ARTIGO – Pé ante pé, orelha em pé, pontapé. Por Marli Gonçalves

kitchen25worlddoorEsses dias muitos de nós adoraríamos poder ir bem devagarzinho, pé ante pé, tentar escutar algumas conversas que estarão ocorrendo atrás das portas; dias com aprovação tão baixa e reprovação tão alta fazem burburinho, e a água começa a ferver na chaleira. Quem ouvir alguma coisa, souber algo primeiro, avisa o outro. Não podemos dar com os burros nágua, esse povo aí não vai querer sair com as mãos abanando

“Eles”, o que engloba todos os “eles”, para lá e para cá, direita e esquerda, centro, acima e abaixo, não vão ficar parados na beira do precipício esperando que uma avalanche chegue e os leve de mãos dadas para o juízo final – aliás, falar em juízo, juiz, ter juízo já os arrepia. Se havia um barco sendo construído, veja só o movimento intenso lá no convés. Tentam saber com quantos paus se faz uma canoa para se jogar ao mar. No mesmo barco? Que nada. Muito menos ficar de gaiato no navio, ouvindo cantos de sereia que, bem, encantadora não é.

Será questão de sobrevivência, simples assim, e aí reside o bode. Enquanto os mosqueteiros gritam todos por um, um por todos, ouvimos aqui um Salve Geral, um salve-se quem puder, o último me diz como foi, homens ao mar. Teve uns safanões essa semana e a política brasileira deu uma deslocada, no ar, tempo e espaço – não há como negar que umas vigas perderam a sustentação.

Criador e criatura não se entendendo, o que era privado tornando-se público, quem se dizia valente atrás de outros que assumam sozinhos seus próprios guidões e direção perigosa. Não é pouco, aliado aos números e percentuais apresentados em gráficos inquietantemente claros quase furando o chão com suas setas apontando quedas.

Cadê a expressão popular? Tem barulho de panelas, de assobios, de gritos de protesto, de penas farfalhantes de aves de bico, de uivo de lobos que – e não é de agora – já estavam trocando de pelo, assim como as cascavéis que vêm insistentemente balançando o guizo. Os cordeiros andam acanhados e perplexos: podem ter sido descobertos pulando e povoando magistralmente o sonho de alguém, e neles, nos sonhos, estavam contando as cédulas que também receberam lá em histórias de outras eras.

A panela está de novo no fogo lento, de onde tinha sido tirada para esfriar um pouquinho. Mas agora fica claro que estavam mesmo só cozinhando o galo. O nosso.

PÉ ANTE PÉ “Eles” tirarão rápido seus cavalinhos da chuva, ouviremos o tropel. Rasgam seda, juram de pés juntos. Todos nós só nos entreolhamos, boquiabertos, atônitos. De onde menos se espera é de onde não vem nada mesmo.

Estamos num mato sem cachorro, nem amarrado com linguiça. Fundamental, antes de mais nada, será corrermos para achar e separar cuidadosamente os ingredientes que mais faltam no nosso ragu: gente com capacidade e equilíbrio. Vambora procurar mais rápido, identificar quem são. Rápido, antes que sejamos nós os procurados, em cartazes, novamente afixados nas ruas e praças.

Pode dar jogo: com algumas dezenas de líderes reais, natos, de bem, do bem, pessoas com propostas, sejam cientistas sociais, economistas, comunicadores, cidadãos de índole e leais. Precisaremos apostar em uma formação de equipe, em quem se sobressaia com algum potencial maior.

Os que andam por aí pondo a manguinha de fora estão mais por fora que umbigo de vedete.

Vamos precisar mandar muitos pregarem as bobagens que impunham em outra freguesia, mas com o absurdo momento de intolerância que passamos precisaremos pé ante pé também ouvir o que é que tanto se prega, o que essa freguesia guarda, que exércitos são esses que se formam alinhados por uma fé na mentira.

Tenho fé. Cruzo os dedos, faço figa. Não prosperarão.

Aprovação baixa, reprovação alta. Não vai mesmo dar para deixar passar de ano. Vamos ter de chamar o reforço. Ninguém quer mais essas anotações em vermelho no boletim.

São Paulo, 2015

Door_01_ReactionsMarli Gonçalves é jornalista – – Combinado que um avisa o outro quando ouvir alguma conversa que preste, alguma movimentação que valha a pena, seja séria? Aliás, sabe usar o copo para ouvir através? E mandar sinal de fumaça? Porque nossa telefonia anda péssima e a gente pode estar grampeado; pode até ter boi na linha. Olha só como andam as coisas.
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Entre a cruz e a caldeirinha, por Marli Gonçalves

Sempre nos deparamos com bifurcações. Mas algumas decisões, embora nossas, só nossas, também são coletivas, e dizem respeito a um monte de gente. Mais uma vez o “carrinho de bater” onde levamos nossa vida vai ter que decidir por onde ir, por qual caminho, e de mãos dadas com quem. Sem meias palavras, sem meias desculpas e até sem a meia estação que piscou, virou Primavera, e eles não são flores para cheirar

Na frente do abismo. Dá vontade de sentar e ficar só anotando todas as formas e analogias possíveis de descrever estar entre uma e outra coisa, ambas esquisitas, mas adoro a imagem da caldeirinha, que imagino aquela bem pretinha, gasta, de ferro e alça. E a vejo em cima de uma fogueira com algo borbulhante já fervendo, quente. Da cruz, engraçado, penso sempre em manter civilizada distância – não é um símbolo que me apeteça. Me entristece.

A expressão foi cunhada diferindo a vida da morte, o sim e o não, essa constante dicotomia da vida, bem e mal, com água benta enchendo a tal caldeirinha. Significa também, veja que lindo, estar entre Cila e Caríbdis, que também é quando alguém escapa por um triz de uma má situação e cai em situação ainda pior ou se encontra perante um enorme perigo, seguido de outro ainda pior. Na real é passar entre um despenhadeiro e um redemoinho, fabulosamente visto como monstros crueis contra viajantes distraídos.

Entendeu a analogia poética? Se você é de São Paulo, especialmente, imagino que sim, embora dilemas estejam diante de todos nós todos os dias, em todos os locais. Se você é consciente e anda preocupado com uma certa santificação que anda por aí, entendeu também. Pode ser ainda que você apenas esteja confuso – é bem o caso – e sem entender como pudemos chegar neste praticamente beco sem saída. Porque também nao é o caso de tirar o corpo fora: nós criamos essa situação. Estamos carentes de líderes. Tanta modernidade, tanta tecnologia, e só surgem meias-tigelas.

Pior é que não é entressafra. Nosso celeiro não tem revelado grandes coisas, ao ponto de vermos, se autochamando de novos, pessoas e fatos que não são exatamente novos; alguns são até velhacos.

Com a temperatura maluca do jeito que está até as plantas estão se insurgindo, e de repente dão flores fora de época. Tudo é possível e há uma nova ordem se impondo meio que obrigatória. Só que cada um quer cuidar do seu jardim, da sua horta, o que até é compreensível. Cecilia Meirelles foi categórica: “A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega (…)”.

O problema é que não é só decidir guinadas à direita ou à esquerda, porque as pistas se confundem, e as placas dão indicações erradas, como se o Lobo Mau estivesse nos cercando na floresta.

A gente não sabe se vai ou se fica. Se tosse ou espirra. Se leva blusa, chapéu ou guarda-chuva. Se protege o pescoço ou as orelhas.

Se vota com luvas. Ou se deixa as digitais.

Estamos mesmo entre a cruz e a caldeirinha. Entre a espada e a parede. Entre o martelo e a bigorna. Na beira do abismo.

São Paulo, primavera 2012

Marli Gonçalves é jornalistaComeçou o ano de Portugal no Brasil. Nada como aproveitar grandes falas culturais comuns. Enquanto o gato anda pelo telhado, anda o rato pelo sobrado. Enquanto o meu carvão não acabar, serei uma brasa. Enquanto o vinho desce, as palavras sobem. Enquanto os cães brigam, o lobo leva a ovelha. Enquanto se capa, não se assobia. Enquanto se conta, não se erra. Enquanto se descansa, se carrega pedra. Ensaboar a cabeça do asno é perder sabão. Melhor não ensinar padre nosso ao vigário. Ensinar rato a subir de costas em garrafa. Entre gado ruim há pouco que escolher. Entre gente honesta basta a palavra.

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ARTIGO – No fio da navalha, por Marli Gonçalves

Há expressões que a gente ouve e usa e repete em determinadas ocasiões que são muito mais completas, rápidas, visuais e esclarecedoras do que outras porque definem imediatamente a situação, em geral de perigo, muito perigo. Então, digo: estamos periclitantes e no fio da navalha, mas essa semana descobrimos que tem gente conhecida por aí muito pior, com a cabeça a prêmio, pronta para ser entregue de bandeja

Com a corda no pescoço. Se correr o bicho pega; se ficar, o bicho come. Andar no fio da navalha. Andar na corda bamba. Acabou-se o que era doce. Decidindo com a faca no pescoço. Mais perdido que agulha em palheiro. Frases que poderiam tranquilamente ser alocadas na bandeira em substituição ao seco “Ordem e Progresso”.

Quando a gente se irrita com alguém, depois de explicar alguma coisa com a calma que Deus deu, e a pessoa não entender, às vezes perguntamos: “Quer que eu desenhe?”. Pois essas expressões que a nossa língua nos fornece fazem isso, desenham. E é a hora que a velha e boa sabedoria popular se perpetua. Mazzaroppi, mantenha-se entre nós!

Claro que depois de uma semana como essa, essas frases me vêm à cabeça para definir a situação que se encontram os 38 réus do mensalão. Mas não só. Para descrever a situação do povo sírio, que já não tem mais para onde correr. Para comentar a crise econômica que assola a Europa, especialmente a Grécia e a Espanha. E até, porque não?- para mostrar a situação dos eleitores brasileiros que neste ano precisarão escolher e votar em candidatos à Prefeitura e às câmaras de suas cidades. Por acaso já se interessou em ver as opções disponíveis? Melhor desfolhar margaridas, bem-me-quer, mal-me-quer.

E os nossos atletas nas Olimpíadas se espremendo para não fazer tão feio lá em Londres quanto as dificuldades que enfrentam para poderem competir em desnível total em praticamente todas as modalidades esportivas? E olha que a próxima será aqui. Insegurança não faltou.

Andamos mais para lá do que para cá, inclusive pela saturação dos assuntos supracitados. Sou moça (!) muito otimista, garanto. Adoraria só escrever sobre as margaridas do campo, coloridas borboletas voadoras, sobre o progresso e desenvolvimento nacional. Mas a realidade é dura, e as antenas captam o que até a razão desconhece, semana após semana. Lá vamos nós atrás da tal luz do final do túnel, uma velinha tênue, fiapinha, nos conduzindo aos trancos e barrancos. Não adianta riscar fósforo no caminho – o fósforo sem qualidade como os que estão no mercado, que você risca, eles quebram. Queimam seu dedo, risca um, risca outro. Acaba a caixa e você não acendeu é nada.

Se as coisas não caminharem corretamente o sentido de outra série de frases feitas e até de interjeições costumeiras será desconstruído. No caso do mensalão, por exemplo, o crime vai recompensar, caso haja a liberação geral dos respectivos badarós em julgamento.

Quanto às eleições, o ruim com ele pode ficar ainda pior com qualquer outro se tentarmos melhorar as coisas usando desconhecidos aventureiros.

Novos centauros, mas só que meio poste, meio gente.

São Paulo, já cheia de cavaletes candidatos e bandeirolas de falsa alegria atravancando as ruas e esclarecendo pouco, 2012 Marli Gonçalves é jornalistaEra bem mais divertido quando candidatos podiam dar camisetas para ninar o sono dos eleitores esperando o cumprimento das promessas.

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