ARTIGO – Ídolos e o sobe e desce. Por Marli Gonçalves

Ídolos sobem aos céus e descem ao inferno, na morte e na vida. Sofremos como se fossem da nossa família quando se vão; razoável, porque devemos a eles muitos aspectos de nossa própria existência construída pela admiração, exemplos bons ou maus que imitamos. Suas vidas se misturaram às nossas.

Ídolos

Para quem já viveu um pouco mais, os últimos tempos têm sido de grandes perdas de ídolos importantes que acumulamos, acompanhamos durante décadas e aprendemos a admirar e seguir. Não como se segue hoje qualquer babaca em redes sociais, muito mais especulando fotos ou fofocas, opinando em suas redes, cancelando-os quando decepcionam, tentando nos meter em suas vidas amorosas, na forma como se vestem e até em suas opções políticas. E eles, sempre, tentando nos vender algum produto.

Ídolos eram muito mais inatingíveis, íamos aos seus shows adorá-los, tínhamos meras esperanças de um dia encontrá-los pelas ruas, conseguir um autógrafo. Quiçá uma foto, um beijo, um abraço. De alguns eram arrancados pedaços de roupa, fios de cabelo, tudo guardado em caixinhas inconfessáveis. Para outros até se arremessavam calcinhas, bichos de pelúcia. Tentávamos saber onde estavam, e ali nas portas de verdadeiros plantões encontrávamos outros “iguais” para trocar figurinhas durante a vigília. Lembro de muitas peripécias feitas por alguns ao longo dessa longa vida. Há uma magia nisso.

A morte de Rita Lee esta semana abalou geral e o incrível é perceber que foram lágrimas de todas as gerações e que foi o seu histórico revolucionário em costumes o mais recordado, especialmente como mulher à frente de seu tempo, corajosa e libertária, abrindo caminhos. Teve gente que chiou muito porque nessa memória apareceram também aspectos como o uso de drogas e álcool, bobagem, como se na hora da morte devesse ser apagada a verdadeira existência de quem durante tantos anos seguimos, inclusive praticando os mesmo erros muitas vezes. A expressão “sentar no próprio rabo” cai bem nos puritanos.

Ídolos de verdade não são perfeitos, e creio que por isso mesmo é que os adotamos, quanto mais próximos são de nós mesmos, de nossas imperfeições ou desejos. Não são santidades puras e cândidas, que essas encontramos em igrejas. Nos nossos ídolos procuramos coisas externas, os escolhemos para ver até onde vão dar seus hábitos, esquisitices. Eles acabam avançando em paralelo às nossas vidas. Se fazem músicas, são elas e suas letras que marcam indeléveis fatos de nossas histórias, e ao ouvi-las não há como deter a memória, a emoção, a alegria ou mesmo a tristeza desses momentos. Podem passar décadas e isso acontece. Rita Lee e sua carreira longeva é um dos maiores exemplos de alguém que caminhou ao nosso lado, da rebeldia total ao amor, da juventude ao envelhecimento, da saúde invejável a como conviveu serena com a terrível doença até o fim. Ela nos contou sempre tudo. Escreveu tudo. Disse tudo.

Mais: pareceu deixar preparados também todos os aspectos de sua partida. Até a escolha do genial lugar para o velório, o Planetário do Parque Ibirapuera, ali, entre o céu e as estrelas. Evitando assim, além de políticos hipócritas presentes, o horror dos velórios no frio branco do mármore do gigantesco salão da Assembleia Legislativa, onde normalmente são veladas as personalidades em São Paulo.

À esta altura já perdi a conta de quantos de meus ídolos já se mandaram; alguns até hoje teimo em não acreditar e fazer de conta que ainda estão por aqui. Porque eu estou por aqui e trago em mim muitas das coisas que neles admirei, segui, aprendi, fiz bobagem junto, cantarolei ou dancei.

Daí não poder deixar de dar uma boa reclamada sobre essa mania cada dia mais insuportável de que todo mundo é “influencer”, famosinho, “mito”, etc. etc. porque têm alguns “seguidores”, entre eles muitos até com milhares de robôs ou nomes fantasminhas comprados de alguma agência de marketing de influência.

Ídolo, minha gente, é coisa séria, não dá em árvore como essas novidades que aparecem (e também na mesma desaparecem) todos os dias postando o que comem, quem beijam, os seus escandalosos recebidinhos que elogiam sem qualquer cuidado, como se eles próprios usassem mesmo aquelas coisas. Fazem boca de pato, posam ao lado de carrões, barcos e aviões, andam por aí com fotógrafos a tiracolo que registram seus passos como se fossem naturais, mucamas e escravos os servindo e abanando seus calores.  Podem ser perigosos, especialmente quando tentam acreditar que são ídolos. Ou mitos. Milionários e de pés de barro.

Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Ídolo deixa história, é ícone. Mitos, a gente bem sabe o perigo que carregam.

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foto de @catherinekrulik

MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon).

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – Qual é a sua palavra preferida? Por Marli Gonçalves

Você tem uma palavra da língua portuguesa que goste de pronunciar, que goste muito dela e da qual se lembre sempre? Ela muda toda hora? Essa é uma pergunta feita aos entrevistados do Programa do Fábio Porchat, e que toda vez que penso vem uma diferente na cabeça. Depende do dia, da época e até do humor

PALAVRA

Com o que tenho vivido e visto ao meu redor, infelizmente nos últimos tempos as que se aproximam são, sim, belas em forma, som, pronúncia, mas terríveis em sentido. Exemplos? Perfídia. Fugidio. Traição. Outras que prefiro nem registrar.  O que me faz, contudo, dar graças por saber e sentir que outras palavras – muito mais significativas, belas e alegres e gentis – também estão sempre circulando ao meu redor, prontas, esperando apenas dias melhores para serem citadas ou recordadas como preferidas.

Meu conhecido otimismo, humor, alegria vêm sendo seriamente posto à prova por vários motivos, entre eles, claro, os fatos locais, gerais, nacionais e internacionais que certamente devem estar aborrecendo e entristecendo muito você aí também. Não bastasse, cada um de nós tem seus perrengues. E perrengue é palavra sonora com seus dobrados erres que conseguem até atenuar um pouco a tal dificuldade, aperto, sufoco, uma vez que abarca tudo rapidamente. Falou em perrengue está tudo ali, até uma possível rápida solução do mesmo. É diferente de falar problema, que em geral é mais duro e complexo.

Com a sorte e bênção de ser uma geminiana, e se você não sabe dessas coisas, vou contar: uma das características do signo é ser rápido nas mudanças de humor, de rotas. O que muitos pensam ou até acusam ser dubiedade; mas não é. É um poder, importantíssimo, com o qual aprendemos a lidar durante a vida, e que nos ajuda a sobreviver em intempéries, que acabam sendo como as chuvas de verão. Fortes e passageiras, claro, tempestades que sempre voltam, muitas nos pegando de surpresa, mas que seguem o curso, revezando-se com o bom tempo. Não dá pra ficar remoendo: abre-se e fecha-se o guarda-chuvas. Não se guarda rancor, raiva, não se fica remoendo o que já está feito ou visto e sentido. Não quer dizer que isso ou aquilo será esquecido, mas vai para uma gaveta qualquer da memória, essa danada que depois a abre e um dia a recorda. Assim vamos indo.

Ser dessa forma evita, por exemplo, que fiquemos doentes, deprimidos ou tristes por muito tempo com tanta sacanagem, descaso, desconsideração, essas e tantas outras palavras que convivem com nosso dia a dia na lida com pessoas ou fatos. Nos dá a dimensão de que fugidio pode ser apenas o tempo, e ele o é; pérfidos são os que buscam nos abater e não conseguem porque sobrepomos a eles nossa lealdade e sinceridade, imbatíveis e fortalecedores de nossos atos; traidores são os que, ao nos atingir, recebem de volta o sono bem perturbado.

Como é bom movimentar as palavras. Com elas construir nossos sentimentos, observar as coisas, nomeá-las. Vivo delas, e as uso como tijolos para construir histórias, textos, declarações. É quando elas saem do pensamento, ganham vida e forma no papel onde, então, passam a viver, ali expressas. As que ocorrem ao pensar são voláteis, se dão ao luxo de serem trocadas ao bel prazer.

Mas se tem uma coisa que sempre penso sobre elas, palavras, frases ou mesmo nomes é quando vejo muitos decidirem as que mandam tatuar em seus corpos, e cada vez mais em terrenos inéditos, de cima para baixo, na vertical, horizontal, fontes diversas. Coragem de fazer e coragem que muitos têm para olhar no espelho e seguir, com essa mesma ou outras como, creio, primeiro, recados para si, depois para os que mirarem sua pele. Não se arrependem nunca? Nunca vão querer trocar as citações, raspá-las ou encobri-las?

Fora cicatrizes, que não pude escolher não ter, nunca pensei em ter uma tatuagem no corpo, o que ultimamente chega até a ser raridade. Se o fizesse, até talvez um desenho, mas não uma ou mais palavras. Como disse, gosto mais do caráter transitório de cada uma delas levando comunicação ao mundo. Sei bem o quanto perdem sentido muito rapidamente. Especialmente quando são tão massacradas, como democracia, fé, paz, respeito, liberdade. E até amor.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano – Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto.  (Na Editora e na Amazon).

marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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ARTIGO – No fio da navalha, por Marli Gonçalves

Há expressões que a gente ouve e usa e repete em determinadas ocasiões que são muito mais completas, rápidas, visuais e esclarecedoras do que outras porque definem imediatamente a situação, em geral de perigo, muito perigo. Então, digo: estamos periclitantes e no fio da navalha, mas essa semana descobrimos que tem gente conhecida por aí muito pior, com a cabeça a prêmio, pronta para ser entregue de bandeja

Com a corda no pescoço. Se correr o bicho pega; se ficar, o bicho come. Andar no fio da navalha. Andar na corda bamba. Acabou-se o que era doce. Decidindo com a faca no pescoço. Mais perdido que agulha em palheiro. Frases que poderiam tranquilamente ser alocadas na bandeira em substituição ao seco “Ordem e Progresso”.

Quando a gente se irrita com alguém, depois de explicar alguma coisa com a calma que Deus deu, e a pessoa não entender, às vezes perguntamos: “Quer que eu desenhe?”. Pois essas expressões que a nossa língua nos fornece fazem isso, desenham. E é a hora que a velha e boa sabedoria popular se perpetua. Mazzaroppi, mantenha-se entre nós!

Claro que depois de uma semana como essa, essas frases me vêm à cabeça para definir a situação que se encontram os 38 réus do mensalão. Mas não só. Para descrever a situação do povo sírio, que já não tem mais para onde correr. Para comentar a crise econômica que assola a Europa, especialmente a Grécia e a Espanha. E até, porque não?- para mostrar a situação dos eleitores brasileiros que neste ano precisarão escolher e votar em candidatos à Prefeitura e às câmaras de suas cidades. Por acaso já se interessou em ver as opções disponíveis? Melhor desfolhar margaridas, bem-me-quer, mal-me-quer.

E os nossos atletas nas Olimpíadas se espremendo para não fazer tão feio lá em Londres quanto as dificuldades que enfrentam para poderem competir em desnível total em praticamente todas as modalidades esportivas? E olha que a próxima será aqui. Insegurança não faltou.

Andamos mais para lá do que para cá, inclusive pela saturação dos assuntos supracitados. Sou moça (!) muito otimista, garanto. Adoraria só escrever sobre as margaridas do campo, coloridas borboletas voadoras, sobre o progresso e desenvolvimento nacional. Mas a realidade é dura, e as antenas captam o que até a razão desconhece, semana após semana. Lá vamos nós atrás da tal luz do final do túnel, uma velinha tênue, fiapinha, nos conduzindo aos trancos e barrancos. Não adianta riscar fósforo no caminho – o fósforo sem qualidade como os que estão no mercado, que você risca, eles quebram. Queimam seu dedo, risca um, risca outro. Acaba a caixa e você não acendeu é nada.

Se as coisas não caminharem corretamente o sentido de outra série de frases feitas e até de interjeições costumeiras será desconstruído. No caso do mensalão, por exemplo, o crime vai recompensar, caso haja a liberação geral dos respectivos badarós em julgamento.

Quanto às eleições, o ruim com ele pode ficar ainda pior com qualquer outro se tentarmos melhorar as coisas usando desconhecidos aventureiros.

Novos centauros, mas só que meio poste, meio gente.

São Paulo, já cheia de cavaletes candidatos e bandeirolas de falsa alegria atravancando as ruas e esclarecendo pouco, 2012 Marli Gonçalves é jornalistaEra bem mais divertido quando candidatos podiam dar camisetas para ninar o sono dos eleitores esperando o cumprimento das promessas.

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