ARTIGO – Xô, passaralho, xô passaralho! Por Marli Gonçalves

graphics-journalist-335913Estou cansada de toda hora ser xingada desse jeito, na profissão que escolhi, como vem seguidamente sendo feito. Porque se alguém xingar jornalistas e a imprensa está também xingando a mim. Seria tão importante se conseguíssemos, mesmo que individualmente, mostrar por aí o quanto servimos! Mas estamos com nhenhenhem, mimimi, dando alpiste pro inimigo bicar nossas próprias cabeças. Pior, não vendo que o controle já chegou. Irmão da limitação.

Nestes dias minha profissão está de luto. O pavoroso passaralho voou em muitas direções e redações, dizimando dezenas de seres que buscam apenas ganhar a vida, como eu, escrevendo e falando, se comunicando, comunicando algo, contando a história, vendo o que você não está vendo, não está lá para ver – e em muitos casos nem gostaria, faltar-lhe-ia o treino necessário. Alguns dos melhores entre nós foram demitidos. Rua. Dezenas, mais do que dez dezenas, faz a conta.

Deveríamos todos estar de preto, ou com uma faixa no braço, ou nas ruas, mas estamos quietos. A imprensa está sendo assassinada na nossa frente, estamos testemunhando esse crime, vendo as facadas, os vilipêndios, o passaralho cuspindo fogo e jogando como que bombas aéreas e devastadoras, e estamos quietos. Tem ainda quem aplauda, tire uma, solte risinhos sardônicos.

Estamos tão imprensados que estamos quietos, e nós não podemos ficar quietos, porque toda a sociedade vai sofrer muito, embora ela talvez ainda não tenha se dado conta de nossa importância e ande querendo nos trocar por qualquer mequetrefezinho que escreva com termos em inglês, com esnobices, ou os disseminadores da ignorância – por favor não me peçam nomes, vocês os sabem. Eu sei, percebo também que essa sociedade ultimamente não tem a menor ideia do que está fazendo, dizendo, pensando e balbuciando por aí. Lê e acredita no que lhe é massacrado na cabeça, anda regredindo até em costumes. Está confusa, mas temos que sacudi-la, para que não desperte tarde demais. Nós precisamos dos empregos, vocês do muito que temos a informar.

Outra coisa: ando bem desconfiada de ações subterrâneas cavando buracos para os impérios desabarem mais cedo, e todos ao mesmo tempo como nos últimos dias, uma espécie de implosão. Coincidência? Novo ministro? Conchavo? Oportunismo, do tipo deixa eu aproveitar que já está tudo mal mesmo e mandar uns aí embora?

Se isso também for verdade, jornalistas, saibam, estamos cercados! E desarmados, já que nossas entidades sindicais/sociais/grupais, como todas as outras do gênero estão ou descansando um pouquinho, ou correndo atrás de projetos atrasados, como voltar o diploma para uma profissão que se esfacela, ou ainda estudando teoria de alguma tese chata recém-lançada para fazer cara de conteúdo. Estamos enfrentando inimigos que temos entre nós mesmos. Por inveja. Por burrice. Por posição política. Por falta do que fazer nas redes sociais.

Eu vi, eu li, soube de vários infelizes contentes com algumas demissões. Para disfarçar apareceram até alguns defendendo os mais idosos da leva atingida pelo urubu voador, com seu bico de tesoura. Mas no geral querem sangue, o fim de algumas publicações que não dizem o que querem ouvir, isso que muitos praticamente xingam de mídia.

A palavra foi de tal forma demonizada que só de ouvi-la já me arrepio, porque sei que o discurso que virá dali é de um lado só.

Escrevia esse texto quando me deparei com mais um round entre jornalistas, uns acusando outros, dedo em riste, um entregando o outro. Coisa feia, briga feia, da qual coisa boa não chega nem traz. Parece que o passaralho quando sobrevoa deixa cair, faz chover, iras; que se multiplicam e se escondem para atacar em seguida, diretamente da base.

Atentem. Ela já chegou. Ela, a limitação, irmã da contingência e do controle, filhos da desunião. Saudade do tempo que o debate era bonito, no campo de ideias e ideais, não por dinheiro, como todos os dias espantosamente temos escutado, sabido, percebido.

Por favor, separem o joio do trigo, e depois os unam de novo. Vamos manter a dignidade, alguma dignidade, da profissão que escolhemos.

Parem de dar comida para a ave que nos aterroriza.journaux011

São Paulo, 2015Marli Gonçalves é jornalista – – Parem, pessoas, de esculhambar com a gente! Nós não somos culpados. Somos só os mensageiros

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ARTIGO – Jornalismo: profissão João Bobo. Por Marli Gonçalves

joao-boboBate no centro, pela direita, bate pela esquerda, soca, soca, soca; verga, mas não cai. Jornalista, com orgulho muito especial e carinho pela profissão que escolhi, embora tenha hora que um desânimo sem medida tome conta, vejo que viramos mesmo belo saco de pancadas, de um lado; culpados pelos problemas do mundo, de outro. Mal amados, malvistos. A chacina em Paris, contra o que é mais difícil de encontrar inclusive no jornalismo, o humor, arranca mais um pedaço daquilo que deveria ser considerado, isso sim, sagrado, que é a liberdade

O boneco que continua rindo em sua abaulada figura que vai e volta, às vezes com um sorriso inflável e indelével. Dias bem difíceis esses primeiros deste ano. Reparamos nas inúmeras incompetências governamentais de todas as esferas, mas é como se falássemos ao vento, o mesmo que a cem por hora derruba árvores na cidade de São Paulo, como se novidade fosse o péssimo estado de sua conservação, como se não valessem nada e servissem apenas para que desgraçados apoiem o lixo que juntam. #árvorenãoélixeira! Se tivesse condições criaria uma organização para cuidar dessas criaturas que ainda nos ajudam a respirar o ar sufocante de nossas cidades. Mas sou jornalista, apenas. E os jornalistas precisam estar em fortalezas mais seguras para empunhar suas armas, seja lápis, caneta, computador, cérebro, voz.

Acaba sendo difícil apontar temas, erros, soluções, sem um grande veículo por trás para apoiar; independente, e portanto sem patrocínios dos lados dessa questão, seja qual for a geometria de pontas esgarçadas que virou a política nacional. Aqui, para ter sucesso não basta ser bom ou competente. Tem de ter amigos influentes, algum sobrenome, bom dinheiro, participar de festas e/ou grupos sociais guetosos. Vide as blogueiras de moda que viraram milionárias …do jornalismo! Vide outros e outras que estão em todas porque socialmente integrados em alguma boquinha, casamento, “relação”, interesse. Na novela, mostram o que poderia de haver de pior e verdadeiro, infelizmente.

Se a gente fala que as ciclovias estão sendo feitas a navalhadas, que as bocas de lobo estão todas entupidas e parece que só fomos nós que ouvimos a previsão do tempo, que só nós sabemos que os temporais virão, virando tudo, ensopando e até matando, é porque somos de direita e perseguimos o coitadinho do prefeito Zé Bonitinho. Não compreendemos a “essência”, a “modernidade” das suas propostas.

Por outro lado, se falamos que a questão da água que pode nos levar a uma escassez sem precedentes foi escamoteada é porque somos contra essa “maravilhosa” turma de tucaninhos e periquitos, que viram araras.

A muié toma posse anunciando inconsequente um tema de forma quase nacionalista – Brasil, Pátria Educadora – e em menos de uma semana sabemos que foram cortados sete bilhões do orçamento na área da Educação, justamente, e temos de nos calar porque ela é candidata à oitava maravilha do mundo, é competenta e valenta.

Difícil ser jornalista. Difícil ser colunista. Difícil ser crítico. Difícil ser cronista. Difícil discordar. Difícil querer discutir. Difícil concordar. Difícil discordar, concordar, discutir. Andamos numa corda bamba e tanto. Ao mesmo tempo, quem lê jornal e acompanha os fatos reportados pelos jornalistas sente-se como um palhaço no centro de um picadeiro de um enorme circo. Anunciamos que eles disseram que baixariam tarifas e elas sobem. Dizemos que as investigações serão feitas. As palavras às vezes já parecem apenas estar sendo levadas ao vento.

Quem defende os jornalistas? Somos saco de pancada de todos os lados, e assassinados tanto lá fora como aqui, e em número recorde. Ninguém vira herói. Nos matam de diversas formas. Só nessa semana houve mais de uma centena de demissões em redações grandes. Uma das editoras mais importantes do país perdeu metade de seu espaço físico. Um safado feito ministro, pior, de novo, já que em outras áreas onde já andou só semeou bobagens, agora quer censura, lei de controle da mídia, que ainda tenta explicar! É aplaudido, inacreditavelmente, por jornalistas que até já estiveram na lista de admirados, mas que agora, sinceramente, parecem apenas querer coletes salva-vidas para suas salvações particulares e individuais.

É nesse cenário que estamos discutindo tanto quem é “Charlie” e quem não é. Vendo como imediatamente as forças da imprensa francesa se uniram para não deixar que uma revista acabasse, enquanto aqui vemos gente com a ousadia de comemorar – quase que soltando rojões – o fim de jornais, revistas, demissões e nos mostrando uma distância incrível do mundo civilizado.

Onde a liberdade seja respeitada. Ou, no mínimo, haja respeito entre uns e outros. Para continuarmos balançando como Joãos Bobos, também conhecidos como Joãos Teimosos.

Mas pode nos chamar de Charlie.

São Paulo, 2015 já raiou.

Marli Gonçalves é jornalista – Embasbacada diante de tudo isso.

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RIP DIÁRIO DO COMÉRCIO, DE SÃO PAULO. ASSIM ESTÁ SENDO FEITO O CONTROLE DA IMPRENSA.

 

Triste pelos grandes amigos que trabalhavam lá.

Triste porque acabou um dos jornais mais bem feitos do país.

Triste porque estou vendo como é que o controle está sendo feito.

Triste porque era um jornal que me publicava, eeu ficava muito feliz por atingir leitores novos e gente que trabalha.

Triste, porque aguardarei um pronunciamento minimamente razoável do Rogério Amato/ Associação Comercial de São Paulo

Triste porque vejo que o nosso Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e a Fenaj não nos servem de nada, nada, para nada.

 

Mais uma publicação morre. Desta vez é a HOLA. Última edição essa semana, informa Andréa Dantas, a editora

VEJA A CARTA QUE ANUNCIA O FIM DE MAIS UMA PUBLICAÇÃO. ESTÁ DIFÍCIL A COISA PARA NÓS, JORNALISTAS…MUITO DIFICIL, COMO O PASSARALHO EM PLENO VOO

Prezados assessores, artistas, colaboradores e  fornecedores,

Hola! Brasil foi lançada em junho de 2010, e desde sua primeira edição – a exemplo do título internacional, nascido na Espanha em 1944 – foi sinônimo de rigor informativo, qualidade e glamour, sempre comprometida com a parte mais bonita da vida. Chegamos agora à edição 81 da mesma forma que começamos: com conteúdo exclusivo e de qualidade. Mas, devido às tensões econômicas mundiais, temos mais uma missão – a de informar que esta é, por ora, a última edição.

Agradecemos a sua colaboração e atenção, com a certeza e o orgulho de ter feito uma excelente revista.

Sempre defendemos que A VIDA É BELA. E esta é a mensagem que gostaríamos de perpetuar.

Obrigada,

 Hola! Brasil

 bj


ANDRÉA DANTAS

adantas@revistahola.com.br