ARTIGO – Cismas de Outono. Por Marli Gonçalves

mulheer faz o jardimAs folhinhas começam a amarelar, as cores todas vão mudando, e o mundo vai retornando às suas atividades lentamente, muito mais lentamente do que poderíamos desejar, em contraponto aos fatos que nos atropelam a cada dia. É uma estação tão intermediária quanto o suspense que teremos até o inverno, até a Copa e até as eleições, tudo ao mesmo tempo agora, como diriam os Titãs. As estações passam e parece que não aprendemos nada com elas

Vontade de às vezes sentar na calçada e fingir que estou na soleira da porta de uma grande casa de fazenda, de onde apenas vejo as coisas acontecerem, matutando. No caso, seria o galo cantando, a vaca mugindo, os porcos roncando e os pássaros cantando. Mas quando despenco para a realidade, mais fácil mesmo é estar sentada na calçada, com os carros buzinando, as serras cortando e com a água suja correndo no meio fio, onde, claro, todas as bocas-de-lobo estarão entupidas.Animated_ThinkingMan

Farm_womanMinha imaginação da bucólica cena rural vem muito da leitura de Monteiro Lobato. Uma casa de fazenda com uma porta enorme e um varandão, daqueles de onde tudo se vê. Tia Nastácia fazendo bolo cheiroso. Dona Benta se embalando na cadeira, contando histórias. Acrescento apenas o fato de no meu sonho eu estar enrolando um cigarrinho de palha, e puxando prosa com os passantes, para saber das últimas. Ah, e chupando cana. Adoro isso, o que só dá para fazer em sonho mesmo. Só virando boneca de pano, que não engorda.BEZanimalsAnimated

O tempo está passando muito rápido. Não dá mais é para não reparar nisso, e acredito que somos nós que pisamos nos aceleradores, atropelando uma coisa atrás da outra. Tanta informação seguida de desinformação de uma forma não vista antes. O que vale hoje já era amanhã. E se até as leis mudam todos os dias, imagine quantas memórias são pisadas nessa correria. Quantas promessas jamais cumpridas. Quantos amores jamais vividos. Quantas coisas não conhecidas.

Wilbur_Thinking__Animation_by_TheEndxTypeANIMEMe vi cismando com tudo isso, o estalo, não riam, foi depois de ouvir no rádio que Michael Jackson morreu em 2009. Tabefe. Não foi ontem? Vocês têm noção de que já se passaram mais de quatro anos? Quer outras datas? Diretas: 30 anos. 50 anos do dia que apagou o país durante 20 anos, e há quem ouse chamar aquela coisa de gloriosa. Quase 12 anos desse modelo de governo que joga uns contra os outros.

Isso está fazendo mal pra a nossa memória, tenho percebido. Porque se você parar para lembrar, capaz será de esquecer de continuar andando e a coisa vem atrás correndo mais do que touro naquelas festas de rua da Espanha, mordendo nossos calcanhares. Olé! Olé! E se isso acontece com a gente que passou pelos fatos, a rapaziada que vem chegando não tem nem tempo de conhecer, quanto mais de revisitar. Podem, portanto, fácil, repetir os nossos erros. Será nisso que jogam?animated_thinking_cap

Temo que isto já esteja ocorrendo. Quando vejo clamores por militares. Quando vejo amigos baterem no peito se autoproclamando conservadores. Quando não vejo críticas à ocupação militar policial nas manifestações. Quando só vejo jovenzinhos segurando cartazes em passeatas sem rumo, seguindo como gado para o matadouro onde morrerão por pancadas no primeiro rolo que pode ser arquitetado por um infiltrado de qualquer sorte: e com policiais ou não, já que eles estão prontos, rosnando, certamente putos pelas ordens superiores de acompanhar a gurizada, emparelhando, andando quilômetros como ocorreu essa semana em São Paulo no anódino ato, mais um, contra a Copa do Mundo.

Vou continuar cismando. Estamos abreviando as estações. As da vida.

São Paulo, fim de verão, 2014 1321706rqp6604q60Marli Gonçalves é jornalista Pretendo continuar cismando com as cismas. Ô palavrinha cheia de significados, sô! Parece que só delas é que pode nascer um mundo novo. Sem elas, quando significam divisão, rompimento, dissidência. Precisamos mesmo meditar, refletir, ruminar ou uma das formas que mais gosto, rassudocar um bocado. Cismei com isso.

giphy

********************************************************************
E-mails:
marli@brickmann.com.br
marligo@uol.com.br

ARTIGO – É a liquidação, estúpido! Por Marli Gonçalves

women01Venha correndo… Chegou a hora; é a liquidação! Hora boa para quem tem dinheiro, péssima para quem já comprou o que precisava. Fico pensando: peraí! Se podiam vender pela metade do preço, porque já não custava isso antes? Não teriam vendido mais e compensado? Ou era exploração pura e simples, e a gente é que é otário? Dá uma raiva quando pago por uma coisa e no dia seguinte essa mesma coisa está lá, no mesmo lugar, mas muito mais barata que eu tenho vontade de rasgar a coisa. E a vendedora. sxy1

Os avisos chegam por terra, mar, email e SMS. Nunca tanta gente lembra de você como nessa época. As plaquinhas e apelos estão em todos os lugares, de todos os tamanhos e cores. As chamadas, talvez poucos entendam exatamente porque são usadas tantas palavras e estrangeirismos para tentar glamurizar a torra, galinha morta, peixe vivo, queima de estoque, a desova, acabar com encalhes, ou para falar de uma coisa só, que acabam complicando coisa simples assim: saldão, bacia das almas, cestinha, descontos e preços mais baixos. Mais em conta.

Mega, super, total, superhiper. É um tal de Sale, off, off price, out price. Isso quando não escrevem em italiano ou em francês. Em chinês nunca vi, ou se vi achei que era um desenhinho. Metade do preço vira “50% off”. Ultimamente, também, inventaram de usar a torto e direito a palavra Bazar. Tudo que querem que pensemos que terão preços muito mais baixos (em geral, mentira deles, lorota boa), virou bazar. Fora que tem alguns que acrescentam um “beneficente” para enternecer nossos corações duros. Uma vez tive curiosidade e perguntei quanto iria para a instituição. A intrincada resposta que recebi não dava mais do que o envio de alguns centavos e, claro, sob determinadas condições.

Outra ideia dos bazares que andam inventando por aí é que as coisas podem estar lá jogadas todas juntas, amontoadas, de qualquer jeito. Você que se vire. Se forem roupas, não tem provador. Tem de ser no olhômetro e, claro, não pode trocar. Ah, tem de pagar à vista, cash, com dinheiro vivo (existe dinheiro morto?). Como dizia meu amigo Servaz, “obrigada por nada”!

Algumas formas de chamar os compradores para liquidações chegam a ser quase ameaçadoras: explosão, bomba, dia fantástico, lápis vermelho. Agora tem até um dedo ameaçador ou uma gostosa global mandando hipnoticamente não comprar nada hoje. Você fica até com medo, ali sem se mexer. “Espere até o fim de semana”. “Não compre”.

hmmUltimamente apareceu uma novidade recente sobre a qual precisamos falar: uns tais cálculos percentuais e fórmulas einstenianas que, quando você vai ver bem de perto ou não entendeu, ou te enrolaram, ou não era nada disso. Em muitas lojas chama-se desconto “progressivo”: 10%, duas peças; 20%, três peças; 50 %, cinco peças. Se valesse mesmo o que está escrito o consumidor acabaria saindo com um caminhão de coisas e sem pagar nada. Ainda levaria algum dinheirinho de volta.

Há controvérsias, sempre há. Por exemplo, compro uma blusinha e quatro grampos de cabelo na mesma loja. Vale meus 50%? Fico imaginando todo mundo com uma calculadora na mão, contando percentuais. De preferência daquelas que tem um rolinho de papel e que fazem um barulhinho legal quando rodam. Me parecem mais convincentes e você pode usar o papelzinho para esfregar na cara de alguém.

Tem mais. Hoje mesmo vi uma entrevista com uma senhora tida como campeã de liquidação, especializada em grandes lojas de varejo dessas que além de perturbar muito com as suas propagandas chatas e músicas irritantes (fora os garotos-propaganda) promovem o frenesi, pega para capar e verdadeiras maratonas de um dia. Essa senhorinha, acredite, fica dois dias numa fila, e se vangloria de nem ao banheiro ir. Nesses casos, ainda, os coitadinhos – me perdoem, mas são coitadinhos, sim, porque devem comprar tudo quanto é tipo de tranqueira- tem de levar o tal objeto no braço, no muque, do jeito que for, que ninguém entrega nada.women08

No ano passado apareceram por aqui com a tal Black Friday (sexta negra), dia quando seriam dados descontos es-pe-ta-cu-la-res. Eles não contavam que tinha gente anotando os preços antes da tal promoção e descobrindo várias farsas.

Puxa, seria tão bom se houvesse mais criatividade! Adoro ver matérias sobre aqueles dias que, no exterior, em lojas de departamentos, as pessoas podem comprar bem barato o que conseguirem vestir e então já chegam praticamente peladas. Já vi umas nas quais o barato é a nudez, e sempre em temperaturas bem baixas. Aqui ia ter trubufu de toda a sorte, certamente. Mas a gente ia se divertir.

Outra coisa que me irrita, e acho que a você também. Pode reparar: você está no verão, e a liquidação é de…verão! Nem bem o inverno deu dois passos e pumba! Lá está a promoção de inverno.

Volto a perguntar: se já podia vender mais barato, porque já não botaram o preço razoável?
Dá uma raiva!

Mas agora aprendi. Fico quietinha, só esperando aparecerem as tais plaquinhas. Cada vez elas estão mais rápidas. É a crise, estúpido!

São Paulo, garoinha, chuva, chuvão, chuvinha, quente e frio, ouvindo os primeiros acordes Globeleza, 2013

people1Marli Gonçalves é jornalista– Os camelôs também fazem promoções. Mas o que ando observando é que têm tantos deles vendendo (e tanta gente usando) guarda-chuvas iguais (aqueles, chineses, com uma cor e a bordinha bege, que não aguentam vento, nem muitos dias de uso) que o meu, luminoso, com florzinhas, vai chocar multidões a hora que eu abrir por aí.

************************************************************
E-mails:
marli@brickmann.com.br
marligo@uol.com.br
ATENÇÃO: Por favor, ao reproduzir esse texto, não deixe de citar os e-mails de contato, e os sites onde são publicados originalmente http://www.brickmann.com.br e no https://marligo.wordpress.com