ARTIGO – Nossas intimidades mudando de nome, por Marli Gonçalves

Antes a gente dizia: “Quer aparecer? Amarra uma melancia no pescoço!” E dava risada com a ideia improvável de ver essa cena. Hoje, ao contrário, há controvérsias. O cara pode seguir o conselho. E coitadas das frutas, hortaliças e legumes! Agora entraram definitivamente no descritivo de partes do corpo humano. Não bastassem as mulheres fruta, melancia, pera, morango, homem berinjela, essa semana apareceu a mulher couve-flor, ou melhor, a mulher com uma couve-flor. Ops, mais: a mulher ex-couve-flor.

Eu já estava cansada, era tarde, quando fui dar uma espiadinha no Twitter, ver o que rolava, quais eram os assuntos do dia. Ao ver nos trending topics, (termos mais comentados) o nome da Geisy Arruda, a rosácea loirosa sempre em busca de retorno à fama, que lhe é sempre efêmera porque bate mais a cabeça do que a usa, e ir saber do que se tratava, fiquei meio em choque com a insanidade humana. Dei de cara com uma foto dela, deitada, toda estropiada, cara remendada, olho inchado. Acompanhava uma entrevista na qual o QI de sempre-viva amarela anunciava ter feito de uma vez só várias plásticas, inclusive uma íntima. Mas logo definiu o termo “cirurgia íntima”. Informava exatamente que tinha operado a vagina porque esta parecia uma couve-flor, ela a achava feia, emboladinha. Que os lábios eram todos grandes, muito volumosos, e por isso até pedia para que seus parceiros não olhassem. Socorro!

Nem preciso dizer o nível dos comentários gaiatos que se espalharam, dos quais me absterei. Mas não posso deixar de pensar que o conceito de intimidade mudou completamente. Terá ela combinado com o médico que a operou que daria uma declaração dessas, “todo mundo” ia comentar e ela pagaria assim as tais cirurgias que duraram sete horas – verdadeira imolação; quase mutilação?

Se for, não há mais limites mesmo.

Mas boba eu, né? Já faz tempo que ninguém precisa mais da melancia para aparecer. Basta se deixar fotografar assim como quem não quer nada. Viu as fotos da tal Nana Gouveia posando de bonita no meio da catástrofe nos Estados Unidos? Pode-se também soltar a voz sem pensar. Distrair-se sem calcinhas.

Ou aparecer como Lady Gaga que, depois de ver que nem tinha tanto brasileiro otário para comprar ingresso para o show megalomaníaco dela, chegou aqui que só faltou, sei lá, dar no meio da rua, num lance e golpe de marketing surpreendente. Chegou dando tchauzinho. Foi pro hotel e começou a tuitar que nem louca. Botou faixa I Love na fachada. Apareceu de topless coberta só com uma toalha. Deu mais tchauzinhos para os coitados que estavam lá embaixo. Jogou lanche daquela rede americana pela sacada. Pôs peruca cor de rosa. Subiu no salto plataforma. E, claro, foi para a favela ver os pobres. Jogou bola. Tô dizendo: faltou dar; inclusive uma de Madona, sua rival, e arrumar um namorado brasileiro instantâneo. Um Maomé podia ele se chamar, talvez, para ser irritante com o Jesus que a outra usou e jogou por aí.

Mudaram também o sentido de exótico.

As tais redes sociais que se expandem a cada dia devem ser culpadas. Só podem ser. Tem gente que precisa tanto dar satisfação do que faz, que passa o dia dizendo “vou até ali…”, volto tal hora, comi isso aqui ( e taca foto do sanduíche horroroso,porque comida tem que ter fotografia especial para ser atrativa), meu cachorro piscou, meu cachorro dormiu. Já vi caso de gente xingando a mãe, postando documentos jurídicos, juro! Isso sem contar na manipulação de relacionamentos. Eu te excluo se rompo com você, para você saber, para sofrer – me explicaram como funciona.

Lembrei-me de uma professora, Claudia, que amava muito, do primeiro ano da faculdade de comunicação, e que dava aula de Teoria da Informação. Como se fosse hoje, recordei da aula sobre espaços íntimos e o comportamento humano. Os espaços sociais. Entendi ali os comportamentos dentro de um elevador, quando a gente não sabe para onde olha, o que faz, quando está com mais alguém estranho. Esse é o espaço íntimo, do grudado, até uns 15 centímetros, nossa couraça, que a gente fecha e só deixa entrar quem quer, se possível for escolher. Dos 15 cm a 1m20 é o espaço pessoal, pode ter toque, avaliação física, uma conversa mais particular. O espaço social vai de cerca de 1m20 a 3m60, para interações com mais pessoas ou palestras. Já o espaço público, distância de 3m60 ou mais de nosso corpo, serve para reuniões com estranhos ou mesmo para fazer discursos. A gente aqui e a plateia lá.

Essas novas subsubcelebridades estão subvertendo a coisa e o que é pior, isso está pegando. Basta correr os olhos nos portais. Ver os motivos dados aos papparazzis, esse pega para capar e fotografar. O importante é ser notado.

Nessa mesma semana, por outro lado, foi aprovado um projeto importante de punição para crimes cibernéticos, garantindo a inviolabilidade de certos meios e penalizando quem se enfia em espaços íntimos – digamos, não liberados. Condena quem calunia e difama por meios eletrônicos, quem invade sistemas, seja para o crime, com uso de senhas, seja para o roubo de informações, como foi o caso das fotos da atriz Carolina Dieckmann, que inclusive dá nome à lei, que só andou porque ela gritou mais alto. Repercutiu.

Pensando bem, quem sabe essa lei também não possa nos proteger – a nós todos – de informações e imagens como essa da couve-flor?

Senão, teremos de nos mobilizar rapidamente para incluir uma emenda garantindo a nossa sanidade diante da loucura. Loucura que fez virar fichinha o girassol da lapela do Falcão, as roupas e a buzina do Chacrinha, as perucas da Elke Maravilha.

Esse povo novo quer que a gente saiba coisas muito internas deles, até se usam ou já usaram, como virgindade leiloada em praça pública. Internas até demais.

São Paulo, sacolão, 2012

Marli Gonçalves é jornalista Descobriu que tem um site – http://desciclopedia.org/wiki/Deslistas:Nomes_populares_para_a_vagina– que listou quatro mil nomes para o órgão sexual feminino, do qual muitas das próprias tem vergonha e, pasmem, muitas nunca nem olharam para a sua própria. Nem para compará-las a qualquer hortifruti.

noticiário GEISY ARRUDA, AQUI

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ARTIGO – Sobre todas as coisas. Por Marli Gonçalves

Vocês pensam que é fácil escolher? Cada semana decidir, escolher, e escrever sobre um tema que agrade a um grande número de leitores? Um desafio fascinante, mas tem semanas que vou te contar…! Não há Cristo que ajude. Nem com desentupidor de pia no cérebro. Ou você fala sobre tudo, o que será esse nosso caso hoje, ou inventa um conto, um tanto, faz telefone sem fio. Não é por menos que já tem colunista até escrevendo sobre outros colunistas, que escreveram polêmicas; ou outros escrevendo polêmicas justamente para comparecer

Pensa bem que situação. Você procura se nos próximos dias, pra frente, vai ter – sei lá – algum dia comemorando qualquer coisa, profissão, alguém. Nada. Você lê tudo o que passa na sua frente atrás de algum aspecto diferente para opinar, mas, nada. É tudo igual, todo dia, e você, leitor querido, já está de saco cheio de ouvir reclamação, não?

Escrever é um ato muito pessoal. Penso também em falar algo de mim, do que ando passando, mas vou acabar reclamando, que a fase está cheia de perrengues, e isso pode acabar ficando muito chato. Ando workaholic um pouco demais, trabalhando um pouco demais, concentrada em blocos de afazeres, e a objetividade dos atos, de tirá-los da frente um a um não é bom celeiro para criação e desenvolvimento de temas. O legal é mantê-los, construindo, mascando.

Embora declare que pelo menos eu sempre tente reclamar de coisas mais gerais, aquelas que tem muita gente reclamando, ou pelo menos deveria ter. Muitas dessas coisas, já que “ninguém” colocou a boca no trombone, lá vou eu.

Desse tipo aí recebo muitas sugestões todas as semanas. Invariavelmente chegam acompanhadas de um incentivo do tipo “Só você pode falar nesse assunto…”

Tem gente que acredita que todos os jornalistas são auto-suficientes, independentes, poderosos, protegidos, com uma aura, cheios de advogados prontos a defendê-los, com uma espécie de imunidade garantida no trabalho, segurança privada para si e sua família. Não tem gente até que acredita mesmo que haja essa tal mídia independente que a gente vê por aí, abastecida com muita Petrobras, caixa, BB, propaganda de governo, mula-sem-cabeça? Me engana que eu gosto…O buraco é bem mais embaixo.

Adoro mesmo é quando consigo acertar um bom alvo. Semana de glória. Mais leitores que chegam. Coluna replicada entre amigos de amigos de amigos. Chovem cartas de apoio, depoimentos que corroboram o que disse; alguns dizem até que tenho capacidades telepáticas, que tirei as palavras de “suas bocas”.

Política é um dos temas em que isso mais acontece. Defesa da mulher com base na realidade , também, embora outro dia tenha sido muito elogiada, mas o leitor – homem, claro – ressalvou meus “feminismos”, sem saber que esse era o maior elogio que ele podia ter me dado.

Sucesso garantido, para um grupo: basta descer a lenha em coro quando medidas impopulares são tomadas, principalmente afetando a classe média, falar mal de todos os petistas e duvidar da capacidade de alguma autoridade. Olha que todos esses são temas bastante corriqueiros no nosso país da piada pronta. E, mesmo assim, tem semanas que nem eles, benditos, salvam… estão sem valor, tão numerosos.

Há, ainda, semanas que a violência é tanta, tantos casos escabrosos, que o melhor é assobiar e falar do tempo, sol, calor e chuvas matando e deslizando as terras ano após ano, e aí junta logo a violência, com a política, com a corrupção,com a falta de leis e de respeito com os cidadãos.

Tem o mundo, tem a moda, tem os medos. Tem o que morreu para não se matar, o que se enforcou com a própria corda, o que está recebendo na mesma moeda. Tem o semestre indo embora voando, o tempo apertando, e a memória indo buscar referências.

Continuo anotando tudo, tentando capturar, ouvindo comentários sobre onde iremos parar. Temas sempre existem, mas alguns encasquetam, e não consigo responder. Como porque, por exemplo, proliferam tantas boquetas de guardar dinheiro roubado por aí, como meu pai bugre velho pergunta, se referindo aos paraísos fiscais que explicam e aplicam os roubos.

Ou, como é que tem gente que sabe distinguir tão bem todos os tipos de banana?

São Paulo, só abril, 2012Marli Gonçalves é jornalistaUm tema em si.

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