Comprazer-nos-emos até quando? Por Marli Gonçalves

tumblr_n99zm3zxz61qmzkw1o1_400Eu tenho-me comprazido. Tu tens-te comprazido. Ele tem-se comprazido. Nós temo-nos comprazido. Vós tendes-vos comprazido. Eles têm-se comprazido. Comprazer, em pretérito perfeito. Comprazer, em todas as suas conjugações: exercitamos esse verbo essa semana inteira. Que está acontecendo? Estamos descontando neles nossos piores instintos?

Estamos. Estamos sim, e como estamos! Troçando com a nossa própria desgraça. Não deixa de ter explicação de alguma forma orientarmos nossa raiva para esses caras porque nos parece que se estamos nessa pindaíba é muito por conta desse tanto que o país foi roubado, saqueado. A gente já sabia ou desconfiava de vários deles. Mas agora eles estão sendo presos e expostos em praça pública como troféus de caça. Conheço gente que adoraria ter a cabeça deles empalhada pendurada na parede.

Está havendo exagero – não se pode ficar remoendo, incitando mais ódio do que eles até já merecem espontaneamente; não dá para ficar feliz com o que está acontecendo. Não tem sentido. Não faz bem para saúde. É cruel. Uma energia ruim. Embota os pensamentos, nos torna rudes, e já vem levando a atitudes fundamentalistas, reacionárias, intransigentes. Não resolve exatamente a questão.

Por exemplo, o Lula. Ele já está preso, não percebem? Imagina ele flanando lindo e maravilhoso fora dos domínios dos seus seguidores, que, aliás, estão cada vez mais escassos ou porque vêm se tocando ou porque já estão até presos mesmo? Não. Todos os amigos estão no círculo de fogo; de fora sobrou só o advogado, o seu compadre. Ele não pode ir mais a lugar algum sem que os fantasmas e as perguntas não respondidas o sigam bem de perto. Todos os dias lá pelas seis da manhã temer que a Polícia Federal faça toc toc em sua porta? – Acho estranha essa praxe da PF, meio maldade. Deve ser porque os pegam de calça curta, chinelão, remelinha, barriga vazia. Esposas sem maquiagem.

(Fico boba de ver que a Dilma é tão desimportante que vem dando sopa lá pelo Rio de Janeiro, e nem atenção chama mais; nem para ser acusada serve. O que lembra que sempre me incomodou muito a impressão que tínhamos dois, uma presidente eleita e um presidente operador, que ela expressamente cumpria ordens do tal grupo político agora desmantelado).

aplausMas, voltando ao nosso verbo, não te comprazas, não se compraza, não nos comprazamos, não vos comprazais, não se comprazam em ver as pessoas sendo esculachadas. Tá bom, exemplo: Sérgio Cabral preso, provas contundentes, tão cedo visivelmente ele não sai das grades, preso por dois (!) juízes, levantamentos completos de malfeitos. Ok.

Precisava ter sido divulgada pela polícia aquela foto dele com cabelo raspado, uniforme de presidiário? Que ele comeu pão com manteiga? Arroz com feijão? Eu penso que não. Se tivesse sido “descoberta” pela imprensa, tudo bem que reportagem é sagrada, mas aquela foto foi divulgada, dada, pela polícia! Ouvi uma jornalista dizendo que ele ”acessou” carne na hora do almoço.

Por favor, façam atenção. Isso não está certo. Não é sério. O próprio juiz Sergio Moro tem sido muito mais condescendente e quando assina suas ordens judiciais sempre ordena discrição e que o preso tenha os seus direitos garantidos.

Aquelas cenas do Garotinho se debatendo não fazem parte desse pito: são jornalísticas. Ele (e sua familinha esperta) nos deu de propósito, que aquilo não dá ponto sem nó. Valeu ver aquela teatral apresentação à beira da ambulância, perceber que ele mentiu obviamente com a ajuda de muitos para não chegar lá em Bangu, e o que, vejam só, acabou conseguindo – isso precisa ainda ser bem analisado. Que tentou subornar juiz, e que ainda vamos ver e saber muito de suas artimanhas. Com essas cenas, nós comprazemo-nos.

Comprazamo-nos, sim, mas quando vierem as soluções. Por enquanto o desmonte está só no começo. O que está ruim pode piorar porque estamos ligados também numa tomada global e aquele poste loiro que plantaram no país mais poderoso do mundo pode sim, infelizmente, nos trazer ainda muitas surpresas.

Pensando bem: esse lá é um cara que parece comprazer-se em ser desagradável.

aplausos

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Marli Gonçalves, jornalista – Que nós nos comprazamos, mas no bom sentido da palavra.

SP, 2016, redemoinhos políticos

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ARTIGO – A política dos bordões. Por Marli Gonçalves

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Virou modinha. Mudou o soluço. Engasgou? Fora Temer. Bateu o pé na quina da mesa? Fora Temer. Vai lançar algum produto? Não se esqueça de levar a plaquinha Fora Temer. Procurava algo para estampar sua camiseta? Fora Temer. Estava passeando na rua e teve vontade de gritar? Fora Temer. Acabou o papel? Fora Temer. Poesia? Amar sem temer

  Creio que esse seja agora o novo mantra, a senha que se deve dizer para circular em alguns meios – se o evento é grande, se for relacionado à cultura melhor ainda, se junta mais de dez, plaquinhas e jogral, pode até chegar a virar notícia na tevê. Ajuda na divulgação. Por exemplo, dizem até que o filme é ótimo, mas onde quer que esteja passando Aquarius haverá alguém falando as palavras up to date e isso vem animando bastante a bilheteria.

São milhões de citações na internet, centenas de memes. O negócio, admitamos, pegou. E o nome do cara ajuda: temer, temor, tremer, tramar.

Outro dia fui bisbilhotar uma passeata de protesto dessas já rotineiras, tranca-rua. Quem me conhece sabe que adoro um protesto – oposição sempre, si hay gobierno soy contra. Me preocupou ver a mélange de temas, difusos, tanto como ocorreu em 2013 e que acabou dando em nada – ninguém sabia se era por centavos, por passe livre ou contra o governo de então, ainda Dilma versão 1.

Num bolinho de gente vi Fora Temer – claro; e Volta Dilma, mais uns Não vai ter Golpe (?!?); mais Diretas Já. Ultimamente mais uma palavra de ordem se aboletou: “Pelo fim da PM”, em geral jogada direta e provocantemente aos policiais que até trincam os dentes.

Muito vermelho, a forma era uma só, quase homogênea, uma maioria de estudantes se divertindo, paquerando, tomando muita cerveja (agora os ambulantes acompanham o movimento), caminhando e se imaginando lutando pelo país. Beleza. Na frente, outro grupo – esse com roupas escuras, munidos com escudos (!) de madeira, pedaços de tapumes, lenços e toucas ninja escondendo o rosto, um arremedo de guerreiros do apocalipse, os tais black blocs. Garotos e garotas mirradinhos, desmilinguidos com cara de mau. Podiam ir ser punks de verdade, fazer música, produzir algo de bom.

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Carimbo na avenida Paulista

Volitando em torno disso tudo, centenas de policiais e nas imediações, prontos a entrar em ação, mais carros de choque e patrulhas especiais. Maior climão.

Um chiquê, diriam blogueiras de moda: muitos com máscaras presas em volta do pescoço, máscaras de respirar tipo de guerra, impressionantes, sabe aquelas? A imprensa também usa, assim como capacetes, umas tentativas de blindagem contra a repressão.

Capítulo especial, coitada da imprensa, acaba tendo que se blindar melhor mesmo, porque apanha e é atacada tanto pelos manifestantes quanto pelos policiais. Jovens repórteres que, animados, sentem-se em uma verdadeira cobertura de guerra. Gás para tudo quanto é lado, bombas, quebração, fogueiras de lixo das ruas, material que aliás não falta em lugar nenhum aqui em São Paulo.

Já vivi para ver tudo isso e muito mais e saber que um fósforo se torna muito mais inflamável nesse caldo, e essa expectativa fica no ar durante todos os protestos. Um infiltrado maluco pode direcionar todas essas energias para promover o mal e outras intenções debaixo de bandeiras das torcidas organizadas por eles lá no meio.

Tem coisa mais banana do que defender um governo, seja lá de quem for? Muito menos um que já era, já foi. Que detonou o país, fez tudo errado. Caiu no rastro de rabo, as tais pedaladas, o álibi caído do céu para nos livrar mais rápido do abacaxi.

Falando sério: o Temer veio no pacote junto com esse abacaxi, não adianta tentarem omitir isso dando a ele a pecha que parece título de novela mexicana – O Usurpador. O cara era a única saída institucional. Aceita.

Fora Temer, ok. E aí? Pergunto isso não porque goste da pessoa, mas porque ando vivendo na realidade, torcendo para que as coisas melhorem, e o que vejo não é nada animador. Se as contas da campanha forem rejeitadas, ele cai – e mesmo já caprichosamente jogadas para o ano que vem qualquer hora essas contas serão julgadas.

Alguém acaso tem alguma ideia brilhante, avista algum quadro político que poderia ser a mão libertadora, pacificadora, a nos levar para a luz?

Eu não vejo, ao contrário. Por favor, se souberem de algo, de alguém, avise os outros! Parece que o Papa, entre as poucas unanimidades, não quer se mudar para o Brasil.

Um bordão sozinho não faz nem nossa primavera, vocês verão. Pode é sobrar bordoadas para todo mundo.

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oculos fendiMarli Gonçalves, jornalista – Inquieta e, pior, cansando dessa brincadeira chata que virou a política nacional.

SP, SOS, 2016

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ARTIGO – Acabou chorare. Por Marli Gonçalves

Acabou chorare

Por Marli Gonçalves

Resultado de imagem para cry animated gifsEstá engraçado. Bateu o vento da humildade e da reconsideração. É um tal de pedir desculpas, olhos marejados apertadinhos e promessas de que nunca mais isso ou aquilo…Resultado de imagem para cryiNG animated gifs

Quando a gente é criança e apronta alguma fora da ordem tem todo o sentido botar as mãozinhas para trás, fazer cara de arrependido, com o pé meio virado para dentro, prometendo nunca mais, não faço mais. Morrendo de medo do castigo que pode vir, ou mesmo das palmadas que já levou.

Essa semana, no entanto, foi um festival de políticos ou correlatos emocionados, prontos a ser imolados por seus erros admitidos em praça pública. Claro, em troca de – adivinhe! – o seu perdão (ou pena). Adivinhe de novo! – Em troca de seu voto. Ou mesmo para disfarçar ter falado mais da conta. Ou ainda para desdizer, uma atividade muito praticada no poder, seja qual for ele, assim como voltar atrás, quase uma modalidade olímpica, velozmente.

Vimos o ex-ministro da Justiça, e atual advogado de todas as causas perdidas, todo grandão, todo desajeitado, olhos marejados, vermelhos de descascar cebolas, reclamar da advogada arretada que falou dos netos da ex-presidente para justificar a sua retirada do Palácio.

Vimos a advogada arretada, por sua vez, emocionada e prestes a ficar em prantos defendendo sua tese em voz alta, fazendo ressalvas de desculpas, porque o alvo era uma mulher. Mãe. Avó. Essas conversas fiadas.

Toda hora aparece a Marta Suplicy piscando olhinhos azuis aqui na minha tevê. Mea culpa mea maxima culpa. E olha que a lista dela não é brincadeira, dá voltas no quarteirão: criação de taxas, chocar o ovo Haddad que botou no seu governo para se criar, suas muitas frases antipáticas, irônicas e infelizes, e o fora dos foras, a de aceitar que usassem a pergunta – É casado, tem filhos? – na campanha contra o Kassab.

Lembrou você, por acaso, tantas vezes quanto eu, da expressão “lágrimas de crocodilo”? Certamente que sim, se estava acompanhando o desenrolar final do novelo e da trama em Brasília, aquela votação que pareceu que ia, mas não foi – botaram água na fervura quando dividiram crime e castigo. Houve crime, mas não tem castigo; uma nova obra, ou melhor, frutinha, jabuticaba exclusivamente nacional, criada e aprovada em minutos por senadores vacilantes que também deviam estar fazendo fila e nos pedindo desculpas, mas não perderemos por esperar. O dia deles chegará.

Sabe por que chama assim? Lágrimas de crocodilo? Porque o bicho lagrimeja enquanto saboreia sua presa; lacrimeja, todo falso, mas é por causa de uma glândula ativada quando abrem toda aquela bocarra para comer mais rápido, prazerosamente. Tipo também o Lobo Mau que tem aquela boca enorme para?…te comer.

A analogia é clara. Estamos nós aos prantos. Buá Buá.

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oculos fendiMarli Gonçalves, jornalista – Anda estranho se emocionar com o que andam fazendo ou prometendo que farão qualquer hora dessas.

São Paulo, vai mesmo ser difícil votar, 2016

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ARTIGO – A voluntariosa. Por Marli Gonçalves

llorarcrunchPassamos dias ouvindo falar maravilhas deles, lembrados e homenageados na abertura e no encerramento, aparecendo sempre felizes, cordatos e sorridentes, mesmo quando obrigados a usar uma roupa horrorosa como aquela dos que entregavam as medalhas. Disseram até que o sucesso do evento se deveu muito a eles, aos milhares de voluntários que participaram da Olimpíada e que ainda ouviremos falar atuando na Paraolimpíadas.

Palavra positiva, ato positivo, merecedor de elogios, tudo o que se faz de oferecimento, de bom grado e boa vontade nesse mundo tão cheio de egoísmo e tristezas é bom motivo para reconhecimento. Pensei na palavra também como singular, desprovida de bens, desinteressada, perambulando por aí à procura de alguém que precise de alguma ajuda. Os voluntários normalmente são seres quase invisíveis. Foi importante vê-los materializados, brasileiros e estrangeiros, mais de 50 mil inscritos, entrevistados, fichados, vasculhados, que tínhamos medo de ataque, de infiltrados, lembra?

Voluntários são também alguns movimentos, do nosso corpo, por exemplo, quando repetimos instintivamente reflexos, que, contudo, também podem ser involuntários para confundir o cérebro, de onde saem todos os comandos.

Mas pega a palavra daqui, estica ela de lá, puxa para cá, não é que acabei por chegar à política nacional? Nos novos voluntários da pátria? Estamos cheios deles, todos agindo em nosso nome, juntos e misturados. Afinal, não é bolinho ficar ali num grupinho ardiloso e visivelmente minoritário sentado juntinho na primeira fila defendendo há meses um legado fracassado, tentando atrapalhar qualquer bola quicando no gol, e às vezes até esporte virulento, exercício de chatice, lance teatral, bola cantada e ensaiada. Um mini coro, que já integra o folclore. Narizinho, Lindinho, Jardim de Infância, andam cheios de hematomas de tanto apanhar nos plenários da vida.

E tudo isso, para defender quem? Nada menos que A voluntariosa, que fez e aconteceu, ou não fez, não viu e aconteceu. Avisada, deu de ombros. Ignorou aliados e desalinhados. Caprichosa, teimosa, imperial. Assistiu o país indo para o ralo e, se fizermos as contas nos deixou completamente sem governo praticamente desde que assumiu o segundo mandato, em mentirosa eleição. Não houve dia de sossego, em que não tivesse de se defender de alguma acusação, grande parte das vezes ou vinda de pessoas e do universo ao seu redor ou sobre elas próprias e seu partido. Tem a praga da Casa Civil, a saga da tesouraria do partido, a síndrome da amnésia, a crise de golpe-soluço; tem os momentos de históricos discursos sem-pé-nem-cabeça ao som de caxirolas. O bate o pé, bate aqui o meu pezinho, birrenta, marrentinha.

Sem esquecer, claro, mas isso até é acessório, os momentos regime, momentos pedaladas no meio dos carros para demonstrar tranquilidade, dias de cara virada para o padrinho e ataques de fúria vazados para a imprensa. Fora o lado tinhoso e o jeito de dar chás de cadeira memoráveis a certas pessoas. Virou refém de si mesma se distanciando sem perceber dela própria, da tal coração valente, da mulher ativa que enfrentou um câncer, a ditadura, a prisão, a primeira a chegar à presidência.

Vivemos, involuntariamente, os últimos dias de um doloroso processo que ninguém em sã consciência gostaria de estar vivendo, mas para isso foi levado, e não há como não admitir isso, nem que seja com seus próprios botões, que ainda vejo amigos queridos se debatendo publicamente em estertores. Cada dia é mais claro que o motivo do papel que vai ser julgado para o afastamento é um, pesado, mas um; e que aqui do lado de fora o motivo pelo qual o povo está bem pacato assistindo o desenrolar da novela é o conjunto da obra, visível de forma límpida, sentido na pele de várias formas, diversificadas peles.

Ninguém aguenta mais – essa é a verdade. Voluntários já estão a postos – espero – para logo depois dessa falação toda com direito a choros, fúrias, gafes, e que veremos entre batidas na mesa e palavras duras, começar a empurrar a engrenagem para o dia seguinte em diante.

Botando os olhos bem abertos, de butuca, em cima do homem que se voluntariou para ocupar o espaço e o poder, e que também desde que sentou na tal cadeira faz de tudo para se desvencilhar da trama que também fiou.

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Marli Gonçalves, jornalista – Só falta aparecer algo como aquela imagem do Tio Sam procurando voluntários com o dedo apontado, dizendo que precisava de gente para a guerra. Imaginem que filme de terror.

SP, ligada em Brasília para setembro raiar, 2016

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ARTIGO – Ufa. E agora, José? Por Marli Gonçalves

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Não olha para mim que eu também não sei. Confesso que vivi e confesso que não sei. Fui consultar para que lado o vento vai soprar e não consegui qualquer precisão, ainda está tudo virando doido, pra todos os lados, igual biruta de aeroporto, sem direção

 

O Hino Nacional bastante cantado, bra-bra-brá, todo mundo de verde e amarelo para lá e para cá sem ser por isso chamado de coxinha, batendo no peito e gritando Brasil! Brasil! Certa sensação de Pátria, de dever cumprido e um enorme alívio, como se tivéssemos passado as duas últimas semanas segurando o ar, sem respirar. É isso que o povo não entende por que que aqui deu tanto pano para manga o caso do nadador Pinóquio e seus amigos. Orgulhinho nacional ferido; teria sido muito chato se fosse verdade. Agora é o banzo.

Haverá Engov para tanta ressaca? O Rio de Janeiro vai continuar lindo. As pessoas vão continuar fazendo coraçãozinho com a mão cada vez que virem uma câmera. Mais umas duas semanas de entrevistas e histórias de superação, mordendo a medalha que todo mundo quer pegar, um pouco de descanso, e lá os atletas voltarão para suas dificuldades cotidianas. O país é o Brasil, onde a dificuldade é cotidiana para todos, ou quase todos.

A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou…Drummond, como conseguia escrever coisas tão verdadeiras e belas? Que andam vigorosas pelo tempo, mandando pôr os pés no chão depois da euforia, da distração, das novidades de um momento que, pronto, passou para a História. Arquive-se.

jTxoqM8ncNesse meio tempo, se você andou longe atrás de alguma bolinha, tatame pista, estádio ou assemelhado, pouca coisa diferente aconteceu, como se elas ficassem em suspensão para não dividir o escasso espaço no noticiário. Só o mesmo de sempre. Mulheres mortas por seus (ex) companheiros, empresas de valores e caixas eletrônicos explodidos, acidentes horríveis nas estradas, pavios acesos nas cadeias, o pastor deputado desmascarado, o tempo com uma variação térmica dramática, candidato topetudo americano expelindo sandices, mortes de gente muito legal e outros nem tanto. No dia que a criatura foi divulgar a carta que escrevia há três meses – sacanagem – foi atropelada por um pedido de investigação vindo da Corte Suprema.

Pronto, está atualizado. E o que vem pela frente?

Ah, na política nacional deram passadas largas para definir o futuro da presidente Dilma, afastada, lembra dela? – esperando o julgamento final do Senado, tudo agora para se definir por esses próximos dias. Ela, completamente abandonada, no meio de um turbilhão que se forma no horizonte das delações premiadas e que as primeiras informações dão como devastador em todas as direções. Um pouco mais de um mês para definir as eleições municipais, pobres e estraçalhadas, e que nenhum deles, dos candidatos, tem bem noção do que vai fazer, além do retrato do santinho.

Não há Arca de Noé capaz para salvar esses espécimes fruto de uma cópula entre ideais perdidos e o mundo cruelmente real.

Esse jogo é mata-mata. A oposição que era governo, e que gerou sua própria sina, na verdade a oposição que sobrar porque boa parte já se acomodou de novo na boca do dragão, continua apostando no romantismo, soluçando golpe, segurando cartaz de Fora! Botaram areia movediça no chão do poder.

Não veem que talvez já já pode ser chegada a hora de dar ordens objetivas, mais gerais e compreensivas a todos, palavras de ordem, uma, duas, três ou todas juntas, e que elas venham em maior uníssono mostrando que ainda realmente não estamos contentes.

Lembro-me de uma linda luta que foi assim – Diretas Já!

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eyes-animated-gif-11

20160813_143252Marli Gonçalves, jornalista – Dom Quixote adoraria viver entre nós. Teria farta ocupação.

SP, setembro chegando, 2016, contando moedas de aço que não dá nem para morder, nem para engolir.

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ARTIGO – A carta de Dilma. Por Marli Gonçalves

writing_love_letterFaz uns três meses que uma tal carta começou a ser escrita e nunca se viu tantas idas e vindas, tantos rascunhos, tantos garranchos, tanto tira e põe, tanta gente se metendo, palpitando, igual ao governo que não fez. Essa carta podia mesmo ser só um ponto final.ARROBINHBA

Cabeçalho: Brasília, (__) de agosto de 2016. Destinatário: Ao Povo Brasileiro. “Desculpem qualquer coisa. Sei que estou sendo afastada pelo conjunto da obra e de minha teimosia, que acabaram desenhando os acontecimentos que vivemos. Grata pela compreensão, e um pedido: não gostaria que se associasse isso tudo ao fato de eu ser mulher. Não tem nada a ver. Apenas me uni a um projeto de poder político que se mostrou patético e falido”. Assinado, Dilma.

Pronto, estava dito.

Mas não. Quer porque quer causar. Sair batendo o pé. Agora a coisa está piorando e a tal missiva ameaça até ser uma espécie de carta-testamento, tipo a de Getúlio Vargas – sem o suicídio, esperamos, claro, que ninguém quer sangue. Dá para acreditar? Mais, a ameaça continua: poderá não ser só uma carta, mas duas! Mais ainda: ameaça listar as lutas da esquerda brasileira que acredita encarnar contra os contrários ao Deus Supremo Lula. Coisa mais antiga, démodé. Fico preocupada se ela não vai acabar fazendo logo um livro capa tão dura quanto sua cintura. Novela a história toda já virou. Toques venezuelanos emocionantes.

Mártir de si mesma, a presidente afastada sugere que não viu que foi quem montou o jogo que perdeu, o mundo se desmoronando à sua frente em erosão constante, promessas e mentiras desmascaradas. Que não ouviu os primeiros berros à sua porta em junho de 2013. Não admite que a cada passo que se revela da mangueira de sucção instalada na Petrobras vem à tona sua cegueira, incompetência de gestão. Ou, o que tem hora que até eu acredito, que foi feita de otária – e o que deve ser duro para a valenta admitir – as coisas correram ali nas suas barbas. Barbas, não, melenas caprichosamente cultivadas na sua visível transformação nos últimos anos.

cartero-echando-cartaO mesmo com relação ao partido, o PT e seus radicais livres, muitos que inclusive agora não mais o são, e estão ou foram presos, com o quais ela nunca pareceu ter afinidade mesmo, mas fazer o quê? Vivem ranhetando entre si. Mas poste não tem vez, nem voz. O problema maior é que caiu a lâmpada que iluminava o poste e o fazia imprescindível.

Igual soluço, a palavra golpe está até cansada de tanto senta e levanta, de tanto que entrou e saiu dessa tal carta que já marcou várias datas para nascer de cesariana, e deu para trás até agora em todas. Parto difícil, alto risco.

Outro dia dessa semana, pelo que se deu a entender, Lula foi até Brasília para conhecer a tal pecinha. Vocês conhecem o Lula? Conseguem imaginar o que é que ele realmente pensa dessa ideia de escrever cartinha, como deve se referir com desdém, o que será que acha? Do papelzinho? O intuitivo Lula deve achar uma papagaiada, entre outros termos menos airosos.

Fora que pelo que se ouve por aí, na tal epístola ela quer – e se voltar, garante que o fará – chamar o povo – esse arrepiante coletivo – para opinar em plebiscito. Um eufemismo para admitir sua própria derrota.

Não quero ser chata, tinha até pensado em ajudar a escrever uma minuta completa para abreviar a angústia que essa carta, ao fim e ao cabo a nós endereçada, deve causar a Dilma. Será que ela levanta de madrugada pensando nela? Será que é ela mesma que a está escrevendo sentada em sua penteadeira, com caneta bico de pena (imagem romântica)? Qual a cor da tinta? Ou escreverá a lápis, apagando detalhes com borracha cheirosa? Usará branquinho?

Spike_writing_in_the_friendship_journal_S4E23Se perde pensativa, desenha casinhas no papel? Escreve os palavrões que pensa? Ou teclará catando milho palavra por palavra? Tira cópias? Parece a carta mais vazada e aberta do mundo, mais que obra de Umberto Eco. Imprime para ler? Destrói no triturador as partes que despreza? Deixa guardada em um pendrive que mantém junto a si, amarrado em uma corda no pescoço?

Escreveu não leu, o pau comeu.

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Marli Gonçalves, jornalista – A melhor de todas é a carta branca, que nos deixa decidir o que queremos. Mas que não damos a governo algum em nosso nome.

Brasil, 2016, Código 55. O CEP não sei. Registrada.
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ARTIGO – Gata borralheira. Por Marli Gonçalves

workingTentando fugir, como se diz, que nem o diabo da cruz, do tema Olimpíadas que já entra por todos os nossos poros, conto uma história feminina que estou vendo muito por aítumblr_mbqsz9psHj1r5kjl1o1_500

Pense em um nome bonito para dar ao nosso personagem. Pode até ser Ella, que é – sabia? – o verdadeiro nome daquela linda, a personagem das histórias, da memória, que nos lembra das muitas desditas antes da sorte, essa que chega só depois de perder um pé do sapato, depois de encontrar um príncipe, detonar as invejosas. O nome, explico pelas cinzas do borralho; o gata não sei de onde veio.

Assim vamos nós, cobertas de cinzas, o tempo inteiro varrendo a poeira que, teimosa, gruda em tudo, invencível, sempre lá depositada, passe o dedo. Os cabelos, compridos estão porque cortá-los está na hora da morte e é preciso economizar. A proposta é aderir à moda, insistir que tudo é melhor naturalmente belo, e que o quente mesmo é viver uma vida totalmente sustentável, e que seria ótimo se fosse alguém ajudando a sustentar. Plantar o que come, usar ervas naturais, e máscaras de pepino. No máximo um esfoliante de mel misturado com açúcar. Vida sem sal.

Sim, reciclando tudo, buscando em fundos de gavetas e armários, adaptando – pensa como pode ser lindo um vestido todo feito de retalhos, recortes dos bons tecidos de outrora, patchwork. Criatividade!- Esta é a tua hora. Reaproveitamento, uma coisa virando outra. Sustentabilidade: repita sempre.

Os sapatos têm solados gastos. Há mais vantagem em comprar novos, nas sales, offs, queimas totais, bacia das almas, do que remendá-los. Melhor sonhar com o sapato de cristal que, pensando bem, se vendido poderia dar uma boa grana. Se existisse, mesmo que apenas um pé, diríamos que é um Swarovski, único, importado, e que vale mais do que os de solados vermelhos mostrados alegremente em fotos de revista. Daria para tirar o pé da lama.

Na cozinha, o mais alto conceito gastronômico em voga: a redução. Se bem que não é só na cozinha que a tal redução está bombando, toda contraditória. Reduz-se tudo, a paciência, o uso da energia, da água, daqui a pouco até o ar estará mais escasso. Reduzem-se as compras no supermercado; reduz-se até o próprio supermercado. Melhor ir naqueles que têm marcas próprias e muita simplicidade. Menos marcas, pensa o quanto é melhor: menos aporrinhação na hora de decidir a compra, digamos assim.

Simplificando a vida. Ninguém precisa de mais nada. A mulher moderna, como dizem sem corar, é considerada não só pela sua beleza, não é mesmo? É reconhecida por sua inteligência e habilidades, respeitada. Não precisa se preocupar com sua segurança, e seus direitos, ora, seus direitos. Vamos pensar nos deveres, que são muitos e ocupam seu tempo, Cinderelas modernas. Pega a bolsinha e põe debaixo do braço, vamos bater a real pro povo desse reino. Não é por menos o recorde de vendas de antidepressivos, tranquilizantes e vitaminas.

Parece até fábula: uma de nós concorre ao governo do país mais poderoso do mundo; torceremos por ela, mas eles estão chegando atrasados. No Brasil elegemos antes – não deu certo, foi despedida, mas chegamos antes e acreditamos até que a nossa mulher seria legal, mas ela foi só mais do mesmo, aliás, muito mais do mesmo. Na maior cidade do nosso país, agora, algumas disputam seu controle, para voltarem onde até já mandaram. Somos mais da metade dos eleitores, temos o poder de decidir disputas dentro dessa enorme confusão que se tornaram os gêneros, os tipos e as mudanças paradoxalmente obrigatórias nesses tempos de crise.

O show das poderosas vai começar. Tomara que pelo menos elas percebam as gatas borralheiras que precisarão conquistar, de verdade.

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Marli Gonçalves, jornalista – Aspectos autobiográficos? Pode ser.

São Paulo, saltos triplos sem vara, 2016

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