ARTIGO – Em seu nome, Brasil. Por Marli Gonçalves

EM SEU NOME, BRASIL

Marli Gonçalves

Quantas já se fizeram em seu nome, quantas aprontaram! Pelo Bem da Pátria, como desculpas, porque você é lindo, promissor, tropical, seu povo é cordato, isso e aquilo. Quanto já se prometeu e pouco se cumpriu. Mas de esperança em esperança lá estamos nós de novo. Desta vez, ou melhor, mais uma vez, tateando no escuro, buscando onde é que está o botãozinho da luz, o nosso Ponto G coletivo

Meu povo, Brasil, já vivi para ver de um tudo, de bom, de ruim. Eu mesma nasci no sensacional ano de 1958, pelo qual tenho grande simpatia, e ainda além de mim mesma, que cheguei no pedaço.

Vivemos períodos novos, interessantes, violentos, estressantes, de crescimento e de queda, de orgulho e de vergonha. Já acreditei em promessas e me frustrei. Não acreditei e fui surpreendida. Não estava nem aí – e nem aqui, para falar a verdade – quando o caçador de marajás caçou foi o dinheiro do cofrinho de todos. Como naquela frase …como eu não tinha nada, não me importei… Assisti de camarote aos caras pintadas nas ruas. Feliz porque tinha ali gente a fim de participar ativamente – podíamos descansar um pouco, depois dos anos 60,70, e 80 – esses de tanta vontade represada, que o tal “novo” daquela ocasião acabou eleito, e deu no que deu.

E assim foi, de passo em passo até chegarmos ao primeiro Governo Lula, ao segundo… e ao desastre total e irrestrito do terceiro, gerado com aquela interposta pessoa que ainda tive de ouvir muitas cobranças de que eu devia apoiá-la por ser mulher. Lá fomos nós às ruas, bandeirinha verde e amarela em punho pelo impeachment e ao mesmo tempo uma desconfiança muito grande com o que também já era possível observar e se juntava ali, agora ovo chocado. Deles, grupos ali no meio e nas pontas das avenidas, ouvíamos xingamentos, grosserias, cânticos e palavras de ordem estranhas, enviesadas, desconexas, que viam vermelho em tudo. Alguns batendo continência.

Mas pensávamos que nada poderia ser pior na sequência. Ah, pode sim.LABRASIL0219

Agora, trancos e barrancos chegamos às vias de fato, do fato que nessa eleição se coloca tão clara e vergonhosamente. Antes, pediram uma mulher, veio uma; agora pedem uma simbiose Frankenstein e assim foi moldado. Na panela, o caldo mexeu: um político há 30 anos “que não é político”, “elite zóio azul”, careta e conservador, jovem, fala igual ao povo, cara de machinho, aparenta coragem, casado com mulher, filhos, e é temente a Deus. Tem outros temperos nessa receita, mas me permito não enumerar agora.

(Olho para os seus olhos e me inquieto. São vagos, sem brilho, mexem irrequietos e fugidios, desviam-se seguidamente do interlocutor.)

No fundo, nada vai ficar muito diferente no patamar cotidiano de Governo, enquanto houver as interdependências e as dependências dos Poderes.

O que assusta é que foram abertas cavernas e poços, onde se escondia um outro caldo de uma alma nacional não gentil, e que vem jorrando, manchando o solo.

Em seu nome, Brasil, vão cantar muito o Hino Nacional, manterão suas hipocrisias em soluções para problemas que mais uma vez não será dessa forma que serão resolvidos. Talvez até sejam ampliados. Precisaremos manter-nos firmes em nossos barquinhos nessa correnteza. Que o vento sopre a nosso favor, sereno.

O voto é nacional. A maioria ganha. Quem perde, se reorganiza. Quem pode, pode; quem não pode se sacode.

OFERECIDA E BRASILEIRA

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Marli Gonçalves – jornalista. Qualquer coisa a desculpa sempre será a mesma; em seu nome, Brasil.

marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br

2018 se define

ARTIGO – NÃO FALO MAIS NADA. POR MARLI GONÇALVES

boca de caçapaBem mesmo fez um amigo meu, grande articulista e cronista. Tirou férias. Largou a caneta, não está batucando nas pretinhas, saiu fora, só volta depois das eleições e isso só depois do segundo turno. Ele tem lá suas razões pessoais, mas na geral a coisa está difícil. Não quero brigar com ninguém – até porque, acreditem, nenhum desses que nos disputam vale qualquer aborrecimento

Como vocês estão se virando nesse tempo estranho que estamos passando? Como têm mantido a paz com quem se relacionam? Tenho ficado bem quietinha aqui no meu canto. Redes sociais, leio tudo, tenho conhecidos e amigos do mais amplo espectro da política, que nunca fui de misturar opinião política e amizade por ser uma combinação explosiva.

Não opino. Mas leio. E nunca li tantas bobagens, conspirações, mentiras, argumentos vergonhosos, comentários vis, absurdos, como agora, vindo de todos os lados. Nem naquele tempo. Mas na época não tinha tantas redes sociais, tanto entrelaçamento. Nem tanto ódio entre as pessoas. Estávamos praticamente todos no mesmo campo de batalha.

Eu temia isso, e o que eu temia aconteceu. Outro dia sai e encontrei queridos amigos, verdadeiramente, pessoas que conheço das priscas eras quando também eu acreditei em certos líderes que queriam mudar o país, melhorar as desigualdades, proteger os trabalhadores, que juravam ética e luta pelo bem-estar dos cidadãos num país rico, orgulhoso, em crescimento, e principalmente em sintonia com o mundo cada vez mais globalizado. O sonho. O Éden.

(Só para esclarecer: participei da fundação do PT, de onde me mandei logo que os primeiros sinais de desvio apareceram e não demoraram muito, fui da Anistia, participei de movimento estudantil – enfim, minha ficha na vida e no DOPS é grande: sou do Bem! Mas não sou do A nem do B, e acho mesmo que não estamos com sorte para escolher dessa lista.)

Tudo ia correndo bem na conversa até que as quatro letrinhas apareceram: L-u-l-a. Do nada, ouvi pasma uma declaração romântica, apaixonada, cega, religiosa, de uma fé absurda, seja nele, seja aliás em qualquer outro ser humano, já que todos viemos ao mundo com fortes defeitos de fábrica. Meus olhos que já são grandes aumentaram. Minha boca secou. E agora? Minha opinião seria a última coisa que gostariam de ouvir naquele momento e de nada mudaria – só criaria uma tensão desnecessária. Se o povo não mudou até agora, após dois processos gigantescos e rumorosos, mensalão, lava Jato, julgado e rejulgado, listas de petistas presos ou em vias de, gravações, marcas de batom em malas, bolsinhas, cuecas e calcinhas não vou ser eu a reorientá-los, modestamente falando. Nem quero, não adiantaria mesmo.

Me fiz de morta, de Cleópatra, e sai andando, como se nada tivesse escutado. Feliz porque acho que consegui controlar as emoções do meu rosto, que transparecem com muita facilidade.

Mas descobri o que acontece: ficam tanto tempo caçando tucanos, essa espécie já tão démodé, que não veem que o inimigo – de todos, o pior, antiquado e inadequado, o mais perigoso, velho de ideias e ações, ventríloquo de milico – é o lado para o qual deviam ser apontadas todas as forças contrárias. Obrigação de todos nós, que estudamos; é um dever que temos.

Só que não quero magoar e perder amigos. Principalmente os que tendem para o lado esquerdo do coração; os que acham que o Bolsonaro é solução já não faço tanta questão de manter, se vierem para cima de mim – aliás, tenho tido de decepar uns e outros. Desculpem, mas a ignorância mata. Já matou e feriu muita gente minha.

Para terminar: eleições passam. Mas pelo menos em minha memória ficarão bem claras a índole e a lista dos que para se sentirem em cima da carne seca comemoram a morte de pessoas e empresas, jornalistas que atacam a… imprensa! especialmente porque nela não têm ou tiveram lugar, e os que fazem de conta que não estão ganhando nada para passar o dia inteirinho no bombardeio.

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Marli Gonçalves, jornalista – Mais não falo. Mas estarei sempre pronta para me defender e aos meus.

marligo@uol.com.br e marli@brickmann.com.br

Brasil, triste 2018

ARTIGO – Desaforos não se leva para casa. Por Marli Gonçalves

Tão de brincadeira. Ouço as ruas e me preocupo. Não ouço de um lado só; ouço o direito, o esquerdo, o desinformado; o influenciado e o influenciador. O idiota e o intelectual. A situação é esdrúxula, mas não só isso: é perigosa

Estica a corda. Estica. Uma hora ela arrebenta e é esse impasse previsível que tem deixado – a mim e a muitas pessoas às quais tenho grande apreço – mais do que preocupados, chateados e irritados. Desanimados total, achando tudo um porre, nada (nem ninguém) que preste. Estamos brincando em cima de uma panela de pressão – um país perdido sem direção e em crise econômica, institucional e vou dizer: em profunda crise existencial.

Jogadas políticas temerárias vem sendo feitas à luz do dia e na calada da noite. Alguns riem. O resultado do placar é que aparece diferente para cada plateia. De um lado, os estupefatos que aceitam as provocações e acham que a solução é fechar o tempo de vez, sem entenderem que a História não deve nem precisa voltar atrás aos tempos obscuros, cavernosos e sangrentos vividos, tempos que teimam em negar como se realidade não tivessem sido. Nesse grupo há ainda os crédulos em justiceiros falastrões para quem – os que o criticam – somos analfabetos, sem ter ideia de quantos milhões o são mesmo, sem solução, e que podem votar, mas não podem ser votados para lutar contra isso.

De outro, a jogada mais radical, feita para a torcida única de bandeirinha na mão que acha que só ela sabe o que é que é bom, o que é pobre, miséria, justiça social, arte engajada, e insiste em criar caso até o fim no que não será possível, infelizmente, de forma alguma, que seja executado em paz – essa é a certeza: a candidatura de Lula, o encarcerado que mais recebe visitas que podem ser chamadas de íntimas – sem sexo, e com grande incontinência verbal.

Tapas sequenciais na cara. E ninguém está a fim de virar o outro lado para ser esbofeteado de novo.

Deixe os meninos brincarem – diria um sábio ancião, observando esse caso lá de cima de uma montanha, de onde já não mais precisa descer para votar nesse tutti-frutti absurdo e desconexo de cabo a rabo que se apresentará nas urnas. Diria mais: que eles precisam sempre regar o grupo deles, para não perderem mais do que já perderam nesses últimos anos, os que despertaram do torpor infantil emanando da plantação do canto esquerdo do rio. Jogar para a galera é o que fazem.

Só que os meninos estão justamente brincando com fogo porque querem se queimar, há entre eles muitos que – nem um pouco meninos – sabem ser o choque inevitável e para lá exatamente por isso encaminham a comissão de frente. ONU. ONU? Isso é que é atirar para todos os lados. Nunca os vi mexer o traseiro para situações vexatórias de miserê.

Teremos dias exóticos, ainda mais exóticos, quero dizer, pela frente. Vamos observar. Debates e entrevistas, os mais divertidos. Uma das melhores coisas é lembrar que a maioria das perguntas que uns fazem aos outros e que os jornalistas cutucam não têm o menor interesse de verdade para a gente a resposta, a não ser por futrica. Ver se um vai dar uma bifa na cara do outro; se o efeito do calmante vai passar, se o sangue vai subir, se gravata combina com o terno, que inclusive está tudo muito masculino para o meu gosto, se plantaram ou pintaram cabelo é o que dá a audiência.

E o que é pior, se perguntássemos ou se a conversa girasse apenas sobre as suas propostas para o Governo, seria menos constrangedor o silêncio.

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Marli Gonçalves, jornalista – Que essa corda seja resistente e não rompa.

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2018

ARTIGO – Postes desencapados. Por Marli Gonçalves

PosteNão encoste no poste. Eles são frágeis, sem ideias, a não ser as que colam neles, servem só para atravancar e segurar mal e porcamente os malditos fios que teimam em não ser enterrados. Agora, metidos, querem de novo participar das eleições

Estaca, pau, toco, se já é difícil definir melhor os postes, agora eles tentam nos atrapalhar novamente nas eleições. Se estamos nessa penúria já é por causa de uma posta presidenta que caiu tarde, nos deixando a sua sombra da meia-noite, o vampiro que se escondia por detrás da chapa quente. Não é que agora estão tentando “emplacar” outros e outras?

Não sei se dar com a cara no poste é pior do que os acintes que nos impõem dia após dia. Auto concessão de aumentos de salários de e para quem já ganha o máximo e que, se aprovados, farão uma perigosa transmissão de valores para todas as esferas, ressonantes. Pior, quem poderia parar essa gracinha são justamente aqueles que – justamente pelos agraciados – serão julgados logo mais à frente.

Bem, e as aterradoras discussões do espetado país que solta para o Dia dos Pais quem matou o seu com requintes de crueldade?

Justiça? Querem debater para intervir sobre nossa cultura e religião, os nossos corpos, e aceitam, plácidos como postes inertes, que um preso por eles julgado, julgado e julgado se arrogue da porta para fora com megafone, receba mais visitas do que as casas da mãe joana, e ainda queira ser candidato à presidência da República. O espetáculo continua: agora, além do ap triplex, alguém já tinha ouvido falar da chapa triplex? Preso, poste, vice. Três em um. E um monte de inteligentinhos batendo palmas pros malucos dançarem. O que bebem para se encostar nos postes? Acham mesmo que essa é uma atitude avançada, de esquerda, de compromisso social, popular, correta?

Ou será apenas tanta insegurança que acham que seguir um líder, um Messias, um Bessias, os salvará? O mesmo com relação aos patriotinhas de araque, quem quer o poste Palmito, apelido que ele próprio disse que tem mostrando seus pálidos cambitos, e que pretende pendurar insígnias militares no nosso viver, contaminando tudo com toda a sua atroz ignorância.

O momento é sério. Estamos em grandes dificuldades. Não temos um candidato sequer que possa ser defendido sem ruborizar. Para relaxar, até porque já não tem mais outro jeito a não ser esperar o dia seguinte, estamos brincando, fazendo memes, até nos esforçando para tentar ouvi-los em debates e entrevistas para ver se, quem sabe, espremendo bem, sai algo que preste. E dia a dia só piora. Falam uma língua desconhecida, desqualificam nosso idioma, usam termos pomposos, prometem o que é impossível e fazer o que nunca fizeram quando puderam.

E os “novos” – que surgem, batendo no peito que são novos e chegam com as mais milenares práticas do dá aqui, que eu retribuo lá?

Não fizemos reforma política. Agora será uma maçaroca e é no que eles mais uma vez se fiam com a nossa distração. Talvez poucos entendam ainda que no dia da eleição vão encontrar uma urna repleta de fotos, e que terão que apertar para presidente (que vem com o vice dependurado), dois senadores, governador, deputado federal e estadual. Seis vezes aquele irritante alarme triiimmmm vai tocar. Pela ordem: deputado federal, deputado estadual ou distrital, senador primeira vaga, senador segunda vaga, governador e presidente da República.

Um monte de postes. Um do lado do outro. No meio da rua. Para tropeçarmos, darmos topadas neles. E estarão interligados transmitindo essa energia ruim que já sentimos no ar. Aterrados estamos nós.

Mariposas, quem nos dará uma luz?

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Marli Gonçalves, jornalista – Se tivesse um cachorro, o levaria para irrigar esses postes.

Brasil, 2018

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ARTIGO – Bola rolando solta. Por enquanto. Por Marli Gonçalves

 E a gente esperando gols. Pode até ser que em algum campo lá da Rússia ainda saiam alguns, mas aqui na terrinha, quanto mais o tempo passa, maior fica a aflição de como definir qual seleção entrará no campo político ano que vem.

 

 Toda hora lemos o resultado de alguma dessas pesquisas “geniais”, que viram pano para manga para as discussões estéreis. As mais cotadas são sempre as que falam dos candidatos que estariam na frente. O engraçado é que sempre aparece aquele,  o que já foi, mas não é, não poderá ser, e que anda preso. Seguido pelo outro, a ameaça, verdadeiro terrorismo, o contraponto, aquele sem noção que – sabe-se Deus, literalmente, em quais alianças se fia – está nessa disputa sem ter feito até agora nada que preste em seus, anote, sete mandatos na Câmara Federal, esquecendo o tempo em que “nasceu” como vereador no Triste Rio. Sete! Sete vezes quatro, igual a 28 anos. Nada. Só sandices.

Tenho a impressão que as pessoas estão mesmo muito doidas, querendo jogar tudo para cima, bem pro alto, que se exploda tudo, se é que me entendem, que não posso usar termos chulos. O que dá pesquisas que mostram que 62% dos jovens querem deixar o país. Se querer fosse poder, ah, também quero. Mais, eu mesma tenho exemplos de amigos que ultrapassaram os 60 e não só queriam como já estão lá, morando fora, o que exige uma coragem superior em muito à dos jovens.

O perigo é maior entre os que se dizem desinteressados, que escutam o galo cantar soluções bruscas em obviedades e nelas acreditam.  Violência? Bala neles. E aí vemos como normais as balas agora vindo até de cima, dos helicópteros, oficiais, sangrando e matando crianças a caminho da escola? Fora a hipócrita e mascarada reação moralista ao avanço da sociedade civil em questões da natureza humana que jamais serão brecadas; eles podem achar que sim, que há “cura”, que a moral deles é que é a boa. Não, queridos, essas partidas vocês perderam. Sinto muito. Olhem para os lados.

Mesmo entre pessoas de nível médio, cansadas do dia a dia de revelações sobre corrupção, roubos, e às voltas com uma difícil sobrevivência como estamos em tempos de crise, o desatino é grande. Como se pudessem se livrar das responsabilidades. Quem fala mais grosso, acham, pode nos ajudar, como se assim fosse, acima da lei, da organização social, da geopolítica. E, principalmente, acima do bom senso que parece estar proibido de entrar nessa partida. Nossa sociedade mal preparada, uma ampla maioria sem informação, sem estudos, sem compreensão dos fatos,  pode nos levar, sim, mas a um desastre ainda maior e de difícil conserto. Agora, as tais pesquisas apontam que o placar final poderá ser decidido por mulheres de baixa renda.

Às vezes também acho que essas verificações de opinião, dependendo do momento, podem produzir o paradoxo: fake news verdadeiras. Correm para onde o vento sopra, mas com um ventilador ligado. Fico impressionada com a falta de qualidade dos questionários – verifiquei isso todas as vezes em que fui “pega” para responder algum deles. Os de faculdade, então, em geral são totalmente embandeirados, e os pesquisadores jogam cumprindo tabela.

No meio do campo, a bagunça é geral. As divididas, então, nos deixam mais caídos que o Neymar. Porque se antes eram duas, agora as torcidas estão esfaceladas e pior: mais rachadas no campo dos gols possíveis, ao centro e à esquerda.

Quer saber? A bola está rolando mesmo muito solta por enquanto. O que preocupa, se não poderá ocorrer o pior. Uma vitória por W.O. – já que estamos tão preocupados com futebol.

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Marli Gonçalves, jornalista – Estou aqui fazendo aquele sinal que pede o tal árbitro de vídeo, o quadrado riscado no ar. Quero ver o que vai acontecer quando a campanha começar de verdade na tevê.

marli@brickmann.com.br  e   marligo@uol.com.br

Brasil, 2018

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ARTIGO – Não tem nem mas, nem meio mas. Por Marli Gonçalves

Porém, no entanto, todavia, contudo, não obstante. Horas que as letrinhas adversativas chegam apenas para mascarar. Essa mania nacional de pensar claudicante e de pouca firmeza em opiniões pode nos levar a um buraco muito mais fundo do que aquele em que já estamos. Eu não sou isso, aquilo, mas… não cabe nesse momento. Ou é ou não é. Ao menos assumam. Respeitem nossa inteligência. Nada de votos envergonhados

Já começou a temporada do “Eu não sou…, mas” – e lá vem defesa do indefensável. Tenho reparado que essa praga volta com força máxima e logo agora que tanto precisamos de opiniões e atitudes certeiras, decididas. É igual a usar excessivos gerúndios, que estou convencida que é um vício que “pegou” porque é apenas uma forma, um jeitinho, de ir levando, ir fazendo, ir ganhando tempo, de não fazer é nada, como combina com o caráter nacional. Acabemos com isso, enquanto é tempo. Não é hora para covardes vindos de nenhumas das várias pontas da questão Brasil.

Direto ao ponto, para ser mais clara. Um candidato à eleição presidencial vem se fazendo apenas (até porque não tem outras qualidades) em cima de polêmicas absurdas, despreparo, atraso, manipulação de informações e do desespero de brasileiros em várias áreas, em especial a violência. Ele não é novo, não é exótico; é apenas uma besta. Estou falando, claro, de Jair Bolsonaro, que, pior ainda, tem filhotinhos bolsonarinhos. Pronto, já deixo claro aqui o que eu acho desse nome: traz as trevas, não tem a menor condição, é mais uma palhaçada que se criou nesse ambiente doente e árido em que vivemos. Eu acho isso. Respeito, embora não há argumentos que possam justificá-lo,  quem admite de forma desenvolta que ficará com ele.

Mas já irrita profundamente, e as tenho encontrado com alguma insistência, especialmente nas redes sociais, pessoas que escancaram um “Eu não sou Bolsonaro, mas…” seguido de uma série de argumentos favoráveis a essa angustiante opção. Esse tipo de sentimento gerou Malufs, Cabrais entre outros insolentes que acabaram no poder. E acabaram com o país e com o nosso crédito na política.

Do outro lado: “eu não sou petista, mas…” tem impressionado muito, porque precisa ter capacidade, ou um bom pagamento de soldos, para vir a público defender, não só o Lula, mas toda a corja que se formou dentro do partido que era a esperança, e virou um verdadeiro e escancarado lixo, para dizer o mínimo. Gosta dele, Lula, quer vê-lo fora da cadeia? Ok. Bárbaro. Hashtag para você também. Mas por favor, pare aí. Não venha com lamúrias, ousar dizer que não houve julgamento, sendo que passou por todas as camadas, esferas e estratosferas. Fora que esse processo que corre mais lépido é apenas um entre outros muito mais cabeludos. Muito mais.

Entendo e admito que no meio de mais de uma dezena de opções absolutamente atemorizantes se definindo como candidatos, nossa cabeça esteja mais para biruta de aeroporto. Mas há de haver detalhes inegociáveis. O respeito aos direitos individuais, à liberdade de expressão, aos mecanismos democráticos de controle, ao Estado Laico.

Dentro disso tudo, repito, não tem nem mas, nem meio mas…Não pode ter.

Não sou racista, mas… Respeito as mulheres, mas… Não tenho nada contra gays, mas… É muito covarde e gera atos tão covardes quanto. Não acredito em bruxas, mas…

Podemos usar o tal mas em outras formas, nas quais denota defeito. Por exemplo: Lula é um líder, mas deixou rastros e provas de ter se beneficiado pessoalmente; Bolsonaro surgiu, mas sua incapacidade intelectual e gênio o tornam inábil e perigoso.  Eles, entre outros nomes que se apresentam nas esferas estaduais e federais, são a personificação do mas, em sua terceira opção, a da dificuldade, porque são a própria negação, o embaraço, o obstáculo, o inconveniente, a objeção. Mas é adversidade, e não aguentamos mais tantas delas.

Apelo: “mas” enquanto conjunção sempre ligará duas orações. Aproveito: que assim seja, Deus nos livre deles! – mas se eles insistirem será preciso combatê-los. Com firmeza.

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Marli Gonçalves, jornalista. Um detalhe importante para aprender. Mas não é mais, que sempre aparece como outro erro de linguagem. Uma é uma coisa; mas a outra, outra coisa.

Brasil, mas pode chamar de ameaçado, 2018

marligo@uol.com.br/ marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Espiral do Tempo e os dois perdidos. Por Marli Gonçalves

 

Não é sobre Lula e Aécio, fica tranquilo. Tudo girava. A ampulheta, e a espiral hipnotizante que rodava com os dois coitados lá dentro, perdidos no tempo, andando pra trás e pra frente, anos, séculos, participando de grandes eventos, se metendo em enrascadas, viajando no passado e para o futuro como imaginavam que seria. Nenhum fio de cabelo fora do lugar. Sapato social, um de terno e gravata e o outro com uma indefectível blusa com gola rolê. Imaginem só eles aparecendo nesta nossa época – iam achar que tinham finalmente conseguido retornar aos anos 60, de onde saíram.

Eu adorava. Puxa, valeria a pena uma refilmagem hoje de O Túnel do Tempo, seriado que teve só 30 capítulos. Era tosco, mas muito caro para a época. Se 52 anos depois ainda não conseguimos nem chegar perto de inventar a tal máquina do tempo, muito menos de evoluir, melhor mantê-la na ficção. Parece mais divertido. Os dois cientistas, Tony e Doug, enviados através da máquina que chamava Tic-Toc, eram daqui observados por uma telinha, como se fosse uma tevezona. Daqui, do lado de cá, bem atrapalhados, tinha um general, uma cientista, a Dra. Ann, com cabelo de laquê e que vivia desmaiando nos episódios, mais uns assistentes malucos e um segurança com capacete de guarda. A sala, escondida em um deserto no Arizona, era lotada de equipamentos e mesas, com fitas que rodavam, como fitas de rolo em gravador, e que toda hora davam algum tilt.  De vez em quando a tal sala ficava vazia – acho que os caras iam tomar um lanche. Em geral era quando os dois perdidos mais precisavam da ajuda.

Imagino como seria uma viagem deles aos dias de hoje aqui no Brasil. Iam se sentir em casa com tanta gente falando em esquerda e direita, invasão comunista, repressão, racismo, liberdade, golpe militar, cantando o Hino Nacional. Iriam ficar chocados como os costumes encaretaram de vez. E ficariam totalmente à vontade com alguns objetos de decoração e até com as vestimentas modernas, a tal modernidade que vive entrando na Máquina do Tempo atrás de referências.

Ficariam, no entanto, perplexos quando baixassem na Sala da Justiça 2018 onde se reúnem os vetustos e as vetustas, ministros e ministras do Supremo Tribunal Federal. Iam pedir para sair correndo de lá, e a máquina poderia errar e derrubá-los em Curitiba, onde agora seriam confundidos com promotores, um deles pela aparência até com o próprio juiz Sergio Moro, ou apenas tidos como X-9 infiltrados se passassem pelo acampamento dos militantes pró-Lula liderados pela Narizinho Lula da Silva Gleisi Hoffmann e seus amigos.

Os cientistas se esconderiam atrás da porta para rir dessa “genial” ideia de acrescer Lula ao nome e tentariam entrar em contato com a base – primeiro para ser retirados daqui rapidamente logo que possível – bastante surpresos com os retrocessos que logo observariam – e para perguntar como de lá nos Anos 60 estavam analisando como que as mudanças não foram nada significativas nesse período. Utopias ideológicas, conflitos nas ruas, a tal esquerda infantil, militares dando pitacos na política, fora neca de saneamento básico, surtos de doenças tropicais, volta de outras tidas como erradicadas.

Sentir-se-iam bobos – e até um pouco frustrados – quando descobrissem que nesse meio tempo houve a criação da internet e das tais redes sociais. Uma espécie de túnel do tempo como previram e tanto desejaram criar, onde as pessoas ficam andando para frente e para trás, ou em círculos, perdidas, habitando estranhos mundos que imaginam viver na realidade, como guerreiros empunhando espadas que nada mais são do que pontas de dedo que digitam impropérios uns contra os outros, notícias falsas e verdades pela metade. Pontas de dedos que apontam inclusive para os amigos, e que justificam violências que poderiam ter sofrido anos atrás quando eram eles que estavam nas ruas trabalhando como jornalistas.

Nossos dois cientistas também ficariam abismados como nessa nossa época parece que nunca se entendeu tanto e se falou tanto de Direito e leis. Nunca se tentou tanto que as coisas fossem censuradas, se desrespeitou tanto a liberdade obtida a duras penas.

Como bons turistas, até que fossem resgatados pelos seus comandantes trapalhões lá do seu tempo, implorariam para ser transportados o mais rápido possível para um pulo no Rio de Janeiro, que nos Anos 60 já tanto ouviam falar como um lugar de beleza, samba, carnaval, praia, alegria.

Coitados.

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Marli Gonçalves, jornalista – “A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”, bem pensou Albert Einstein.

marli@brickmann.com.br / marligo@uol.com.br

Brasil, 2018

 

ARTIGO – Vamos mudar o disco. Por Marli Gonçalves

 

Vou atirar para tudo quanto é lado, adianto, que não estou gostando nadinha dessa coisa de ficar falando só em dois lados da questão Brasil. Essa moeda tem pontas, muitas, uma pluralidade delas. Quero meu país de volta. Quem ganha com essa paradeira, com essa tensão toda? É cansativo. São já pelo menos mais de três anos que parece que não temos mais um minuto de sossego, que nada funciona normalmente, que não tem dia sem algum sobressalto

        Se você me conhece pode imaginar com mais precisão, mas não importa, se você não me conhece pode imaginar também. Estou aqui segurando uma plaquinha – um papel daqueles, sulfite, escrito à mão com os dizeres: Por uma Nova Constituinte Já! Só assim, com uma reforma política, com uma ordem social mais planejada, moderna, visando o futuro que já mostra a cara, com tecnologia e avanços, vamos conseguir levantar o pé dessa lama. Começar de novo.

Essa semana foi, vem sendo (e será a outra também) desesperadora. Mas foi a prova de onde reside um dos nossos maiores entraves. Dias e dias vendo e ouvindo bate-boca de ministros com suas togas negras e vistosas debatendo entre si, se entreolhando feio, falando, falando, falando, e poucos entendendo exatamente o que diziam em seus sonolentos votos.

Pior, ao analisar esses debates com um pouco mais de atenção, perceber que todos discutiam, de alguma forma, a forma da lei. Que cada um lê essa lei, que não é clara, de uma forma. Do ângulo que lhe convém, uma coisa meio Babel. Ao mesmo tempo, para defender seus argumentos, todos acenam iguais brandindo com o mesmo livrinho verde e amarelo nas mãos, e as palavras Constituição e constitucional, repisadas. Engraçado é que aplicadas igualmente a justificar visões opostas. É esquizofrênica a situação; bipolar.

A coitada da Constituição de 88, tadinha, já nasceu meio capenga, vinda de uma época cheia de dúvidas, recém saindo de uma longa noite de ditadura onde foi fecundada. Nesses 30 anos, a já balzaquiana foi emendada, remendada, costurada, acharam um monte de verrugas nela, incrustadas e escondidas por hábeis manobras. Agora é isso aí: todo mundo fala que a segue porque ela é gordinha de tanta coisa que satisfaz a qualquer um, ao gosto do cliente.

Não vou me deter em tratados sociológicos ou meandros jurídicos, que nem me arriscaria. A realidade é maior. Quem está conseguindo trabalhar direito, sem sobressaltos? Sem medo? Quem está realmente satisfeito com seus governantes, com seus representantes eleitos, uma decepção atrás de outra? Quem é que está confortável com as Eleições que se aproximam, marcadas para daqui a apenas seis meses? E essa mais nova moda trumpiana que baixou aqui – comunicação pública – recados, posições, controvérsias, fusquinhas e rusgas – via redes sociais, tuítes.

As contas não param, os bancos não perdoam, ninguém quer saber se teve ou não protesto, se a cidade parou, se não sei quem vai preso, se outro manda soltar, se os dias não estão rendendo. Você está aí com os boletos nas mãos, sacudindo. Falam em milhões, bilhões surrupiados, enquanto contamos as moedas. Não entendo porque o país está tão dividido se o barco é esse mesmo, igual para todos, excetuando-se só os palermas que ainda acreditam que as coisas não se passaram como se passaram. Que o Grande Líder, Pajé Lula… Que o Chuchu… O maluco beleza… Andam até ameaçando ir buscar nos confins aquele exemplo de postura, Joaquim Barbosa! Porque é negro. Mulher, não, que já acham que não deu certo.

Embora tenhamos pouco tempo, talvez com o andar dessa carruagem que está descarrilando tenhamos de pensar logo nisso. Numa eleição onde escolheríamos constituintes. Talvez pessoas mais gabaritadas se apresentem em suas áreas, vindas da sociedade civil, criando, aí sim, uma nova política. Sem esse blábláblá de gestão, sem messianismo, sem que sejamos ameaçados todo dia com alguma tirada genial da cartola de algum cartola. Com o tempo determinado.

Como é que faz não sei. Sei que tem mais gente pensando nisso. Eles que são importantes que se entendam. Eu vou continuar segurando minha plaquinha com o pedido. Foi a única coisa que achei até agora, mas se você tiver outra sugestão vai ser legal.

Precisamos mudar o disco dessa vitrola.

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Marli Gonçalves, jornalista – É tanto embargo, tanta presunção de inocência e culpa que só cantarolando a música do Djavan com outra letra: “Um dia tenso/Sem um bom lugar nem pra ler um livro/ E o pensamento lá em você/Que é muito vivo… Um dia triste…”

marli@brickmann.com.br / marligo@uol.com.br

Brasil: mostra uma nova cara!

ARTIGO – O mundo não vai acabar. Acho. Por Marli Gonçalves

Estão fazendo disso tudo um carnaval tentando por os blocos na rua, mostrar-se todos bem assanhados, rebolando na boquinha de um Tribunal. Digam-me sinceramente: na real, o que é que esse julgamento, o primeiro dos muitos de Lula que ainda teremos o prazer de ver e rever, mudará na sua vida? Por que tanta papagaiada em torno disso, como se fosse um julgamento muito do importante, de vida ou morte, mundial, histórico? Se confirmado pelos desembargadores, condenado, acaso ele vai para uma cadeira elétrica, guilhotina, ou vai ficar só sem sobremesa? Ou melhor, sem candidatura?

Acaso ele já estava eleito por antecipação, aclamação, bons serviços prestados anteriormente, premiação por nos ter dado a chance de aguentar a Dilma? Seria Lula alguma espécie em extinção? – isso até, pensando bem, poderia ser bom.  Um Messias, ou Bessias? Seria Lula algum personagem mitológico, ser acima do bem e do mal e que, se condenado e não puder concorrer à Presidência, o país será riscado do mapa? Ou essa história está sendo tão repisada que talvez até haja quem realmente acredite – repito, caso os desembargadores confirmarem essa primeira sentença que há contra ele, em um julgamento-  que a nossa democracia estará em risco? Oi, tão malucos?

E de tudo quanto é lado, esse exagero, que culmina agora com transmissão ao vivo via YouTube! Governador pedindo tropas. Manifestações programadas antes e no dia, telões em praças. Chuvas de abaixo-assinados. Só falta combinarem cor de roupa pró e contra, adereço de mão, pintura tribal.

Até quando teremos de, inclusive, ver e ouvir as patacoadas e reinações de Narizinho, a Gleisi, que agora preside o impoluto PT em sua desesperada tentativa  de isentar o ex-presidente de seu triplex na prainha, que ainda nem é o Sítio do Pica-Pau amarelo, ou melhor, o sítio de Atibaia, outro capítulo mais adiante dessa interminável novela.  E o Lindinho, o Lindbergh? O senador meia-boca, paraibano eleito pelo Rio de Janeiro que continuará sendo apenas conhecido como ex-líder estudantil cara pintada, e que conclama, insinua, ameaça, se esgoela, cria frases de efeito, se esmera em espalhar um clima de guerra, como se o caso pudesse mesmo ser de grande mobilização popular. O povo não está se mexendo nem para se coçar! De qual planeta essa gente desembarcou?

Para onde se olha, se não for para as quilométricas filas dos postos de saúde onde repentinas ondas e turbas exigem tomar vacina contra febre amarela  até mesmo sem precisar, e o que já dizima pessoas que não podiam tomar e estão morrendo, só se escuta falar do tal julgamento.  Um pandemônio que lida com a conhecida ignorância nacional misturada com notícias falsas, boatos e, ainda por cima, ameaças, inclusive aos juízes que decidirão o placar de três votos em Porto Alegre.

Nos nossos tempos ainda concorre, para piorar o terrorismo e nos infernizar, o Whatsapp que as pessoas gratuitamente vêm usando sem qualquer moderação e que continuando nessa toada será exterminado, pelo menos dos celulares de quem tem o que fazer. Por ali passam todas as sandices, inclusive de uma corrente dos que têm vivido só  para odiar e passando da conta com suas adorações de bolsonaros e afins, estes sim bem perigosos para a democracia e para a nossa saúde.

Julgamentos, também acho, podem ser incríveis, emocionantes, mobilizar corações e mentes, mas desde que os crimes sejam ricos em seus roteiros e detalhes; os criminosos, mentes fascinantes nem que seja pela ousadia. Não casos de corrupção sórdida e pobre que revelem projetos de poder pessoais criados à base da miséria humana, do desprezo às boas práticas, que culminam em tríplex, pedalinhos decorados e outros bens pessoais de gosto duvidoso e às nossas custas.

Essa é só a primeira temporada dessa série.

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Marli Gonçalves, jornalista – não seria melhor se estivéssemos vendo exatamente quem serão mesmo os candidatos à presidência? Já viram que enquanto nos distraem até o Fernando Collor está se lançando, botando a cara para fora do buraco de onde nunca mais deveria poder sair?

 Brasil, para frente, por favor!

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Nota dos advogados de Lula sobre a garfada nos bens anunciada por Moro

Nota

É ilegal e abusiva a decisão divulgada hoje (19/07) pelo Juízo da 13ª. Vara Federal Criminal de Curitiba determinando o bloqueio de bens e valores do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A decisão é de 14/07, mas foi mantida em sigilo, sem a possibilidade de acesso pela defesa — que somente dela tomou conhecimento por meio da imprensa, que mais uma vez teve acesso com primazia às decisões daquele juízo. A iniciativa partiu do Ministério Público Federal em 04/10/2016 e somente agora foi analisada. Desde então, o processo também foi mantido em sigilo. A defesa irá impugnar a decisão.
Somente a prova efetiva de risco de dilapidação patrimonial poderia justificar a medida cautelar patrimonial. O Ministério Público Federal não fez essa prova, mas o juízo aceitou o pedido mais uma vez recorrendo a mera cogitação (“sendo possível que tenha sido utilizada para financiar campanhas eleitorais e em decorrência sido consumida”).
O juízo afirmou que o bloqueio de bens e valores seria necessário para assegurar o cumprimento de reparação de “dano mínimo”, que foi calculado com base em percentual de contratos firmados pelos Consórcios CONPAR e RNEST/COONEST com a PETROBRAS. Contraditoriamente, a medida foi efetivada um dia após o próprio Juízo haver reconhecido que Lula não foi beneficiado por valores provenientes de contratos firmados pela Petrobras (Ação Penal nº 5046512-94.2016.4.04.7000) e que não recebeu efetivamente a propriedade do tríplex — afastando a real acusação feita pelo Ministério Público Federal na denúncia.
Na prática a decisão retira de Lula a disponibilidade de todos os seus bens e valores, prejudicando a sua subsistência, assim como a subsistência de sua família. É mais uma arbitrariedade dentre tantas outras já cometidas pelo mesmo juízo contra o ex-Presidente Lula.
Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira  Martins

ARTIGO – Temer, por favor, sai daí! Por Marli Gonçalves

Sai daííí! Estamos muito arranhados. A verdade é que só uma coisa é certa: o país não resistirá a percorrer mais um processo de impeachment. Por favor, presidente, já que disse que não tem apego, deixa a gente seguir em frente enquanto o senhor se defende. Por favor, por você, por nós todos.

Se pudesse pedir algo ao papai do céu, ao anjo da guarda, a Todos os Santos, fazer mandinga, seria para que algo iluminasse a sua cabeça, presidente Temer, para que decida pela forma menos traumática, e por conta própria: renuncie. Não, calma, não estou fazendo juízo de valor, nem o condenando antecipadamente, embora seja bem difícil inocentar – acho que deve se defender com unhas e dentes já que garante que pode, e está – garanto – com um dos melhores advogados do país, Dr. Mariz, que pessoalmente tenho na maior conta, respeito e admiração.

Mas não governando; não pode obstruir a estrada como a terra de um muro desbarrancado pelo tremor, pela avalanche. Se não sair nada mais andará para frente; ao contrário, vai ter marcha-a-ré.

Como vê, em poucos dias já foram buscar e estão começando a passar com trator em cima do senhor. Várias vezes. Vai piorar, vão passar com uma locomotiva carregada, que – veja – apita e aparece logo ali depois da curva. Avalie: como vai continuar governando sem paz? Sem base? Com um monte de flechas apontadas, com manifestações dia sim, dia sim? Se já estava difícil sem tudo isso, imagine agora.

Sei que nesse caso o foro privilegiado que dispõe é de suma importância e o senhor se sentiria mais protegido. Mas, ao mesmo tempo, pense. Os foguetes atingiram sua tenda, furaram o teto, e até o STF já pediu sua investigação enumerando motivos horrorosos. Como ser presidente com esse fardo?

O senhor caiu no centro de uma teia maquiavélica, uma cama-de-gato, uma arapuca engendrada de forma orquestrada, premeditada. Admita. Se tentar se debater dentro dela, se enroscará mais e mais, e talvez não tenha chance de sair dessa com um mínimo de dignidade, que tenho certeza, gostaria de resguardar. Caiu o senhor, caíram até aqueles que já estavam caídos, e quanto mais todos se mexem mais o país para. Esse caso une a verdade aparecendo, sim, mas contada por manipuladores, regados a inveja, disputas internas, frutos de disputas insanas entre poderes. Vamos combinar: dessa vez com uma jogada záz-tráz, mortal.

Por favor. Considere isso. Seria uma decisão nobre, mesmo no meio de toda essa lama. Não espere que o tirem aos pontapés, como vai acontecer, seja no TSE, seja no tal impeachment, palavra que me dá até alergia em imaginar tudo de novo. Não dê chance a mais esta acusação – de ter falido um país. A História registra. O jornalismo é o dia a dia.

Mais uma vez, presidente, acredite, dou graças por não ter filhos – não saberia como explicar a eles esse momento que vivemos. Ficaria muito mais perturbada ainda se os visse assistir às cenas que todos estamos vendo. A começar pelos diálogos dos poderosos empresários delatores. Agora piorou, presidente! Os açougueiros foram mais longe ainda. Para se salvarem, aos seus luxos, se prestaram a papéis que não dá nem para dimensionar o nível de canalhice. Agora estão lá fora rindo muito de nossa cara, falando em português primário, enquanto o senhor ainda busca e usa rebuscadas palavras para se defender.

É com essa gente que está lidando agora. Não é mais só com os políticos submissos às suas ordens, os chucros. Não é só com os petistas e afins. Sinta como do dia para a noite foi sendo abandonado. Veja como o bombardeio foi muito bem sucedido, tramado.

Salve sua história, pelo menos a até aqui. Leu o jornalista Jorge Moreno? Mais ou menos: “Prof. Michel Temer chame à razão o presidente Michel Temer”. Acrescento: vamos nos agarrar ao livrinho da Constituição.

Se quer noticias aqui de fora, conto que está todo mundo muito, mas muito mesmo, muito p…, chateado, cansado, e isso é muito, mas muito mesmo, ruim. Ainda tem alguns resignados e à sua volta deve estar cheio de falsos amigos mais preocupados em se manter a salvo do que com o apoio que precisa. Aquelas deprimentes e tímidas palmas que recebeu durante seu primeiro pronunciamento dizem tudo sobre a solidão que enfrentará dentro dos gigantescos palácios.

Por favor, Temer, sai daí. Deixe que nos apeguemos ao pouco que ainda temos, permita que as coisas não piorem, gerando ainda mais miseráveis. Não nos use como escudo, vingue-se depois, mas deixe-nos passar por outros caminhos.

A pinguela ruiu. Salve a República!

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please3Marli Gonçalves, jornalista – Abismada. Preocupada. Impressionada. Envergonhada. Enojada.

Brasil, mostra a tua cara!

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ARTIGO – Reality Show de pobre. Por Marli Gonçalves

Não dá para escapar, tipo como a gente faz com os BBBs da vida. Não adianta trocar de canal. Na internet é a mesma coisa. Nem adiantaria mudar de cidade, Estado ou país. Não adianta. Espalhou-se. Não se fala em outra coisa. Todo mundo sabendo, o mundo inteiro está acompanhando, talvez nem com tanto interesse quanto a gente, mas está. Especialmente na América Latina, que está vendo por que esse continente nunca sai da miséria. Só entra nela, como no caso da Venezuela

Mais de dois anos. O novelo da novela começou a se desenrolar e agora parece que não vai acabar é nunca mais. Cada vez se embaraça, trança mais gente. Não me lembro de um dia sequer que não tenha havido notícias, mentidos e desmentidos. Depois, como agora, chegam na tevê mais elaboradas, com imagens, sons e até – pasmem – duas câmeras ambiente, como foi a gravação do depoimento daquele senhor arrogante e convencido chamado Lula e o seu séquito de advogados de uma família só. Pai, filha, genro. O pai, Roberto Teixeira, o compadre de velhas denúncias que jamais foram bem esclarecidas; por exemplo, a da nebulosa venda da Varig. O genro, o enjoado Cristiano Zanin, agora famoso, finalmente, figura tinhosa, casado com a empertigada Valeska, ex-gorda, como ela própria declarou à época dos embates com Denise Abreu, que foi quem em 2008 mostrou as provas do conluio e que já apontava que eles usavam Lula para tudo.

Se à época das denúncias sobre a venda estas tivessem sido levadas a sério como deveriam, babau. Não teria havido Dilma presidente, e o ciclo da lambança talvez não alcançasse em um estágio tão sério assim. Já havia mensalão, a maldição da Casa Civil, fatos questionáveis como os da área de energia por onde também Dilma passou. E passou Lobão, Os Três porquinhos, outros chapeuzinhos vermelhos. Mas o vento soprou e a casa caiu. Ou melhor, está caindo, lentamente, desmoronando, caçando um a um em todos os aposentos.

São capítulos imperdíveis, narrados com cenas pitorescas que atiçam nossa imaginação. Estamos assistindo diariamente a um seriado sobre como funcionam os intestinos do poder. O que comem, como processam, como se reproduzem, e o que regurgitam. Mais a parte que usaram para criar a gordura dos seus luxos, os excessos que os deixavam felizes e ao qual chamavam Projeto de Poder. Projeto de poder popular, alguns ousavam dizer. Pior, tem por aí quem ainda acredite nisso.

Quando pensávamos que Lula seria o ápice, surpresa! Tem mais. Vai ao ar uma descontraída Monica Moura que, ao lado do marido, João Santana, privou da maior intimidade com todos eles, já que foram os responsáveis, ao fim e ao cabo, por tê-los posto lá. Agora sabemos melhor o quanto custou sermos enganados durante mais de uma década pela propaganda. Vê-los ganhar mais de uma campanha presidencial mentindo, jogando areia nos olhos, prometendo mundos com nossos fundos.

Nesse reality só está faltando edredom. Quero dizer, está faltando que saibamos detalhes, porque no meio da história já apareceram vários casos bem amorosos, com apelidos bastante significativos.

Feche os olhos. Imagine que beleza o João Santana e o Delcídio do Amaral, nus, dentro de uma sauna, batendo papo e combinando ações. O Fernando Pimentel, atual governador de Minas, sempre suspeito, chegando com uma malinha recheada de dinheiro em um flat, e Monica Moura, linda e loura, lá, só esperando ele chegar para contar a bufunfa que lhe era devida.

Também gostei de imaginar a cena dela passeando com Dilma pelos jardins do Palácio, imaginar a confusa Dilma (no caso, Iolanda) escrevendo um e-mail em código tentando avisar algo. Adorando imaginar o Zé Eduardo Cardozo se contorcendo de ódio porque foi dito o óbvio sobre o vazamento (para os alvos) das operações. E o sisudo Franklin Martins? Até sumiu para não ter de explicar os milhões de dólares que cobrou para ir sacanear as campanhas lá na África.

Quanta coisa já vimos ou ficamos sabendo nesses últimos tempos, enquanto por causa disso tudo temos de tentar, com muita dificuldade, nos manter com a cabeça fora d´água.

A política toda está de cabeça para baixo e não sei se as pessoas se deram conta do significado disso e do quanto penaremos ainda para reconstruir o país e a confiança nesses tempos tão agitados. Como nos reality shows mais conhecidos, teremos de eliminá-los, um a um.

Mas sem vencedores, porque esses participantes já levaram escondido o prêmio de muito mais de um milhão, um milhão e meio. Pensam em dólares. E já ganharam casas, apartamentos, lanchas, sítios, viagens com tudo pago.

Deve ter sido tudo obra da Dona Marisa.

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marli em redMarli Gonçalves, jornalista – Mais matracas vão abrir a boca e essa novela vai bem mais longe que Redenção. Ainda vamos assistir a várias temporadas e vai ter muita malhação pela frente.

Brasil, 2017

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ARTIGO – Nunca dantes estivemos assim tão…Por Marli Gonçalves

Desesperançados. Achei a palavra. Passei a semana pensando sobre isso, eu própria meio taciturna, estranha, apreensiva. Sem conseguir ver a tal luz que abre o caminho. Cansada de todo dia a mesma coisa, alguma surpresa ou revelação de como o poço é fundo. Estou falando do Brasil. Estou falando de todos nós, uns mais outros menos, não é mesmo? Mas todos nós.

É tão forte a sensação que saí por aí perguntando, conversando com quem encontrava, puxando assunto, colhendo impressões. Queria saber o estado de espírito dos outros, sem falar diretamente sobre o meu próprio.

Antes de mais nada, entenda, por favor. Sou – pelo menos sempre me considerei – uma otimista quase incorrigível. Tenho bom humor, prezo a felicidade, detesto o baixo astral. Perceba que estou falando de algo mais filosófico, sensível, imaterial. O resultado do que colhi nas ruas explicou o que meu íntimo intuía. Em qualquer classe, se é que ainda há alguma. Nunca dantes estivemos assim tão desesperançados. A desesperança é descrença, desilusão, desânimo, desengano. Decepção.

Isso é um problema. Porque desmobiliza, cria uma legião de egoístas, cada um tentando salvar seu próprio couro. E querendo a pele do outro só para tamborim.

Nunca dantes estivemos assim. Nem durante a ditadura, pelo menos essa última que foi a que vivi – tenho de ressaltar. Quando lutávamos contra ela – e como lutamos! – o sangue corria em nossas veias, com gosto, pelo morrer ou matar em prol da liberdade, da democracia, do orgulho. Enfrentávamos as cavalarias, o medo, burlávamos, abríamos os espaços, conquistávamos centímetros que eram nossa redenção, valiosos. Um jogo bruto. Até “o outro lado” era mais intenso, deu tanto trabalho agarrado ao osso que dilacerava. Mulheres levantavam e abriam os olhos. Era um país em busca de sua identidade, no campo, nas cidades, nas escolas, universidades, palcos, no anonimato, na clandestinidade. Matavam nossos líderes, outros surgiam. Coisa bonita de ver e lembrar. Cantávamos! A luta pelas Diretas foi o ápice.

Hoje, o que temos? O linguajar chulo de coxinhas, mortadelas, palavras sendo distorcidas, ódio entre amigos, óbvios ídolos de barro e lama cobertos por milhões de dólares de corrupção sendo defendidos, literalmente, com unhas e dentes, fantasiosamente em prol de dogmas antiquados e inadequados. Não há política, mas politicagem, se alastrando daninha em todos os poderes da República, cada um puxando a sardinha, a toga, o pato, o quebra-quebra, repartidos entre si como carniça entre urubus.

Alguém aí avista alguma atitude cívica, de amor, de desprendimento? O chão que eles ladrilham pavimenta apenas o caminho de poder. De poder um mais que o outro. Antropofagia, teu nome é Brasil.

Vai falar bem de quem? Vai botar a cara de quem numa camiseta para ir às ruas? Pior, de repente, acredita, e dias depois vai ter de explicar que pensou mesmo que aquele ou aquela poderia servir. Qual o quê! Marina? Nem zumbe mais a mosca. FHC? Agora aparece do alto de um trono criticando, como ele era melhor nisso, aquilo. Dilma? Nos fez rir – e chorar, muito. Lula? Nunca dantes um líder operário deixou tantos órfãos no caminho, sem saber de nada, não ver nada, não se comprometer nem com a sua própria história, quanto mais com a nossa. Instituições? Vacilam.

Verdade. Nunca dantes estivemos é assim tão … desamparados. Quem pode busca outra cidadania. Quem pode faz as malas – embora certo seja também que essa desesperança e muito medo estejam sendo as marcas do século em todo o planeta. De onde mais se espera é de onde não vem nada. Espaço aberto a pestes, misérias, guerras.

Utopias! Quero uma para viver. Enquanto estou por aqui, farei o que puder, procurarei ter ânimo. Eu não os tenho, mas quem tem descendentes deve estar muito chateado com o rumo dessa prosa.

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Marli Gonçalves, jornalista – Tô até vendo uns rompantes de alegria com a tal Seleção Canarinho. Mas futebol não dá pão, só circo.

São Paulo, 2017, levantando o tapete. A mesa já está posta.

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ARTIGO – Uma indigesta sopa de letrinhas. Por Marli Gonçalves

Começo de ano já é bravo por si só: é IPVA, IPTU, IR e outros famigerados. Mas esse mês de fevereiro impressiona ainda mais. De um lado a corda puxa, para tentar puxar o saco da rapaziada, e começa a sacudir o F, o G, o T, o S – liberando coisa de ativo, inativo, passivo – como se isso fosse a redenção nacional em um saco de bondades que de vez em quando abre a boca e solta pérolas; de outro a turma da mão que vive embalando o berço bate igual à água mole em pedra dura com o L, o U, o L novamente e o A. Cada passinho para frente eles aparecem chamando molusco de meu loiro

frog-x-letterNão estou acreditando que a gente ainda esteja nessa. Que ainda haja gente brigando por causa deles. Custa muito admitir que a decepção é total, ampla e irrestrita ou é mais legal ficar pendendo de um lado ou outro nessa gangorra infernal, um tampando o olho do outro? Sempre um dos lados se estatela pelo chão, não brincaram já disso na tenra infância?

Ler o noticiário – eu obviamente faço isso não só diariamente como quase o dia inteiro – parece roteiro de filme dos Trapalhões, do Zorra Total. Não digo Praça da Alegria porque aqui não estou vendo nenhuma. No máximo posso citar o Pânico!

Quando a gente acha que a coisa vai mudar, vem mais do mesmo, muito mais, um fardo. E uma incapacidade de comunicação que dá gosto. Por outro lado, os que não querem admitir que sim, ele sabia, ou que sim, vocês todos foram enganados nessa de a turma acabar com a desigualdade social, governo popular, e apenas ter sido um tal de cada um para si e tudo para quem é da corriola, lambendo os beiços dos empreiteiros.

O bombardeio usa letras de todos os tipos e tamanhos. Desde as letrinhas dos institutos de pesquisa que andam por aí perguntando preferências impressas prontas a serem chutadas com respostas reumáticas dois ( imprevisíveis ) anos antes. E toma Lula na cabeça, Bolsonaro (!) correndo na raia, Joaquim Barbosa ressuscitando de sua caverna. Aí entram STF e STJ e fica todo mundo dando ordem. Dizendo, desdizendo, jogando peteca. Alguns comemorando o nada, só gás tóxico.

Poupe-nos, Senhor, deste Calvário!

Letrinhas escondem nomes cruelmente bestas e extensos em siglas. CNT, Confederação Nacional do Transporte (Transporte? Pesquisa? Um grita e o outro não escuta); FGTS, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (já e coisa sua, de lei). São como quando formam siglas de órgãos públicos – usadas para que esqueçamos a inoperância contida em seus extensos nomes.

Esquecem ainda umas das regras principais do marketing político: quem antes aparece fica mais tempo à frente da linha de tiro; se o Lula já era alvo, agora está em um paredão com uma artilharia apontada. Ele sabe disso e está incentivando porque, já condenado, quer fazer um último pedido para deixar a galera em brasa. Uma estratégia deveras perigosa.

Vêm aí grandes emoções. Estava pensando em propor um novo quadro para a tevê. Uma nova moça do tempo, mas suas previsões diárias seriam desse nosso tempo político, passível de trovoadas, prisões, delações, reviravoltas, cataclismos, com abalos sísmicos e desmoronamentos. Fora as ventanias, redemoinhos e formação de nuvens.

Já vi, vivi, e imagino onde tudo isso vai parar. Lembrei até de que nos anos 80 foram algumas poucas fotos que abalaram durante um bom tempo o tal líder popular, quando o mostraram numa casa noturna da alta sociedade, charutão e boa bebida, companhias importantes como agora muito mais ainda sabemos o quanto ele gostou de conviver. Sempre gostou. Corre e busca o povo quando vê a coisa feia para seu lado. Chama as duas letras de seu partido e as muitas outras dos agregados movimentos para fazer barulho enquanto ele dança miudinho.

Todo mundo no samba.

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IMG_20170211_020937Marli Gonçalves é jornalista – O problema é que estamos sem alternativas para preencher os vazios. O Ó.

Brasil carnavalesco, pausa, 2017

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Os órgãos de Dona Mariza poderão ser doados? Uma amiga questiona. Veja as regras gerais

Antes de mais nada, meus profundos sentimentos. Não é a ex-primeira dama.

TRISTE

É uma mãe, avó, esposa que cuidou dedicadamente de seu marido quando este adoeceu e que comeu o pão que o diabo amassou para chegar onde chegou.

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Resultado de imagem para dONA mARISA

TRAGO AO DEBATE. MÉDICOS, COMO FUNCIONA?

 

Uma amiga conhecedora das lides médicas me chama a atenção para uns detalhes sobre a falada doação da família Lula dos órgãos de Dona Mariza, hoje em morte cerebral.
Segundo ela, esses ítens – Drogas que inibem o SNC/ 66 ANOS/ ex-fumante…E temperatura corporal abaixo de 35 – impediriam a doação.

Veja detalhamento constante no Ministério da Saúde:

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Informe-se sobre o processo de doação de órgãos e tecidos
Transplantes


Para ser doador, não é necessário deixar documento por escrito. Caberá aos familiares autorizar a retirada dos órgãos

 

O número de doadores de órgãos no Brasil cresce cada dia e, com ele, o índice de transplantes realizados no país. Atualmente, o programa público nacional de transplantes de órgãos e tecidos é um dos maiores do mundo. Para ser doador, não é necessário deixar documento por escrito. Cabe aos familiares autorizar a retirada, após a constatação da morte encefálica. Neste quadro, não há mais funções vitais e a parada cardíaca é inevitável.

Embora ainda haja batimentos cardíacos, a pessoa com morte cerebral não pode respirar sem ajuda de aparelhos. O processo de retirada dos órgãos pode ser acompanhado por um médico de confiança da família. É fundamental que os órgãos sejam aproveitados enquanto há circulação sanguínea para irrigá-los. Mas se o coração parar, somente as córneas poderão ser aproveitadas.

Quando um doador efetivo é reconhecido, as centrais de transplantes das secretarias estaduais de saúde são comunicadas. Apenas elas têm acesso aos cadastros técnicos de pessoas que estão na fila. Além da ordem da lista, a escolha do receptor será definida pelos exames de compatibilidade com o doador. Por isso, nem sempre o primeiro da fila é o próximo a ser beneficiado. As centrais controlam todo o processo, coibindo o comércio ilegal de órgãos.

A doação é regida pela Lei nº 9.434/97. É ela quem define, por exemplo, que a retirada de órgãos e tecidos de pessoas mortas só pode ser realizada se precedida de diagnóstico de morte cerebral constatada por dois médicos e sob autorização de cônjuge ou parente.

Para ser doador é preciso:

• Ter identificação e registro hospitalar;

• Ter a causa do coma estabelecida e conhecida;

• Não apresentar hipotermia (temperatura do corpo inferior a 35ºC), hipotensão arterial ou estar sob efeitos de drogas depressoras do Sistema Nervoso Central;

• Passar por dois exames neurológicos que avaliem o estado do tronco cerebral. Esses exames devem ser realizados por dois médicos não participantes das equipes de captação e de transplante;

• Submeter o paciente a exame complementar que demonstre morte encefálica, caracterizada pela ausência de fluxo sangüíneo em quantidade necessária no cérebro, além de inatividade elétrica e metabólica cerebral;

• Estar comprovada a morte encefálica. Situação bem diferente do coma, quando as células do cérebro estão vivas, respirando e se alimentando, mesmo que com dificuldade ou um pouco debilitadas.

Observação: Após diagnosticada a morte encefálica, o médico do paciente, da Unidade de Terapia Intensiva ou da equipe de captação de órgãos deve informar de forma clara e objetiva que a pessoa está morta e que, nesta situação, os órgãos podem ser doados para transplante.

Quais órgãos podem ser doados?

• Coração (retirado do doador antes da parada cardíaca e mantido fora do corpo por no máximo seis horas);

• Pulmões (retirados do doador antes da parada cardíaca e mantidos fora do corpo por no máximo seis horas);

• Rins (retirados do doador até 30 minutos após a parada cardíaca e mantidos fora do corpo até 48 horas);

• Fígado (retirado do doador antes da parada cardíaca e mantido fora do corpo por no máximo 24 horas);

• Pâncreas (retirado do doador antes da parada cardíaca e mantido fora do corpo por no máximo 24 horas);

• Valvas Cardíacas

Quais tecidos podem ser doados?

• Córneas (retiradas do doador até seis horas depois da parada cardíaca e mantidas fora do corpo por até sete dias);

• Medula óssea (se compatível, feita por meio de aspiração óssea ou coleta de sangue);

• Pele (retirada do doador até seis horas depois da parada cardíaca);

• Cartilagem (retirada do doador até seis horas depois da parada cardíaca);

• Ossos (retirados do doador até seis horas depois da parada cardíaca e mantidos fora do corpo por até cinco anos);

• Sangue

Doadores vivos

A doação de órgãos também pode ser feita em vida para algum membro da família ou amigo, após avaliação clínica da pessoa. Nesse caso, a compatibilidade sangüínea é primordial e não pode haver qualquer risco para o doador. Os órgãos e tecidos que podem ser retirados em vida são rim, pâncreas, parte do fígado, parte do pulmão, medula óssea e pele.

Para doar é necessário:

• Ser um cidadão juridicamente capaz (maior de 18 anos ou menor de idade antecipado, com condições de saúde que não comprometam a manifestação válida da sua vontade);

• Estar em condições de doar o órgão ou tecido sem comprometer a saúde e aptidões vitais;

• Apresentar condições adequadas de saúde, avaliadas por um médico que afaste a possibilidade de existir doenças que comprometam a saúde durante e após a doação;

• Querer doar um órgão ou tecido que seja duplo, como o rim, e não impeça o organismo do doador continuar funcionando;

• Ter um receptor com indicação terapêutica indispensável de transplante

• Ser parente de até quarto grau ou cônjuge. No caso de não parentes, a doação só poderá ser feita com autorização judicial.

Quem não pode doar?

• Pacientes portadores de doenças que comprometam o funcionamento dos órgãos e tecidos doados, como insuficiência renal, hepática, cardíaca, pulmonar, pancreática e medular;

• Portadores de doenças contagiosas transmissíveis por transplante, como soropositivos para HIV, doença de Chagas, hepatite B e C, além de todas as demais contra-indicações utilizadas para a doação de sangue e hemoderivados;

• Pacientes com infecção generalizada ou insuficiência de múltiplos órgãos e sistemas;

• Pessoas com tumores malignos – com exceção daqueles restritos ao sistema nervoso central, carcinoma basocelular e câncer de útero – e doenças degenerativas crônicas.

Fonte:
Ministério da Saúde

ARTIGO – Sobre os pequenos e os grandes poderes. Por Marli Gonçalves

Sobre os pequenos e os grandes poderes

Por Marli Gonçalves

poderTerremoto! A terra política – molhada, lama grossa – se dissolve sob os nossos pés. Entreolhamo-nos inquietos perguntando o que vai ser, quem é que pode saber, sabe ou saberá de alguma coisa, uma luz que seja. Os pequenos poderes se mantêm; os grandes se dissolvem. Temo os médios, do que serão capazes

Nesse momento estou às voltas com os tais pequenos poderes, com os “bozós”, com normas e o fantástico Sistema que impõe regras inacreditáveis seguidas cegamente por esse povo invisível – transparentes só até que precisemos circular entre eles. Em um hospital, por exemplo, acreditem, estão presentes em todos os cantos – até mais que médicos e enfermeiras. Estão em todos os lugares, uniformizados, terceirizados, servidores públicos e privados, alguns até armados.

Já os grandes poderes carregando seus egos enormes e que protagonizaram as cenas dessa semana não fazem outra coisa senão justamente aparecer fulgurantes dia e noite arrastando suas plumas e movendo mundos e fundos para puxar a sardinha cada um para o seu lado. Ou escapar das ondas do tsunami que se avizinha.

Os pequenos poderes, por sua vez, são subalternos, cumprem ordens e comandos – que citam como razão argumento e repetem como autômatos. Eles não sabem o que é lógica. O perigo é justamente de onde vêm essas orientações. Porque é só com elas em punho que eles, esses pequeninos, crescem, se acham importantes, implacáveis, legalistas. Atacam.

Por outro lado os Poderes com maiúscula – Legislativo, Executivo, Judiciário –têm se estranhado como nunca, fazendo borbulhas, um tentando afogar o outro, empurrando a cabeça para dentro d`água. Tudo executam sorrindo, fazendo mesuras.

Nessa terra molhada com o nosso suor, chão inseguro, movediço, estranhamento, o que vemos é que a cada movimento brusco afundam todos. Nos levando junto. Protagonistas e figurantes.

Fosse um filme faroeste seriam balas e flechas zunindo para tudo quanto é lado no Planalto Central. Fosse um filme de guerra daria gosto de ver os aviões abrindo suas escotilhas e atirando bombas de delações premiadas, lançadas e chovendo também sobre todas as cabeças premiadas, só não se sabe até quando com a coroa.

Todo mundo manda. Ninguém obedece. Ou obedeceria quem tivesse juízo, diz o dito popular. O mais engraçado está em um tentando mandar no outro, os grandes, e de onde estão saindo as faíscas maiores e mais perigosas no momento em que tanto combustível está jogado no chão.

Repito: temo os exércitos invisíveis dos pequenos poderes e do que serão capazes os seus comandantes ainda tão toscos e primitivos nesse país que não consegue se desenvolver sem tropeçar. Temo os grandes poderes que embaralham as cartas e não sabemos quais escondem nas suas mangas, sejam togas ou ternos.

Nos lembra muito uma canção, de Chico Buarque: O que será, que será? Que todos os avisos não vão evitar/ Por que todos os risos vão desafiar… O que será, que será? Que andam suspirando pelas alcovas/Que andam sussurrando em versos e trovas/Que andam combinando no breu das tocas/Que anda nas cabeças, anda nas bocas?… O que não tem governo nem nunca terá/ O que não tem vergonha nem nunca terá?…

_____________geniOS DO PODER_______

20160813_143252Marli Gonçalves, jornalistaImprensa, uma profissão que até já foi um Poder. Agora só registra o estouro dos fatos que deixou passar debaixo de suas barbas por tanto tempo, durante tão longos anos.

São Paulo, 2016, o ano que estica suas sombras

ARTIGO – A carta de Dilma. Por Marli Gonçalves

writing_love_letterFaz uns três meses que uma tal carta começou a ser escrita e nunca se viu tantas idas e vindas, tantos rascunhos, tantos garranchos, tanto tira e põe, tanta gente se metendo, palpitando, igual ao governo que não fez. Essa carta podia mesmo ser só um ponto final.ARROBINHBA

Cabeçalho: Brasília, (__) de agosto de 2016. Destinatário: Ao Povo Brasileiro. “Desculpem qualquer coisa. Sei que estou sendo afastada pelo conjunto da obra e de minha teimosia, que acabaram desenhando os acontecimentos que vivemos. Grata pela compreensão, e um pedido: não gostaria que se associasse isso tudo ao fato de eu ser mulher. Não tem nada a ver. Apenas me uni a um projeto de poder político que se mostrou patético e falido”. Assinado, Dilma.

Pronto, estava dito.

Mas não. Quer porque quer causar. Sair batendo o pé. Agora a coisa está piorando e a tal missiva ameaça até ser uma espécie de carta-testamento, tipo a de Getúlio Vargas – sem o suicídio, esperamos, claro, que ninguém quer sangue. Dá para acreditar? Mais, a ameaça continua: poderá não ser só uma carta, mas duas! Mais ainda: ameaça listar as lutas da esquerda brasileira que acredita encarnar contra os contrários ao Deus Supremo Lula. Coisa mais antiga, démodé. Fico preocupada se ela não vai acabar fazendo logo um livro capa tão dura quanto sua cintura. Novela a história toda já virou. Toques venezuelanos emocionantes.

Mártir de si mesma, a presidente afastada sugere que não viu que foi quem montou o jogo que perdeu, o mundo se desmoronando à sua frente em erosão constante, promessas e mentiras desmascaradas. Que não ouviu os primeiros berros à sua porta em junho de 2013. Não admite que a cada passo que se revela da mangueira de sucção instalada na Petrobras vem à tona sua cegueira, incompetência de gestão. Ou, o que tem hora que até eu acredito, que foi feita de otária – e o que deve ser duro para a valenta admitir – as coisas correram ali nas suas barbas. Barbas, não, melenas caprichosamente cultivadas na sua visível transformação nos últimos anos.

cartero-echando-cartaO mesmo com relação ao partido, o PT e seus radicais livres, muitos que inclusive agora não mais o são, e estão ou foram presos, com o quais ela nunca pareceu ter afinidade mesmo, mas fazer o quê? Vivem ranhetando entre si. Mas poste não tem vez, nem voz. O problema maior é que caiu a lâmpada que iluminava o poste e o fazia imprescindível.

Igual soluço, a palavra golpe está até cansada de tanto senta e levanta, de tanto que entrou e saiu dessa tal carta que já marcou várias datas para nascer de cesariana, e deu para trás até agora em todas. Parto difícil, alto risco.

Outro dia dessa semana, pelo que se deu a entender, Lula foi até Brasília para conhecer a tal pecinha. Vocês conhecem o Lula? Conseguem imaginar o que é que ele realmente pensa dessa ideia de escrever cartinha, como deve se referir com desdém, o que será que acha? Do papelzinho? O intuitivo Lula deve achar uma papagaiada, entre outros termos menos airosos.

Fora que pelo que se ouve por aí, na tal epístola ela quer – e se voltar, garante que o fará – chamar o povo – esse arrepiante coletivo – para opinar em plebiscito. Um eufemismo para admitir sua própria derrota.

Não quero ser chata, tinha até pensado em ajudar a escrever uma minuta completa para abreviar a angústia que essa carta, ao fim e ao cabo a nós endereçada, deve causar a Dilma. Será que ela levanta de madrugada pensando nela? Será que é ela mesma que a está escrevendo sentada em sua penteadeira, com caneta bico de pena (imagem romântica)? Qual a cor da tinta? Ou escreverá a lápis, apagando detalhes com borracha cheirosa? Usará branquinho?

Spike_writing_in_the_friendship_journal_S4E23Se perde pensativa, desenha casinhas no papel? Escreve os palavrões que pensa? Ou teclará catando milho palavra por palavra? Tira cópias? Parece a carta mais vazada e aberta do mundo, mais que obra de Umberto Eco. Imprime para ler? Destrói no triturador as partes que despreza? Deixa guardada em um pendrive que mantém junto a si, amarrado em uma corda no pescoço?

Escreveu não leu, o pau comeu.

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Marli Gonçalves, jornalista – A melhor de todas é a carta branca, que nos deixa decidir o que queremos. Mas que não damos a governo algum em nosso nome.

Brasil, 2016, Código 55. O CEP não sei. Registrada.
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ARTIGO – Sossego em lugar algum. Por Marli Gonçalves

Ninguém mais tem sossego, esse bem tão simples e valioso. Ninguém, por melhor, mais bonito, rico, culto, etcetera etcetera que seja. Não há mais local seguro. Não há idade, cor, sexo, transsexo, nacionalidade ou religião a salvo. Nem quem vive de tirar o sossego dos outros está a salvo. Que mundo é esse onde chegamos?

No bar, no restaurante, no aeroporto, no estádio, na escola, na casa noturna, as gargalhadas e boas conversas com amigos, o paladar da degustação de um jantar e a alegria podem ser interrompidos em segundos por um grupo de malucos armados, alguns vestidos com bombas e com vale-transporte “boom” para o paraíso que imaginam alcançar com sua dedicação e fanatismo. Os senhores da guerra e das armas devem estar orgulhosos do que conseguiram: inquietar um planeta.

Pois falo do terror, e falo também do outro terror – esse que está bem aqui, bem nosso, que nem ideal tem, mais comum, que desce o morro, não para morrer, mas para matar por uns trocados, um relógio, um celular. Que mata por prazer. Que vaga pelas ruas à cata de seus alvos, entre os descuidados, entre os distraídos, ou que não deviam estar ali naquela hora, naquele momento. Bestas, cada vez mais jovens, cada vez mais numerosos, querem tomar na mão grande o que nunca pretenderam conquistar pelo bem. Homens e mulheres que sob algum comando geral, estranhamente sempre muito pouco identificado, atacam. Eles não têm futuro e acham que ninguém pode ter. Qualquer movimento brusco, qualquer tentativa de se defender pode valer uma vida, tirada ainda mais rápido e sem piedade.

Vida que vale nada, pouco; aliás é o produto que vem sendo mais desvalorizado na bolsa da existência. Tempos violentos esses, sem poesia nem para atos extremos – antes, há uma ou duas, três décadas, ainda havia restos de um certo romantismo e elegância, uma certa aventura, para os que buscavam seus ideais patrióticos ou políticos, em guerrilhas e roubos arrojados. Ladrões que mereceram admiração pelo estilo que executavam seus crimes. Ou até os que amavam tanto que o ciúme corroeu a alma ao ponto de quererem matar para continuar sendo únicos, paixões cheias de literatura.

sport-graphics-water-skiing-619865Hoje não são mais histórias bonitas, daquelas que dá vontade de escrever sobre elas, saber o que as motivou, como tantas vezes na vida de repórter encontrei. Agora são apenas notícias cruéis, curtas, sem emoção, que se sucedem e preenchem com estardalhaço os programas policiais das tardes na tevê, narradas por apresentadores que dão ênfase automaticamente a algumas palavras ou frases que repetem para deter nossa atenção, com vinhetas repletas de sangue estampadas no rodapé. Truque.

Não há sossego em lugar algum. Isso esgota nossos nervos, e andamos olhando para os lados, desconfiados de tudo e todos, pouco solidários, cada vez mais isolados e em rede virtual onde também ali é preciso atenção, não dá para relaxar. Podem estar do outro lado, fingindo, mentindo, enganando, querendo roubar você. E você pode cair no truque, no golpe, mesmo que esteja em casa, quietinho, de pijama e chinelinho. Não abra. Não acredite.

A polícia apavora – os tiros podem sair pela culatra, perdidos, e alguns deles, dos próprios policiais que podem estar nos dois lados da questão ou defendendo sem eira nem beira umas leis próprias de mundo cão, que autorizam forjar provas plantando armas e drogas, incriminar inocentes.

Cidades pacatas do interior, onde decididamente não havia disso, agora sofrem com a reprodução do que de pior viaja no tempo, nos ventos das grandes capitais. Bancos explodem. Cracolândias tomam suas lindas praças e se expandem por debaixo das soleiras devastando seus garotos, puxados pelos braços do tédio e das informações que chegaram alimentando o bichinho do consumo, do se dar bem.

É visível que está difícil e perigoso viver. Mais ainda enfrentando o maior de todos, o desassossego da natureza, indomável em seus quatro elementos, terra, ar, fogo, água, que também mandam recados e podem se rebelar de vez – e caso isso seja com grande força pode devastar e tornar tudo um grande descampado, um nada, finalmente com uma quietude. Um sossego. Mas um que, creio, não é o que desejaríamos.

Que susto!Marli Gonçalves, jornalista – O que vejo e o que me preocupa.

SP, 2016

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ARTIGO – L-J, ou Querida, o país encolheu. Por Marli Gonçalves

tv_01b_bbForam tantas tratativas pensando em melar a Operação Lava Jato que faltaram chamar a Wanderléa para fazer serenata para o Sergio Moro: “Senhor Juiz, pare agora! Por favor, pare, agora! ” Para completar, temos uma dívida monstro tipo corda no pescoço, mais de 11 milhões de desempregados, saques assaltos bilionários sanguessugas nas empresas e das empresas na gente, um projeto de poder falido tentando de um tudo para continuar atarracado. E mais a violência que nos sangra e respinga

Geleia geral, se alguém queria saber a sua mais completa tradução, chegou a ela nos últimos dias destes últimos meses. A novela mais assistida voltou ao horário das oito, o do noticiário, agora repleto de personagens que entram mudos e não saem, calados; que saem, ou ainda tentem, falando, dedando, traindo; que fogem ou são fugidos, gravam e são gravados – e gravados puramente sinceros. Os que estão numa lista aguardando a chamada. E os que estão numa outra lista de espera para ingressar em breve no espetáculo, em alguma fase de nome criativo da Operação. Mais matracas declarando roteiros que não cumpriram quando puderam.

Se for para começar a usar sinônimos, lá vem mais um: decomposição. A coisa está tão feia, sem limites, derretendo sórdida e a passos tão largos que não nos sobrará outra opção que não seja histórica, esta sim o será, e corajosa. Do ponto de vista político de unidade nacional, se estiver mesmo querendo passar melhorzinho para a história não restará a Michel Temer alternativa a não ser liderar um rápido e radical processo de transformação e renovação, chamando eleições em todos os níveis, e em um processo que no máximo se resolva desse outono ao outono do ano que vem. Só assim poderá manter o apoio, porque a impressão é que ainda vem onda grande por aí.

Mas quem dera fosse só na política essa degradação, embora a ela tudo pertença de alguma forma. Estamos precisando falar sobre a nossa índole que está mostrando um lado brutal que ainda poucos se dão conta. Aliás, poucos se dão conta que isso tudo é real, significa, e é a sua própria vida e destino no jogo.

tv_04a_bbEssa novela, “L-J ou Querida, o país encolheu” já ultrapassou Redenção, da extinta Excelsior, que tem o recorde de ter ficado no ar por mais tempo na televisão brasileira. Foram vinte e quatro meses e dezessete dias, 596 capítulos. A história agora, a atual, parece infinita, um polvo, e de cada uma de sua pernas cortadas, surgem outras, ainda mais compridas, como rabos de lagartixa. As histórias esticam sua dimensões e alcançam cada vez mais personagens detrás de portas e janelas onde tentavam se camuflar.

Enquanto discutimos estruturas burocráticas de ministérios, fazendo cara de conteúdo, bocas e bicos, e usando argumentos chulos e apelativos para falar sobre a cultura, ela se nos apresenta em sua mais brutal face. No estupro coletivo da menina, que ainda por cima suporta agora em cima dela as dúvidas dos detalhes, e a ineficácia da proteção e investigação policial; nos assustadores números do índice nacional de estupros e violência contra a mulher. Na desonestidade intelectual dos que se afundam na tentativa de torcer o rabo da porca, para salvar a que fizeram heroína, e heroína do nada é. Se foi, foi.

As estribeiras estão soltas. A pedra atirada que mata o rapaz que dormia embalado nas curvas da estrada de Santos rolou do alto de uma montanha que desmorona, nos fazendo lembrar de olhar para cima. Para ver se vem rolando outras e tentar delas desviar. Ou procurar por Deus, pedindo que nos perdoe a todos por uma possível omissão que estaria escrevendo essa história, que nos suspende, e que embora possa parecer comédia, tenha até seus momentos hilários, não é.

É drama e dos grandes, de ainda nos fazer chorar muito. Com reprises programadas.

a43eb-tvMarli Gonçalves, jornalista Não quero ter mais tanto medo. Nem do presente, nem do futuro. Nem do enredo, nem de ser enredada

São Paulo, 2016

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ARTIGO – Ficar para a história. Por Marli Gonçalves

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Ficar para a história

 

Por Marli Gonçalves

Também estou preocupada. Todos nós estamos apreensivos, e perplexos. É estranho estar apreensivo e perplexo ao mesmo tempo, mas é o que acontece. Vou tentar expor um ponto de vista daqui da minha torre de observação: um novo tempo, apesar dos pesares, está chegando. Eles agora têm netos, não vão querer fazer feio. Pelo menos não tão feio

Pensa comigo. Aos fatos. Está visto no decorrer da Operação Lava Jato que não há mais como escapar de investigações e que estas viram ao avesso as vidas, o presente, o passado e o futuro, aqui e em toda a galáxia. Certo? Certo. Até pode fazer, mas tem de rebolar tanto para não ser descoberto que vai acabar chamando a atenção do japonês.

Sorria, você está sendo filmado, fotografado, televisionado, gravado, youtubado, instagramado, facebucado, zapzapeado e tuitado – eles também, e bem mais do que nós.

Pois bem. Com algumas décadas acompanhando a política nacional como jornalista, conheço ou lembro mais detalhes ainda do que a maioria de vocês, da vida pregressa desses cavalheiros de cabeça branca ou lisinha que ora se apresentam para nos governar e também os que se apresentam para resistir. Muita coisa antiga da época que só havia muito o “ouvi falar”, mas quase nada era mesmo investigado. Assunto abafado era o termo. Às vezes, escapava, vazava, e algum jornalista conseguia uma boa história, suportava a pressão. Mas, como disse, eles eram jovens, arrogantes, queriam subir na vida e aprenderam política antiga contaminada por populismo.

A essa altura, hoje, já devem ter percebido que as coisas realmente mudaram. Se tiverem consciência da importância do momento e da missão que constroem – e isso a gente pode ficar lembrando a eles todo o tempo – precisam tentar fazer o melhor, o seu melhor, não podem se deslumbrar com cargos e poderes. Já viveram, são raposas, experientes em sua grande maioria.pen-fountain-drawing-animated-gif

Vão querer entrar para a história com uma foto melhor na carteira de identidade. Tomara. Tomara. Tomara.

Da mesma forma, e do outro lado, os mais tradicionais dirigentes e militantes parecem crianças novamente se divertindo de voltar a atuar, ser de esquerda, de se manter bem à esquerda, combatendo “golpes”, de agitar, conclamar, ser revolucionário – a única forma que antes todos nós achávamos legal para ficar para a história. Mártires. Mas eles terão um limite, não posso acreditar que – e será uma enorme decepção se o fizerem, como inclusive ameaçam – na Hora H insuflarão mais as massas de manobra, os jovens. Temo porque eles não têm mais tanta energia, e a situação ficaria fora de controle.o-pequeno-principe-estreia-breve

Passado esse meu momento otimismo em primeiro grau, me peguei pensando nessas coisas, entrar na história, ficar para a história, passar para a história. Entrar: a marca que deixamos quando fazemos algo marcante, realmente importante. Ficar: o legado de que um ato ou pensamento nosso possa conseguir ser imortal, ser exemplo, servir como guia e lembrança. E, enfim, passar para a história: o reconhecimento de uma ou mais gerações, ou ao menos de algum estudioso que dê a chancela, faça algum registro. Há até os que ganharam feriado, ou o direito de ficar “a vida inteira” sendo festejado no aniversário da morte.

Nos tempos digitais, com a locomotiva do tempo transformando-se em trem bala de forma espantosa, e o google virando verbo, ficou mais fácil e ficou maior esse mundo da tal história. Mais espaçoso, infelizmente talvez também menos criterioso, mas agora todos nós podemos sonhar com isso. Em estar bem na fita. Temos que caprichar é como chegaremos lá e por quais fatos mereceremos ser lembrados eternamente – História é eternamente, um infinito que não tem tamanho.

Nesse exato momento, por linhas tortas ou não, somos a caneta que escreve a história. Mas não posso deixar de ressaltar que a tinta é indelével. Portanto, por favor, redobrem a atenção, escrevam com cuidado, sem arrependimentos, porque esse é exatamente um momento que passará para a história. E não pode ter borrão.

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Marli Gonçalves, jornalista Registre-se isso.

São Paulo, olho em Brasília, Brasil, maio de 2016

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ARTIGO – Dias marcantes. Por Marli Gonçalves

terremotos diáriosAgenda (1)Estamos vivendo dias marcantes. Se até para quem já viveu outros iguais ou parecidos, são marcantes, imagine para quem os vive agora a primeira vez, caso de muitos que nesses dias estão nas ruas palpitando sobre política, tomando partido ou trocando de algum. Dias marcantes são os inesquecíveis. Esses que vivemos agora estão sendo marcantes, extenuantes e históricos.

Você tem dias marcantes na sua vida, deve ter alguns. Todo mundo tem. Às vezes só percebe que tinham sido marcantes quando lembra deles tempos depois, anos após. Dias são parâmetros diferentes, importantes, específicos. Você começa um e nunca sabe como ele vai terminar, do acordar ao dormir de novo, o período que vive o dia, e que claro abarca a noite, mas não é desse período o dia sobre o qual falamos. Você pode ter tido um dia marcante porque aquela foi uma noite magnífica. É coisa de memória, que vai para uma gaveta específica e às vezes até surpreendente.

Qual é o dia marcante para você? Dia de alguma luta inglória, ou de uma vitória suada?

Repara que tem essa: dias marcantes podem o ser por motivos bons ou ruins, essa coisa dialética. Morte, vida, começo ou fim. O dia que perdeu alguém; o dia que ganhou alguém.

Pode ter sido bobo ou extraordinariamente proveitoso. Pode ter virado dia comemorativo, tipo dia do casamento, dia do nascimento. Pode ter sido dia da caça ou do caçador. Datados ou não. Você pode deles lembrar o mês ou o ano, ou apenas uma época, em qual década. Alguns vêm completos, até com dia, mês, ano, hora. E cor, cheiro, sabor. Esses são os que marcaram a ferro e fogo.

Pensando agora, me veio à mente dias marcantes díspares. O dia em que tirei meu aparelho de dentes, que viveu comigo e foi um suplício oito longos anos. Tinha quinze anos. O dia do casamento, vejam só, de um amigo; na verdade exatamente o que aconteceu depois desse casamento quase 30 anos atrás. Uma paixão eterna, sem cura.

david_goliathNa minha profissão tive muitos dias marcantes. Muitos deles com o mesmo afã dessas horas de agora, quando acompanhava pelo Jornal da Tarde e Rádio Eldorado a luta pelas Eleições Diretas, os comícios, e especialmente o mais marcante, o grande dia da votação no Congresso da Emenda Dante de Oliveira, o nome do deputado que a havia apresentado. Fui a última a sair do ar, já de madrugada. “Eles” censuravam tudo e haviam proibido a cobertura livre. Meu golpe foi ficar falando de lá com a redação ao telefone direto de um orelhão (daqueles com ficha) na Praça da Sé, perto de onde havia um palanque acompanhando a votação em Brasília, e que dispunha de alto-falantes, nomeando voto a voto. Assim os meus ouvintes acompanharam a votação até eu ser “descoberta”. Lembro do dia por isso e mais ainda por causa da grande tristeza da derrota que ocorreu naquele dia e que ainda atrasaria o país alguns anos. Lembro do calvário de Tancredo Neves, e do marcante dia do féretro pelas ruas de São Paulo. Já choramos muito por política, sim.

Decepção também faz muitos dias serem marcantes. O time que deixou de ser campeão. O fim de um relacionamento. A descoberta de uma traição. Um encontro esperado e desmarcado.

Dias marcantes podem ter sido dias trabalhados ou descansados. Letivos, entre muitos que lembramos por motivos que só muita terapia poderia explicar. Dias úteis e inúteis, ou que foram úteis para alguém, talvez. Dias assim, assados, nublados ou ensolarados.janela homem corre atras da mulher

Pois esses dias de agora são desses, marcantes, e cujas marcas esperamos sejam boas e não nos deixem cicatrizes. Eles podem não ir para o lado que você gostaria, mas sabe de antemão que são dias frenéticos, do tipo que ainda por muito tempo procurará e precisará de ajustes. Dias melhores virão. Ainda mais marcantes.

Serão mais que dias, etapas. Só estou curiosa de saber como que lembraremos desses aqui mais tarde, ali logo mais no futuro.

SP, 2016, de um dia marcante.

Marli Gonçalves, jornalista Na Ordem do Dia: por que não vemos um movimento sério, suprapartidário, de união? Por que os artistas e intelectuais de um lado e outro, acompanhados de outros de os outros matizes, não propõem e saem em busca da solução? Porque são egoístas. Querem os dias assim. Se sentem importantes demais.

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