Brasil, mostra sua cara. Mas com dignidade. Por Marli Gonçalves

Eleições, dias que deveriam ser de festa e hoje são de discórdia, como se os principais e visíveis problemas fossem sentidos só por uns ou só por outros. Violência e virulência, assuntos deslocados, mentiras pavorosas, egoístas hipocrisias religiosas e uma cordata ignorância entraram no campo onde todos perdem. E isso não é futebol que nos deixa tristes apenas por alguns dias

Eleições, dias que deveriam ser de festa e hoje são de discórdia, como se os principais e visíveis problemas fossem sentidos só por uns ou só por outros. Violência e virulência, assuntos deslocados, mentiras pavorosas, egoístas hipocrisias religiosas e uma cordata ignorância entraram no campo onde todos perdem. E isso não é futebol que nos deixa tristes apenas por alguns dias

Serão anos duros pela frente, haja o que houver, isso está muito claro nesse país que não só está dividido, mas cortado em pedaços arrastados e espalhados salgados e com gosto de fel pelos chãos de todas as regiões. As eleições deste ano marcam um dos períodos mais tristes que vivemos, pelo menos desde que vim ao mundo, e já são seis décadas. Ainda – ainda, repito, e que pare por aqui – apenas não comparável aos 21 anos de uma ditadura que nos feriu, censurou, torturou, matou, cortou as asas de nossa imaginação, deixando apenas um toco de esperança, e que mal ou bem vinha de novo se reconstruindo.

Está uma tristeza, um desalento. Mas do que isso, um processo de cegueira coletiva, surdez geral, insanidade e infantilização de costumes, busca de falsos heróis, falta de educação, gentileza, raciocínio, de comunicação interpessoal. Não tem graça alguma, mas tem quem se ache o máximo por apoiar uma pessoa que reúne as piores outras pessoas ao seu redor, com a pior família, além dos piores pensamentos, o despreparo, e que pode nos levar a situações insustentáveis inclusive diante do mundo hoje globalizado do qual dependemos economicamente.

Do outro lado, há os que surgiram impondo um candidato fraco, fracóide, querendo nos fazer de palhaços. E que não é ele, é o outro, mas o outro está preso, e ele atua por telepatia, sem vontade própria, sem segurança, sem qualquer condição. E sem pedir desculpas pelo mal que fizeram e nos levou ao ponto onde estamos. Para eles, a culpa é sempre “dos outros”, como sobreviventes de Lost. O avião caiu, mas eles o querem remontar só com peças velhas. Ainda assim batem no peito como vestais. Também são machistas e a real é que tratam questões de comportamento de formas muito duvidosas e claudicantes.

Onde foi que nos perdemos dessa forma? Para agora termos diante de nós duas forças tão perigosas? Para onde correr? Onde está a ponte?

Há quem diga que foi tanta corrupção aparecendo. Credite isso apenas à Liberdade, e jure fidelidade a ela. A corrupção sempre esteve aí, inclusive no tempo das fardas, mas não podíamos dizer, não podíamos saber, não podíamos falar, não podíamos escrever.

Há quem diga que a violência está espalhada. E está mesmo, de uma forma terrível, mas só piorará porque poderão ocorrer confrontos ainda mais violentos e não só entre bandidos e organizações criminosas, mas entre pessoas comuns babando de ódio como as que já estamos encontrando nesse momento, inclusive amigos que considerávamos e que agora vemos apoiando, aplaudindo a insanidade, de um lado e de outro.

Mas o Brasil não é uma laranja cortada, e nós não somos gomos. Aproveito esse espaço para um apelo emocional, de coração: não deixem imperar a ignorância. Nossos maiores problemas são comuns a todos. Parem de se infernizar e nos infernizar usando mentiras, desconhecendo a história, falando esse português ruim. Procurem saber mais sobre sistemas políticos antes de falar em comunismo, fascismo. Entendam melhor o que é a cultura, as características regionais, leis de incentivo, como funcionam. Abram os olhos, esfreguem bem, vejam: as mulheres e crianças vêm sendo as maiores vítimas da ignorância e do apelo à violência.

Mais: redes sociais não são a vida real. Não faça e não deixe circular informações falsas. A realidade já é bem terrível, não precisa ser piorada, e precisa da imprensa forte e livre para ser vislumbrada – não bata palmas para malucos dançarem. Sejam eles de esquerda, direita – não são socos de uma luta de boxe ou MMA.

Não podemos quebrar nossa cara, nem termos nossas orelhas deformadas fazendo ouvidos moucos para situação tão delicada.

Vivo dias angustiantes. Sei que não sou só eu que não sou nem de lá nem de cá, e que procura a tal saída dessa caverna pré-histórica em que nos trancaram. Para acharmos, o trabalho terá de ser coletivo, e teremos de nos dar as mãos. Firmemente. Sem traições.

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Marli Gonçalves, jornalista – Volto a repetir: solteira, sem filhos (e sobrinhos, etc.). E se me perguntar “E daí?” – direi que, veja só, estou me preocupando tanto com um futuro e que é meu por um tempo bem menor do que o das gerações que muitos de vocês estão criando nesses dias que se passam hoje e que por descuido estão esquecendo de ontem.

marligo@uol.com.br e marli@brickmann.com.br

Brasil, outubro 2018
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ARTIGO – Ouviram cantar o galo e… Por Marli Gonçalves

Nunca uma expressão pode ser aplicada tão seguidamente quanto agora, com o incremento e popularização das redes sociais, que parecem exercer uma espécie de atração, de cegueira, de hipnose. Um inconsciente coletivo muito esquisito se levanta, arrebatando até gente que considerávamos impermeável.

Lembra aqueles filmes tipo Infectados, Zumbis, Contaminação, Dominados, Epidemia, Invasores, Vírus.  Alguma coisa cai na água, ou se espalha pelo ar e os menos resistentes são atingidos e mal conseguem se aperceber do ocorrido. Ultimamente aparece na forma de vídeos e textos com caracteres e características morais. Acabam, ao contrário, puxando mais gente até que um herói apareça, muitas vezes na pele de uma criança. Nos roteiros, ela sempre tem o coração puro e pode combater o Mal.

Se uma criança dessas pudesse ver ou ler o que os adultos fazem e falam em seu nome ficaria horrorizada. Eles, os adultos, ainda precisam de ensinamento de coisas inacreditáveis. Como a propaganda do sabão em pó que mostra crianças felizes brincando, se sujando, sem problemas, para dizer que é o que precisam, que o produto lavará suas roupas. Como a propaganda do sabonete bactericida que traz imagens dos pequeninos com as patinhas na areia em contato com germes e bactérias e que prometem limpar quando estes chegarem em casa para o banho.

Há muito não lia tantos despropósitos como esses dias nos comentários de gente horrorizada com uma performance ocorrida no Museu de Arte Moderna, MAM, de São Paulo, e que já tinha sido feita em inúmeros outros lugares. Baseado na obra da consagrada Ligia Clark, o artista fluminense Wagner Schwartz fica nu diante de quem se propôs a assistir e conclama que sua imobilidade seja modificada pelos presentes.

Só para repetir: o trabalho foi apresentado dentro de um Museu, com uma placa na porta alertando sobre a nudez do artista e sobre a responsabilidade dos espectadores. Não foi na esquina de uma rua. Não foi dentro de um ônibus. Não foi em cima de um palco ao ar livre. Ah, também não tinha ninguém armado obrigando pessoas a ver, nem se pagava nada para quem lá estivesse.

Aí apareceu uma mãe levando sua filha, a criança pura, e nada mais aconteceria se dentro da sala não estivesse também uma mente sórdida.  Infelizmente, como espalhados andam os seres do Mal influenciados pela rasteira política nacional, essa mente viu ali, não arte (que pode ou não ser apreciada, claro), mas pedofilia. A criança – repito – com a mãe, tocou no corpo do artista e a gravação espalhada pelo tal MBL foi suficiente para criar um pandemônio.

O sentido das palavras virou pó. E os dicionários estão abolidos da cultura? Pedofilia:  perversão que leva um indivíduo adulto a se sentir sexualmente atraído por crianças. Prática efetiva de atos sexuais com crianças (p.ex., estimulação genital, carícias sensuais, coito, etc.). Nada disso estava no Museu.

Fui atrás do Código Penal e do Estatuto da Criança e Adolescente que tanto os detratores bradaram. Lá é bem clara a proteção da criança. Por exemplo, o artigo 241-E., que encontrei analisado por um especialista: “Para efeito dos crimes previstos nesta Lei, a expressão “cena de sexo explícito ou pornográfica” compreende qualquer situação que envolva criança ou adolescente em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, ou exibição dos órgãos genitais de uma criança ou adolescente para fins primordialmente sexuais”. E continua: “O objetivo foi evidentemente não criminalizar as fotos, imagens e vídeos familiares, pois é muito comum que pais registrem fotos e vídeos de seus filhos, muitas das vezes despidos; todavia, sem qualquer fim sexual, libidinoso ou erótico”, conclui, entre outros exemplos.  Adulto não pode tocar na criança. Criança pode tocar em adulto.

Cada um pensa o que quer, mas desde que pense com sua própria cabeça e não a de uma organização retrógrada que traz os fatos digeridos com a bílis raivosa deles. E em prol de causas que precisam ser severamente observadas, de censura, de obscurantismo, que vêm se repetindo com frequência assustadora.

A nudez é pura. No mundo da arte é comum, bela. Na frente do espelho apresenta você a você próprio. Ela não tem disfarce, classe social, não encobre. Creio que devemos e podemos parar um pouco e pensar antes de vociferar sobre verdades mutáveis. Será que estamos mesmo defendendo as crianças?

Procuremos saber mais antes de ouvir o galo cantar não se sabe nem onde. Eles – os que pedem censura – cantam de galo e tentam determinar o que podemos ou não ver para tirar as nossas próprias conclusões.

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Marli Gonçalves, jornalista. O galo está cantando para que acordemos

2017, quase maioridade de um novo Século

 

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Viu essa? Aquela gente “família” e “moral” que votou sim ou não? Festa e nudes pra lá e prá cá

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Se estão dissociados da vontade popular, o que fazem esses parlamentares ? Há algumas pistas. Uma reportagem d’O Globo de hoje conta que nas festas que se seguiram depois do impeachment na Câmara, alguns deputados, que tinham reverenciado a família ao microfone, compartilhavam no WhatsApp, jubilosos, fotos nuas de suas amantes (teriam o apanágio da exclusividade ?), tendo ao fundo a imagem da televisão com o próprio parlamentar votando. São estes alguns de nossos representantes. E durma-se com um nude destes. mulherzinha rebola com bandeira

 

fonte: MIGALHAS .COM.BR