ARTIGO – Não encoste no poste. Por Marli Gonçalves

NÃO ENCOSTE NO POSTE

MARLI GONÇALVES

 Não encoste em lugar algum porque tudo pode estar eletrificado e dar choques, terríveis como os que a gente toma a cada vez que recebe uma conta, vai ao mercado, ou escuta “eles” (bem abrangentes) falarem que está tudo controlado, que gerundicamente estarão tomando providências, estarão investigando, resolvendo. Ando no geral muito cansada de mentiras e elas não param de chegar de todos os lados e nos chocar

Tudo bem que não são só as mentiras que nos põem de cabelo em pé. As verdades dos fatos também não são de brincadeira. Não dá mais para parar nem para protestar – acredito até que é por isso que as ruas estão bem vazias, só juntam uns montinhos aqui e ali, na porta de algum prefeito, de algum órgão público. Dá até tédio. Quem está podendo, na real, sair e lutar por um mundo melhor? A cada noite parecemos Penélopes esperando o nosso Ulisses. Tecemos esperanças durante o dia, aos olhos de todos, e à noite todo o trabalho é desmanchado pela verdade: o guerreiro não chega, e nem parece estar a caminho. Não há heróis, e os bandidos se largam fácil e rápido de suas celas; isso quando chegam a entrar nelas.

Não escore seu corpinho em lugar nenhum porque além do choque estará sujeito a ser arrastado por alguma enchente, roubado quando se distrair e estiver usando o celular. Ou preso por vadiagem, isso especialmente se estiver no agora patrulhado Rio de Janeiro, onde o ir e vir em determinadas regiões, digamos, está prejudicado. Quem mora nos morros tem de fazer check-in e check-out, abrir a bolsa e os pacotes para revista, sorrir para a foto e rezar para que não apareça nada em sua ficha geral, cidadão.

 Por enquanto está igual a enxugar gelo. Não impede nada, nem que você não seja eletrocutado e, ao invés de socorrido, ainda seja roubado como aconteceu com o músico do Afro Reggae morto lá essa semana. Não há respeito a mais nada, nem a fardas, das quais convenhamos já estivemos fartos. Podemos acompanhar os tiroteios diariamente via alguns aplicativos que surgiram, justamente para monitorar a violência.

 Na geral, os ânimos também vêm dando choque. Estamos tão atrasados que, embora já estejam alinhados no horizonte mais de duas dezenas de candidatos à Presidência, o debate se resume a uma tal direita e esquerda que idiotiza tudo, teimando em dividir como quando a gente faz uma risca no cabelo. Sempre sobra um fiozinho teimoso para lá e outro para cá. Nenhum diz exatamente ao que veio, a não ser lengalengas, Nhem Nhem Nhem. Não me peçam exemplos, que vocês já estão cansados de ver e tem até um paspaquera que acha que a vida se resume a armas, aproveitando os medos que sentimos. Ainda estamos ameaçados pela criação e instalação de mais postes com fios desencapados para preencher buracos.

 Há uma evidente desigualdade, e uma minoria aproveita para se dar bem melhor ainda a cada hora que passa. Contratando mal, pagando mal, explorando, aproveitando a necessidade alheia, não apoiando a produção, apenas na especulação. Desmerecendo quem trabalha e precisa, que acaba agarrando qualquer coisa com unhas e dentes, como seres primitivos. Vivemos batalhas de uns contra os outros.

 Não me entendam mal, mas tive de recolher meu otimismo nos últimos tempos, como observadora atenta por vários ângulos. Cansada de ver triunfar só as nulidades, “de tanto ver triunfar as nulidades de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, que o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.” Rui Barbosa, se de onde está pode acompanhar algo, deve estar bobo de ver que passa século, entra século, assim é.

 Acabo de ver uma metade de uma melancia sendo vendida a 14 reais. Uma amiga querida padece e morre lentamente no leito de um hospital público e já aparece gente e parente distante cobrando contas atrasadas. Dá vontade de não querer ver é mais nada.

 Mas nem para fechar os olhos se tem mais sossego. Não há onde se escorar, encostar; apenas se deixar levar.

 ______________________________________________________________

Marli Gonçalves, jornalista – Consciente do inconsciente coletivo e de seu grau de insanidade.

  marli@brickmann.com.br/ marligo@uol.com.br

Brasil, 2018

ARTIGO – Tô cansada. Por Marli Gonçalves

792640_5WFIKZK42PWQA5TSZLUVEFITBZ7KPZ_fatiguee_H210633_LVerdade que em português a expressão não tem o charme e o elã da mesma coisa dita em francês – “Je suis Fatigué”- que sempre se escuta, especialmente nas ruas de Paris. Um enfado. Quando vivi lá um tempinho fiquei muito impressionada como pode ser aplicada a tantas coisas. Então, veja só, virou o Manifesto do Tô Cansada

FADIGA

Tô cansada. Física e emocionalmente falando. Mas sabe que me sinto assim justamente por estar cansada, muito cansada, mais ainda de suportar coisas, fatos, versões e etcs externos? E você vai concordar comigo, seja de direita, esquerda ou sei lá; seja branco, preto, amarelo, vermelho. Tédio e cansaço andam juntos.

Tô cansada da pobreza em que anda a política nacional, que consegue até fazer de gente inteligente uns verdadeiros imbecis na defesa do escancarado indefensável, e usando argumentos que ora, ora, ora, faça-me o favor! Tô cansada desse clima de beligerância, de torcida de futebol, de xingação que não leva a nada. Uns querendo que os caras morram; outros querendo que eles sejam incensados, santos, virem mártires. Apontando o dedinho: alguém aí já foi ou tem ideia do que é a vida numa prisão? Já não basta? Não querem também que eles durmam em cama de faquires, cheias de prego?fatiguer

3481db0aTô cansada, e muito, por outro lado, de acharem que somos um tipo de idiotas que têm de aguentar ouvir dizer que os caras são coitadinhos. Que conseguem empregos de 20 mil em hotel porque “empregos regeneram detentos”, como o dono do tal hotel ousou declarar (aliás, já pensou essa informação correndo na Detenção, a fila que se formará?). Enfim, tô cansada dessa política rastaquera que junta trem com fiscal, junta Brasil com Suíça e Alemanha, uma briga para saber quem é ou foi mais corrupto, quando, desde quando, em quais governos. Fora as indiretas: pegaram carregamento de cocaína em helicóptero de deputado mineiro, e a tocha acende no couro do Aécio. Quer acusar, acusa logo formalmente. Achar que ele cheira, cheirou ou cheirará é apenas chato, e também não vai ajudar ninguém a permanecer no poder fazendo campanha suja. Lula bebeu, mas não sei se bebe ainda ou se beberá, tá? Mas é que fotos dele para lá de Bagdá circulam desde os imemoriais tempos do sindicato. E não o impediram de chegar duas vezes à Presidência da República.

pleurer_filletteTô cansada de sentir medo. E de ouvir sobre o medo dos outros, que paralisa os mercados. De andar olhando para tudo quanto é lado, suspeitando de todos. Cansada de viver nessa tensão de cidade. Cansada de invariavelmente abrir o jornal, site, portal, ligar o rádio ou tevê e em poucos minutos saber de mais um sem número de mulheres mortas em violência doméstica, criancinhas sendo usadas como trapinhos, inclusive sexuais. Tô cansada do trânsito. Da perda de tempo. Da violência nas ruas, com gente se matando e brigando por causa de latarias, buzinas. Tô cansada de ouvir os números de recordes de trânsito e de ver as faixas pintadas que inventaram, e que me lembram a história de como hipnotizar uma galinha. Risca o chão e põe o bico dela na faixa.

Tô cansada das deselegâncias. Da falta de educação e de um mínimo de civilidade. Da falta de reconhecimento. Das sacanagens vindas de todos os lados tentando botar a mão no seu bolso para arrancar algum. Tô cansada da indústria de multas. Da leniência da Justiça. Dos juízes que não leem os processos que julgam, e que decidem – claro, quando querem, num tempo considerável que se deram – com uma canetada a vida de quem tenta se defender de abusos.parler_beaucoup

Tô cansada dessa absurda e silenciosa alta de preços que todos nós sentimos e que eles negam porque negam quando reclamamos de nossas sacolas vazias, do que cortamos do orçamento, com mãos de tesoura.

Tô cansada da falta de amizade, e da incompreensão das coisas mais básicas. Tô cansada de ver a miséria e a pobreza real, nas ruas, que desaparece nas propagandas oficiais com figurantes risonhos. Aliás, tô cansada das propagandas oficiais de um tudo que apenas disfarça campanhas ilegais, mais do que antecipadas, com uns cara de pau andando em campos verdes dizendo que vão melhorar coisas que já deviam ter melhorado faz muito tempo, já que estão no poder e me lembram o Cazuza – “meus inimigos estão no poder…”sprizgja

Tô cansada de ver ainda existirem tantas tentativas de censura, e de algumas conseguirem sucesso. De ver triunfar nulidades. De ver o Brasil sempre pensando no futuro, que nunca chega.

“Mas o pior é o súbito cansaço de tudo. Parece uma fartura, parece que já se teve tudo e que não se quer mais nada” (Clarice Lispector)

Bugs-Bunny-est-fatigueSão Paulo, fim do maldito ano de 2013

Marli Gonçalves é jornalista – Na verdade, verdadeira, “je suis três fatigue”. Mais: “tô de sacô cheiô”.

********************************************************************E-mails:
marli@brickmann.com.br
marligo@uol.com.br