#ADEHOJE – UMA É BOA. O RESTO, POUTPOURRI DE NOTÍCIAS DE VIOLÊNCIA

#ADEHOJE – UMA É BOA. O RESTO, POUTPOURRI DE NOTÍCIAS DE VIOLÊNCIA

Só um minutoIGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO ELEITO PARA A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Poltrona 11. Orgulho do amigo e mestre.

Aí vem a sequência de loucuras nacionais e internacionais. Adolescente de 17 anos é suspeito de ter participado do massacre na escola em Suzano. Polícia investiga web profunda e ligação com o PCC. O ex-PM e miliciano Ronnie Lessa, acusado de ser quem atirou em Marielle Franco e Anderson Gomes recebeu 100 mi reais em sua conta meses depois do crime. Explode loja de armas em Ribeirão Preto. Na Nova Zelândia, um país que sempre se orgulhou da paz em seu território, um jovem australiano de 27 anos lidera ataque simultâneo a duas mesquitas que resultaram em 49 mortes e outros tantos feridos, alguns em estado grave. Se apresenta como fascista e anti imigrantes.

O fascismo e os pensamentos da direita e de dominação se expandem de forma alarmante em todo o mundo.

#ADEHOJE – Morte de Boechat uniu pontas desfiadas há anos

#ADEHOJE – Morte de Boechat uniu pontas desfiadas há anos

 

SÓ UM MINUTOBoechat ficaria orgulhoso em ver a união de todos em torno de seu nome e do jornalismo nacional.

O JORNALISMO NACIONAL ESTÁ HÁ MUITO TEMPO ACUADO, ATACADO, VILIPENDIADO, DESPRESTIGIADO. De repente, a morte de um de seus principais expoentes, Ricardo Boechat, um dos mais duros e diretos defensores de direitos, de justiça, e uma praga contra políticos corruptos, foi o que uniu a todos. Pena que mais uma vez na tristeza. Pelo menos nessas primeiras 24 horas não houve direita ou esquerda – houve a tristeza pela perda de um voz que sabia como ninguém falar ao povo. As ondas do rádio serenaram. O noticiário de tevê ficou sombreado.

ARTIGO – Chegou carta para você. Por Marli Gonçalves

TN_letter_stamp_812ccÉ minha, querendo desejar coisas boas, adianto logo os seus termos gerais. Pego a onda, aproveitando a época que deixa todo mundo meio mexido e mais essa moda de recuperar o hábito de escrever cartas, até na política, mesmo que com desaforos ou queixumes; ou cartões, bilhetes, inscrições de paredes, ou em postes, faixas e até no asfalto, que aqui em São Paulo é bom de andar observando até nas tampas de bueiros. Elas estão lá: frases positivas, pensamentos, arte na rua. Minha carta vai chegar por e-mail, ou você vai lê-la já publicada em algum veículo, mas isso será só um detalhe. É uma carta para você.

Pensa numa letra bem bonita, daquelas de caligrafia, de nome escrito em envelope de convite de casamento; e numa folha de fino papel de tons claros da qual exale seu aroma predileto. Não vou tentar acertar, poderia errar e não há coisa pior do que perfume que não se gosta. Você escolhe. Imagine. Decida até se o papel tem linhas. Que sua carta chegue a mais bela.
Escreverei em dourado, primeiro porque acho chique escrever em dourado. E porque pelo que estou vendo por aí, essa passagem de ano vai revigorar o dourado – ligado ao ouro e às nossas necessidades e desejos de uma graninha para pagar as contas e quem sabe sobrar algum. Pode crer: só vai dar dourado porque está todo mundo numa pinduca danada, que esse ano nos descapitalizou, para ficar mais elegante afirmar. Dourado, amarelo e o indefectível branco, aquele da paz para lá para cá, das juras em atitudes que eu pessoalmente adoraria que continuassem mesmo, depois da meia noite, pelo menos até o dia 2 de janeiro, o que dificilmente ocorrerá, como sempre. Cá entre nós: promessas de fim de ano só não são piores do que jurar regime na segunda-feira.
Com o barco desgovernado nesses mares que navegamos, ando temendo até pelas Iemanjás que serão postas no mar à meia noite, para além das sete ondinhas. Junto com ela, nos frágeis barquinhos de madeira, se além dos perfumes e flores ela tiver de levar também tantas as coisas que andamos precisando pedir. Naufrágios, na certa.
Chegou o fim de ano. Nem parece, mas chegou. Se dependesse dos enfeites nem notaríamos. Sumiram as luzinhas que tanto gosto de ver piscando nas casas, janelas. As chinesinhas ficaram largadas em caixas nos fundos dos armários. Entendo. Também não acendi as minhas, de tanto desânimo. Mas preccartaisamos reagir. Esse é um dos motivos dessa minha carta. Dizer que essa descrença geral está no deixando muito tristes, e eles não merecem nem mais as nossas mágoas. Dizer, na verdade informar, que a gente ainda vai ficar sabendo de muito mais coisas que eles todos fizeram nos verões, outonos, invernos e primaveras passadas; esse poço não tem fundo.
Tantos assuntos, e essa loucura de agora todo mundo nem ler muito mais do que 140 caracteres, ou até menos – que ficar teclando nesses aparelhinhos celulares requer habilidade e treinamento pesado. Daí tudo se abrevia, vira emoticon, mensagem cifrada. Isso me preocupa, tenho sempre de prender sua atenção, amarrá-los comigo alguns minutos. Que imagem posso usar nessa carta aqui? Um coração, um beijo? Vou deixar também para você decidir como quer na sua carta. Vai depender do que quer ouvir. Ou melhor, ler.
Puxa, pensei em usar um monte de fofices. Daquelas de amolecer coração de pedra. Mas quais? Tipo contar uma dessas heroicas histórias, ou as de superação, boas de dar exemplo. Frases construtivas, como aquelas todas óbvias que desfilam nas timelines das redes sociais, na linha “Amar é…”
Mas aí precisaria encher isso aqui de links de vídeos de cachorrinhos, gatinhos fazendo suas fofurices, ou mandar um daqueles powerpoints cheios de filosofia que até distraem, mas porque ficamos estabanados tentando apagar ou abaixar o som daquela música chata que toca logo assim que a gente abre – e no final até esquece de ver sobre o que era. Não. Não ia dar certo.
Mas posso escrever do muito que a gente ainda tem para falar um com o outro, ouvir, responder, aprender, descobrir, buscando soluções, analisando os diversos ângulos. Posso fazer minhas observações.
E é o que vou fazer. Espero que por muito tempo. Neste ano e nos próximos. Escrever. Escrever sempre que eu puder e toda semana nos artigos que encontrará, nas emoções que demonstro, coisas que eu conto, nas broncas que dou, nas ironias que uso, e até nos recados que mando e não sei se ele lê, nas declarações de entrelinhas de amor.
animated_typewriter_gifA carta de hoje eu começaria assim, primeiro com cabeçalho, que adoro desde os tempos de primário e que enfeita a entrada das cartas:
São Paulo, dezembro de 2015.
Caro leitor,
Eu me orgulho muito de saber que está aí. Muito obrigada. Até o próximo, até a próxima.
Com afeto,
Marli Gonçalves
Jornalista – O que escolheu ser, justamente para poder escrever para você. Que se multipliquem, os meus leitores.
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E-MAILS:
MARLI@BRICKMANN.COM.BR
MARLIGO@UOL.COM.BR
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ARTIGO – Quando ficamos transparentes. Por Marli Gonçalves

Walking-man2_thumbEm que dia? Que momento? Aqui pelo meu lado não fez barulho, nada, nem um clique. Um dia percebi que havia ficado transparente, só podia ser isso. Estranho, quando a gente vai envelhecendo, ou amadurecendo, começamos a ficar meio invisíveis para um monte de coisas de que a gente não gostaria. Não gosto nada disso. Se bem que tem hora que é bem legal desaparecer, mas só quando nós temos o controle total disso.walking

Não. Não é que você suma. Não é isso. Só não te veem. Parece que fica transparente, invisível, especialmente em determinadas situações. As pessoas quase te atravessam, tanto com o olhar como até de forma física, fato que, aliás, aproveitando o assunto geral, anda me irritando sobremaneira. Você está lá andando na rua, na sua linha, e vem vindo alguém igual a uma toupeira e que espera que seja você quem desvie o seu caminho para ela passar gloriosa. É como se ela não te visse, ou pouco se importasse. Comigo não, violão! Viro um tronco. Fico que nem um soldadinho marchando, durinha; mantenho meu passo, e já me preparo para rosnar bem claramente, se o adversário olhar feio e aí me notar, ou esbarrar, em geral distraídos com os seus celulares, filhinhos ou amigos. Fico igual ao tigre que avisou muito ao menino que estava bem nervoso, antes de arrancar-lhe o braço. Tudo tem limite.

Sou baixinha, mas invocada. E se tinha coisas que já me irritavam antes, agora que sou mais eu, com o passar dos anos, o bom é nem precisar deixar barato. Vejam só: sempre fui tida como meio, digamos, exótica, a palavra que tiram da cartola cada vez que tentam definir meu estilo. Não é mau ser exótica. Não é isso. Mas é que sei bem o cisquinho de crítica que o adjetivo contém. Exclui um pouco você do mundo. Mas, enfim, isso quer dizer que sou sim – ou era – notada por ser diferente.

space_glove_animationPor causa de um projeto, que em outro dia conto qual é, tenho procurado saber mais e pensado muito nessa coisa das mudanças todas (e muitas, tolas) que vêm com o tempo e sobre as quais precisamos fazer igual ao bobinho slogan do Aécio Neves, precisamos conversar. São porque são. Tenho falado mais com pessoas da minha idade, ou com um pouco bem mais. Foi quando descobri que um dos maiores problemas do amadurecimento não é cair da árvore – é a invisibilidade. Mulheres reclamam, homens reclamam disso. Pelo que andei vendo, inclusive, quem tem filha ou filho crescido parece que sofre mais ainda, porque aí há um parâmetro de comparação. Eu não tenho filhos, mas já tive essa sensação de inexistência quando saía com minha cadela husky pelas ruas há alguns anos. Ela era linda, branca, olhos azuis, e todos os olhares se voltavam quando passava, como se a dona aqui, do outro lado da guia da coleira, fosse invisível.

Por um lado havia o orgulho. De outro, certo desapontamento quando desejava que aquele olhar, particularmente, fosse para mim. Não é uma questão sexual apenas. Mas ninguém quer ou gosta de não ser visto. Toda mulher passa seu batonzinho, arruma o cabelo, pinta as unhas – feias, gordas, casadas, solteiras, bonitas – para que outras e também outros apenas reparem. Uma vista-d’olhos serve.tumblr_mneezktcfK1rv0es8o1_500

Ocupamos sim um lugar no mundo e temos que bater o pé pela garantia desse nosso quadrado. Ninguém pode ou deveria poder ignorar ninguém. Gente não é rede social que você bloqueia, “aceita”, deleta. Sempre brinco – depende, claro, de meu humor – quando chego a algum lugar, onde preciso que alguém me atenda, tipo restaurante ou balcão de bar, e que se passam alguns minutos com a situação igual que nem eu não estivesse ali. Minha voz até vibra, potente. “Preciso quebrar alguma coisa para ser atendida”?

Você é o melhor no que faz, mas não é lembrado ou chamado para fazer o que ninguém fará melhor, disso você tem certeza. Precisamos repensar, já que tudo está mais moderno, que viveremos mais, tantos usos e costumes se modificando, sobre a forma como envelhecemos todos, mas queremos e precisaremos nos manter ativos e bem vivos. Porque quanto mais os anos passam, mais a tal transparência ataca, deixando todos diáfanos, pontilhados, parecendo água viva, só notada quando queima.

É preciso compreender que gente não é moda. Até porque se fosse, voltaria toda hora, igual calça boca de sino. Gente só é ultrapassada quando desiste, para de vez. Não pode ser esquecida de uma hora para outra, ou lembrada e festejada só quando morre, e entre lágrimas e lamentos de quem ali se tocar que tinha feito invisível quem estava o tempo inteiro ali por perto.

Os mais velhos são muito mais capazes de exprimir com sentimentos e detalhes essa sensação que sentem, mesmo dentro de suas casas – há uma expressão que a gente costuma usar quando algo está ali, mas faz tanto tempo que se agrega, já parece fazer parte inanimada do cenário, como que estancado em uma foto antiga: virou mobília.

tumblr_m49wslCdH11r4u9wdo1_400Eu, daqui, ainda não tenho – graças! – tanta reclamação a fazer já que continuo “exótica” como sou desde criança e de alguma forma difícil faço e torno difícil não me notarem. É também de outro olhar que falo. De querer continuar encontrando no olhar do outro uma troca de informação qualquer, um desejo, uma atenção, e até um esbarrão também pode ser bem bom, se é que me entendem. Não quero ser perpassada em vão.

Não quero pouco caso. Meu orgulho ainda é muito besta.

São Paulo. Água! – onde anda você? Preocupações, 2014

anim0014-1_e0Marli Gonçalves é jornalista Descobriu que há uma oração para São Cipriano, que se faz para criar um “manto de invisibilidade”, mas só para se proteger dos inimigos. Coisa para pedir aos espíritos, se neles acredita. Esses, sim, estão aqui, invisíveis. Acredite.

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E-mails:
marli@brickmann.com.br
marligo@uol.com.br

A maioridade de uma perda. 18 anos de uma distância intransponível. Um amigo perdido e jamais esquecido: Edison Dezen

HOJE, 25 de agosto, é há 18 anos um dia muito, mas muito difícil para mim e para várias pessoas que conheço –  e que o conheceram, ou com ele conviveram.

Foi nesse dia, em 1993, há 18 anos, que perdemos uma luz que nos orientava: o amigo Edison Dezen. Mas que nos deixou um exemplo de conduta da qual eu, nem muitos destes amigos, nos desviamos. Assim como nunca tanta coisa e nunca deixei de ter flores em casa para pavimentar o caminho para os anjos que, segundo ele, seguiam por essas trilhas. Assim como nunca deixei de o evocar quando precisava de algo mais perto da “razão”, da ponderação.

Nesse momento que escrevo não há como o coração não apertar muito e lágrimas gordas não pularem dos olhos. É como se imediatamente eu o visse, maroto, sorrindo, me chamando para ir para a praia, para aprontar alguma, ou para ver se nossa viralata livre Banzai e seu companheiro de estrada, o Capitão, estavam bem.

Escrevo, ouvindo as músicas que escolhi para homenageá-lo mais uma vez, homenagear o lorde que foi, e que amava profundamente a música e os musicais. Em especial, esse que escolhi para hoje, Cats.

 Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora, senhorio
Felino, não reconhecerás…”

 Com ele, conheci Londres e um universo de coisas. Com ele, entrei e sai de roubadas. E com ele – tentando suavizar sua dor – estive até seus últimos minutos. Com a lembrança perene de seu último e vaidoso pedido – o vidro de perfume.

 São 18 anos hoje. A maioridade de uma perda. A tristeza de saber que não acompanhou tantas coisas que ele próprio previu ou quis. Mas que, de onde estiver, sua essência continua emanando.

 O ano passado, post que fiz nesse dia, atraiu gente do mundo inteiro, amigos que não sabiam de seu paradeiro, e seus familiares. Espero que todos possam saber mais dele, do nosso Edison, como o próprio nome, Dezen, do Paraíso.

 Palavras também podem ser flores depositadas.