, cancelar radares nas nossas estradas perigosas para agradar caminhoneiros, deixar que esse debate imbecil entre ele, os filhos, os militares prossiga, as falas preconceituosas, decretos autoritários, vaivéns… Muita coisa. Enfim, eu não tinha dúvidas, mas sei que quem nele votou depositava esperanças, e eu estou vendo muitas dessas pessoas inclusive até sendo atingidas pelos raios desencontrados que saem daquela cabeça

#ADEHOJE -AS CENAS QUE ASSISTIMOS E QUE NOS TORNAM REFÉNS

#ADEHOJE -AS CENAS QUE ASSISTIMOS E QUE NOS TORNAM REFÉNS

SÓ UM MINUTO– Tem cena mais vergonhosa do que esta, dos integrantes da bancada da bala fazendo o sinal de arminha com a mão, ao lado do presidente Bolsonaro assinado o decreto que facilita o porte de armas carregadas para várias categorias? Ampliado para políticos, advogados que atuam na poder público (como procuradores e defensores), motoristas de veículos de carga, proprietários rurais, jornalistas, conselheiros tutelares, agentes socioeducativos, entre outros.

Isso não é governo. É acinte. O que está acontecendo com esse país? Já pensaram em caminhoneiros armados? Aliás, começarão certamente a estourar inúmeras greves que põem o governo como refém, uma vez que a estratégia dos caminhoneiros parece estar surtindo efeito. Não podemos tolerar que se crie mais insegurança ainda nas estradas, tirando radares, com motoristas armados, entre outras. Parece que não percebem que com o país parado, a produção parada, o problema dos caminhoneiros será não ter o que transportar nas nossas esburacadas vias.

Outras : o nome do bebê real e Archie. E o tal Olavo de Carvalho desocupado continua a infernizar os militares junto aos filhos do Capitão, de forma agressiva, desrespeitosa, lamentável. O ministro da Educação a cada dia se mostra mais ignorante do que o anterior, o que já era bem difícil.

#ADEHOJE – OLAVO MATRACA PRA CIMA DOS MILITARES.

#ADEHOJE – OLAVO MATRACA PRA CIMA DOS MILITARES.

 

SÓ UM MINUTO – E o tempo pode fechar. Aliás, o tempo ainda não abriu nesse governo Bolsonaro que todo dia nos traz lamentáveis surpresas. Olavo de Carvalho, o guru sabe-se lá do quê, mais Os Filhos do Capitão, 01,02,03, se não forem freados a tempo ainda vão piorar mais ainda a situação. Chamo a atenção de todos para os terríveis cortes de verbas que estão ocorrendo, paralisação de projetos importantes, enquanto o Capitão brinca de ser presidente. Estão em risco especialmente o cinema nacional e a produção de seriados, além de tudo o que dependia da Petrobras.

O mundo real não é de caminhõeszinhos, mas de caminhoneiros que estão tocando o terror com a ameaça de greve e divisão das lideranças. Aponte uma área que está andando em linha reta. Umazinha. Não tem. A reforma da Previdência tenta cavar espaço, perdendo alguns dos pontos iniciais

#ADEHOJE – SIGAM BEM, CAMINHONEIROS? E NÓS, NAS TREVAS.

#ADEHOJE – SIGAM BEM, CAMINHONEIROS? E NÓS, NAS TREVAS.

 

SÓ UM MINUTO – Precisamos nos organizar enquanto é tempo!!! Se os caminhoneiros estão conseguindo tudo o que querem, precisamos tentar também. E antes que legalizem que tomem o rebite, aquela fusão de drogas que usam para manterem-se acordados. Vejam: falam em tirar radares, o que pode causar ainda maior aumento de mortes nas estradas. Parar os aumentos do diesel, ideia que já causou perda de 32 bilhões de reais. Agora abriram linhas de crédito pelo BNDES. O que mais? Também queremos!

E essa censura à imprensa, que vem sendo imposta pelo STF para que não se critique mais os juízes? Não, não e não. Dr. Alexandre, Dr. Toffoli, amigo do amigo do pai dele, isso não pode. Nunca.

ARTIGO – Chacoalhada geral. Por Marli Gonçalves

 Ainda está aí sentindo o tremor, não é mesmo? Viu? Percebeu o quão tênues e surpreendentes estão as linhas, os limites, os acontecimentos? Não dá para se acomodar, que tem muito pó-de-mico na cadeira. É hora séria, de a gente pensar juntos qual estrada pegaremos sem bloqueios. E sem bloquear a liberdade

Não foi no primeiro dia, mas lá pelo terceiro a coisa começou a ficar bem feia e então todos percebemos que estávamos parados ou parando nas encruzilhadas e nas quebradas, e que as cidades viraram ilhas. O governo demorou mais do que nós, porque lá onde vivem é uma espécie de Olimpo, e só quando baixaram na Terra é que perceberam que aqui estávamos no Inferno, abaixo dela, terra, alguns dedos, se é que me entendem.

Pagamos uma tal de Inteligência, uma agência inteira, a ABIN, que só serve para nos atazanar, porque ajudar que é bom…Mas nem precisava, porque soubemos também que há mais de ano havia essa ameaça de greve exposta em cartinhas dessa categoria carga pesada – ou melhor, de todas as cargas – e os ouvidos continuaram moucos.

E aí juntou tudo, patrões, empregados, gasolina com preço fervendo, diesel com sangue azul. De tudo que reivindicaram, realmente houve uma coisa que chamou a atenção: não vimos ninguém pedindo na listinha que fizessem melhorias no lugar onde andam, e nós também, propriamente, as estradas, que são a bagaceira em forma de asfalto ruim e terra enlameada. Caminhos que gastam mais combustível, energia, vida, os caminhões, treminhões, pneus, levam vidas. Estranho. Muito estranho também não terem listado outro aspecto: segurança. Isso com tantos assaltos e roubos de carga, cotidianos.

Talvez essas cobranças sobrem agora para nós fazermos, ou numa eventual greve geral que já não acho tão impossível, ou na plataforma dos candidatos que estão aí e que ainda parecem flanar sobre nossas cabeças e problemas.

Assim, precisaremos fazer nossas listas de reivindicações – urgente. Podemos também começar reclamando do absurdo preço da gasolina, mas enquanto maioria devemos nos preocupar muito em exigir transportes públicos de qualidade e vias alternativas de escoagem de produtos de primeira necessidade, como ferrovias. Esses dias todo mundo lembrou do “trem bão”.

Senão, nada impedirá que novamente sejamos chacoalhados e fiquemos pendurados em alguma brocha como essa que pintou o sete nos hospitais, mercados, linhas de produção.

Foram momentos nos quais não soubemos de tiroteios nem de balas perdidas no Rio de Janeiro; da febre amarela, dengue, e do absurdo das campanhas contra vacinas feitas por ignorantes. Talvez esses e outros tipos de ignorantes estivessem preocupados em sacudir bandeiras desajeitadas pró uma intervenção que eles não têm noção do que é, do que poderia ser, do que foi quando ela aconteceu e nos chacoalhou, bloqueou e feriu por 21 anos.

Aprendemos muito observando esses dias. Vimos o medo, a loucura, a ganância e o egoísmo em suas piores formas, o descontrole e o exagero. O corre-corre desnecessário. Cada um por si, ninguém por todos. Um país inteiro de joelhos, cada um rezando um credo.

Ficamos com o bumbum na janela. E dela avistávamos as ruas vazias, sem trânsito, muita gente andando, muitas bicicletas enfim ocupando as ciclovias, e sentimos o estranho (mas muito bom) silêncio. Poluição pela metade. Incrível como tudo pode ter um lado bom.

Mas mais do que tudo isso, sentimos o tremor e o temor. Externamos nossas preocupações com o futuro, com o que aconteceria, e com o que pode acontecer. Fomos pegos num redemoinho, e ainda estamos bem tontos.

Esperamos soluções, e que não são soluços grandes de um choro que não queremos mais ter. Muito menos por estarmos engasgados com tantas coisas para dizer.

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Marli Gonçalves, jornalista – Vivendo um momento de transição etária nesse momento e que lembra quantos anos rodados de estrada. E a tristeza por todos que foram ou já estão parando nos acostamentos. Saindo literalmente para fora do caminho.

marligo@uol.com.br /marli@brickmann.com.br

São Paulo, beliscada, junho de 2018

ARTIGO – Casa da Mãe Joana Brasil. Por Marli Gonçalves

Não é só por causa da paradeira dessa semana, dos caminhoneiros, que o Brasil virou o verdadeiro e único representante da Casa da Mãe Joana, aquela com uma porta onde todos podem entrar, conforme reza a lenda que Joana I, de Nápoles, decretou ao legalizar os bordéis de sua região no século XVI, numa história que envolveu conspiração, mortes e desejos de liberdade total.

 

A expressão Casa da Mãe Joana se atualizou total esses dias. Na verdade, se instalou de vez. Igual àquela que diz (ou pelo menos dizia, porque a coisa está tão preta que há muito não ouço nem ninguém citar) que Deus é brasileiro. Até Ele tem limites e deve ter se mudado de mala e cuia. Aqui não só entra quem quer, como faz o que quer e, enfim, quando tenta se impor, declara e manda fazer o que não tem a menor ideia de como será cumprido. Casa da Mãe Joana é uma expressão popular, “o lugar onde todos mandam”, sem organização, onde cada um faz o que quer, uma baguncinha, enfim.

Reuniões longas, horas, documentos e documentos, contas que depois se mostram absolutamente erradas, anúncios de decisões que na manhã seguinte não surtiram qualquer efeito. A paralisação dos caminhoneiros apenas nos demonstrou de forma radical e até cruel o desatino e despreparo que enfrentamos há anos, em todas as direções para as quais olhamos.

Em algum momento o trem descarrilou. Inclusive, trilhos dos quais agora nos lembramos saudosamente e que tanta falta nos fazem na logística de distribuição nacional desse país de dimensões tão complexas, e que se inclinou para a indústria automobilística, para a fonte petróleo, entre outros erros estruturais que vemos se repetindo anos a fio.

Na Casa da Mãe Joana todo mundo invade a cozinha e quer tirar um proveito, mexer na receita, tacar a colher na sopa, entornar o caldo. Se a comida sai ruim, os dedinhos de todos se apontam uns para os outros levianamente, não fui eu, foi ele. Como crianças birrentas e marotas. Esse é o cardápio completo que estamos vendo. Pratos postos numa mesa que ressuscita até os zumbis que já governaram e desgovernaram, e que voltam para nos assombrar com suas declarações toscas e buscando isentar-se do estado a que as coisas chegaram.

Em casa, seja da Mãe Joana ou de qualquer outra, onde falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão; imaginem quando falta pão, gasolina e vergonha na cara.

Surgem, de um lado, os salvadores da pátria e suas ideias birutas; de outro os vilões que não têm nome nem cara, mas sabem remarcar preços como ninguém para se dar bem, não poupar ninguém. Sabem fazer sumir e aparecer produtos, mágicos. Gasolina a dez reais o litro, alface murcha, 10 reais a unidade, batatas de ouro puro, todos viram aparecer. Mais os oportunistas políticos que surgem para o banquete onde esperam lugar à mesa, sentados na cabeceira, inclusive. Só que precisarão pagar a conta.

Mas não se preocupem. Como disse o presidente ao mandar as Forças Armadas acabarem com a movimentação dos caminhoneiros, falando do púlpito, sem combinar com os goleiros, agora “o Governo terá coragem”. Faz lembrar a coragem da intervenção federal do Rio de Janeiro quase esquecida nas calendas. Temer, inclusive, se mostrou bem preocupado com os frangos que, segundo ele, estariam já se canibalizando. Sem comentários, por favor.

De soquinho em soquinho, vamos indo esperando o próximo round, quem vai bater à porta, a próxima crise. Tanto falam em militares, tanto falam em intervir que conseguiram botar o bloco verde para dissipar o azul de nosso céu. Por enquanto, e espero que pare aí, para desobstruir os canais por onde corre o nosso sangue. Os combustíveis, os alimentos, e tudo o mais que nos mantêm vivos.

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 Marli Gonçalves, jornalista – Veio à mente uma música muito conhecida, de Vinicius de Moraes: Era uma casa/ Muito engraçada/Não tinha teto/ Não tinha nada/ Ninguém podia/ Entrar nela, não/ Porque na casa/ Não tinha chão/ Ninguém podia/ Dormir na rede/ Porque na casa/ Não tinha parede/ Ninguém podia/ Fazer pipi/ Porque penico/ Não tinha ali/ Mas era feita/ Com muito esmero/ Na Rua dos Bobos/ Número Zero.

marligo@uol.com.br/ marli@brickmann.com.br

Maio de 2018