ARTIGO – Desaforos não se leva para casa. Por Marli Gonçalves

Tão de brincadeira. Ouço as ruas e me preocupo. Não ouço de um lado só; ouço o direito, o esquerdo, o desinformado; o influenciado e o influenciador. O idiota e o intelectual. A situação é esdrúxula, mas não só isso: é perigosa

Estica a corda. Estica. Uma hora ela arrebenta e é esse impasse previsível que tem deixado – a mim e a muitas pessoas às quais tenho grande apreço – mais do que preocupados, chateados e irritados. Desanimados total, achando tudo um porre, nada (nem ninguém) que preste. Estamos brincando em cima de uma panela de pressão – um país perdido sem direção e em crise econômica, institucional e vou dizer: em profunda crise existencial.

Jogadas políticas temerárias vem sendo feitas à luz do dia e na calada da noite. Alguns riem. O resultado do placar é que aparece diferente para cada plateia. De um lado, os estupefatos que aceitam as provocações e acham que a solução é fechar o tempo de vez, sem entenderem que a História não deve nem precisa voltar atrás aos tempos obscuros, cavernosos e sangrentos vividos, tempos que teimam em negar como se realidade não tivessem sido. Nesse grupo há ainda os crédulos em justiceiros falastrões para quem – os que o criticam – somos analfabetos, sem ter ideia de quantos milhões o são mesmo, sem solução, e que podem votar, mas não podem ser votados para lutar contra isso.

De outro, a jogada mais radical, feita para a torcida única de bandeirinha na mão que acha que só ela sabe o que é que é bom, o que é pobre, miséria, justiça social, arte engajada, e insiste em criar caso até o fim no que não será possível, infelizmente, de forma alguma, que seja executado em paz – essa é a certeza: a candidatura de Lula, o encarcerado que mais recebe visitas que podem ser chamadas de íntimas – sem sexo, e com grande incontinência verbal.

Tapas sequenciais na cara. E ninguém está a fim de virar o outro lado para ser esbofeteado de novo.

Deixe os meninos brincarem – diria um sábio ancião, observando esse caso lá de cima de uma montanha, de onde já não mais precisa descer para votar nesse tutti-frutti absurdo e desconexo de cabo a rabo que se apresentará nas urnas. Diria mais: que eles precisam sempre regar o grupo deles, para não perderem mais do que já perderam nesses últimos anos, os que despertaram do torpor infantil emanando da plantação do canto esquerdo do rio. Jogar para a galera é o que fazem.

Só que os meninos estão justamente brincando com fogo porque querem se queimar, há entre eles muitos que – nem um pouco meninos – sabem ser o choque inevitável e para lá exatamente por isso encaminham a comissão de frente. ONU. ONU? Isso é que é atirar para todos os lados. Nunca os vi mexer o traseiro para situações vexatórias de miserê.

Teremos dias exóticos, ainda mais exóticos, quero dizer, pela frente. Vamos observar. Debates e entrevistas, os mais divertidos. Uma das melhores coisas é lembrar que a maioria das perguntas que uns fazem aos outros e que os jornalistas cutucam não têm o menor interesse de verdade para a gente a resposta, a não ser por futrica. Ver se um vai dar uma bifa na cara do outro; se o efeito do calmante vai passar, se o sangue vai subir, se gravata combina com o terno, que inclusive está tudo muito masculino para o meu gosto, se plantaram ou pintaram cabelo é o que dá a audiência.

E o que é pior, se perguntássemos ou se a conversa girasse apenas sobre as suas propostas para o Governo, seria menos constrangedor o silêncio.

daria-mtv-foot-tapping-waiting-impatient

________________________________

Marli Gonçalves, jornalista – Que essa corda seja resistente e não rompa.

marli@brickmann.com.br; marligo@uol.com.br

2018

ARTIGO – Preocupações e desaforos. Por Marli Gonçalves

Estou querendo juntar mais gente para tocar bem alto um alarme. Não brinca não que é coisa para estarmos bem espertos. É pior, mais do que alguma coisa fora da ordem: é sobre uma turma que não tem a menor noção querendo dar ordem, por em ordem, na ordem deles. Presunçosos de suas verdades desinformadas. Um tipo de ordem capaz de chegar até a denunciar um cientista de 88 anos e levá-lo a uma delegacia acusando-o de estar fazendo apologia às drogas

Presta atenção. Os fatos pipocam. Todo dia, aqui e ali, alguns mais, outros menos importantes, umas bobagens ditas como tendências politicamente corretas, certas atitudes e determinações bem esquisitas, uns pensamentos torpes, o surgimento de seres tenebrosos no horizonte. Não é legal a nuvem cinzenta que se forma. O desenho está ficando sombrio. Além de perigoso, muito chato; chatérrimo.

 Pirando na batatinha – Abro o jornal e leio que jovens de uma tal geração chocada em ninhos de algoritmos vêm se unindo em torno de conceitos tão fechados que são capazes de querer fazer sumir do mapa se pudessem – vejam só mais essa novidade – seriados mais antigos, por exemplo aqueles dos anos 90, como Friends. Acusações atrasadas: comportamentos são abusivos, loira burra é preconceito. Denunciam o Pica-Pau dos desenhos animados, para eles apenas um desonesto passarinho de quem cortariam o bico.

Nessa esteira veem o mal em muito do que já foi construído,  cada coisa naquele seu momento lá, fazem beicinho e cara de conteúdo, de “inteligente”. Juntam-se para boicotar; são os novos censores, de comportamentos. Não sabem como é o mundo real, mas querem acabar com o passado e viver em bolhas assépticas. Eles só falam com eles. E só querem ouvir o que consideram certo. O asséptico, o controlado, o “correto” . Urghhh.

E são, repito, muito chatos. Fazem o mundo criativo hoje ficar pisando em ovos para não magoá-los.  Daqueles tipos que se você contar uma história da conversa do elefante com a formiga são capazes de repreendê-lo: como assim,  se elefante e formiga não falam? Apropriação da cultura animal, ancestral! – acusariam, buscando palavras taxativas.

Piadas perto deles? Não contem nenhuma, porque eles tirarão toda a graça e ficarão bravos se houver conjecturas ou qualquer tipo de imitação de minorias, mesmo que quem conte seja da própria minoria. Esses novos monstrinhos não sabem o que é humor, com eles é tudo ferro e fogo, pé-da-letra. São uma nova esquerda radical. Ao mesmo tempo, também uma nova direita radical. E não estou exatamente me referindo a filosofias políticas, embora esse comportamento quadrado nos faça lembrar muito do velho Partidão.

Eles não sabem de nada, inocentes. Conversam apenas entre si e vão se juntando como células – se agregam, formando corpos estranhos. Muito estranhos.

Andamos para trás a passos largos. O perigo que nos ronda no país  é o mesmo que é capaz de ameaçar e levar para depor numa delegacia de bairro – porque uma promotora careta-empoderada cismou com ele e mandou – um de nossos mais ilustres cientistas, professor Elisaldo Carlini. Acusação: apologia às drogas. Uma vida inteira séria, dedicada ao estudo, responsável pelas mais importantes pesquisas sobre a maconha e o avanço do conhecimento sobre suas possibilidades medicinais e terapêuticas. Um homem que sempre esteve à frente de seu tempo, com clareza racional ao expor sua opinião, versar sobre a necessidade de descriminalização da maconha.

Não são só os seus pares, os cientistas, que devem gritar bem alto contra esse desaforo. Somos todos nós.

É um pesadelo atrás de outro. Intervenção, guerras de facções, candidaturas apavorantes. Juízes organizam greve para manter a boa rebarba de seus salários. Para piorar o filme, ainda ter de aguentar a patrulha desses meninos e meninas encastelados em seus próprios e confortáveis quartos ameaçando tornarem-se nada mais do que soldados doutrinados capazes de até, ligados em computadores e telas digitais, denunciarem seus próprios pais. Não duvidem da capacidade da ignorância.

 Cria cuervos y te sacarán los ojos.

_______________________

Marli Gonçalves, jornalistaImagino o que diriam,  ficariam arrepiados se vissem hoje as “bichices” do Dr Smith em Perdidos no Espaço. A mente deles certamente veria pedofilia na relação com o Will.

marligo@uol.com.br/ marli@brickmann.com.br

2018. Nem parece.

                                                                                              ————————