ARTIGO – Perdidos no espaço. Por Marli Gonçalves

largeBom seria se fosse ficção científica. Se fosse uma ampla discussão sobre física quântica, vácuo absoluto ou relativo. A narração arrastada de uma concorrida partida de xadrez, o tabuleiro, os peões; os cavalos; a torre; a rainha; o rei. O fim. O xeque-mate. Felizes seremos se, tal qual no Livro das Mutações, I-Ching, os passos dessa luta sejam como uma dança de guerra, mas rogo que tragam ensinamentos para os passos de cada uma das batalhas que se sucederão.

Intuo que não será ponto final, que marca a pausa total, o fim de um tempo, de uma história, de uma revelação. Apenas ponto e vírgula, que dá a deixa para continuar na mesma toada. Tudo muito confuso, nas jogadas, nos jogadores, nas rodadas e nas rodas de conversa. Apenas nos entreolhamos e com olhares ansiosos esperamos na plateia o espetáculo que já sabemos de antemão – haveremos muito o que criticar. Qualquer desfecho trará aplausos e vaias.

Corramos para as montanhas, para algum lugar alto de onde possamos ter vista ampla para o que acontece na planície. E de onde possamos descer rapidamente para interferir, caso haja necessidade.

Não falo desses dias, ou melhor, não falo só desses dias aí, agora, à nossa frente, no nosso nariz. Falo de um todo desmantelado, do quebra-cabeças que cai espalhando suas peças, e acabam se perdendo algumas e que podem inviabilizar qualquer nova montagem. Quais serão os encaixes para cada uma das possíveis alternativas? Ninguém sabe. Nem os que estão se movimentando nos campos de batalha reais, nem os que parecem não querer tirar seus óculos virtuais e preferem viver olhando só o imaginário, o idealista.ovnis na praia

O real é doloroso. Está doloroso e ao nosso redor, e em cada um de nós em alguma forma. A diferença é que quem quer mudar agora, imediatamente, o lado tingido de verde e amarelo, já definiu e elegeu o culpado, o mau governo, esse projeto de poder que definha e se debate, que deixou rastros, provas, ações e desações, tomou medidas, dirigiu as cenas desse filme triste. Filme que mistura gangsteres, histórias de amor, épicos, violência, dramas sociais, cenas manjadas, assaltos cinematográficos, cenas escatológicas e muita, muita comédia, que é o que mais aparece agora no final. Mas tem quem não viu esse filme, ou se viu não entendeu, ou se entendeu quer se fazer de bobo, ou acha mesmo que está tudo bom – e sei lá, é preciso respeitar.

Não há efeitos especiais – e olha que é impressionante a tentativa de usá-los sub-repticiamente – que surtam efeito no público calejado; talvez toque só nos mais fracos ou nos distraídos, que acham que as pessoas que falam nas propagandas com aquelas bocas cheias de dentes brancos existem fora dali, nas portas dos bancos oficiais, nos postos de saúde, hospitais, escolas, abrindo as portas de lindas casinhas com chaves mágicas, e nem vida nem casa.

Não pode haver portas abertas de palácios só para os que aplaudem, que comem na mesma mesa, que estraçalham coxas com apetite, tocam sinos bajulantes. Se chegar à sacada verá lá fora outros milhões de narizes para cima, ouvirá os cantos discordantes, talvez até algo mais de lá seja atirado com revolta. Não adianta nem cercar o palácio com jacarés famintos, nem com cães enraivecidos.

Porque demora-se tanto? Porque todos não vimos bem antes o que já se desenhava enquanto mentiam nos atraindo às urnas, como bois a matadouros? Porque ali já estávamos como agora – sem opções ou caminhos seguros. Uma verde demais. Outro já caindo de maduro. Um abatido em pleno voo. Uma se sentindo com coração valente. Que protagonistas são esses, pior, e que continuam eles os protagonistas dos próximos filmes? Listados no rol de coadjuvantes veremos de novo os mesmos e os piores atores e atrizes atuando nos piores cenários, e às vezes com péssima iluminação.

Não é novela, que se desenrola muito em cima do que o público vai reagindo; se fosse já estaria mais próxima de um final e com a próxima sendo divulgada. É filme. De longa-metragem, talvez com várias sagas, e até de filmes que já vimos.

A luz apagou. Está no ar. Agora precisamos ficar em silêncio assistindo. Tá, pode tossir, comentar ao ouvido de quem está ao seu lado. Só não pode ficar cochichando muito que atrapalha e, por favor, não ria fora de hora, que nunca se sabe quem vai rir por último.

ovnis-19

Dias difíceis, dias cheios de ansiedade, muitas cenas para rodar. Abril, 2016, São Paulo

Marli Gonçalves, jornalista Vou continuar em paz, aqui, tentando dar uma tradução mais ao pé-da-letra possível dos filmes que assisto, com paixão por desenhos animados que duram por toda uma vida e não tem nem final. Só na moral.

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Você tem de ler. Ainda sobre a entrevista de Dilma, uma análise divertida. Mas séria.

FONTE: BLOG DO AUGUSTO NUNES

Celso Arnaldo acompanha o fantástico passeio de Dilma Rousseff e Patrícia Poeta pelo Palácio da Alvorada

 

Celso Arnaldo Araújo

Com um mínimo de treinamento, um guia mirim de Olinda — descamisado, analfabeto, ranhoso — conduziria o visitante no Palácio da Alvorada com mais propriedade. Mas Dilma é a guia oficial quando os convidados da casa são chefes de estado, astros de rock ou celebridades televisivas.

Em maio foi Hebe, tão bem informada sobre a anfitriã/entrevistada que não sabia, nem por ouvir dizer, de sua passagem pela luta armada e pela prisão. Hebe mereceu, portanto, entre outras respostas espantosas para uma presidente da República, a atual dona do pedaço tentando explicar a alma do Palácio da Alvorada:

“É histórico, é um, vamos dizer, símbolo do que é, eu acho, o espírito do povo brasileiro, que é um espírito moderno, mas ao mesmo tempo muito simples. Esse palácio, se ocê olhá, ele é um palácio bonito, mas ele é simples, ele é tranquilo”.

Ok, Dilma disse isso a Hebe Camargo – e, em se tratando dessa entrevistadora, tanto fazia isso quanto uma resposta situando o Palácio da Alvorada na Tríade Vitruviana. Mas domingo era Patrícia – Poeta por sobrenome, jornalista de carreira, apresentadora de um programa que mistura variedades e jornalismo hard no horário mais nobre da maior emissora do país. Mais bonita do que bem formada, mas muito aplicada na lição de casa, PP chegou ao Palácio com um punhado de perguntas – imagine – sobre o fisiologismo do governo, para cutucar a presidente, a danadinha.

Mas, ao entrar no recinto, também se deixou trair pelo fascínio de estar em Palácio. Até seus sofás — alguns, no caso, com um estilão Silvia Design – foram objeto de questionamento na entrevista com a presidente.

Patricia: A senhora já teve tempo de sentar em todos esses sofás ou não?

Dilma: Olha, eu já, viu? Vou te dizer com sinceridade.

Patrícia: Já inaugurou todos, então.

Dilma: Porque quando é mais pessoas eu recebo do lado de cá, quando é menos eu recebo do lado de lá.

Receber do lado de cá, do lado de lá, ficou uma coisa meio “Nosso Lar”. Deve ter sido intencional. O Palácio da Alvorada é o lar de Dilma, o seu Minha Casa, Minha Vida para pronta entrega.

Patricia está diante da primeira mulher presidente. Ou da primeira presidente mulher. De todo modo, o lado-mulher de Dilma é o primeiro a ser explorado na entrevista – mas PP ainda não sabia que, desse lado, Dilma não fotografa bem. Do outro, o de presidente, ela também não sai bem na foto. Juntando os dois lados numa mesma pergunta, é desastre natural:

Patrícia: Como é que é acordar todo dia como presidente da República?

Dilma: É como todo mundo acorda, Patrícia.

Só faltou dizer: abrindo os olhos e espreguiçando, bobinha. Mas, de mulher para mulher:

Patrícia: É ter que escolher, por exemplo, uma roupa, tem que estar sempre muito bem alinhada, tem que se preocupar com isso também.

Não, minha Poeta. Vou para o gabinete de peignoir. Mas Dilma é uma dama, à falta de uma primeira:

Dilma: Geralmente, Patricia, eu acordo cedo porque eu caminho. Ai eu volto e aí você tem de, de fato, procurar uma roupa rápido.

Enfim, uma revelação: a presidente Dilma sofre de sonambulismo. Mas ninguém tem coragem de interromper a caminhada noturna – um pouco antes do laguinho onde já caíram vários fotógrafos, ela desperta. E então volta correndo para o quarto, a fim de não se atrasar para o batente. Outra revelação: hoje, quem, vai escolher a roupa é Patricia Poeta: “Você tem de, de fato, procurar uma roupa rápido”.

Patrícia: Tem alguém que escolhe as suas roupas, tem alguém que lhe ajuda nessa tarefa?

Dilma: Não. Não. É inviável, é pouco eficiente, você tem de dar conta das suas necessidades. Pelo fato de você ter virado presidente, você não deixa de ser uma pessoa e é bom que você seja responsável por tudo que diz respeito a você mesma.

Agora Dilma parece transferir o cargo de presidente para Patricia, mas foi só vício de linguagem. O “você” reflexivo já é quase tão popular na fala de Dilma quanto “essa questão é uma questão muito importante”. E mais um pouco, o Fantástico vira o “Tamanho Único”, do GNT:

Patrícia: É impressão minha ou a senhora tem usado mais saia, mais vestidos?

Dilma: Eu tenho usado mais saia do que antes. Eu poderia continuar usando só calça comprida, mas eu acho que pelo fato de eu ser mulher tem horas que eu tenho de afirmar essa característica feminina.

O companheiro Lula, e todos os presidentes que antecederam Dilma, pelo fato de serem homens, teve horas em que precisaram afirmar sua característica masculina usando calças. Assim é a tradição republicana, muito bem conservada por Dilma. Mas mãe morando no Palácio é a primeira vez.

Patrícia: No Palácio do Planalto é a senhora que manda. E aqui no Palácio da Alvorada, é a senhora ou sua mãe?

Dilma: Acho que nenhuma de nós mandamos. Isso funciona por si só, viu?

“Nenhuma de nós mandamos?” Deve ter mais gente ai nessa construção. Ah, a tia. O netinho Gabriel também está na casa. Além do netinho presidencial, informou PP, o palácio hospedava na entrevista outros nove “bebês” – filhotes de emas que nasceram na semana anterior.

Dilma: Tem uma chocando. É um emo que choca.

Adepta da diversidade cultural, Dilma, na surdina, abrigou um emo no Palácio da Alvorada. O rapaz, coitado, está chocado – os Dragões da Independência implicam com aquele cabelinho emplastrado para o lado. E ele chora o dia todo.

Patricia aproveita a associação de ideias – ema, galinha, galinha, ovo – para uma pergunta culinária:

Patrícia: Qual o seu prato preferido?

Dilma: Arroz, feijão, bife, batata frita e salada de tomate com alface, que era isso que eu comi com a minha infância.

Uma infância devorada, junto com um prato de arroz e feijão. É triste. Não é à toa que Dilma, ainda adolescente, foi para a luta armada. Mas prato puxa prato:

Patrícia: A senhora sabe cozinhar?

Dilma: Eu sei. Algumas coisas eu faço direito; outras, não.

Patrícia: Eu sei uma coisa que a senhora sabe fazer.

Dilma: O quê?

Patrícia: Omelete.

Dilma: Ah, omelete. O problema meu com omelete é que ele gruda. Eu não sou boa de omelete, não. Sou boa de ovos revueltos.

(Um assessor palaciano revelaria mais tarde que, na saída, Dilma tirou satisfação com Patricia: “Você prometeu que não ia falar do omelete. Tive de mentir, para consertar sua pergunta maldosa: também não sei fazer ovos revueltos. Aliás, nem sei o que são revueltos”)

A esta altura, Dilma ficou com vontade de dizer: “Patricia, minha querida, já são quase 9 horas. Vão cortar meu dia. O Gilbertinho se faz de bobo, mas foi bedel na escola de padre e nunca mais perdeu a mania do livro de ponto”. Na verdade, disse a presidente com a ameaça de mais uma pergunta:

Dilma: Você já notou que eu comecei a ficar indócil, não é?

Patrícia: Já, reparei pela perninha, já reparei.

Dilma: Estou indócil.

Patrícia: Está na hora de ir para o Palácio do Planalto, certo?

Dilma: Certíssimo.

Patrícia: A gente pode acompanhar a senhora até lá?

Dilma: Com o compromisso de serem bem rápidos.

Patrícia: Está certo, temos um acordo, então.

Dilma: Temos um acordo, então.

O Palácio do Planalto seria o cenário da segunda parte da entrevista – que versaria sobre política e economia. Dizem que são os pontos fracos da presidente. Mas, em compensação, como se viu e ouviu aqui, a Dilma mulher – para os que votaram na mulher, não na desconhecida e fantasticamente despreparada candidata de Lula – é uma Poeta calada.

Nos vemos no Palácio do Planalto