ARTIGO – A solidão de nossas revoluções. Por Marli Gonçalves

Para entender o momento político e econômico tenho meditado muito sobre isolamento e solidão. Digo do ponto de vista físico; e digo do ponto de vista do impalpável, a palavra que reúne toda a espiritualidade, toda a gama, seja qual for, e se houver uma. É preciso conversar sobre isso de vez em quando, porque pode estar vindo daí essa apatia que mantém as coisas assim tão estranhamente, como se nós tenhamos sido atingidos por um raio paralisante no meio dessa crise toda Viramos marionetes? Uma presidente, que não governa mais faz tempo, chama um ex-presidente sobre o qual e sobre quase todos os que o cercam ou cercaram pesam sérias dúvidas. Gente absolutamente incapaz chamada para ocupar cargos em uma troca lamentável, trocas esdrúxulas como saco de gatos, somados com dois ou três atos apenas mesquinhos e populistas, como diminuir 10% do salário, aparar só as pontinhas do longo cabelo dos gastos deles pra lá e pra cá. Escracho geral. Olha bem só o tipinho que tem posto cartas na mesa – Eduardo Cunha? O que manda na economia com seus olhinhos nervosos – Levy? Bonecos infláveis são os novos revolucionários, os novos líderes, os mais capazes? Onde andam os nossos oradores, os capazes de inflamarem corações e atos, os seres pensantes com soluções que não sejam essas tão mirabolantemente vis? Política era arte.

No fundo, todos somos muito sós. Sós em nossos pensamentos, o canto mais livre de todos os humanos, sempre, claro, desde que se mantenham ali, no silêncio. Se expressos, alguns pensamentos, além de não serem mais tão livres, podem levar-nos a uma prisão de encrencas por aí. Uma situação esquisita. Você sabe. Não tem quem, por exemplo, não tenha se arrependido um dia de ter falado ou admitido algo bem pessoal, confidente, para alguém; se foi para algum amor, sempre volátil, prepare-se, que o fato será jogado na cara na primeira oportunidade, briga, desavença, desinteligência, perda de estribeiras.

Uma cilada que não tem jeito, por mais que se saiba sempre a gente cai pelo menos uma vez na vida. No mundo digital há muitos se arrependendo não só de falar, mas ainda por cima de ter postado ou mandado imagens de suas intimidades mais íntimas.

Isso tudo por um lado. Por outro, por detrás de computadores e celulares nunca vimos tanta coragem e animação -críticos e comentaristas vorazes, boatos viram informações passadas como nas brincadeiras de telefones sem fio. Travam-se debates sobre o bem e o mal, xingam-se entre si, muitos trocam fotos de perfis, usam outras até como se o juiz fossem; ou como se a estrela vermelha fosse ainda orgulho para alguém; lamento informar – isso é impossível. A estrela caiu.

Os mais inteligentes soltam finas ironias, mas compreendida por poucos. Os mais enfáticos, os lunáticos, em geral ganham ou têm interesses para manter-se crentes, bovinamente, para combinar com os termos com os quais os empresários a eles se referiam em cândidas mensagens agora reveladas.

Aparecem agora porque de um dia para outro a privacidade pode ir para o beleléu. (Cá entre nós, imagine o que os investigadores não estão sabendo sobre a vida desse influente povo, sobre suas pessoalidades, enquanto procuram os crimes, ouvindo conversas, lendo mensagens).

É perceptível: a modernidade está nos separando. Isolando.

Há outra forma de entender como está acontecendo aqui-agora-tudo-ao-mesmo-tempo na nossa frente, nunca tivemos tantas informações, minuto a minuto, e a coisa vai indo, ainda está como está? Tomamos algum chá entorpecente?

Espera! Não estou falando de direita, esquerda, centro, essas bobagens, que isso tudo é só atraso de vida. Nem de simpatia e antipatia que também não é isso que põe mesa. Já admiti: ajudei a criar esses monstros todos que hoje nos infernizam e atrasam o país agora com a sua politicagem tacanha.

Espera! Não briga comigo. Falo de todos. Verdes, petistas, peemedebistas, peessedebistas de um partido que vi nascer já de uma divisão que ocorreu lá atrás, porque pavões sempre acabam por não se bicar, comunistas do A, do B, e do ão.

Eles não eram assim. Ficaram assim no poder.

Duvido que em décadas passadas essa leseira se mantivesse. Juntos recuperamos a nossa auto-estima, o fim da ditadura, o direito de construir nosso caminho. A primeira pedra foi a morte de Tancredo. Tropeçamos, mas continuamos. A segunda pedra foi o caçador de olhos secos e odientos, Collor, que chegou azarando com uma turma de aventureiros amigos e que tivemos de chutar para fora de campo.

Pula. Agora o véu se levanta descobrindo mais uma década de desacontecimentos. Sim, porque o que se roubou foi tirado do que poderia ter sido bem construído, escolas, saúde, estrutura, transportes, estradas, cultura, terras e produção, indústrias, pesquisas.

Muito esquisito. Muito esquisito isso tudo.

Tirem as crianças da sala pelo menos.

São Paulo, região mansa, quase paquidérmica, 2015

Marli Gonçalves, jornalista – Imagine se eu digo mesmo tudo o que estou pensando. Digo não! Sei que na hora H, estarei só; não tenho proteção. Não tem revolução.

 

Aguarde! Prepare-se. Chumbo Gordo vem aí.

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ARTIGO – O que é que tanto se comunica? Não se trumbica mais?

                                                                                                        Marli Gonçalves Acredite. Levei um susto. Não pude fotografar para provar, porque ele passou ventando, rápido, de skate, ladeira abaixo, na descida íngreme da Rua Augusta, pela faixa do meio – aquela contínua, de duas linhas amarelas. O garoto teclava uma mensagem no celular, em alta velocidade, e com os olhos atentos ao teclado, corpo solto, surfando no asfalto. Começo a achar que quem se comunica pode se trumbicar, sim, e virou mania. E toda mania tem seu preço, o de virar doença.

Eles estão em todos os lugares, para onde quer que você olhe. Os olhos esbugalham, os dedos nervosos se movimentam intensamente enquanto a palma da mão segura sem jeito o negocinho preto (tá, pode ser rosa ou em outra cor). A cabeça fica baixa, distraída, e se for de noite você verá apenas um rosto iluminado pela luz branca emanada da tela. Fazem isso – freneticamente – atravessando a rua sem olhar, nos vagões, nos ônibus, tropeçando em buracos, na direção dos carros, na esteira das academias, nas filas dos bancos, dentro de casa, no elevador. Não são mais só os “ligadores” compulsivos. São os tecladores alucinados batucando, conferindo respostas, repassando, curtindo, compartilhando, num frenesi admirável. As operadoras de telefonia devem estar contentes, mesmo que isso pareça uma forma de economizar ligações. Elas cobram tudo, e sempre saem ganhando.

Antes a gente falava que o povo vivia com o celular dependurado na orelha. Agora ele desceu para as mãos. Não estou acreditando no que ando vendo, nem nestas mudanças todas enlouquecedoras que vêm ocorrendo na comunicação entre as pessoas. Entre uma e outra e entre todas, aos milhares. Acho oportuno falar desse tema agora, porque comunicação é tudo, blá, blá, blá, e no final do ano recrudesce. As mensagens de Natal, amor e consumo já têm chegado por todas as vias. Dizem que guerras, revoluções e a paz estão sendo convocadas assim.

Se as palavras disparadas vão para o éter, para onde irão as palavras tecladas? Lembrei até da célebre “Quatro coisas que não retornam: a flecha disparada, a palavra proferida (e aqui poderia ser “a palavra teclada”), a água passada no moinho e a oportunidade perdida”. Não é incomum eu receber por engano mensagens com declarações de amor, cancelamento de compromissos que não são e nunca foram meus, nem o amor, nem a agenda.

Comunicação é forma de ciência. Sou formada nela, embora sem teses, dissertações e mestrados. Jornalismo é comunicação pura. Mesmo assim, e lembrando as aulas de Teoria da Informação, que tudo calculava, não sou capaz de dizer onde é que isso vai dar. Sei de casos de pessoas que se comunicam por SMS e e-mails estando dentro da mesma casa, em família. Na linha: “Vem jantar, que está na mesa”; “Já vou, mãe!”Nesse caso a mensagem é como tanque de guerra e atravessa a muralha da porta do quarto do adolescente. Por isso deram o nome de torpedo? Pode ser. O torpedo te pega onde estiver, tal qual um Exocet. E escreveu não leu o pau comeu.

Somos atingidos e atingimos. Nos emeiamos, nos essemeseiamos. Algumas formas de comunicação pegam mais rápido do que outras. Sempre pensei que uma das mais esperadas seria a via telefone com imagem, com vídeo, mostrando os dois lados do alô!

Boba, eu! Assim, como se manteriam as mentiras? (Estou aqui, no escritório, diz o homem no meio dos lençóis de outra mulher). (Sou loira, olhos verdes, 1m90, seios fartos, vangloria-se a pequena atarracada). Seria o fim da fantasia, também. A gente iria cada vez mais precisar agendar os telefonemas. Primeiro, um bom cabeleireiro, caprichar no modelão, na maquiagem, no cenário que ficará atrás. E de alguma forma isso tudo já ocorre quando se comunica por webcam. Só não vi ainda ninguém usando de forma corriqueira o sistema nos celulares mais modernos, “duais”.

Quando funcionam, são ótimas. Ao mesmo tempo, com tanta utilização, nas mais variadas formas, a comunicação pode já estar em colapso, ultrapassado o limite, porque não fomos capazes de zelar por ela, nem pela sua segurança. O uso indiscriminado, os spams, a venda de cadastros pessoais por empresas e operadoras, está tornando a situação calamitosa. Fora que a qualidade das redes parece nunca acompanhar o progresso. Antes eram só emails; agora entra lixo pelo celular. E o que a gente quer mesmo receber, ou precisa receber, ou mesmo espera receber, não chega. Ou se perde.

Mas uma coisa me intriga mais do que as outras. As tarifas, pela hora da morte. Os planos oferecidos em anúncios parecem mais enigmas das esfinges das pirâmides do Egito, com fórmulas que nunca consegui chegar a nenhuma que preste. Os planos de dados jogam com a gente. E a gente perde. Todo final do mês recebo um escalpo, e de duas operadoras, porque não dá para confiar em uma só.

Então, como esse povo todo que não sai do celular, por cima, por baixo, na orelha, ou nas mãos, faz para pagar? Como é que é essa coisa que vejo de “trocar o chip”? Tem gente que anda com vários, na carteira. Até hoje não sei nem como abre a caixinha da bateria de um dos meus, tão sofisticados e inacessíveis eles fazem os aparatos.

Ando no momento Racional MG, compondo o rap da economia da carteira. Pensando seriamente até em revigorar os sinais de fumaça. Claro que já tentei de tudo, consultei um monte de “especialistas”. Eles prometem que vão resolver a(s) minha(s) conta(s) “absurda (s)”. E nunca mais aparecem.

Não me venha falar de orelhões! Você não sabia? Eles estão morrendo à míngua, arrancados de todas as esquinas e lugares. E você, ingrato, ingrata, nem tinha percebido, não é? Saudades da fichinha!

São Paulo, timtim, claro que eu vivo dizendo oi, mas só para você, em 2012 (*) Marli Gonçalves é jornalista. Obrigada a ficar sempre comunicável.

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