O negócio da caxirola é pior do que pensei. Leia esse comentário de Augusto Nunes e Celso Arnaldo. Dê uma passada pelo vídeo e descubra as nossas novas artistas da percussão.

277Caxirola: a vuvuzela da Copa de 2014 chacoalha Dilma Rousseff

CELSO ARNALDO ARAÚJO

O Portal do Planalto, fornecedor oficial da coluna, anunciou agora à tarde, sem aviso prévio na agenda presidencial do dia, um novo e promissor item: “Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, na abertura da Exposição O olhar que ouve, de Carlinhos Brown – Brasília/DF”.

Olhar que ouve, Dilma Rousseff, Carlinhos Brown? Manchete que naturalmente convida a uma excursão aos domínios do dilmês oficial, o dilmês de palácio. É no Palácio do Planalto, glória da arquitetura brasileira, que Carlinhos Brown expõe a partir de hoje sua mostra de pinturas intitulada “O olhar que ouve”. Niemeyer se fez de morto para não saber disso. O tal “olhar ouvinte”, se pudesse, se faria de surdo, porque lá vem Dilmalada:

“Eu queria começar comprimentando o Carlinhos Brown. E eu estava dizendo para ele que as pessoas que têm talento, como ele tem, acham normal ter talento. E acham normal inventar a caxirola”.

Caxirola? Sim, ela decorou bem o neologismo trava-língua criado por Carlinhos Brown, que acaba de superar fuleco ─ e isso parecia simplesmente impossível ─ como a pior palavra já criada pela espécie humana desde o advento da fala. É isso mesmo: caxirola. Mas, voltando ao início do discurso da Dilma, há algo a ser dito: o mundo tem 7 bilhões de habitantes. É provável que 6.999.999.000 não achem normal inventar alguma coisa que não tenham a menor ideia do que seja, como a caxirola.

Aliás, o que vem a ser a caxirola? Vindo de Carlinhos Brown, poderia muito bem ser uma combinação de caixa com caçarola. Mas quem leu o título deste post, e verá o vídeo em seguida, já sabe: Carlinhos criou a caxirola para ser, nos estádios da Copa de 2014, sobretudo quando o Brasil estiver em campo, o que foi a vuvuzela na Copa da África do Sul. Tão ensurdecedor e exasperante como? Em tese, menos. Aquela era instrumento de sopro, terrível para os tímpanos, mesmo pela TV. Esta, de percussão bem discreta, pelo menos quando sozinha. Mas a impressão de Dilma sobre a caxirola é entusiástica:

“Nós, a mim me provoca, na minha ausência de talento musical, provoca uma surpresa que eu acho que todos aqui compartilham. A surpresa diante de uma coisa tão bonita, tão simples, tão sintética e tão representativa do Brasil”.

Ok, Dilma, confessadamente, surpreendendo a todos, tem “ausência” de talento musical ─ a par de suas múltiplas ausências de talento. Mas, embora tão simples para ela, a caxirola pareceu-lhe realmente mágica: Carlinhos Brown criou um surpreendente instrumento, representação da alma musical brasileira — inclusive nas cores, tão inusitadas para uma Copa do Mundo no Brasil: verde e amarelo.

Mas espere: Carlinhos, no vídeo, começa a sacudir a caxirola, Dilma e Marta ensaiam agitar desajeitadamente a caxirola, e…surpresa de verdade: ela soa como um chocalho. Talvez porque seja um chocalho. Um prosaico chocalho em forma de sino. Carlinhos Brown reinventou o chocalho. Um chocalho com status ─ vai chacoalhar a Copa no Brasil. Imagine 100 mil caxirolas, em uníssono, nas arquibancadas: a vuvuzela soava como uma serenata de Mozart.

Mas espere de novo: no texto do Planalto que acompanha a notícia da cerimônia, o redator descreve a pretensa vuvuzela da Copa de 2014 como “um tipo de chocalho inspirado no caxixi”. Caxixi? Segundo o Wikipedia, “um pequeno cesto de palha trançada, em forma de campânula, contendo pedaços de acrílico ou sementes, para fazê-lo soar. No Brasil, é usado principalmente como complemento do berimbau”.

Agora ligou o nome à figura? Você já viu um tocador de berimbau segurar esse instrumento com a mesma mão que empunha a vareta, de modo que cada pancada da vareta sobre a corda seja acompanhada pelo som seco e vegetal do caxixi? Já? Então você já viu e ouviu a caxirola bem antes da Copa: sim, era o caxixi. Carlinhos Brown não apenas reinventou o chocalho como copiou o caxixi. E, num laivo de criatividade, pintou-o de verde e amarelo, rebatizando-o de caxirola — já marcando um golaço na estreia oficial, no Palácio do Planalto: ver Marta Suplicy sacudindo sem graça duas caxirolas e cantando o Hino Nacional enquanto Carlinhos Brown “caxirola” a bandeira brasileira, não tem preço. Veja o vídeo.

Mas Dilma parece nunca ter ouvido um caxixi ou nem mesmo um chocalho antes. Continua tão impressionada com o novo símbolo sonoro da Copa que não acreditou em Carlinhos quando ele lhe disse, antes da cerimônia, que era normal fazer uma caxirola. Normalíssimo: era só fazer um chocalho em forma de caxixi.

“O Carlinhos é um autor e um grande artista. E ele expressa um mundo diverso, mas muito específico, do Brasil, e especialmente da Bahia. A pluralidade, o fato de que esse mundo tem milhões de aspectos. E agora o Carlinhos nessa sua quase ingênua aceitação de que ´ah, não, é muito fácil fazer uma caxirola´, nos encanta porque ele combina aí a imagem, essa imagem lá, verde e amarela da caxirola, esse fato que nós estamos falando de um plástico verde, de um país que tem a liderança da sustentabilidade no mundo e ao mesmo tempo é um objeto capaz de fazer duas coisas: de combinar a imagem com som e nos levar a gols”.

Já posso ouvir José Silvério gritando na final da Copa, no Maracanã: “Caxirola chacoalha as redes da Espanha!”.

Poucas coisas, além do Edison Lobão do Diário da Dilma, mexeram tanto com ela como a caxirola:

“Eu tenho certeza que principalmente as crianças desse país vão ter uma experiência muito fantástica com a caxirola. O Carlinhos não disse, mas ele me falou que a caxirola também tem um sentido transcendental de cura, de enfim, de paz com o mundo, de estar, de fato em sintonia com a natureza e com todos os orixás”.

Imagino babás chacoalhando a caxirola diante de crianças indóceis. Também imagino médicos do Sírio-Libanês vibrando a caxirola diante dos leitos dos seus doentes. E pais de santo jogando minicaxirolas em vez de búzios. A coisa realmente chacoalhou Dilma:

“Eu acredito que a caxirola faz parte não só do futebol, mas da imensa capacidade do nosso país de fazer um instrumento muito mais bonito que a vuvuzela”.

Neste exato momento, faltam 414 dias, 2 horas, 11 minutos e 13 segundos para começar a Copa de fuleco, caxirola e Dilma Rousseff.

aqui você acha o vídeo “compacto”: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/

FONTE: BLOG DE AUGUSTO NUNES – VEJA ONLINE

Você tem de ler. Ainda sobre a entrevista de Dilma, uma análise divertida. Mas séria.

FONTE: BLOG DO AUGUSTO NUNES

Celso Arnaldo acompanha o fantástico passeio de Dilma Rousseff e Patrícia Poeta pelo Palácio da Alvorada

 

Celso Arnaldo Araújo

Com um mínimo de treinamento, um guia mirim de Olinda — descamisado, analfabeto, ranhoso — conduziria o visitante no Palácio da Alvorada com mais propriedade. Mas Dilma é a guia oficial quando os convidados da casa são chefes de estado, astros de rock ou celebridades televisivas.

Em maio foi Hebe, tão bem informada sobre a anfitriã/entrevistada que não sabia, nem por ouvir dizer, de sua passagem pela luta armada e pela prisão. Hebe mereceu, portanto, entre outras respostas espantosas para uma presidente da República, a atual dona do pedaço tentando explicar a alma do Palácio da Alvorada:

“É histórico, é um, vamos dizer, símbolo do que é, eu acho, o espírito do povo brasileiro, que é um espírito moderno, mas ao mesmo tempo muito simples. Esse palácio, se ocê olhá, ele é um palácio bonito, mas ele é simples, ele é tranquilo”.

Ok, Dilma disse isso a Hebe Camargo – e, em se tratando dessa entrevistadora, tanto fazia isso quanto uma resposta situando o Palácio da Alvorada na Tríade Vitruviana. Mas domingo era Patrícia – Poeta por sobrenome, jornalista de carreira, apresentadora de um programa que mistura variedades e jornalismo hard no horário mais nobre da maior emissora do país. Mais bonita do que bem formada, mas muito aplicada na lição de casa, PP chegou ao Palácio com um punhado de perguntas – imagine – sobre o fisiologismo do governo, para cutucar a presidente, a danadinha.

Mas, ao entrar no recinto, também se deixou trair pelo fascínio de estar em Palácio. Até seus sofás — alguns, no caso, com um estilão Silvia Design – foram objeto de questionamento na entrevista com a presidente.

Patricia: A senhora já teve tempo de sentar em todos esses sofás ou não?

Dilma: Olha, eu já, viu? Vou te dizer com sinceridade.

Patrícia: Já inaugurou todos, então.

Dilma: Porque quando é mais pessoas eu recebo do lado de cá, quando é menos eu recebo do lado de lá.

Receber do lado de cá, do lado de lá, ficou uma coisa meio “Nosso Lar”. Deve ter sido intencional. O Palácio da Alvorada é o lar de Dilma, o seu Minha Casa, Minha Vida para pronta entrega.

Patricia está diante da primeira mulher presidente. Ou da primeira presidente mulher. De todo modo, o lado-mulher de Dilma é o primeiro a ser explorado na entrevista – mas PP ainda não sabia que, desse lado, Dilma não fotografa bem. Do outro, o de presidente, ela também não sai bem na foto. Juntando os dois lados numa mesma pergunta, é desastre natural:

Patrícia: Como é que é acordar todo dia como presidente da República?

Dilma: É como todo mundo acorda, Patrícia.

Só faltou dizer: abrindo os olhos e espreguiçando, bobinha. Mas, de mulher para mulher:

Patrícia: É ter que escolher, por exemplo, uma roupa, tem que estar sempre muito bem alinhada, tem que se preocupar com isso também.

Não, minha Poeta. Vou para o gabinete de peignoir. Mas Dilma é uma dama, à falta de uma primeira:

Dilma: Geralmente, Patricia, eu acordo cedo porque eu caminho. Ai eu volto e aí você tem de, de fato, procurar uma roupa rápido.

Enfim, uma revelação: a presidente Dilma sofre de sonambulismo. Mas ninguém tem coragem de interromper a caminhada noturna – um pouco antes do laguinho onde já caíram vários fotógrafos, ela desperta. E então volta correndo para o quarto, a fim de não se atrasar para o batente. Outra revelação: hoje, quem, vai escolher a roupa é Patricia Poeta: “Você tem de, de fato, procurar uma roupa rápido”.

Patrícia: Tem alguém que escolhe as suas roupas, tem alguém que lhe ajuda nessa tarefa?

Dilma: Não. Não. É inviável, é pouco eficiente, você tem de dar conta das suas necessidades. Pelo fato de você ter virado presidente, você não deixa de ser uma pessoa e é bom que você seja responsável por tudo que diz respeito a você mesma.

Agora Dilma parece transferir o cargo de presidente para Patricia, mas foi só vício de linguagem. O “você” reflexivo já é quase tão popular na fala de Dilma quanto “essa questão é uma questão muito importante”. E mais um pouco, o Fantástico vira o “Tamanho Único”, do GNT:

Patrícia: É impressão minha ou a senhora tem usado mais saia, mais vestidos?

Dilma: Eu tenho usado mais saia do que antes. Eu poderia continuar usando só calça comprida, mas eu acho que pelo fato de eu ser mulher tem horas que eu tenho de afirmar essa característica feminina.

O companheiro Lula, e todos os presidentes que antecederam Dilma, pelo fato de serem homens, teve horas em que precisaram afirmar sua característica masculina usando calças. Assim é a tradição republicana, muito bem conservada por Dilma. Mas mãe morando no Palácio é a primeira vez.

Patrícia: No Palácio do Planalto é a senhora que manda. E aqui no Palácio da Alvorada, é a senhora ou sua mãe?

Dilma: Acho que nenhuma de nós mandamos. Isso funciona por si só, viu?

“Nenhuma de nós mandamos?” Deve ter mais gente ai nessa construção. Ah, a tia. O netinho Gabriel também está na casa. Além do netinho presidencial, informou PP, o palácio hospedava na entrevista outros nove “bebês” – filhotes de emas que nasceram na semana anterior.

Dilma: Tem uma chocando. É um emo que choca.

Adepta da diversidade cultural, Dilma, na surdina, abrigou um emo no Palácio da Alvorada. O rapaz, coitado, está chocado – os Dragões da Independência implicam com aquele cabelinho emplastrado para o lado. E ele chora o dia todo.

Patricia aproveita a associação de ideias – ema, galinha, galinha, ovo – para uma pergunta culinária:

Patrícia: Qual o seu prato preferido?

Dilma: Arroz, feijão, bife, batata frita e salada de tomate com alface, que era isso que eu comi com a minha infância.

Uma infância devorada, junto com um prato de arroz e feijão. É triste. Não é à toa que Dilma, ainda adolescente, foi para a luta armada. Mas prato puxa prato:

Patrícia: A senhora sabe cozinhar?

Dilma: Eu sei. Algumas coisas eu faço direito; outras, não.

Patrícia: Eu sei uma coisa que a senhora sabe fazer.

Dilma: O quê?

Patrícia: Omelete.

Dilma: Ah, omelete. O problema meu com omelete é que ele gruda. Eu não sou boa de omelete, não. Sou boa de ovos revueltos.

(Um assessor palaciano revelaria mais tarde que, na saída, Dilma tirou satisfação com Patricia: “Você prometeu que não ia falar do omelete. Tive de mentir, para consertar sua pergunta maldosa: também não sei fazer ovos revueltos. Aliás, nem sei o que são revueltos”)

A esta altura, Dilma ficou com vontade de dizer: “Patricia, minha querida, já são quase 9 horas. Vão cortar meu dia. O Gilbertinho se faz de bobo, mas foi bedel na escola de padre e nunca mais perdeu a mania do livro de ponto”. Na verdade, disse a presidente com a ameaça de mais uma pergunta:

Dilma: Você já notou que eu comecei a ficar indócil, não é?

Patrícia: Já, reparei pela perninha, já reparei.

Dilma: Estou indócil.

Patrícia: Está na hora de ir para o Palácio do Planalto, certo?

Dilma: Certíssimo.

Patrícia: A gente pode acompanhar a senhora até lá?

Dilma: Com o compromisso de serem bem rápidos.

Patrícia: Está certo, temos um acordo, então.

Dilma: Temos um acordo, então.

O Palácio do Planalto seria o cenário da segunda parte da entrevista – que versaria sobre política e economia. Dizem que são os pontos fracos da presidente. Mas, em compensação, como se viu e ouviu aqui, a Dilma mulher – para os que votaram na mulher, não na desconhecida e fantasticamente despreparada candidata de Lula – é uma Poeta calada.

Nos vemos no Palácio do Planalto