#ADEHOJE – TEMER AO MOLHO PARDO. E O BRASIL, SALADA MISTA

#ADEHOJE – TEMER AO MOLHO PARDO. E O BRASIL, SALADA MISTA

SÓ UM MINUTO – O ex-presidente Michel Temer está sendo frito em fogo lento. Réu em 11 processos, denunciado em mais três. Há mais cinco investigações em andamento. Variam de corrupção, lavagem de dinheiro, com mala de 500 mil, JBS, tudo junto. Vai ser difícil escapar, e pode ser preso novamente.

Jair Bolsonaro voltando ao Brasil com suas polêmicas, ministros equivocados e filhos. A reforma da Previdência está que nem peteca. Cada hora aparece um projeto para enfrentar o governo. Hoje o Senado aprovou o orçamento impositivo que já havia sido aprovado na Câmara, lembram? Pauta-bomba. Nomeações discutíveis continuam.

Além de tudo isso, ainda temos que ficar apavorados com a questão da vizinha Venezuela. Se prenderem Juan Guaidó a situação pode esquentar muito. Aqui do lado. Russos versus americanos.

 

#ADEHOJE, #ADODIA – ESPERANDO SENTADOS (EXPLICAÇÕES)

#ADEHOJE, #ADODIA – ESPERANDO SENTADOS (EXPLICAÇÕES)

Puxe a cadeira, e venha sentar aqui comigo para esperarmos juntos as explicações. João de Deus, não vai falar nada? Como é que vamos ficar, nesse caso de denúncias sérias de assédio sexual, inclusive contra menores? Bolsonaro, percebe que a coisa está se enrolando e que aguardamos as explicações dessa dinheirama toda para lá e para cá no gabinete do Flávio, seu filho, e que passa pela conta da sua mulher, e vai e vem? E um monte de gente que sai e é contratada – e umas explicações bananosas. Mais Médicos: como será resolvida a inserção em locais distantes, onde estão os que mais necessitam? Intervenção total em Roraima. O mundo em polvorosa. Vamos continuar aguardando. Senta aqui.

#ADEHOJE, #ADODIA. HORÁRIO DE VERÃO. PARA O QUÊ SERVE? O QUE ECONOMIZA?

#ADEHOJE, #ADODIA. HORÁRIO DE VERÃO. PAR A O QUÊ SERVE? O QUE ECONOMIZA?

 

 

 

O COMENTÁRIO DE HOJE VAI PAR AO HORÁRIO DE VERÃO QUE ESSE ANO FOI AINDA MAIS CONFUSO E VAI CHATEAR OS ESTUDANTES ALÉM DE BAGUNÇAR NOSSO ORGANISMO. O QUE VOCÊ ACHA? JÁ GOSTEI, NÃO GOSTO MAIS, DEPOIS QUE TIVE CONSCIÊNCIA DE QUE ELE SÓ DÁ É PREJUÍZO, REPARA SÓ!

 

ARTIGO – Nossa derrubada Torre de Babel. Por Marli Gonçalves

Nossa derrubada Torre de Babel

MARLI GONÇALVES

Tá louco. Você fala uma coisa e o povo entende outra. Escreve sobre uma coisa e o povo entende outra. Parece que a cada dia a comunicação entre os seres se torna mais difícil e os deuses agora devem estar é tampando os ouvidos para não se afetarem por tanta besteira vinda de um certo país da América do Sul

Conta a Bíblia, no Gênesis, que a uma determinada altura dos acontecimentos os homens quiseram subir até bem perto do céu para demonstrar sua tecnologia e capacidade de instalar-se perto de Deus. Imagine, eles lá no bem bom dando ordens e nós aqui embaixo só levando pedradas. Também queriam ficar conhecidos, ganhar poder. Teriam então se disposto a construir uma gigantesca e colossal cidade em uma torre de barro, pontuda, semelhante a uma lança, desafiadora, que chegasse até lá em cima. Tarefa a que deram início em conjunto porque inicialmente ali todos se entendiam, falavam a mesma língua. Não era igual obra ou reforma de hoje em dia que você pede para fazer uma coisa e te entregam outra.

Teria então o Senhor, irritado com a arrogância e soberba dos construtores, decidido mostrar quem é que que mandava ali (ou aqui nisso tudo). Não gostou nada do que viu, embora tenha até se espantado com a capacidade humana, até a achado bonitinha, mas quis parar logo com tudo aquilo, prevendo que dali sairia uma espécie de poderosa empreiteira que poderia mandar em tudo.

Não deu outra. De uma só canetada acabou com a brincadeira. Desceu, confundiu a língua de todos, e os dispersou sobre a Terra. A maior confusão.

Nesse pisão – maior barata voa da história – pode ter escorregado e empurrado aqui para esse continente umas turmas muito estranhas. A brasileira, entre elas. Assim, não há Cristo que faça com que nos entendamos século após século, década após década, dia após dia, principalmente quando perto de períodos eleitorais ou quando se trata de jogos e times de futebol e escolas de samba, entre outros competitivos assuntos.

constructionAqui tenta ganhar quem grita mais alto. Se bate no peito quando fala em outro idioma, mesmo que seja esquecido o próprio, natural. Somos criativos até para mudar o sentido das palavras, ou para impostá-las, fazendo firulas que as tornam formas de poder e domínio, vide contratos de seguradoras, bancos, leis, tratados e teses que não se entende nada desde seu próprio título, muito menos ao que se referem e para o que podem servir.

Aqui se fala e não se cumpre o que se fala. A palavra dada não tem valor. Palavras lançadas como flechas apenas pairam no ar, como se fossem, hora dessas cair bem em cima das nossas cabeças. Esqueçam o que se falou. esqueçam o que se escreveu. Esqueçam o que foi prometido. Mentiras são como praga de gafanhotos, devastadoras.

O problema é que está chegando a hora de tentarmos nos entender. De ser dada informação e uma educação suficiente para que a população consiga raciocinar, discernir, compreender sozinha o que é que está sendo dito, o que significa e aonde levará. Hora de usarmos uma linguagem clara e comum. Agora, sim, tipo a daquele locutor de tevê que durante o jogo fica o tempo inteiro dizendo exatamente o que está acontecendo, como se não fôssemos capazes nem de enxergar e precisássemos de sua santa ajuda para entender o que se passa ali naquela partida.

Agora, sim, entraremos em outro campo, precisaremos saber tudo sobre os jogadores, o seu passado e o que pretendem de futuro com suas jogadas e estratégias, quais bandeiras levantarão, se as jogadas serão individuais ou coletivas, como se movimentarão no cenário global. E, principalmente, quais serão os seus salários. E os nossos.

Que tudo isso seja dito em linguagem bem clara, olhos nos olhos. Inclusive utilizando sinais – bem simples, para todos poderem entender, e com as mãos poderem apertar as melhores opções nas teclas. Confirmar.

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Marli Gonçalves, jornalistacomo a música de Caetano, (…)“A língua é minha Pátria/ eu não tenho Pátria: tenho mátria/ Eu quero frátria”…”(…)“Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões/ Gosto de ser e de estar E quero me dedicar a criar confusões de prosódia/ E uma profusão de paródias/ Que encurtem dores/ E furtem cores como camaleões”(…)

marligo@uol.com.br/ marli@brickmann.com.br

Babel, faltando pouco mais de dois meses, 2018

ARTIGO – Que gestação é essa? Por Marli Gonçalves

Que gestação é essa?

Marli Gonçalves

Pega a folhinha. Conta. 1, 2,3. Três já foram. Faltam agora só nove e a coisa que creio todo mundo mais deseja é não ter que passar esses nove meses esperando que nasça um novo Brasil. Temendo que esteja sendo gestado um monstro nascendo prematuro, tirado a fórceps. Que vá direto para uma encubadeira.

Entra dia, sai dia, entra noite, sai noite. É na hora do café da manhã, do almoço, do jantar. Se bobear, também na hora do lanche. Uma informação estranha, muito estranha, uma prisão, uma soltura, uma chacina, assaltos, explosões. Tiros. Um desaforo. Um telecatch entre ministros supremos, alguma deselegância.

Será que estão se dando conta? Três meses já foram. Mais três tem Copa do Mundo, que era só o que faltava para esse ano; soma mais três e – lembra? – Eleições. Nacionais. Para a Presidência, Governo dos Estados, Senado, Câmara Federal. Seria a hora boa para trocar, renovar, arejar, oxigenar. Seria.

Mas nossas mãos embalam um berço ainda vazio. O que poderia vir como novo se dedica especialmente a infernizar a Mãe Pátria, chutando bem a sua barriga, e nessa gravidez múltipla – põe múltipla nisso – com mais de dez candidatos a herdeiro, um tenta enforcar o outro com o cordão umbilical, tomar as forças, tomar a frente, nascer.

E, pior, parece que todos são gêmeos quase idênticos, para o nosso desespero, nós que esperamos aqui do lado de fora. Querendo saber se é menino ou menina, o tom da pele, se vai nos libertar ou censurar; se vai propor o desarmamento de espíritos, se vai querer estudar e ser alguém ou viver de dar jeitinho. Com quem vai parecer. Queremos ver a carinha, saber de que cor vai ser seu enxoval, sua roupinha, se branca, verde ou encarnada.  Se cantaremos cantigas românticas, ou hinos nas ruas, com o velho refrão: o povo unido, jamais será vencido.

Ficamos aqui torcendo – pelo andar desse andor – que ao menos nasça de parto minimamente natural. Ao menos isso temos de conseguir nesse meio tempo, já que os nossos desejos ainda terão de ficar esperando. O ovo ainda não mostra a serpente.

Não há como negar, contudo, que essa gravidez está bem tumultuada e estressante. Tanto que não dá nem pra desejar comer melancia com pão, ou sorvete de bacon. Temos de nos ater ao arroz e feijão, pondo a mão para cima, louvando se os temos.

Há fantasmas rondando esse berço, vindos de uma espiral do tempo, de 68, 78, 88, por diante, e não são rotações. As farsas se repetem. E nesse futuro-presente vêm ampliadas em redes virtuais, tecnológicas, não humanas, redes que ainda não têm a sua capacidade de destruição totalmente identificada.

Sai pra lá, bicho papão! Dona Cegonha, tenha piedade de nós.

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Marli Gonçalves, jornalista – Que confusão é essa? Que bandalheira é essa? Que gestação é essa, que nós é que sentimos as contrações?

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

Brasil, lépido 2018

ARTIGO – Mulheres, sempre à beira de algum abismo. Por Marli Gonçalves

tumblr_n22lpobkUP1sltk8co1_500Muitas vão ler isso, virar a cara, fazer muxoxo, espernear, negar, dizer que estou exagerando, que não é tudo isso, mas nunca na frente de um espelho. A mais nova ridiculice, misto de tolice com ridículo, é ficar discutindo se qualquer tititi que tem mulher no meio é feminismo ou não. Aliás, ultimamente se afirmar feminista – e eu, já adianto, sou, até porque sei do que se trata – é equivalente a ser uma bruxinha. Errado

Pois repito: mulheres, sempre à beira de algum abismo. Sempre tendo que fazer uma escolha, tendo que se desdobrar especialmente mais, com a corda esticada no limite. Não pensem que é fácil falar tão duro, mas de novo essa semana vamos ouvir muito aquelas frases construtivas que inventaram dizer em nossos ouvidos e só não tão piores como as que aparecerão no Dia das Mães, que aí o jogo é mais duro ainda. O Dia Internacional da Mulher, 8 de março, não foi criado para vender rosas nem batons. É dia nosso, mas em outros sentidos, quando devíamos todos contemplar a situação, inclusive a sua própria situação, se for mulher. Só isso. Não é nem feriado; é simbologia. É dia criado para nunca esquecermos quando outras mulheres antes de nós começaram a se impor. Não precisa mudar nada se achar que está tudo bem. Ok? Calma. Ninguém quer brigar.

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É certo ainda que novas formas sexuais híbridas começam a se apresentar bastante influentes, e mudando a paleta de cores do que é ser homem ou ser mulher. Há variações. No caminho o povo vai se acomodando onde lhe aprouver, tantos homens quase mulheres e mulheres quase homens, numa interessante gradação. Que acomoda a todos.candystriper_pushing_pregnant_woman_hg_clr

Mas repito: ser mulher é mais complexo, essa coisa de ser geradora, fabricante de outros humanos, importa sim. Mas não é fundamental, até porque entre nós há as que não querem fazer ninguém. É mais complexo na coragem, na força que tira sabe-se lá de onde quando acuada, nas escolhas de sofia que faz praticamente todos os dias, nem que seja escolhendo o cardápio da casa, ou a cor de seus sapatos. Se vai prender ou soltar os cabelos. Cheguei à conclusão de que as mulheres sempre têm muito mais o que decidir. O dia inteiro, toda hora. Sinto na pele.

A mulher tem de sobreviver, nascer, crescer, ter orgasmos, ser feliz, bonita e disponível, compreensiva, dedicada, delicada, ao mesmo tempo que está na máquina de moer carne do mercado. Ainda tem que esperar que percebam que é dona absoluta de seu próprio corpo, não está disposta a assédios brutos. Sem autorização, jamais toque numa mulher, nem pegue nos seus cabelos – ela pode se transformar em uma onça. Eu, pelo menos, até afio as garras.

womanHá muitos paralelos. As meninas do movimento #vaitershortinho nos lembram vagamente o que foi a polêmica da minissaia, os 20 centímetros acima do joelho que mudaram uns rumos, desnorteando revolucionários. Hoje são outras coisas as solicitadas e fundamentais. Vamos lá. Outras igualdades, se é que ainda poderá haver algo igual a outro analisado do ponto de vista de gênero.

3d animasi woman playing violin animated human animation could be wallpaper and screensaverVamos organizar melhor essa batucada.

Outro dia li e fiquei muito contente com a notícia de que a Marilia Gabriela vai fazer um novo TV Mulher, reeditar a ideia básica. Vai sair coisa boa daí. Multifacetada, ela acompanhou todo esse tempo a que me refiro, que não é muito, mas já são décadas. Vamos poder conversar melhor – espero que façam as mesmas boas pautas de outrora. As sexólogas também deverão ser muito mais arrojadas do que eram a Marta Suplicy e outra famosa da época, também Matarazzo, a Maria Helena, que lembro como mais conservadora.

Vamos, por favor, continuar comentando, observando, fazendo. Nos encontraremos todas à beira de nossos abismos pessoais, e onde acabamos sempre por mergulhar, no mínimo para ver no que dá.
Mulher é curiosa.

SP, 2016 programmer_woman

Marli Gonçalves, jornalista Estamos em um momento muito pulsante, que não requer divisões, mas homens e mulheres com atitude. Ah, outra coisa, antes que esqueça: se me xingar de feminista eu gamo, entendeu?

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Socorro! Conheça ( e tema) o Oropouche, que pode estar disfarçado pela questão da dengue. Borrachudo é um transmissor. De O GLOBO

Vírus transmitido por insetos pode ser confundido com dengue
Cientistas alertam que Oropouche pode causar metade dos casos suspeitos no Brasil

por Ana Lucia Azevedo

A síndrome viral é dolorosa e transmitida por insetos – O Globo

RIO — O véu cobria toda a cabeça da moça. Ela não suportava a luz. Tinha ainda febre, dores pelo corpo. Um final infeliz para as férias numa praia do Nordeste de uma adolescente de Ribeirão Preto, em São Paulo. Chegou ao hospital como um caso de dengue. Saiu com o diagnóstico de febre do Oropouche, uma síndrome viral pouco conhecida, dolorosa e transmitida por insetos. O caso é um dos dois primeiros do Brasil registrados fora da Amazônia e evidencia a necessidade de vigilância sanitária para síndromes virais novas, como o zika, que chegou sem alarde e agora causa epidemia de microcefalia.

INFOGRÁFICO: Vírus Oropouche é misterioso

A febre do Oropouche é pouco conhecida, mas não incomum. Especialistas alertam que ela pode representar até metade dos casos que se pensa serem dengue no Brasil. É mal notificada. O Oropouche causa surtos na Amazônia brasileira, incluindo Maranhão e Tocantins. Com epidemias recentes no Amazonas e no Pará, esta última com 30 mil casos.

Considerado um dos maiores especialistas internacionais no Oropouche, o professor Eurico Arruda, do Departamento de Biologia Celular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, destaca que a doença não tem chamado a atenção porque, até agora, tem se limitado à Amazônia, onde vilarejos inteiros adoecem quando acometidos por um surto. Do ribeirinho ao político mais importante, todo mundo fica doente, acrescenta o pesquisador.

— Os médicos precisam estar atentos. E o Brasil necessita desenvolver um protocolo para síndromes virais, e não apenas dengue, zika e chicungunha. Estamos certos que de 40% a 50% dos casos suspeitos de dengue não são de fato dengue. Médicos e população têm que ser alertados — afirma Arruda.

Os casos se contam aos milhares no Brasil.

— Contando todos os casos no Norte, a febre do Oropouche é a segunda febre arboviral mais frequente no Brasil, depois da dengue. Oficialmente, desde os anos 60 já foram registrados mais de 500 mil casos no país. Mas devem ser muito mais, porque casos isolados da doença também ocorrem, e não somente surtos, e estes não são notificados ou publicados. Além disso, muitos casos que se pensa serem dengue são, na verdade, Oropouche — salienta.

Isso acontece por dois motivos, explica Arruda. O primeiro é que muitas vezes o diagnóstico é clínico. E, como a dengue é mais comum, o médico aposta nela. O segundo é que o exame sorológico pode ser positivo para dengue numa pessoa que está com Oropouche. Isso pode manter o Oropouche não reconhecido, observa o geneticista Mariano Zalis, diretor do Laboratório Progenética Pardini, que trabalha no desenvolvimento da aplicação de um teste genético para o zika.

A febre do Oropouche causa sintomas semelhantes aos da dengue e, como esta, não tem tratamento específico. Porém, costuma causar mais dores nos olhos e intensa fotofobia. Que se saiba, o Oropouche não é letal, mas causa de três a cinco dias de intenso sofrimento. É comum também a volta dos sintomas após alguns dias da cura inicial, e em torno de 10% dos pacientes desenvolvem meningite.

O diagnóstico preciso dessas viroses é importante para a saúde pública. Por exemplo, uma vacina contra a dengue não surtirá qualquer efeito contra o Oropouche, e somente a redução de casos suspeitos de dengue não servirá como parâmetro de sua eficácia, pois esses podem ser, por exemplo, devidos ao Oropouche.

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Como dengue, zika e chicungunha, o Oropouche também é uma arbovirose; portanto, transmitido por insetos. Mas, no caso do Oropouche, o principal vetor é o maruim ou borrachudo, que na verdade é uma pequena mosca hematófaga, muito comum em regiões próximas a florestas e manguezais de quase todo o Brasil. São abundantes nas florestas do Rio e nas lagoas da Zona Oeste, por exemplo.

Porém, em testes de laboratório, mosquitos do gênero Aedes se mostraram capazes de transmitir Oropouche, o que só aumenta a necessidade de sua vigilância, destacam cientistas como a professora de Virologia Clarissa Damaso, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Temos os vírus, os insetos transmissores, os animais hospedeiros, o manejo inadequado das florestas onde estão os micro-organismos e uma população vulnerável. Some-se a isso um fluxo cada vez maior de pessoas entre estados e países. O Brasil tropical da biodiversidade é também a terra da tempestade viral perfeita.

— O zika evidenciou um problema que se arrasta há anos com a dengue. Somos um país tropical, vulnerável à emergência de doenças novas, e precisamos estar o tempo todo alertas a isso. Boa vigilância sanitária é fundamental para evitar a propagação desses vírus. Quando se instalam, é muito difícil erradicá-los — alerta Clarissa, que integra o comitê da OMS de controle dos últimos estoques de varíola (a única doença erradicada no mundo) e faz estudos de biodefesa no Brasil.

Eurico Arruda alerta que há casos de Oropouche adquiridos fora da Amazônia, inclusive no litoral do Nordeste, o que significa que o vírus está circulando em outras regiões brasileiras. No caso específico da moça adquirido numa praia do Nordeste, chamaram a atenção de Eurico Arruda o fato de os testes serem negativos para dengue e de a paciente ter fortíssima dor nos olhos e estar completamente fotofóbica, características marcantes do Oropouche. O diagnóstico de Oropouche foi confirmado, e a paciente ficou bem, mas o caso representa um alerta importante. A dor forte nos olhos é uma característica frequente em vítimas da febre do Oropouche, mas a doença pode surgir sem esse sinal.

— Essas febres costumam ter algumas características mais relevantes, mas elas não são específicas, e não dá para basear o diagnóstico só nisso. Assim, exantema, isto é, manchas avermelhadas costumam acompanhar infecções pelo zika; dores e inchaços nas articulações são marcas de chicungunha e Mayaro; dores nos olhos lembram Oropouche. Mas nenhuma dessas características é obrigatória, e por isso o teste de laboratório é essencial — frisa ele.

Outro sinal de que o vírus circula por outras partes do país, inclusive no Sudeste, foi a descoberta de um pequeno sagui infectado em Arinos, Minas Gerais. O Oropouche foi isolado do sagui pelos pesquisadores Pedro Vasconcelos e Márcio Nunes, ambos do Instituto Evandro Chagas, em Ananindeua, no Pará.

Há pouco estudo sobre o Oropouche, como, aliás, acontece com a maioria das doenças emergentes. Num estudo piloto em Manaus, um grupo com o qual Arruda colabora pode comprovar como a doença é subnotificada.

— O estudo com pacientes de síndromes febris agudas em Manaus, fora de um surto de Oropouche, mostrou que 20% de 631 pacientes com febre e negativos para malária e dengue tinham Oropouche — explica o cientista.

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O impacto socioeconômico é grande.

— A dor nos olhos e nos músculos do corpo é muito forte. A pessoa não suporta a luz e não consegue se levantar da cama. A doença dura em média até cinco dias. E um terço dos pacientes sofre uma recaída dias depois. Veja o peso disso na sociedade, em perda de dias trabalhados — frisa Arruda.

Ele acredita que a febre do Oropouche esteja subnotificada no país. Opinião semelhante tem pesquisadores como Clarissa Damaso.