ARTIGO – Vou botar meu bloco na rua. Por Marli Gonçalves

carnaval14Sempre dentro do tal espírito do arco democrático, como um povo aí gosta de falar pomposo, bem que quero colaborar. Anda difícil ter opinião, no entanto. Se de um lado crítico, vira coxinha e golpista, e de outro aparecem siderados que veem perigo comunista em tudo, impressionante. Horríveis e mal informados (ou mal-intencionados, que andam pululando por aí), e de ambos os ladoscarnaval14

Os meninos que estão gritando nas ruas disseram que querem sair todos os dias, porque o barato deles é travar a cidade. E eles andam caprichando, brincando com o fogo nas ruas de São Paulo, aspirando gases temperados, tomando borrachadas, brincando de esconde-esconde e pega-pega com os já enfezados policiais. Policiais com motivos, além de baixos salários e treinamento capenga, muitos ali podiam ser seus filhos, talvez realmente seus filhos também estejam ali, lutando pelo que eles acham ser um mundo melhor.

Do ponto de vista deles, estudantes, estão ali construindo suas histórias, participando. Quantos de nós também já não o fizemos, não fomos assim rebeldes, não desafiamos o sistema? Corremos da polícia? O problema é que esse tema agora, num momento tão crucial para o país, parece mesmo meio bobinho. Nem os caras vão baixar as tarifas, nem as tarifas serão livres – tirem suas bikes, skates e patins da chuva. O rosário tem contas mais significativas para orações.

Por isso andam mais irritando a sociedade do que ajudando a mudar, embora o chamado geral seja sonoro. “Vem. Vem pra rua, vem. Vem. Vem lutar contra o governo. Vem!” – a cantilena principal, além de, claro, as sem pé nem cabeça e as clássicas “Ei, você aí parado, também é explorado”, “Burguês, daqui a pouco será sua vez”. Isso quando não estão sentados no chão em longa assembleia de deliberação e votação fazendo um maldito e chatíssimo jogral, que não devem saber bem o que é, mas é como chamam o que na verdade é repetição, eco, brincadeira de telefone sem fio. Nós. “Nós”…Vamos. “Vamos”… falado sempre por uma esganiçada e imberbe líder fugindo do destino de patricinha.

Mas, enfim, eu também quero protestar. Achar minha turma. E continuo procurando algum grupo que me represente de forma mais completa e séria. Sei de um monte de gente na mesma situação, meio perdido, sem direção, estarrecido também, mas por causa dos vigorosos passos para trás que estamos vendo o país engatar em questões que nos são caras. Estamos querendo sair atrás de algum trio elétrico. Mas ele não passa.

Pensei, então, em propor alguns temas que, nesses dias próximos ao Carnaval, se confundirão. As letras das marchinhas das centenas de blocos que também já balançam as ruas das cidades são mais ácidas e diretas do que as dos protestos, mais contundentes do que mil manifestos, do que abaixo-assinados de redes sociais. Principalmente mais divertidas, e o japonês da federal, nosso globeleza, estará aí para provar, em música e como campeão de vendas de máscaras com sua cara e óculos.

Soma. Já é tradição aproveitar o Carnaval para lascar o pau, satirizar, fazer gaiatices. A crise na porta, bolsos vazios, dívidas para dar e vender. Assuntos jorram mais do que o petróleo. Liberdade – que isso na época negra nunca tivemos. Se fossemos um país sério, derrubaríamos esse governo que já não nos governa assim, brincando, dançando e cantando, e já nos próximos dias.

tresjacares dançandoProblema é que não sou foliã, não mais. Com os anos, peguei bode de bebida, de quem bebe muito, de grupo que junta gente que bebe muito e perde a noção, peguei bode de multidões, até com uma certa fobia.

Vou botar meu bloco na rua, mas só se for o de fazer anotações, rascunhando um cardápio de temas de protestos e ideias de blocos mas para que sigam nas ruas depois da quarta-feira de Cinzas. Quando o Carnaval passar.

Os dengosos do ritmo, Sai zika, que eu tô pra lá de chicungunya, Os falidos do pedaço, Os sem-teto duplex, Os paranoicos do desemprego, Impostos para que não te quero não, Lava Lava Jato, seja mais exato, Corrupa, corrupa, pixuleco na mandioca, FMI, FMI, me estarrece só de te ouvir. Mais uma turma numerosa que anda por aí, assoviando, a do “Vai Vai lá, protesta por mim, vai na frente que estou chegando”.

scary-carnival-mask-source_xfoTodos na rua pintando uma nova Aquarela do Brasil, Fevereiro, 2016.

Marli Gonçalves é jornalista A melô dos black blocs: Quanto riso, oh, quanta alegria, Mais de mil palhaços no salão…. Foi bom te ver outra vez/Está fazendo um ano/Foi no carnaval que passou … A mesma máscara negra/ que esconde o teu rosto/ Eu quero matar a saudade…

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Escuta essa: Passe Livre saindo fora. Informações do Estadão

Passe Livre anuncia que não convocará mais protestos em São Paulo

Motivo, segundo o movimento, é a participação de ativistas de causas não apoiadas pelo grupo, como a criminalização do aborto

21 de junho de 2013 | 10h 14

Luciano Bottini Filho – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – O Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo, que promoveu sete protestos na cidade desde o dia 6 de junho, não convocará novas manifestações na capital, anunciaram integrantes da grupo nesta sexta-feira, 21. O motivo é a participação de ativistas de causas não apoiadas pelo grupo, como criminalização do aborto e redução da maioridade penal. Os protestos em outras cidades do País, que tiveram início após atos em São Paulo, podem continuar, conforme a decisão dos membros do movimento no restante do Brasil. (108

De acordo com Rafael Siqueira, integrante do MPL, o grupo não é contra a participação de partidos políticos, desde o começo das mobilizações na rua. No entanto, nos últimos atos, eles consideram que surgiram pessoas com objetivos conservadores, incompatíveis com o pensamento do Passe Livre, como representantes do neofascismo.

Agora, segundo Siqueira, o MPL em São Paulo deverá suspender todas as convocações para decidir o futuro das reivindicações a respeito do transporte público (a reivindicação inicial do grupo, a redução da tarifa de transporte público, foi atendida) e urbanismo e como lidar com ativistas com objetivos contrários a seus ideais.

“A suspensão de novos atos não tem nada a ver com a participação de partidos”, disse Siqueira.“A suspensão de novos atos  é por dois motivos simples. A gente vai ter que analisar e fazer  uma reflexão profunda com as pessoas que são aliadas da gente na luta contra o aumento de que atitude tomar. Nada é feito por acaso. A segunda coisa é que muita gente da direita, com pautas que a gente discorda totalmente, estão se aproveitando dos atos.”

No protesto de quinta-feira, manifestantes do PT foram hostilizados por participantes da passeata que não queriam a presença de partidos no ato. Em nota em sua página no Facebook, o Passe Livre, que afirma ser “um movimento social apartidário, mas não antipartidário”, repudiou os “atos de violência direcionados a essas organizações durante a manifestação de hoje (quinta), da mesma maneira que repudiamos a violência policial”. “Desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos”, diz o texto.