ARTIGO – “Se o mundo não acabar, desejo”. Por Marli Gonçalves

0038   gif_reveil_6Digo tchau, que foi bom. Dá, sei lá, que os maias estejam certos. Melhor a gente já se despedir agora. Mas, se o mundo não se acabar, o que parece muito mais sensato, abro meu saquinho de bondades para desejar um monte de coisas para você. E para mim, que também sou filha de Deus

Se o mundo acabar, que seja em melado, para a gente ficar docinho. Que seja em pudim, para além de ficar docinho, ser macio. E, sei lá por que, pensei em churros – gosto deles, seus malvados!

Mas não vai acabar não, porque temos muitas contas a pagar, e os banqueiros não iam deixar acontecer uma situação dessas. Fora que a gente ainda tem de viver para ver o penta jogando, ouvir novas previsões catastróficas do Apocalipse e de uma Besta qualquer, sofrer com o aquecimento global, procurar vida em outros planetas, entre outras atividades. Acabar com a corrupção, ver um país mais justo, moderno e ordenado, não digo – porque é ruim desejar coisas impossíveis. Se isso acontecesse é porque, então, o mundo já teria acabado e se esqueceram de nos avisar.

Dizem que as palavras são como flechas, que são poderosas, o que certamente explicaria o horror que temos de pragas rogadas. E também a fé que temos em orações. Certamente vivas para quem escreve, as palavras carregam mesmo uma grande energia, e algumas são mais belas e imponentes que outras. Umas mais fortes e significativas; tem as feias, as grosseiras, as divertidas, as proibidas, as esquecidas, muitas. Outras, as que eu bem gosto de encontrar, são as mágicas, que são aquelas que procuram – e muitas vezes conseguem – deixar mais felizes quem as usa, quem as lê, quem as ouve.

Quero desejá-las. A chuva depois da seca. O frescor do cheiro da terra. Que todas as estações sejam férteis, e se forem de rádio, que toquem boas músicas. Que tenha meias macias e quentes para os pés no frio (e cobertor para as orelhas), chinelinhos para descansá-los no calor, sapatos confortáveis para trilhar as estradas, e que estas sejam sempre de boas idas e boas vindas. Nenhum prego ou caco no caminho se decidir seguir descalço. Quero que você não encontre quinas para bater esses seus pés, nem os dedinhos, nem buracos para tropeçar.gif_coucou

Que inventem martelos inteligentes para fixar os pregos onde poderá pendurar a arte que quiser ver e conviver nas suas paredes. Que possa abrir as janelas para o ar puro entrar e renovar.

dfjc24adQue o acesso seja livre. Por ar, mar, terra, seja em qual veículo decidir viajar – ônibus, metrô, bicicleta, carro, moto, balão, avião, navio ou submarino. Ou via pensamento, pelos livros. E que todos os combustíveis sejam limpos e seguros. Enfim, que possa flanar por aí, ou parar, se quiser, para ver as belezas do mundo com os olhos límpidos e precisos, e que você aprenda a piscar e olhar daquele jeitinho cativante e envolvente, como fazem cães e gatinhos, e assim consiga que lhe digam sim.

Que consiga desatar o nó que te prende a uma coisa que não quer mais e solte suas amarras. Ou que consiga jogar uma âncora se quiser aportar. Que tenha uma graciosa fita para o laço bonito de juntar.

Que só fique invisível quando quiser. Fora isso que as imagens de tudo que viver e viveu sejam registradas em fotos coloridas, escolhidas, ângulos que você já lembre na ordem revivendo os bons momentos que elas registrem.

Que conheça o orgasmo, muito prazer, possa estar sempre com a sua pessoa amada. Que tenha flores para cuidar. Valores a zelar. Uma criança para ver sorrir – ou lhe oferecendo as mãozinhas para serem guiadas por este mundo que não se acabou.

Não custa também desejar, se o mundo não se acabou, que a gente possa comer o que quiser, incluindo os tais chocolates todos, e a nossa pele, os cabelos, o corpo se regenerem continuamente. Vaique…animated-gifs-submarines-001

Se o mundo não acabar, desejo que não falte nada para a gente, dentro de possibilidades que sejam iguais a todos, com as moedas tilintando ouros. Ouros que podem ser impalpáveis, inclusive na forma de grandes ideias e realizações que transformem esse mesmo mundo que sobreviveu em um lugar melhor para se viver.

E, já que ele não se acabou… Que possamos beijar muito e continuar cantarolando por aí.

fair-city-21…”Anunciaram e garantiram/Que o mundo ia se acabar/ Por causa disso/Minha gente lá de casa/ Começou a rezar… E até disseram que o Sol/ Ia nascer antes da madrugada/ Por causa disso nessa noite/ Lá no morro/ Não se fez batucada…/Acreditei nessa conversa mole/ Pensei que o mundo ia se acabar/ E fui tratando de me despedir/ E sem demora fui tratando/ De aproveitar…/ Beijei a boca/ De quem não devia/ Peguei na mão/ De quem não conhecia/ Dancei um samba/Em traje de maiô/E o tal do mundo/ Não se acabou…/ Chamei um gajo/Com quem não me dava/ E perdoei a sua ingratidão/ E festejando o acontecimento/ Gastei com ele/ Mais de quinhentão…/ Agora eu soube/ Que o gajo anda/ Dizendo coisa/ Que não se passou/ E, vai ter barulho/ E vai ter confusão/ Porque o mundo não se acabou…

Já ouviu essa música do Assis Valente, com a Carmem Miranda? Corre, antes que, sei lá. Vaiqui…

Aproveita e veja que beleza; ouça que beleza. Clique aqui

São Paulo, 2012-2013, calendário romanoMarli Gonçalves é jornalista– No dia 21 de dezembro espera dar muita risada.

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