ARTIGO – Uma hora dessas. Por Marli Gonçalves

Vapt, você nem percebeu, tão anestesiados que já andamos, mas acabaram de roubar uma hora sua. Dizem que vão devolver lá pelo ano que vem, parece que em fevereiro, depois de o Carnaval passar, mas já não será a mesma hora, acredite.

Puxa, eu sei e consigo entender que tem um monte de gente que adora o tal horário de verão vindo de cima por decreto. Até eu – depois de pelo menos uns três meses – acabo me acostumando e começo a gostar. Mas aí é tarde e logo volta tudo como era antes. Meu reloginho biológico que já não é o mais certinho fica insano.

O dia fica mais longo e se aproveita a claridade – o argumento mais comum para a defesa do roubo que, pior ainda, nós mesmos nos roubamos ajustando os relógios. Justamente por isso, aliás, existe o tal horário de verão, pra não ter de ligar a luz.

Não entendo, contudo, não valer para todo o país, o que dá uma confusão horrorosa de horários e fusos que creio que quem viaja bastante fique bem tonto. Vale para dez Estados e o Distrito Federal. Tá lembrado que para o Amazonas e Acre ficamos, aqui no Sudeste, com 3 horas de diferença? Três horas. A outros, como Roraima e Rondônia, nos adiantamos duas horas. Enquanto eles acordam, pensamos em almoço. Enquanto estamos na happy hour eles estarão ralando. Sacanagem. A Bahia – lembro vagamente, já fez um levante contra a mudança e pelo que vimos conseguiu se livrar, assim como outros do Nordeste.

Brincadeira. Oficialmente, o Brasil se orienta pela Hora de Brasília. Quer saber qual é a hora agora, tem site pra isso. O www.horariodebrasilia.org.br e o www.horadebrasilia.com.

Esse último tem até mais informações. Por exemplo, olha só, o que é que quer dizer quando você olha no relógio e os números das horas e dos minutos coincidem, um prato cheio para os supersticiosos. Exemplos: 00:00 – O pedido que você fizer nessa hora se realizará. 16:16Alguém deseja te beijar. 23:23A pessoa que te ama nunca te trairá. E as horas invertidas: 10:01Quem você ama está com outra pessoa. 23:32Alguém está zombando de você.

Melhor não olhar no relógio para não ficar cabreiro.

Já estamos vivendo uma hora dessas que, quando a gente lembra já dá vontade de arrancar todos os cabelos. De raiva. Fico até encabulada de pensar em tratar de um assunto mais leve do que os que todo dia vêm nos atormentando. Mas pensa o perigo de hora dessas, se eles começam a se sentir muito poderosos, passarem a nos dar ordens assim obrigatórias de seguir! Se mudam o tempo…Vaiqui.

Você sabia que houve um calendário revolucionário francês, criado em 1792, na Revolução Francesa? Era bem louco, anticlerical, e baseava-se no ciclo da natureza. O ano começava em 22 de setembro. Doze meses de 30 dias, três semanas de dez. E os anos tinham nomes bem, digamos, pops. Vindemiário, Brumário, Frimário, Nivoso, Pluvioso, Ventoso, Germinal, Floreal, Prairial, Messidor, Termidor, Frutidor. Isso figurou por lá 13 anos, até que o Napoleão botasse a mãozinha na barriga e voltasse ao calendário gregoriano.

Já pensaram os nossos caras inventando calendários? O dos petistas se basearia no 13 e correria em volta do próprio rabo e do Lula, que consideram o Sol iluminador. O de Temer não teria dia, só noite, para ele se encontrar com quem quiser e não parecer estranho ou vampiro. As horas do Doria seriam mais cronometradas e controladas. As dos outros tucanos ainda serão decididas em alguma reunião de muitas horas que uma hora dessas eles convocarão. Para decidir apenas quando se reunirão.

Hora dessas o que vai acontecer também é que todos eles vão acertar seus reloginhos uns com os outros e nos deixar esperando ansiosamente dia após dia o 10 de novembro de 2018 quando teremos a possibilidade de varrê-los com nossos votos.

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Marli Gonçalves, jornalista – Se esse tempo não chegar, hora dessas jogamos a toalha. Enquanto isso tentarei olhar toda hora o relógio ver se consigo coincidir com 04:04Alguém que está longe pensa em você. Mas vai servir se for 15:51Você vai reencontrar um velho amigo ou 20:02Você encontrará um coisa que pensa que perdeu.

SP, Vindemiário, 2017

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ARTIGO – O tempo, os cabelos e a gente. Por Marli Gonçalves

Eles começam a pular igual a sapinhos na lagoa em noite de lua cheia. Dá a impressão até que espreitam, surgem justamente na hora que você vai olhar lá no espelho em busca de autoestima, saltam aos olhos só para aborrecer, destoar. Tóiiimm. Olha ele lá, branquinho, diferenciado, mais grossinho, mais seco, fica se mostrando como que fazendo careta, se joga pra fora em atitude suicida. Provoca. Cada cabeça, uma sentença. Eu arranco. Miro, cato, arranco.

Cabelos brancos nascem, são arrancados, voltam. São teimosos e obstinados. Alguns se organizam mais rapidamente, em multidões, para serem invencíveis e tomar posse de vez do que acham que lhes pertence, as nossas humanas cabeças. Sim, eles são ousados, aparecem muito também – e rapidamente – em áreas mais íntimas. No peito de alguns homens, por exemplo. Vamos ficar por aqui que vocês já entenderam. Pelos, cabelos. Trocadilho: será que pelos cabelos podemos mesmo saber quem são as pessoas? Os brancos sempre devem ser respeitados, me ensinaram.

Mas de repente passei a me perguntar: a que se relacionam, como vivem, como se reproduzem, do que se alimentam esses safados? Ah, outra coisa: estresse causa sim cabelo branco, nem vem que não tem – vocês estudiosos só não comprovam isso por preguiça. Em um dia daqueles de barra pesada já tive a clara impressão de ver que eles explodiram, alguns tomaram até fios longos, desafiantes; parecem dizer “Viu? Você não me achou e eu cresci!”. Já reparou nos charmosos cabelos brancos da Renata Vasconcelos no Jornal Nacional? Que assanhados para aparecer no horário nobre? Repara que tem dia que tem mais – certeza de que é dia dela dar notícia cabeluda.

Mas eles – esses branquelos – aparecem principalmente por causa do tempo, da passagem dele, dessa maluca medida de horas, minutos, segundos que é a nossa existência.

Daí, creio, costuma-se associar cabelos brancos à sabedoria, mas não é que esta semana vimos que nem sempre isso é verdade? Naquele balcão de julgamento no TSE algumas cabeças brancas luziam e nem tudo foi sabedoria ali. Teve até cabeça branca ameaçando degolar jornalistas e a coisa ficou por isso mesmo, como se uma fala dessas, vinda de um juiz (e juiz, repito, de cabeça branca de longos fios) fosse normal, aceitável. Napoleão Nunes Maia Filho, nascido em Limoeiro do Norte, Ceará, peixeira imaginária nas mãos, afiada em pescoços de jornalistas, praguejando a ameaça de vingança com a própria faca. Ainda não vi sanção. Nenhuma referência aos de Sansão, aquele que neles tinha a força, mas, traído por uma mulher, um dia acordou sem eles.

Fiquei em dúvida ainda se são ruivos naturais os cabelos do relator Herman Benjamin, o juiz que a mim pareceu até divertir-se nesses dias de julgamento da chapa quente e nos duelos com os demais. Talvez seja vaidosa tintura sobre cabelos brancos indesejados. Ao seu lado, a caudalosa, brilhante e admirável cabeleira negra de Luiz Fux – que certamente deve fazer igual a mim arrancando os teimosos que tentam se destacar mais do que ele. Aliás, que fogueira de vaidades, hein?!?

E teve a ministra Rosa Weber, versão loira, que não sei se é original ou se também encobre os malditos fios brancos. Olha aí, entendi agora o resultado final, foi decisão entre cabelos coloridos versus cabelos brancos que se aliaram a nenhum cabelo e a cabelos em ilhas. Uma questão de cabelos, assim decidida, batendo cabelo como roqueiros. Mostrando, todos, ter cabelinhos nas ventas.

Não riam. É sério esse assunto. Tão sério que numa pequena pesquisa descobri que tem gente que segue dicas engraçadas para acabar com eles. Uma delas seria passar cebola! Sim, cebola. Um suco de cebola, ou mesmo esfregar a cebola no couro cabeludo. Eles garantem que é tiro e queda. Queda de quem se aproximar, dado o cheiro do tal tratamento. Outros dizem que o legal mesmo é passar batata, mais especificamente as cascas, que virariam uma espécie de tintura quando fervidas com óleo de alecrim ou lavanda. Nessa aqui pelo menos indicam que se escolha um aroma do gosto para adicionar em tal poção. Outra coisa importantíssima que descobri: é mito que quando você arranca um, outros sete aparecem. Graças a Deus!

Bom saber que pode dar certo a gente sair por aí arrancando alguns deles de seus postos.

São as relações de tempo, de todo esse tempo que estamos perdendo vendo essas cabeças brancas se digladiando e os fatos se passando incólumes, impolutos, enquanto nos descabelamos para sobreviver.cabelos 2

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marli em redMarli Gonçalves, jornalista – E você, o que está achando de tudo isso?

Brasil, embaraçado, 2017

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