Denúncia: Em plena avenida Paulista, policial espanca antropólogo. Veja a denúncia. E vamos cantar: polícia para quem precisa, polícia para quem…

Danilo Paiva Ramos, 30, antropólogo e estudante de pós-graduação da USP (Universidade de São Paulo), denuncia espancamento ocorrido durante as comemorações do campeonato.

Veja a violência.

Veja como andamos desprotegidos de quem deveria nos proteger.

Veja como eles estão querendo fazer a Avenida Paulista ficar impraticável para qualquer coisa.

Leia a denúncia.

Envio um relato, abaixo e em anexo, sobre o modo como fui espancado por um
policial da PM ontem a noite na avenida Paulista quando voltava para casa.
Espero que contribuam, de alguma forma, para a denúncia e reflexão sobre o
modo como a polícia vem agindo contra as pessoas de uma forma geral.
Agradeço se puderem fazer circular.

Um abraço,

Danilo Paiva Ramos

São Paulo, 05 de dezembro de 2011.

“A Paulista precisa dormir”

Danilo Paiva Ramos

Na noite de ontem, o que mais me aterrorizou enquanto era espancado por um
PM não identificado na Avenida Paulista não foi a violência dos golpes cada
vez mais fortes em minha mão e barriga. “Cuzão!”, “Seu merda!”, “Filho da
puta!”, “Quer ser espancado de verdade?” eram as palavras que acompanhavam
as pancadas que eu ia recebendo sem ter como me defender. Mas também não
foram as ameaças ou as ofensas que mais me aterrorizaram ontem. O que mais
me assombrou foi perceber, enquanto era espancado, o sorriso e o olhar do
policial que mostravam um prazer maior a cada bofetada. A cada pancada meu
medo aumentava. E foi com espanto que vi o prazer e ódio que cresciam nos
rostos dos policiais à medida que investiam contra qualquer pessoa que,
naquele momento, estivesse com uma camiseta do Corinthians comemorando na
calçada, pacificamente, a vitória do campeonato. Indignado, sem saber por
que apanhava, perguntei o nome de meu agressor. Mais ofensas e ameaças
seguiram-se enquanto ele erguia novamente sua arma contra mim. Afastando-me,
perguntei por que me batia. Ele, então, respondeu: “As pessoas da Paulista
precisam dormir”.

Essa talvez fosse a fala de um “camisa negra”, grupo fascista
que, na Itália, perseguia os operários que faziam greve. Ou talvez a fala de
um policial da ditadura que investisse contra estudantes que lutavam pela
democracia. Mas estranhei muito que o motivo da violência com que acabaram
com a “festa da vitória” que um grupo de pessoas fazia por volta das 23hs na
calçada da Paulista fosse o sono dos edifícios de bancos e empresas. Ainda
sendo coagido pelos policiais, fui conversar com o sargento que liderava o
grupo. Comuniquei a ele que havia sido espancado por um de seus policiais e
que queria saber a razão disso e o nome de meu agressor. Ele pediu que eu
apontasse o oficial. Identifiquei-o. O 3 Sgt LUIZ disse que não conhecia o
policial que continuava a espancar e a coagir as pessoas.

Memorizei a identificação do sargento Luiz e fui a uma delegacia próxima à
minha casa. Quando contei ao delegado minha intenção de fazer um boletim de
ocorrência, B.O., por ter sido espancado por um PM, ele alterou seu tom de
voz. Falando alto e gesticulando fortemente, afirmou que um policial “não
batia por nada” e perguntava repetidamente o que eu tinha feito. “Nada, não
fiz nada! Estava voltando para casa. Saí do metro Trianon-Masp, após
assistir ao jogo com meus amigos, parei durante 5 minutos para ver a festa
que o grupo fazia na calçada. Estava um pouco longe do grupo. Um cordão de
policiais formou-se atrás de mim sem que eu percebesse. Quando virei meu
corpo, já recebi os primeiros golpes. Não fiz nada”. Vítima, machucado e
apavorado, tive que perguntar ao delegado se esse era o modo de tratar as
vítimas em sua delegacia. Afirmei que iria a outra D.P. fazer minha
ocorrência, já que naquela não me sentia seguro. Somente, então, o delegado
começou a tratar-me como vítima. Registrei a queixa, fiz exame de corpo de
delito e aguardo que consigam identificar o sargento e meu agressor. Por
sugestão do delegado, irei à corregedoria da polícia militar para fazer uma
queixa.

Antropólogo, pesquisador da USP, venho acompanhando a violência,
o prazer e a liberdade com que policiais, soldados e autoridades
“competentes” restabelecem a “ordem” na Universidade, na avenida Paulista ou
na Amazônia, onde realizo meu trabalho com um povo indígena. Espancar,
ofender, perseguir, rir, ameaçar parecem ser modos cada vez mais rotineiros
das autoridades que aplicam a coerção física do Estado em estudantes,
torcedores, índios, professores, trabalhadores etc. O prazer que vi no rosto
de meu agressor me aterrorizou. A dificuldade de identificar meu agressor —
causada pela falta de distintivo, pela atitude do sargento que disse não
conhecer seus soldados, pelo comportamento do delegado que insistiu que eu
devia ter provocado ou pela dificuldade de saber de qual batalhão eram os
PMs que atuavam na Paulista àquela hora — me assombra. O riso e o prazer de
meu agressor iniciam-se no motivo banal da “Paulista que precisa dormir” e
terminam na saciação do sadismo com que golpeava meu corpo que, naquele
momento, por acaso — apenas por acaso —, era o corpo de um torcedor
corintiano.