ARTIGO – No nosso pescoço. Por Marli Gonçalves

Tomba pra a esquerda, tomba para a direita, a gente distende e volta. É uma dorzinha chata bem aqui atrás, sabe? Ela irradia para os ombros. As costas, aqui em cima, ficam duras. Parece pedra. Que delícia seria se alguém pudesse chegar e dar aquela massageada com a ponta dos dedos, não? Aquela que chega até a arrepiar quando a gente consegue amolecer. Você já sentiu isso, creio

Nosso pescoço. Nossa, como o nosso pescoço é protagonista em nosso corpo. De todos os lados que se puder observar. A nuca. O colo. Cabeça, tronco, membros. Adivinhem quem liga a cabeça ao tronco: o pescoço. Ele é nossa força e o nosso ponto fraco. Ele é todo especial, em músculos e ossos.

Ele é a base do nosso periscópio. Se volta pra lá e pra cá levando a cabeça para entender tantas coisas que andamos vendo que acho que é por isso que ele sempre acaba levando a pior. Por ele passam todos os sentidos. E o sensual, que é ponto erótico.

Engolimos seco. Essa semana o pescoço de uma moça foi o protagonista de uma história cujos detalhes e (sub)desenvolvimento dos fatos nas horas seguintes causou uma das maiores indignações já observadas nas redes sociais, que se mobilizou e demonstrou a perplexidade diante do desfecho. Ufa! Pensávamos que estávamos todos apopléticos e esse pescoço nos salvou, pelo menos nos acordou, especialmente nós, mulheres. Viva os pescoços!

O caso, para relembrar em poucas linhas, se deu na Avenida Paulista, de dia, dentro de um ônibus. Um homem se masturba e ejacula (sim, isso mesmo) no pescoço de uma moça, que consegue reagir e, com a solidariedade de todos, prender o indigitado, que então é levado para uma delegacia e em seguida para uma audiência de custódia. Passa a noite na prisão. No dia seguinte é libertado como se nada tivesse acontecido. (Dois dias depois é preso de novo, fazendo a mesma coisa. Diz que um acidente de carro o deixou assim. Já pensou? Acidentes de carro criando tarados!)

O jovem juiz José Eugênio Souza Neto mandou soltar Diego Ferreira de Novais, o ejaculador, 27 anos. Segundo ele, porque o promotor Marcio Takeshi Nakada, do Ministério Público, não havia pedido a preventiva. Pronto, dado todos os nomes dos bois. Ops, homens envolvidos.

A sentença foi um primor: “Entendo que não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco de ônibus, quando foi surpreendida pela ejaculação do indiciado”, diz a decisão.

A lei é assim? Assim pra quem? Por que a Justiça não se esforça para abranger um tarado com 17 passagens pela polícia por estupro, assédio, intimidação?

Adianta muito ficar falando em feminicídio, Lei Maria da Penha, que estamos conseguindo avançar, quando a cada dia a situação piora? Não há estrutura, não há cultura, não há leis sérias, não há proteção.

Andamos todos com a corda no pescoço, mas tentando mantê-lo erguido, altivo. Mas tem hora em que a garganta quer se expressar. Essa foi uma delas. A moça deve ter ficado bem decepcionada com a Justiça, mas certamente feliz com a enorme repercussão que o caso teve. Todas nós, mulheres, mal ou bem também pudemos ficar orgulhosas, porque reprovamos a decisão usando nossos pescoços para dizer não, girando a cabeça negativamente.

Comprovando mais rápido até do que esperávamos que tínhamos razão, que o tarado teria de ter ficado trancado, bem enjaulado.

O assédio, esses abusos, tem de terminar. Os homens vão ter de aprender na marra que é preciso esperar o sim para se aproximar do corpo de uma mulher e do seu sagrado pescoço.

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20170606_181508Marli Gonçalves, jornalista – Pescoço é bom para ganhar cheirote, o cheiro no cangote, bem perfumado.

Viva setembro, 2017

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ARTIGO – A terrível peleja da mulher contra o Cabra Diabo que machuca e mata. Por Marli Gonçalves

Woman_boxer_2Sente o cheiro empesteante de sangue no ar? Consegue ouvir os gritos de socorro, o barulho dos tapas? Ouve as ameaças, os insultos, os palavrões, as acusações, os xingamentos? Ouve o choramingo da criança pedindo, desesperada, Pare! Pare! – e as portas batendo, o som abafado dos tiros? Consegue reconhecer esse outro som oco, o estocar da faca cortando, entrando, furando, esbugalhando? Não tampe mais os ouvidos, não feche mais os olhos. Nesses poucos segundos uma mulher poderá ser assassinada. Nos últimos anos, estima-se que ocorreram, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia

Consegue notar a barbárie? Pode perceber a selvageria da questão que ainda estamos tendo de tratar em tempos ditos tão modernos, tão resolvidos? As mortes de mulheres, as muitas assassinadas por seus ex-companheiros, namorados ou diabos que cruzam seus caminhos, a violência contra a mulher está de novo desmedida, descontrolada, cruel e isso ainda sendo tratado como assunto de segunda ordem. Basta. Todo dia sabemos de um caso mais cruel e escabroso que outro.

Vamos falar desse assunto, senhores e senhoras, brasileiros e brasileiras, meu povo, minha pova? Dona presidenta, valenta, para que está servindo ser uma mulher no poder, se a senhora só faz, diz e se preocupa com masculinices? Como conseguiremos expor esse problema tanto quanto os gays estão conseguindo visibilidade agora? (Pior é que quanto mais viram “mulheres” os homens gays, nessa inversão de papéis, essa mesma violência já os atinge)

Se preciso for, podemos usar várias linguagens, tirar a roupa, botar alguma roupa simbólica, ir às ruas, pintar o sete. Aliás, lendo sobre o assunto, descobri que teve um cabra que compôs um “repente” e que ficou até oficial, cantado em ato da Lei Maria da Penha. (http://youtu.be/8G9Ddgw8HaQ). Pena que tantos atos oficiais para chamar a atenção para o problema não virem atos objetivos contra o problema, por exemplo, como proteger a mulher que denuncia. Por aí, vagando, já que agora viraram fantasmas, está cheio de mulheres que denunciaram, pediram socorro, uma, duas, três vezes. Encaro até tentar criar uma literatura de cordel, embora é capaz de algum coroné querer censurar e proibir, porque seria violento demais o meu relato; já tive minha peleja particular, sou sobrevivente.

Mulheres mortas a facadas, facões, serrotes, marteladas, tiros, porradas, cacetadas, encarceradas, estupradas, decapitadas, torturadas, emparedadas, encurraladas, até postas para cachorro comer, conforme diz a lenda no caso Eliza Samudio, o corpo que sumiu no ar. Empurradas de janelas, mantidas em cativeiro, ameaçadas de perder seus filhos, sua honra, suas famílias, aleijadas, queimadas, desfiguradas.women mudando de roupa

Eles? Estavam nervosos, corneados, bêbados, drogados, paranoicos, perderam a cabeça, ouviram vozes que mandavam – cada canalha tem uma desculpa e uma versão dos fatos, até porque em geral são eles que ficam vivos para contar a história para atentos policiais homens que irão registrar a ocorrência, “investigar com rigor””. Digo isso, porque temos tido também muitos exemplos recentes de celerados que, depois de fazer o “serviço”, se matam também – enfim, já vão tarde. Esse tipo costuma levar para o inferno não só a mulher, como os filhos e às vezes, os parentes que estiverem próximos.

Tenho até azia ao ler no noticiário relatos como “…mas ele era tão calmo, homem bom, trabalhador, quem diria…” Não seja cúmplice. Não tente justificar. Violência não se justifica. Repita cem vezes. Violência não se justifica.

Feminicídio ou femicídio – esse é o nome da violência fatal contra a mulher. Pouco importa se homicídio, feminicídio, melhor chamar de extermínio de mulheres por machistas psicopatas e descontrolados. Essa é uma questão de gênero, de saúde pública, de segurança pública, de cidadania.

Os fatos são esses. Anote. Vamos fazer algo contra a violência contra a mulher. Veja se a Lei Maria da Penha está sendo levada a sério, cumprida. Se quando a mulher vai denunciar é bem atendida. Se continuam funcionando ou, melhor: como não funcionam as nossas à época tão festejadas Delegacias da Mulher – vamos lá ver se estão preparadas, equipadas, com equipes treinadas. A resposta será Não. E não. E não.

Animated%20Gif%20Women%20(35)Saiba mais sobre a crueldade, dessa cruel realidade e suas estatísticas: 52% das mulheres vítimas têm entre 20 e 39 anos: 31%, idade entre 20 a 29 anos, e 23% tinham entre 30 e 39 anos. 62% do total, mulheres negras ou pardas. 61% das mulheres assassinadas em 2012 eram solteiras, 13%, casadas. Só em 2012 foram 393 mortes por mês, 13 por dia, mais de 1 morte a cada duas horas.

Aproximadamente 40% de todos os homicídios de mulheres no mundo são cometidos por um parceiro íntimo. No Brasil, de 2001 a 2011 calcula-se que foram mais de 50 mil assassinatos, ou seja, aproximadamente 5 mil mortes por ano. Um terço ocorreu no local onde moravam.

50% dos feminicídios tiveram o uso de armas de fogo; 34% foram com algum instrumento perfurante, cortante ou contundente. Enforcamento ou sufocação foi registrado em 6% das mortes. Maus tratos – incluindo agressão por força corporal, física, violência sexual, negligência, abandono e maus tratos (abuso sexual, crueldade mental e tortura) – foram registrados em 3% dos casos de uma pesquisa que abrangeu uma década de estudos.

E atenção! Cuidado com sábados e domingos, mulheres: 36% dos assassinatos ocorreram aos finais de semana, 19% deles naqueles domingos que parecem tão modorrentos.

E que ninguém culpe o Faustão, o Fantástico, ou a Rede Globo por isso. Nem o Fernando Henrique, o FHC.

Animated%20Gif%20Women%20(63)São Paulo. 2015. Dia da Mulher, vamos aproveitar que estão falando da gente, para tentar nos salvar.

Marli Gonçalves é jornalista – Quando precisou de ajuda teve pouco apoio. E vejam que já lutava contra isso o que talvez tenha sido a salvação, ontem, hoje e amanhã. É muito difícil falar sobre isso. Dói onde ficaram cicatrizes. E ainda ter de ver, sentir e ouvir quão desconsideradas podemos ser, nós, mulheres, as que não optaram pela vida fácil e submissão.

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