PT 35 anos. Meu artigo especial para o Dom Total está fazendo sucesso lá. Espero que faça aqui também. “Vi nascer a estrela hoje cadente, decadente”

Vi nascer a estrela hoje cadente, decadente

Eu e milhares de outros não podíamos prever que o PT viraria o que mostra hoje ano após ano.
(especial para o Dom Total)
O broche do PT, na época de sua fundação, era com a estrela azul.
Por Marli Gonçalves*
Não queria ter de pedir desculpas. Peço, contudo. Mas, olha, pensa bem, na época eu não tinha bola de cristal; a propósito, ainda não tenho, mas não caio mais numa dessas, já que uma só já valeu decepção para muito mais de metro, para a vida inteira, incorporei a descrença e a dúvida. Olho a política com mais clareza hoje. Acreditar, como aconteceu naquela época? Não mais. Mas isso não foi hoje, ontem, agora. Foi já há muito tempo atrás, décadas! Não entendo nem como chegaram até aqui, a esses 35 anos. Por mim…Para mim… já teria se esfacelado bem antes. Conto uma história. Era uma vez…Os caras nos pareciam tão bem intencionados, acho até que eram mesmo, e eu era tão sonhadora, 20 anos, querendo mudar o mundo, engajada, jornalista maravilhada com as novas ideias, com o feminismo, com as ideias libertárias, guerrilhas rurais, guerrilhas urbanas, ideais socialistas, a busca pela igualdade social! Aprendi, e digo aprendi muito, enquanto lutava pela “anistia ampla geral e irrestrita” e os visitava no Barro Branco, onde ouvia as histórias da boca de quem as tinha feito, sobreviventes das chacinas executadas pelo Exército e polícia política, prisioneiros. Esfolados, mas vivos. Todas as variadas sementes de um partido de esquerda que germinaram assim que os portões foram abertos com a anistia. Muitos deles não nos decepcionaram, se mandaram logo, e nos gratificam com suas ideias e seu trabalho e certamente estão por aí até hoje, moderados senhores, alguns bons amigos meus.

Assim era: tanta gente legal, militante, culta, vivida, intelectual, inteligente, criativa, guerreiros, todos, apoiando! Nesse ninho nascia o PT.

Foi como aconteceu. Assim, o assunto central desse artigo chega para se apresentar: eu sou uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores, em 1980. Tipo ativa. Tipo eutavaláPT: Eu fui, se tivesse sido show de rock. Ajudei a angariar assinaturas para o diretório de Cerqueira Cesar, região central aqui de São Paulo. Saía por aí, para lá e para cá, tipo vendedora porta em porta, com aquelas fichinhas de filiação na mão, convencendo gente da resistência, para podermos enfim fundar aquele partido dos sonhos – cada distrito precisava se firmar com um número de filiados para existir legalmente. Botei até minha mãe nessa, coitada. A estrela que até hoje se equilibra como símbolo do partido e que, 35 anos depois, parece cadente, estava em buttons, gadgets. Eu tenho um broche com a estrela azul; sim, azul, capaz até de tentarem negar isso hoje, se é que ainda tem alguém de bem dessa época lá atrás e que ainda não tenha percebido a roubada que o partido virou.

Um homem de boa lembrança foi um dos gurus dessa criação partidária na minha região: o sociólogo Vinicius Caldeira Brant (1941-1999). Ele tinha participado de organizações que, para mim, os nomes e letrinhas soavam como música atraente naquela época: Ligas Camponesas, MRT, AP, CEPAL, UNE, CEBRAP. Sua figura magra, inquieto, cabelos com brancos e fios longos e esganiçados, era enigmática daquele tempo de luta, quando ainda nos arrastávamos fora de um ditadura cruel de tantos anos, mas que botava as manguinhas de fora de quando em quando, se debatendo ainda mais alguns anos para não ir embora de vez oficialmente, o que só aconteceu mesmo lá pelos idos de 1985.

“Repito: minhas desculpas, nossas desculpas. Eu e milhares de outros não podíamos prever que o PT viraria o que mostra hoje ano após ano: sem noção e que envergonha não só quem acreditou no sonho, mas todo o país”.

Mas não era só ele. Tinha a Bete Mendes, atriz de sucesso, estrela global, ativista pela anistia e cultural, uma das primeiras a pensar numa lei que ajudasse a Cultura (depois a conseguiria, como deputada federal pelo PT, a Lei Sarney, que foi o primeiro “nome” da atualizada e sempre criticada Lei Rouanet). Bete Mendes foi uma das tônicas finais para que não só eu, como muitos outros, percebessem no que é que o PT já havia se transformado poucos anos depois de sua criação – fechado, monolítico, diversionista, careta do ponto de vista comportamental, atrasado com relação a qualquer amanhã. Bete Mendes foi expulsa do partido porque votou a favor da candidatura de Tancredo Neves, ainda indireta, mas obtida com esforços.

Aquele líder barbudo e corajoso de São Bernardo foi se transformando. Poderia fazer uma animação desta transformação, que começou nos charutos e whiskys tomados na Boite Gallery às inúmeras tentativas frustradas até que conseguiu a presidência, já neste século. Hoje vocês estão vendo. E o resto já sabem o que aconteceu.

Repito: minhas desculpas, nossas desculpas. Eu e milhares de outros não  podíamos prever que o PT viraria o que mostra hoje ano após ano: sem noção e que envergonha não só quem acreditou no sonho, mas todo o país.

Meio por sacanagem minha (que a botei, mas nunca a tirei), mamãe, que já perdi há 12 anos, até o fim da vida reclamava muito a cada campanha daquelas porcarias que chegavam no nome dela pelos Correios, referindo-se aos panfletos do PT, santinhos e jornais. Eu só ria. “O que é que o pessoal do prédio vai achar de ver essas estrelinhas? O que vão pensar de mim?”, resmungava, rasgando tudo imediatamente.

Vejam que a coisa não era nem um quarto dos escândalos e do que é hoje. Nem um terço desse tipo rezado e guardado por eles nestes últimos anos no poder maior.

ARTIGO – “Encurralados”, por Marli Gonçalves

people-angryman2haddawayOlha para um lado, para outro. Aí vai atravessar e uóóóim, o trem tira uma fina. Estamos assim, paralisados, sem saber para onde ir, quem apoiar, o que apoiar, nem mesmo se é para apoiar alguma coisa. Em São Paulo o problema é pior: travou. Fisicamente, na prática a cidade já está inviável

Quer saber o que o prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, anda fazendo? Bem, além de anunciar meio chorando desanúncios de tudo o que prometeu sorrindo em campanha, toma medidas para atrapalhar ainda mais, e com explicações que beiram o stand-up. Uma delas umas tais faixas exclusivas para ônibus. Ideia louvável, não? Claro, mas se existisse lugar onde colocá-las, não feitas “porque sim”. Lembram a máxima de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço? Pois bem: foram lá com umas latas de tinta e pintaram as faixas, tá? Aqui tem de passar o ônibus. Parece aqueles programas de comédia, mudos, que os caras vêm, pintam uma porta, abrem e entram. O cartunista Juarez era um craque nisso, todo domingo, no velho Fantástico.

Saturação total. Mandaram todo mundo comprar carro, e nada de planejar o sistema de transporte coletivo e circulação; embaralharam tudo de vez. Todos os dias dá nó, entre 150 a 200 kms de lentidão na São Paulo que não pode parar. Parado. Não tem para onde escapar – conheço muitos atalhos, e não tem jeito. A gente fica preso. Ou melhor, encurralado. E os motoqueiros malucos, as ambulâncias, arrastão, resgate, os carros de polícia (além dos engraçadinhos que passam atrás), mais uma ou duas manifestações, nossa nova média diária, todo tipo de obstáculos urbanos, forçam a passagem e pronto! A tal Lei da Física, dos dois corpos…, revogada. Peguei duas roubadas dessa essa semana. No rádio só a infeliz Voz do Brasil, e me apavoro observando o entorno: cidade escura, suja, placas tortas, sujas, cidade feia, descaso de coisas quebradas.

UK_Roundabout_8_CarsMas peraí que esse texto não é contra o moço meio sonso, que fica aguardando ordens de cima e que ainda não tomou posse, esperando o tal Arco prometido, e que não é íris! É sobre nossa situação geral. Sobre o momento político, protestos, a economia em derrocada, sobre a paralisia. Não dá para, sei lá, pensar nem dois dias à frente, menos ainda programar investimentos – e, por conseguinte, qualquer ideia de consumo e/ou alegria. O entusiasmo dos protestos – teve gente que brigou comigo porque “como é que eu não via as maravilhosas medidas dos congressistas, da Dona Dilma”? – sendo trocado por decepção na medida em que a pessoa se informe direito. Tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Mal acostumado com a boa moda inicial, qualquer protesto que tenha só 50, 100 pessoas é completamente desprestigiado. A não ser que os meninos maus, vestidos de pretinho básico, à frente, quebrem tudo ou ameacem – para virar notícia. Eles entenderam isso muito bem e mandam ver.

A verdade – lá vou eu!- é que não vejo mais nenhuma liberdade muito grande nas manifestações. Elas, agora – repara – têm muito mais polícia do que manifestantes. São tantos os policiais com cara de bravo que sufocam as passeatas, emparelhando dos dois lados das caminhadas e à frente, e atrás. Por cima. Não dá mais nem para ler as faixas. Ah, parece que ainda tem de avisar com antecedência para que o trânsito seja desviado.

Enfim, não é mais protesto – é evento festivo na rua; a espontaneidade, que foi a parte melhor do levante, já era. Tudo bem que sou, claro, contra quebra-quebra, mas não venham me dizer que o que estamos presenciando é liberdade de reunião, especialmente me referindo a São Paulo. Não é só o povo do mal que está cercado, mas todos os manifestantes. E daí para murchar tudo é um passo só.

animated-kids-crowdPior ainda é que já nem sabemos mais o que pedimos. Nem porque pedimos. A qual comparecer, qual engrossar. Os meninos, novidade, têm combinado cada vez mais esses encontros para a noite, muitos varando a madrugada. Virou um programa legal, barato, animado, e ainda dá para zoar as “minas”. Fora que tem segurança e a possibilidade de um “barato” com gás de pimenta gratuitamente distribuído.

Em junho quando pensava no cartaz que levaria, fui fazê-lo e não coube no papel. Era contra tanta coisa que protestávamos que viramos todos momentaneamente anarquistas. Fora isso, Fora aquilo!

Mas, olha que péssimo: estou vendo a hora que vai aparecer uma manifestação, marcha, concentração ou assemelhado para pedir é que parem as manifestações. Tudo acontecendo porque um grupo político está pisando no calo do outro, para ver estrelas e pulos dos gatos dos balaios. Pisando nas asas, para que fechem o bico curvo e colorido. Agora o silêncio cairia bem para eles.

Encurralados, estamos. E encalacrados.

São Paulo, 2013Marli Gonçalves é jornalista Sete de Setembro se aproximando e uma grande dúvida aonde isso vai dar. Se vai dar. Ou se vai só bater no muro de uma rua sem saída.

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