ARTIGO – Arruma, rearruma e desarruma. Por Marli Gonçalves*

sun-clouds3Esta é a nossa vida. Fazemos isso o tempo inteiro, numa espécie de TOC que é comum a todos. Já notou? Pode ver aí que você também tem alguma coisa ou ocasião que tem esse faniquito. Tira dali, põe aqui. Troca. Por exemplo, nossas finanças – quer coisa que a gente mais arrume, desarrume e rearrume? Há também os momentos troca de estação, quando temos de virar o armário ao contrário ou quando se vai mais fundo e embaralha, desarruma tudo – para ver se, quem sabe, arruma alguém?

É muito louco como é difícil alcançar não só o Éden como a tal Ordem. Nossa, como eu tento! Mas para arrumar alguma coisa você acaba tendo de desarrumar outra, o que faz com que esse ciclo jamais seja completo ou definitivo. Em constante mutação interna e externa, perceber esse movimento é fundamental para conseguir o tal ponto de equilíbrio. Ou pelo menos chegar perto dos pontos; plural, porque não há jeito de eu ficar só em um. Você pode não entender ou acreditar em horóscopo, mas eu te garanto que essa é uma característica de Gêmeos, meu signo e o de um monte de gente inquieta por aí. Vou usar uma expressão caipira para descrever, ouça-a ingênua. Temos fogo no rabo.

Aliás, justo está chegando a hora de virar o número, meu odômetro, que mede as distâncias percorridas, falta menos de um mês. Seria legal se fosse automático: você faz aniversário e no dia seguinte já está tudo perfilado para essa sua nova caminhada. Triste ilusão. Juntou ainda com outra arrumação necessária, entre tantas obrigatórias, a das roupas de frio, do inverno que ainda vai chegar, mas que por aqui já anda dando as caras, mandando recado, soprando frio nas nossas orelhas. Resultado: cabecinha girando e essa reflexão que divido e que talvez até possa ajudar você também.... e seu clone!

Como há mais de década não tiro férias e não as vejo em um horizonte próximo, não posso contar com aquele tradicional frescor natural e mudança que invade a pessoa que sempre delas “volta diferente”. Crianças voltam mais adultas; adolescentes, mais decididos e com uma cara e corpo mais modelados; adultos, mais experientes e felizes. Eu resolvi tentar no armário.

Impressionante: ainda bem. Estou duranga kid e o fato de rever e já possuir, não precisar comprar, já me trouxe forte alento nesta rearrumação. Veludo? Tenho. Couro? Tenho. Chapéus, toucas, lenços e cachecóis? Tenho. Acessórios diferentes, brincos grandes, botas, botinhas e botões? Tenho. Percebi que sou uma perfeita colecionadora, e acreditem não faz um ano reduzi a menos da metade tudo.

Foi legal rever meu armário, os estilos que já fui e que certamente retomarei porque, da moda, o que mais gosto é exatamente não segui-la, mas acompanhar e recriá-la sempre, e ela sempre volta, repaginada, “relida”, como afirmam os estilistas. Aliás, já está mais do que na hora de surgirem aquelas roupas espaciais que tanto imaginamos anos a fio na ficção, desde Barbarella. Aquelas roupas que faltam falar. Coisa de uniforme de super-herói. Adoraria que elas também se lavassem, passassem, se dobrassem e se guardassem sozinhas. Ou, melhor – o mundo tem sido tão rápido! -, que sejam logo holográficas e nem mais ocupem espaços. Sem peso, sem alergias, ajustadas. Nada mal seria. Nada mal.

mundo clock]Me esforço aqui para fazer um paralelo entre o meu armário e o momento que vivemos, e onde só vejo tudo completamente desarrumado. Creio que para resolvermos isso seja necessário tirar tudo, jogar no chão, passar um paninho nas prateleiras. Jogar fora o que realmente não dá ou virou trapo ou traz recordação ruim, separar bem, com definições, ou “ideologias” se preferirem, para depois acomodá-las onde possam ser vistas, usadas, úteis. Imagino que se aplicássemos essa regra aos ministérios atuais, sobraria no máximo uma dúzia e também ia sobrar espaço e dinheiro até para que pudéssemos renovar muita coisa, ganhar, melhorar, crescer. Vamos ver o que já temos, remanejar, descobrir nas gavetas, fazer umas reformas, costurar uns buracos, cortar as linhas desfiadas, pregar botão. Fazer bainha.

circulo mulherDe vez em quando precisamos mudar, trocar de pele como as cobras. Variar. Por acaso esse ano estou sentindo isso, de tanto tropeçar virando o salto nestas calçadas e caminhos emperrados de nossa carruagem, ainda puxada por bois e vacas.

Talvez use mais saias, seja mais “mocinha”, deixe crescer até os ombros os cabelos da cabeça. Ou não. Alguma cor para quebrar o velho pretinho. Pijama ainda não estou convencida; roupa velha bagaceira, de monstro, é tão confortável! Preciso achar um substituto para o chocolate Taeq light que adorava tomar antes de dormir, mas ele saiu do mercado como tudo que é bom e aparece alguém querendo piorar. Talvez tome mais chá, mas me falta a companhia que já me dá prazer só de por a água para ferver.

Bem, quem sabe? Continuarei otimista, valente, e gostaria de poder também voltar a ter mais ousadia, aquela que um dia já tive. Só que para isso preciso de um país. De um país em Ordem.

Do Progresso a gente cuida.

São Paulo, 2015homem dourado claroMarli Gonçalves é jornalista – – Admite que nunca dura muito mais de uma semana as suas arrumações. Mas deve ser assim para todo mundo. Não é?

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ARTIGO – Gêmeos, espelhos, vidas. Por Marli Gonçalves

TWINSA gente não acredita muito em Astrologia, mas sempre que dá espicha o olho para o horóscopo e suas previsões. Tem quem queira tanto ter um que acaba como agora, com tanta fertilização, tendo dois, três ou mais filhos de uma vez só, mais que gêmeos. Essa nossa natureza toda é tão doida que permite que achemos nossos pares por aí, pessoas iguais por dentro; que nasçamos iguais, por fora, ou até grudados. Permite que a gente se alinhe com os astros e que os astros nos ajudem a conduzir essas nossas vidas em busca de ideais e almas, gêmeas também, e que às vezes, estão só nos nossos espelhos. Ou não, como diria Caetano.TWINS

A mulher simples, Kátia, de sotaque nordestino, sorria à toa no hospital, aquele sorriso franco da alegria desmedida. Nos braços, em cada um dos braços, uma linda menina. Eram Ana Clara e Anne Vitória, sete meses de idade, e há poucos dias separadas de uma união de irmãs quase fatídica. Elas são gêmeas siamesas, nasceram ligadas pelos órgãos genitais, pelo final da coluna e da medula, e foram operadas com raro sucesso em São Paulo, para separação dos corpos, numa história realmente comovente, desde sua origem no Rio Grande do Norte. Literalmente desde a origem, da descoberta da gestação gemelar, do parto “aperreado” feito por um médico quase desconhecido, porque o hospital para onde o parto estava previsto foi interditado dias antes por causa de uma bactéria que matava os bebês. Não parece aquela coisa de futebol americano, gente que corre com a bola debaixo do braço? Ou que corre fugindo das minas terrestres?

baby-graphics-twins-651010Essas coisas que mexem com a gente quando assistimos na tevê, e nos lembram de quanto – por mais aperreados que estejamos também- sempre tem alguém que nos supera e impressiona, e justamente por isso mesmo: a capacidade de superação. A ilustração desse fato, no entanto, me fez pensar em Gêmeos, o signo astrológico que entra no ar essa semana, por acaso o meu; pensar em gêmeos, pessoas gêmeas, causas gêmeas, coisas gêmeas. Pensar na harmonia do número – um é pouco, dois é bom, três é melhor.

Me fez pensar ainda em quantas coisas gêmeas há, inclusive as tais almas, espirituais, filosóficas, num patamar superior e ainda, para mim, inalcançável. Embora acredite até que já a encontrei nessa vida, mas ela se perdeu por aí virando alma mesmo, também infelizmente literalmente.

Coisas banais podem ser gêmeas: unhas (pintar apenas duas, ou só duas de uma mesma cor e as outras diferentes) e toda sorte de conjuntinhos, entre os quais os estampados que viraram moda por causa das roupas da delegada da novela. Casas. Cidades também arrumam seus iguais, distantes, mas que viram ou cidades gêmeas, ou cidades-irmãs. Sabia que São Paulo é cidade-irmã de Milão? Que Brasília é irmã de Washington? Salvador, de Los Angeles? Que o Rio de Janeiro tem mais de dez – Tel-Aviv, Manágua, Havana, entre elas? Pois são.

baby-graphics-twins-082230Lembrar-nos do quanto gêmeos podem ser diferentes entre si. Como podemos ser, ao mesmo tempo, tão iguais a pessoas completamente diferentes. Como a beleza da mitologia explica algumas das nossas tantas possibilidades reais de sobrevivência, por exemplo, entre irmãos. Castor e Pólux, da lenda, filhos de Júpiter, que se transmutou em cisne para engravidar uma princesa, e daí ambos terem nascido de ovos: eram tão ligados que, quando em uma batalha Castor é mortalmente ferido, o irmão suplica e consegue fazer com que ele retorne à vida, aceitando dividir com ele a sua imortalidade, em alternância.

Passou tanta coisa na cabeça! Inclusive como Ana e Anne viveriam o resto de suas vidas coladas, como tantos outros siameses vivem pelo mundo, estranheza de jamais estar só, a divisão de órgãos, vontades, pensamentos. Ambos tendo que chegar a conclusões únicas, mesmo que um queira ir para lá, e o outro para cá.

Par, impar. Uni, duni,tê, um sorvete colorê pra você lambê. Bis.

São Paulo, parlendas possíveis, 2013

Marli Gonçalves é jornalistaSempre existe um sapato velho para uma roupa nova, um chinelo para um pé descalço; toda panela tem uma tampa, toda meia tem o seu pé, toda luva a sua mão. E nem sempre tudo é igual.

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CHUVA DE GEMINÍDEOS. CHUVA DE MARLIZINHAS. CHUVA DE METEORINHOS. EM SP, DE NOITE

cid_000501c0d730ndChuva de meteoros pode ser vista no céu de SP nesta semana

KÁTIA LESSA
DE SÃO PAULO

Durante toda essa semana, será possível observar no céu de São Paulo uma das mais intensas chuvas de meteoros do ano. A chamada chuva de geminídeos recebe esse nome porque os “risquinhos” no céu parecem surgir da constelação de Gêmeos.

Segundo João Paulo Delicato, diretor do Planetário Aristóteles Orsini, no parque Ibirapuera, os geminídeos são restos do asteroide 3200 Phaethon. Todos os anos, em dezembro, o planeta passa pela região na qual estão esses restos e, por isso, é possível observar o fenômeno.

MAIS, NA FOLHA DE SP…