Entre a cruz e a caldeirinha, por Marli Gonçalves

Sempre nos deparamos com bifurcações. Mas algumas decisões, embora nossas, só nossas, também são coletivas, e dizem respeito a um monte de gente. Mais uma vez o “carrinho de bater” onde levamos nossa vida vai ter que decidir por onde ir, por qual caminho, e de mãos dadas com quem. Sem meias palavras, sem meias desculpas e até sem a meia estação que piscou, virou Primavera, e eles não são flores para cheirar

Na frente do abismo. Dá vontade de sentar e ficar só anotando todas as formas e analogias possíveis de descrever estar entre uma e outra coisa, ambas esquisitas, mas adoro a imagem da caldeirinha, que imagino aquela bem pretinha, gasta, de ferro e alça. E a vejo em cima de uma fogueira com algo borbulhante já fervendo, quente. Da cruz, engraçado, penso sempre em manter civilizada distância – não é um símbolo que me apeteça. Me entristece.

A expressão foi cunhada diferindo a vida da morte, o sim e o não, essa constante dicotomia da vida, bem e mal, com água benta enchendo a tal caldeirinha. Significa também, veja que lindo, estar entre Cila e Caríbdis, que também é quando alguém escapa por um triz de uma má situação e cai em situação ainda pior ou se encontra perante um enorme perigo, seguido de outro ainda pior. Na real é passar entre um despenhadeiro e um redemoinho, fabulosamente visto como monstros crueis contra viajantes distraídos.

Entendeu a analogia poética? Se você é de São Paulo, especialmente, imagino que sim, embora dilemas estejam diante de todos nós todos os dias, em todos os locais. Se você é consciente e anda preocupado com uma certa santificação que anda por aí, entendeu também. Pode ser ainda que você apenas esteja confuso – é bem o caso – e sem entender como pudemos chegar neste praticamente beco sem saída. Porque também nao é o caso de tirar o corpo fora: nós criamos essa situação. Estamos carentes de líderes. Tanta modernidade, tanta tecnologia, e só surgem meias-tigelas.

Pior é que não é entressafra. Nosso celeiro não tem revelado grandes coisas, ao ponto de vermos, se autochamando de novos, pessoas e fatos que não são exatamente novos; alguns são até velhacos.

Com a temperatura maluca do jeito que está até as plantas estão se insurgindo, e de repente dão flores fora de época. Tudo é possível e há uma nova ordem se impondo meio que obrigatória. Só que cada um quer cuidar do seu jardim, da sua horta, o que até é compreensível. Cecilia Meirelles foi categórica: “A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega (…)”.

O problema é que não é só decidir guinadas à direita ou à esquerda, porque as pistas se confundem, e as placas dão indicações erradas, como se o Lobo Mau estivesse nos cercando na floresta.

A gente não sabe se vai ou se fica. Se tosse ou espirra. Se leva blusa, chapéu ou guarda-chuva. Se protege o pescoço ou as orelhas.

Se vota com luvas. Ou se deixa as digitais.

Estamos mesmo entre a cruz e a caldeirinha. Entre a espada e a parede. Entre o martelo e a bigorna. Na beira do abismo.

São Paulo, primavera 2012

Marli Gonçalves é jornalistaComeçou o ano de Portugal no Brasil. Nada como aproveitar grandes falas culturais comuns. Enquanto o gato anda pelo telhado, anda o rato pelo sobrado. Enquanto o meu carvão não acabar, serei uma brasa. Enquanto o vinho desce, as palavras sobem. Enquanto os cães brigam, o lobo leva a ovelha. Enquanto se capa, não se assobia. Enquanto se conta, não se erra. Enquanto se descansa, se carrega pedra. Ensaboar a cabeça do asno é perder sabão. Melhor não ensinar padre nosso ao vigário. Ensinar rato a subir de costas em garrafa. Entre gado ruim há pouco que escolher. Entre gente honesta basta a palavra.

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