ARTIGO – Quanto mais a gente reza…, por Marli Gonçalves

…mais assombração aparece! Bem, claro que já ouviu essa expressão. Certamente já a usou também. Só que nesses dias esse terror combina com Halloween, Dia de Todos os Santos, Dia dos Mortos. Brincadeiras ou travessuras?

É impressionante: não param de acontecer coisas esquisitas, como eleição de postes, busca de jornalistas para ser apontados como culpados, como se culpados fossem eles pela condenação de certas pessoas, policiais e bandidos em guerra de bang-bang total nas ruas, justiçando sem lei, administradores incompetentes que preferem negar os fatos a resolvê-los; brigas de facções de todos os tipos, cores, armamentos e tamanhos. A sequência de três dias desta semana combinará com esse clima de apagão geral.

No dia 31 de outubro, Halloween, a gente se veste de bruxa ou bruxo, feiticeiro com caldeirão, põe máscaras, e acende a lanterna de vela dentro da abóbora com cara (o Jack)- até porque é capaz de precisar mesmo. A luz pode apagar geral, como anda ocorrendo nas nossas barbas, bigodes, eriçando nossos pelos como os gatos pretos de olhos amarelos das histórias de terror.

Dados certos resultados e encaminhamentos políticos esperados vamos soltar morcegos nos castelos assombrados. Vamos ouvir uivos e correntes arrastando. Lamentos pelo que deveria ter sido feito e não foi – daí a derrota. Talvez a gente precise usar a vassoura para enxotar gente chata – aliás, a origem da expressão que “quanto mais a gente reza, mais assombração aparece” – ou para voar para bem longe.

Com o fim do período eleitoral, deve acabar a impressionante e verdadeira saga do saco de bondades a que assistimos nos últimos tempos, batendo nas portas, tocando a campainha e fugindo, juros baixos, isenção de IPI, promessas de contas de luz mais baratas, e de crédito ou empréstimos – parece tão fácil na propaganda, sopa no mel, tirar pirulito da criança. Só que se não tem almoço de graça, lembre que eles só adoçam nossas bocas quando querem alguma coisa em troca.

E, como dizem, quando não precisam agora vão poder tocar o terror – oficial e extra-oficial. Municipal, estadual e federal.

Temo, em breve – fora das datas – ver mortos-vivos em andrajos nas ruas se as bolhas estourarem, bolhas iguais às que aparecem quando a gente usa sapato novo. Só que o calcanhar será outro. E as bolhas, maiores. Bobeou e o Papai Noel vai aparecer vestido de Drácula para sugar ainda mais o sangue dos devedores, os inadimplentes que não se comportaram bem durante o ano, não pagaram suas contas direitinho, as contas do consumo que lhes foi apresentado de forma tão irresponsável, e que coitadinhos ainda ousam mandar cartinhas pedindo presentes. Fora que está tão chata essa discussão de kit-gay, homofobia, religião, que as renas vão pensar duas vezes antes de sobrevoar nosso país.

Mas nem tudo acaba mal, nessa noite que prepara a chegada do outro mês. Amanhece o dia 1º de novembro, de Todos os Santos, a nossa cara, que mistura alho com bugalho, igreja com terreiro, Miami com Copacabana, chiclete com banana. Eu quero ver a grande confusão.

Finalmente chega o feriado, dia 2, Dia dos Mortos. Mas aí a gente vai lembrar que não vive lá no México, onde essa data é festa, toda colorida, porque o povo se arruma e se prepara para receber a “visita” dos que já foram, e distribuem caveirinhas de açúcar.

Aqui a moçada resolveu usar a caveirinha de enfeite, em tudo, repare – do chique ao popular, até em roupa de criança. Caveirinhas até meio viadinhas, no bom sentido, com strass, lacinho, e até sorriso (!). Muito esquisito: um símbolo que traz más lembranças, como a do Esquadrão da Morte, Scuderie Le Coq, que a usava, praticando extermínios parecidos com o que novamente acompanhamos placidamente.

E, continuando a guerra, as mortes que estão acontecendo nas ruas, tantas chacinas para lá e para cá, manchando tudo de sangue, ainda vamos ver é muitos fantasmas.

Bem nos nossos bigodes. Outro símbolo que anda na moda, mas eu ainda não descobri por que. Pelo Sarney é que não deve ser, ora bolas!

São Paulo, onde se vende de tudo, 2012

Marli Gonçalves é jornalista As meninas boazinhas vão para o céu. As meninas más vão aonde querem. Essa é a estampa de um lado e de outro de uma de suas camisetas prediletas.

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ARTIGO – Frenéticos de toda sorte

Marli Gonçalves

Você tem o hábito de olhar para as coisas e pessoas ao seu lado, ou do lado de fora das janelas? Repara na azáfama que nos faz parecer um bando de formiguinhas laboriosas? Registra algumas destas cenas e nem sabe bem por causa de quê? Será que é essa velocidade o que está nos atropelando?

Quase todos os dias eu a vejo. Usa uns óculos de armação pesada, baixinha, tem pernas bem grossas que se raspam no andar e parece um tanquinho no passo célere e constante. Está sempre de shorts. Engraçado é que eu a vejo em todos os caminhos das imediações – eu mudo o caminho, mas ela está lá, ou de dia ou de noite. De costas parece uma menina, mas um dia eu quis ver mesmo como era e, surpresa, não é jovem, e não para nunca, não se detém, não olha para os lados. Deve andar, andar, andar, dezenas de quilômetros. Não é pela forma, porque está sempre igual, ano após ano, raspando as pernas duras e volumosas entre as coxas. Será que ela só relaxa assim?

Tenho pensado em formas alternativas de relaxamento e em como anda difícil conseguir descansar de verdade. Nós, jornalistas, temos o problema de levar nosso trabalho na cabeça, tal qual Carmen Miranda, mas são outras bananas e chocalhos que nos pesam. Então é como se trabalhássemos o tempo inteiro, e não sei se quem não tem o trabalho intelectual consegue entender isso. Somos como os pintores, os poetas, os criadores – nossa inspiração está no viver, nas ruas, nos sons das sirenes. Não dá para ser diferente, e desista se não gostar de carregar esse fardo.

Pensar cansa. Não cessa. Cansa. Com a internet piorou. Apareceu um monte de maquininhas substitutas, parafernálias e seus aplicativos. Morreu a recadeira, a secretária eletrônica que piscava (ou não) para a gente quando abríamos a porta de casa. Hoje ninguém mais deixa recado nem na caixa postal do celular. Continua procurando você, no fixo, no Face, no MSN, GPS, Skype, Viber. Às vezes me sinto caçada, sem escapatória, vigiada. É o tempo inteiro pensando no que acontece, nas soluções ou falta de soluções, nas respostas às perguntas que virão. No que vai ser e no que vou ler ou escrever, se efêmero será ou quão profundo calará para alguém.

A minha é uma vida de cidade grande. Eu e outros tantos milhões de agitados.

Você que está aí lendo, talvez no meio do mato, defronte de alguma praia, ou numa vila tranquila – talvez até esteja aí justamente porque cansou ou nem quis pagar para ver. Pode estar também entre os “eleitos”, aqueles que nasceram voltados para a Lua, quando todas as coisas fluem suaves para os seus braços. Delícia ter mais tempo para
pensar, soltar a cabeça. Você faz isso, aproveita?

Nesses frenéticos dancing days estamos instados à sofreguidão. Uma notícia bate a outra. O ditador é morto em praça pública; e a praça pública está ocupada em vários países; o carro-forte faz puff com 10 milhões; declarações vão e vêm, entre acusados e acusadores; motoristas bebem muito e matam guiando as suas armas potentes e tecnológicas de quatro rodas, e que por isso mesmo requerem mais apuro e equilíbrio, o que falta aos bêbados imprudentes em apuros. Tudo é touch screen, 3D, eletrônico, smart, sem fio, mas os comandos continuam humanos e falhos.

Como se distrair? Ouvindo uma música, lendo um livro. Sim, mas onde, se há barulho e agitação partout, e se pode haver uma arma apontada para sua cabeça pela janela aberta, ou uma invasão de mercenários sem qualquer credo porta adentro de sua casa?

Pensar em descansar agora até me faz rir de mim mesma. Vê se isso é hora de pensar no assunto: pleno fim de ano, dias não tão iguais aos outros porque já exigem mais. Resultados, balanços, fechamentos, planos, prospecções, definições. Cobranças e pagamentos. Novas dívidas.

Você já vê isso espalhado nas ruas de todo o mundo, planeta que gira junto em seu padrão globalizado. Novembro está na porta, cheio de datas. Tem até proclamação. Além de mortes e mortos, que passaram pelas nossas vidas, nos antecederam neste chicote maluco, nem sempre tão colorido como o mexicano.

Vou escolher a melhor data, a do dia primeiro, Dia de Todos os Santos. Só apelando para eles.

São Paulo, quase travando, quase parando, uma cidade quase, 2011. (*) Marli Gonçalves é jornalista. Radar sempre ligado. Operando com comandos visuais, sem piloto automático. .

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