ARTIGO – A grande jogada e o novo árbitro. Por Marli Gonçalves

Sinto muito. Não deu, bola para frente! Temos, logo agora, outro campeonato para prestar atenção. Formar a seleção e torcer para que ela, essa sim, nos salve desse campo esburacado.

Vou dar uma de louca. A louca otimista. Vai! Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima! Vamos, vamos! Tentar aproveitar e começar do zero agora, como se não houvesse esse ontem, não tivessem ocorrido essas brigas, essas divisões, nem existisse um sem-noção candidato para nos perturbar.

Para torcer agora você não precisa sequer usar o amarelo, para não ter de aguentar aqueles chatos que invocaram com a camisa da Seleção saindo para tomar Sol na rua durante os protestos.  E que vão voltar a atacar, escuta o que estou dizendo. Vão vir com aquele irritante “eu não falei?”. Chatos que quase tiraram ainda mais o ânimo da gente. Pode – e deve – sair de azul, amarelo, verde, vermelho, todas as cores do arco-íris. O Hino continuará um só.

Enfim, demos um tempo, fizemos uma pausa vendo a bola correr de lá para cá e de cá para lá. No fundo, foi devagar, devagar, devagarinho igual na música o que rolou nessa Copa. Fiz as contas: já vivi 15 Copas. Das que me lembro, essa foi a mais esquisita, mais ainda do que a passada aqui no Brasil, aquela desgraça que ajudou muito a esburacar o nosso gramado.

Essa de agora parecia desengrenada – e não só pro nosso lado. Vide o monte de grandões que foram caindo um a um detonando as bolsas mundiais de apostas, as marmotas e outros bichos videntes, a lógica, se é que há alguma no futebol. Foi pegando gosto, vendo até onde dava para ir, tentando sobreviver ao ufanismo radical que tentavam sem sucesso inocular em nossas veias abertas, como de toda a ladina América Latina.

Está claramente diante de nós um Novo Mundo e é preciso enxergá-lo o quanto antes para tentar correr atrás dele enquanto é tempo. É mundo moderno, que usa educação, tecnologia de ponta, procura fontes alternativas de energia, tem consciência de que a natureza revida e que a liberdade é um dos bens mais valiosos para uma sociedade pluralista e melhor organizada. Que só sobreviverá se for em paz.  A tal sociedade globalizada.

Globalizada a um ponto tal que daqui, desse outro lado do mundo, nos próximos dias estaremos todos nós diante da boca de uma caverna funda e inundada que retém o grupo de meninos lá na Tailândia. Do lado de fora da caverna, uma tenda improvisada, uma tela, algumas cadeiras, unem esses meninos às suas mães que ficam ali sentadas o dia inteiro e assistem ao vivo a tentativa de resgate e o desespero de seus filhos, ao mesmo tempo em que oram e dão graças por eles ainda estarem vivos e com alguma esperança. Do outro lado, de dentro do local escuro e úmido, eles acenam para as mães. E para todos nós.

Não é só. Temos muito com o que nos preocupar. Mas precisamos fazer isso com leveza e com muita rapidez no contra ataque.

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Marli Gonçalves, jornalista – Sorria. Brasil, você está sendo filmado. Depois alguém vai ver essa fita.

marligo@uol.com.br/ marli@brickmann.com.br

 

Julho, 2018

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ARTIGO – Bola rolando solta. Por enquanto. Por Marli Gonçalves

 E a gente esperando gols. Pode até ser que em algum campo lá da Rússia ainda saiam alguns, mas aqui na terrinha, quanto mais o tempo passa, maior fica a aflição de como definir qual seleção entrará no campo político ano que vem.

 

 Toda hora lemos o resultado de alguma dessas pesquisas “geniais”, que viram pano para manga para as discussões estéreis. As mais cotadas são sempre as que falam dos candidatos que estariam na frente. O engraçado é que sempre aparece aquele,  o que já foi, mas não é, não poderá ser, e que anda preso. Seguido pelo outro, a ameaça, verdadeiro terrorismo, o contraponto, aquele sem noção que – sabe-se Deus, literalmente, em quais alianças se fia – está nessa disputa sem ter feito até agora nada que preste em seus, anote, sete mandatos na Câmara Federal, esquecendo o tempo em que “nasceu” como vereador no Triste Rio. Sete! Sete vezes quatro, igual a 28 anos. Nada. Só sandices.

Tenho a impressão que as pessoas estão mesmo muito doidas, querendo jogar tudo para cima, bem pro alto, que se exploda tudo, se é que me entendem, que não posso usar termos chulos. O que dá pesquisas que mostram que 62% dos jovens querem deixar o país. Se querer fosse poder, ah, também quero. Mais, eu mesma tenho exemplos de amigos que ultrapassaram os 60 e não só queriam como já estão lá, morando fora, o que exige uma coragem superior em muito à dos jovens.

O perigo é maior entre os que se dizem desinteressados, que escutam o galo cantar soluções bruscas em obviedades e nelas acreditam.  Violência? Bala neles. E aí vemos como normais as balas agora vindo até de cima, dos helicópteros, oficiais, sangrando e matando crianças a caminho da escola? Fora a hipócrita e mascarada reação moralista ao avanço da sociedade civil em questões da natureza humana que jamais serão brecadas; eles podem achar que sim, que há “cura”, que a moral deles é que é a boa. Não, queridos, essas partidas vocês perderam. Sinto muito. Olhem para os lados.

Mesmo entre pessoas de nível médio, cansadas do dia a dia de revelações sobre corrupção, roubos, e às voltas com uma difícil sobrevivência como estamos em tempos de crise, o desatino é grande. Como se pudessem se livrar das responsabilidades. Quem fala mais grosso, acham, pode nos ajudar, como se assim fosse, acima da lei, da organização social, da geopolítica. E, principalmente, acima do bom senso que parece estar proibido de entrar nessa partida. Nossa sociedade mal preparada, uma ampla maioria sem informação, sem estudos, sem compreensão dos fatos,  pode nos levar, sim, mas a um desastre ainda maior e de difícil conserto. Agora, as tais pesquisas apontam que o placar final poderá ser decidido por mulheres de baixa renda.

Às vezes também acho que essas verificações de opinião, dependendo do momento, podem produzir o paradoxo: fake news verdadeiras. Correm para onde o vento sopra, mas com um ventilador ligado. Fico impressionada com a falta de qualidade dos questionários – verifiquei isso todas as vezes em que fui “pega” para responder algum deles. Os de faculdade, então, em geral são totalmente embandeirados, e os pesquisadores jogam cumprindo tabela.

No meio do campo, a bagunça é geral. As divididas, então, nos deixam mais caídos que o Neymar. Porque se antes eram duas, agora as torcidas estão esfaceladas e pior: mais rachadas no campo dos gols possíveis, ao centro e à esquerda.

Quer saber? A bola está rolando mesmo muito solta por enquanto. O que preocupa, se não poderá ocorrer o pior. Uma vitória por W.O. – já que estamos tão preocupados com futebol.

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Marli Gonçalves, jornalista – Estou aqui fazendo aquele sinal que pede o tal árbitro de vídeo, o quadrado riscado no ar. Quero ver o que vai acontecer quando a campanha começar de verdade na tevê.

marli@brickmann.com.br  e   marligo@uol.com.br

Brasil, 2018

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ARTIGO – Ninguém está falando… Por Marli Gonçalves

E precisamos pensar e falar de tantas coisas. Ninguém tem mais tempo nem de falar, nem de ler, nem de ver tudo o que circula, muito menos de ouvir. Quer dizer, ninguém, ninguém, não é bem assim. Tem quem tenha tempo para tudo isso, inclusive para preferir enviar por tudo quanto é canto nas redes sociais vídeos que gastam mais tempo e dados para serem baixados do que para saber do que se trata.

“… O Sol nas bancas de revista. Me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia?“ …Imagine se o Caetano Veloso  profetizava isso lá há 50 anos, em Alegria, Alegria, como tanta coisa mudou até hoje. Nas bancas de jornal, de um tudo, impressionante, cada dia empurrando mais para lá os jornais e revistas. Outro dia vi uma que vende consertos de sapatos. Viraram pequenos mercadinhos nas esquinas da vida. Melhor que lá no Posto Ipiranga.

Aliás, postos que cada vez também são menos frequentados com o preço sideral da gasolina e outros combustíveis na bomba que estoura nos nossos tanques e bolsos. Aumentando o preço e a temperatura de tudo o que consumimos e que, como vimos recentemente, chega no lombo dos caminhões.  Reparou que o abastecimento ainda não está nada normalizado? Que os preços estão siderais?

É muito louco, meio esquizofrênico. Passamos dias e dias tendo overdose de alguns assuntos. De repente eles somem como num passe de mágica. Foram atropelados por outros sem que tivesse sido concluído o anterior. Exemplos, essa história do frete e preços e os coitados sobreviventes do incêndio no prédio do centro de São Paulo, que continuam lá. Talvez você não saiba, estão lá naquela mesma praça, sem banco,  amontoados em barracas, esquecidos, tendo de roubar banheiros químicos de outros lugares para usar, porque o Governo demorou mais de um mês para lembrar desse detalhe.  Uma situação horrorosa, dramática, vergonhosa.

Ah, e a cada dia é maior o número de pessoas vivendo em barracas, nas ruas, canteiros, praças, avenidas, viadutos e buracos (literalmente) que encontram. Ou vestidas com caixas de papelão, sacos de lixo, jogadas pelas ruas como se lixo fossem. Eles não têm representação política, não são de esquerda, não votam, aliás, nem no PT, nem são vistos pelos aparelhados Movimentos sem alguma coisa. São nômades, não invadem, ocupam; mas as ruas. Não são nem gente, parece; e aquelas crianças já têm seu futuro altamente comprometido.

Pronto, chegamos a mais um assunto que nos fez, vejam só, invejar a Argentina essa semana! As proles. Lá, ao menos está havendo a discussão parlamentar sobre a descriminalização do aborto, com possibilidade até de aprovação de uma lei sobre o assunto.  Adianta sentar em cima do assunto? Não!

(Não me venham falar – acusando-os de não usarem- em métodos contraceptivos, informação, bibibibododó. Essas pessoas não têm o que comer. Muitas são analfabetas. Aliás, acaso você aí já precisou comprar remédios populares nas farmácias? Pois é, simples não é. E as pessoas que cito agora não têm nem identidade, literalmente. Muito menos receitas).

Mais um #precisamosfalar. Descriminalização da maconha.  Fechar os olhos? Tampar o nariz?  Só assim para não perceber que a cada dia corre mais livre por conta própria, em todos os lugares, todas as idades, além das pesquisas sérias sobre seu uso em medicina.

Não aguento hipocrisia, nunca aguentei , e é uma das coisas que mais me aborrecem nesse pais. Esse atraso, essa cegueira moral que tentam impingir – ou com leis que não são e nunca serão cumpridas, repressão errada , ou simplesmente esquecendo o assunto- a toda uma sociedade que precisa avançar sob o risco de acontecer o que já vemos se aproximar, o retrocesso.

Não dá para falar aqui de todos os assuntos importantes, os verdadeiros direitos humanos, atropelados nas estradas da vida e, inclusive, na imprensa que, coitada, esmorece, atacada, pobre, manipulada. Até desbancada.

Estamos precisando fazer de novo uma publicação que até hoje tem seu nome marcado na história para ser usado de novo: Realidade.

Precisamos falar sobre isso, sobre ela, a realidade, nua e crua.

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Marli Gonçalves, jornalista – Enquanto isso, a bola está rolando lá longe, quase do outro lado do mundo.

 São Paulo, 2018

marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br

ARTIGO – Espiral do Tempo e os dois perdidos. Por Marli Gonçalves

 

Não é sobre Lula e Aécio, fica tranquilo. Tudo girava. A ampulheta, e a espiral hipnotizante que rodava com os dois coitados lá dentro, perdidos no tempo, andando pra trás e pra frente, anos, séculos, participando de grandes eventos, se metendo em enrascadas, viajando no passado e para o futuro como imaginavam que seria. Nenhum fio de cabelo fora do lugar. Sapato social, um de terno e gravata e o outro com uma indefectível blusa com gola rolê. Imaginem só eles aparecendo nesta nossa época – iam achar que tinham finalmente conseguido retornar aos anos 60, de onde saíram.

Eu adorava. Puxa, valeria a pena uma refilmagem hoje de O Túnel do Tempo, seriado que teve só 30 capítulos. Era tosco, mas muito caro para a época. Se 52 anos depois ainda não conseguimos nem chegar perto de inventar a tal máquina do tempo, muito menos de evoluir, melhor mantê-la na ficção. Parece mais divertido. Os dois cientistas, Tony e Doug, enviados através da máquina que chamava Tic-Toc, eram daqui observados por uma telinha, como se fosse uma tevezona. Daqui, do lado de cá, bem atrapalhados, tinha um general, uma cientista, a Dra. Ann, com cabelo de laquê e que vivia desmaiando nos episódios, mais uns assistentes malucos e um segurança com capacete de guarda. A sala, escondida em um deserto no Arizona, era lotada de equipamentos e mesas, com fitas que rodavam, como fitas de rolo em gravador, e que toda hora davam algum tilt.  De vez em quando a tal sala ficava vazia – acho que os caras iam tomar um lanche. Em geral era quando os dois perdidos mais precisavam da ajuda.

Imagino como seria uma viagem deles aos dias de hoje aqui no Brasil. Iam se sentir em casa com tanta gente falando em esquerda e direita, invasão comunista, repressão, racismo, liberdade, golpe militar, cantando o Hino Nacional. Iriam ficar chocados como os costumes encaretaram de vez. E ficariam totalmente à vontade com alguns objetos de decoração e até com as vestimentas modernas, a tal modernidade que vive entrando na Máquina do Tempo atrás de referências.

Ficariam, no entanto, perplexos quando baixassem na Sala da Justiça 2018 onde se reúnem os vetustos e as vetustas, ministros e ministras do Supremo Tribunal Federal. Iam pedir para sair correndo de lá, e a máquina poderia errar e derrubá-los em Curitiba, onde agora seriam confundidos com promotores, um deles pela aparência até com o próprio juiz Sergio Moro, ou apenas tidos como X-9 infiltrados se passassem pelo acampamento dos militantes pró-Lula liderados pela Narizinho Lula da Silva Gleisi Hoffmann e seus amigos.

Os cientistas se esconderiam atrás da porta para rir dessa “genial” ideia de acrescer Lula ao nome e tentariam entrar em contato com a base – primeiro para ser retirados daqui rapidamente logo que possível – bastante surpresos com os retrocessos que logo observariam – e para perguntar como de lá nos Anos 60 estavam analisando como que as mudanças não foram nada significativas nesse período. Utopias ideológicas, conflitos nas ruas, a tal esquerda infantil, militares dando pitacos na política, fora neca de saneamento básico, surtos de doenças tropicais, volta de outras tidas como erradicadas.

Sentir-se-iam bobos – e até um pouco frustrados – quando descobrissem que nesse meio tempo houve a criação da internet e das tais redes sociais. Uma espécie de túnel do tempo como previram e tanto desejaram criar, onde as pessoas ficam andando para frente e para trás, ou em círculos, perdidas, habitando estranhos mundos que imaginam viver na realidade, como guerreiros empunhando espadas que nada mais são do que pontas de dedo que digitam impropérios uns contra os outros, notícias falsas e verdades pela metade. Pontas de dedos que apontam inclusive para os amigos, e que justificam violências que poderiam ter sofrido anos atrás quando eram eles que estavam nas ruas trabalhando como jornalistas.

Nossos dois cientistas também ficariam abismados como nessa nossa época parece que nunca se entendeu tanto e se falou tanto de Direito e leis. Nunca se tentou tanto que as coisas fossem censuradas, se desrespeitou tanto a liberdade obtida a duras penas.

Como bons turistas, até que fossem resgatados pelos seus comandantes trapalhões lá do seu tempo, implorariam para ser transportados o mais rápido possível para um pulo no Rio de Janeiro, que nos Anos 60 já tanto ouviam falar como um lugar de beleza, samba, carnaval, praia, alegria.

Coitados.

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Marli Gonçalves, jornalista – “A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”, bem pensou Albert Einstein.

marli@brickmann.com.br / marligo@uol.com.br

Brasil, 2018

 

ARTIGO – Vesti uma camisa… Por Marli Gonçalves

Vesti uma camisa… Listrada? Não! Não pode. Vão achar que vocês são uns reacionários de direita que só pensam em por o Lula na cadeia. Cocar? Não!!! Lembrem-se do genocídio dos povos indígenas e comecem a chorar, em pleno Carnaval. Homem vestido de mulher magoa os trans. Fantasia de doméstica, de enfermeira, de nega maluca? Não! Lembra a terrível opressão feminina, estimula o assédio, o racismo. Mas, para os mais chatos dos chatos, a gente poderia, eles deixam, se fantasiar de planta. De unicórnio (!). De super-heróis…

Pronto. Acabou. Despirocaram de vez. Agora deram de patrulhar até a mais livre e libertária festa nacional, o Carnaval. Deus nos livre dessa gente que não só entra com tudo na roubada de acreditar nos dogmas políticos, defender os indefensáveis, como também agora quer patrulhar até as fantasias que devem ou não ser usadas.

Mas eles – considerando que eles são um grupo de pessoas que se acham as mais sabidas-intelectualizadas-informadas-corretas-especiais-ungidas e etc. e tal do planeta – já não é de hoje que querem acabar com a alegria, botando política social-esquerdizante ou religiosa e manipuladora em tudo o que respira. Para eles, aqueles exércitos na Coreia do Norte seguindo o grande líder deviam ser aqui repetidos, uniformizados.

Não é brincadeira não. Fizeram um vídeo com orientações “politicamente corretas” – fantasias que não “deveriam” ser usadas por quem segue essa doutrinação. Sobrou até pra Iemanjá, pro Allah-la-ô. Não pode porque seria desconsiderar as religiões. Tapem os ouvidos. Nada de ficar por aí ouvindo marchinhas como Cabeleira do Zezé, Nós, os Carecas, Máscara Negra, Índio quer apito, Mulata Bossa Nova

Em compensação, acredite,  porque eu estava lá e na hora eu mesma não acreditei. Bloco de Carnaval moderninho daqui de São Paulo toca o Bolero, de Ravel. O mesmo Acadêmicos do Baixo Augusta, cheio de “personalidades”, e que, a propósito, até agora não ouvi dar um pio sobre o caso do menino eletrocutado durante o desfile deles, tocou também “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré. Faltou a Internacional.

Já não bastasse o baixo astral nacional, em pleno Carnaval temos de ler, ouvir e ver tanta besteira desfilando nas avenidas. Desfilando, propriamente, não. Esses blocos grandes são paradas. Gente parada. Se o caminhãozinho anda, vão atrás, como se fosse uma passeata. Repara só. Nem os dedinhos para cima. As mãos agora estão ocupadas: seguram bebidas ou celulares para selfies, lives, zaps.

Legal. São Paulo realmente está nas ruas, com muita gente, especialmente jovens, com alguma fantasia – nem que seja só aquele horrível e inexplicável chifrinho de unicórnio na cabeça que parece uma casquinha de sorvete ao contrário. Mas não se pode dizer mais que se brinca o carnaval, essa expressão tão bonita. Não dá para relaxar. É violência. Roubos, assaltos, cuidado para não arrumar alguma treta, pessoas armadas, risco de arrastões. E agora tem ainda a pavorosa versão “choque no poste”. Some-se a isso um prefeito arrumadinho cheio de mania de dar ordens, querendo regular, normatizar, mudar até as rotas e caminhos dos blocos que estavam indo tão bem organizados naturalmente.

Nessa toada os cordões logo serão – ou voltarão a ser – só os de isolamento e os blocos, só os de cimento e concreto. Foi indo nessa toada que no século passado uma certa elite conseguiu acabar com os corsos, com os blocos nas ruas, confinando todos só em quadras de escolas de samba.

Abaixo a ditadura. Todas. O samba não fica só nos pés, tem de percorrer o corpo inteiro, e invadir o cérebro desse povo chato que não gosta de ver a gente dar a nossa risada.

Com roupa, sem roupa, pouca roupa. Vestido do que quiser. Por isso, aliás, é que chama fantasia. Que vivam os blocos afros, de sujos, das piranhas, de paródias!

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Marli Gonçalves, jornalistaSe for se vestir de planta, legalize já. Se for de super-herói, escolha o Super Pateta.  Mas, por favor, esqueça o  tal chifre do unicórnio.

marligo@uol.com.br/marli@brickmann.com.br

São Paulo,

“…Se acaso meu bloco,

Encontrar o seu,
Não tem problema,
Ninguém morreu,
São três dias de folia e brincadeira,
Você pra lá e eu pra cá,

Até quarta feira…”

 

ARTIGO – Placas, sinais e desvios. Por Marli Gonçalves

 O sinal está fechado para nós, todos, os que são jovens, os que já passaram por isso e os que estão chegando.  O tempo passa ligeiro, alta velocidade, e sempre parece que estamos na contramão, sem saber para que lado virar, quando parar. Acabamos sendo multados por isso.

Desde muito criança tenho a mania de ler tudo o que passa pela frente.  Os letreiros das lojas, as faixas espalhadas pelas ruas, os cartazes, os muros. As placas dos carros, inventando expressões e frases surgidas com as três letras. No final do dia o cansaço urbano, incluindo a falta de horizontes daqui de São Paulo, onde procuro frestas entre prédios para espichar o olhar. Não admira que nossa visão seja tão embaçada.

A desorientação é geral.  A da realidade, de nossos caminhos.  Que nos fazem perder-nos sempre e que agora até se julga possível de reverter com aplicativos , mostrando os traçados que bem entendam que devamos seguir. Mas que nos fazem perder ainda mais. Experimenta precisar de orientação: as placas não estarão lá, ou estarão tortas, chutadas, pichadas, sujas, cobertas, erradas.

Por aqui a coisa anda ainda pior, porque é ao léu, ao vento da decisão de algum gênio dentro de algum gabinete. De repente criam uma faixa que não existe, uma ciclovia feita por cones patrocinados de um banco, revertem a mão de direção e você tem de andar e olhar no relógio porque é confusão total de horário para ir e vir. Apareceu agora a mania de pendurar faixas horrorosas atravessando as avenidas e que, se quiser saber qual é o alerta, é melhor parar e ir a pé bem debaixo delas para tentar ler toda e tentar entender o que dizem, sempre com sérios problemas de pontuação.  Já vi uma de cinco linhas, e as letrinhas, Ó, o tamaninho delas. A tal faixa exclusiva de ônibus funciona de tal hora a tal hora, mas só depois de uma outra tal hora, dependendo se se é sábado, domingo ou feriado. Se está quente ou frio, seu sexo, se gosta de azul ou de vermelho, se tomou café-da-manhã, etc.

Sinceramente, anda difícil fazer tudo direito. E preciso lembrar que a tal famigerada faixa de ônibus, que você tem de invadir em alguma hora ou para procurar caminhos ou para poder virar para onde está indo, custa uma multa de infração gravíssima. Tão sem nexo porque igual a que tomam aqueles caras que todo dia a gente vê matando ou aleijando as outras pessoas nas ruas, atropeladas, ou porque estão bêbados e resolveram barbarizar. Gente que anda armada com a direção, pedais e rodas.

Não tem como não fazer um paralelo com o momento que vivemos, essa confusão sem precedentes e que parece um buraco sem fim. É o vai não vai, o não-anda-nem-sai-da-frente, lombadas, obstáculos, desvios, guinadas mal sinalizadas que nos pegam desprevenidos.

Estradas que não dão em nada, pontes que não ligam nada a lugar algum. Ruas sem saída. Rotatórias que nos fazem ficar girando em torno do mesmo assunto, como se outros caminhos nos fossem bloqueados.

Sem direção e congestionados, com duas dezenas de candidatos que se atropelam e que não sinalizam para onde querem nos conduzir, entre eles alguns veículos bem antigos e ultrapassados que já pararam e nos deixaram na mão várias vezes quando mais precisávamos.

Precisamos urgente rever nossas orientações, nossas placas. Que sejam escritas em bom português. Fora. Chega. Não. Já vai tarde. Não somos idiotas. Parem. Cuidado com nossas crianças. É hora de mãos à obra mais à frente.

Que não nos multem mais por seus próprios erros e omissões.

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Marli Gonçalves, jornalista – a minha predileta é “É Proibido Proibir”.  Muito boa para agora, essa época de fazer Carnaval com tudo.

Brasil, desorientado, 2018

ARTIGO – Religiosamente… Por Marli Gonçalves

Estou aqui. Assim vão indo as semanas. A 51, boa ideia, Natal. Na 52, acabou. Chegamos agora à antepenúltima, à quinquagésima deste ano esquisito demais da conta. Não que os últimos também não tenham sido, e bastante, mas esse nos mostrou claramente o limbo e a enorme mediocridade que enfrentamos, e o que nos deixa rezando para todos os santos ou energias para que tudo consiga um bom termo

Não sou muito boa nesse negócio de religião. Dizem que você tem de ter uma, mas eu capto várias, seja para sobreviver e me resguardar, seja para entender os desígnios que nos são impostos diariamente ou ainda as linhas do destino, como se traçam. Como se embaraçam também.

Mas, religiosamente, semana após semana estou aqui escrevendo, pondo no papel meus sentimentos mais verdadeiros, me expondo até um pouco demais nesse mundo cheio de divisões em duas partes, e que na maioria das vezes não me encaixo em nenhuma delas.

Esse ano mais uma vez escrevi sobre tudo. Não foi por falta de querer, mas não pude escapar da política nacional, essa que nos envenena os poros, e que permeia tudo com suas consequências tão fortes em nossas vidas. Que afeta nossos bolsos, nossos planos, nossos sonhos.

Tentei, vocês sabem, sempre dar algum toque bem humorado, uma ironia aqui, outra ali que escorrega enquanto a gente batuca as teclinhas. Houve semanas em que isso foi muito difícil, como as quando acompanhei os últimos dias do meu pai em um hospital, e quando contei com a companhia e a solidariedade de meus leitores com os quais compartilhei emoções – e fiquei muito mais forte e muito menos sozinha por isso.

No ano, em cada uma de suas semanas, como faço desde 2008, religiosamente, repito, acompanhei cada fato que se podia destacar no momento, temas que me deram vontade de escrever, fatos que fizeram nossos dias do ano, muitos aos quais, provavelmente, teremos de voltar no ano que vem, como a violência geral, a violência contra as mulheres, a violência dos debates de poder.

No radar, também os meus temas preferidos: liberdade, jornalismo, contra a censura, feminismo, sexualidade, direitos, a observação de para onde se descaminha a humanidade e a luta pela vontade de ter um país melhor, sem tanta hipocrisia.

Toda hora acabamos, eu e os que assim como eu têm brio na cara, coragem e a honra de ter os seus pensamentos e opiniões seguidos publicamente, de nos insurgir contra quem quer acabar com nossos direitos individuais, com a liberdade, com a sexualidade, com o inabalável e expressivo crescimento da força da mulher, ou tentando impor a censura e implodir de vez com a imprensa.

Com os artigos publicados em todo o país, de Norte a Sul, um monte de cantinhos a que jamais antes imaginaria chegar, cada leitor me motiva a mesma coisa: viver. Mesmo sob tantos trancos e barrancos. Falo “meus leitores” com gosto, porque tenho alguns invejáveis, seja por seus poderes e importância, por sua inteligência, ou pela clareza com que debatem comigo, mesmo quando não concordam com algumas posições, digamos, mais libertárias.

Enfrento, claro, muitas fúrias e xingamentos. Mas recebo muito mais forças, elogios, opiniões solidárias e agradecidas, respostas e confidências às quais agradeço diariamente a confiança que me é depositada, e que tento honrar em resposta às dezenas de mensagens que recebo toda semana.

Assim, religiosamente, com fé, mãos juntas, chamando todas as forças do Universo, quero desejar a todos vocês um fim de ano verdadeiramente sensacional e cheio de amor e paz. Fico aqui de plantão, alerta, como uma soldadinha, se necessário for, para preservar esse seu direito inabalável de ser feliz.

 Marli Gonçalves, jornalista – Isso é que é presente. Estar presente.

SP, véspera, Natal, 2017

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